| 1 Cantador que vem da morte,
Quando se põe a lembrar,
Não sei se sente conforto,
Se tem prazer ou pesar,
Mas de visita aos amigos
Tem muita cousa a contar.
2 No sertão, onde eu morava,
Guardava o que mais queria:
Plantação de jirimum,
De cana e de melancia,
Lavoura cercando o engenho
E casa na freguesia.
3 Trazia minha mulher
Toda enfeitada de fita,
De filhos, tinha uma dupla
Que nunca vi tão bonita;
Em casa, tinha oratório
Em honra de Santa Rita.
4 Mantinha dinheiro em cofre,
Barra de ouro e dobrão,
Meu grande anel com brilhante
Não me saía da mão;
Tinha caçamba de prata
Em meu cavalo alazão.
5 Para mim, todo mendigo
Parecia muquirana,
Carregava sempre aceso
O meu charuto de Havana;
Merenda de minha mesa
Era feita em porcelana.
6 Do meu alpendre florido,
Sentado num canapé,
Negava comida aos pobres
Mesmo que fosse a coité;
Para criança andrajosa
Tinha grito e pontapé.
7 Tempo chega, tempo passa,
Em certo dia agourento,
Chegou a Morte e me disse:
— Patrão, não seja birrento,
Não me recuse o serviço
Que é chegado o seu momento.
8 O choque me derrubou,
A cabeça ficou fria,
Caí num sono danado
No qual nem sonho sentia;
Minha prosa terminara,
Acabou-se a valentia.
9 A casa que eu construíra
Era tapera sem trato,
Minha lavoura de engenho
Sumira, dentro do mato;
Meu nome era ponto certo
Para surra e desacato.
10 Por fim, chorei sem remédio;
Ali não tinha mais vez
E afastei-me compreendendo,
Com medonha lucidez,
Que a gente colhe no mundo
E a vida que a gente fez.
11 Conto aqui a minha história
A quem possa acreditar;
A quem não possa, desejo
As bênçãos que Deus mandar,
Porque a morte vem a todos
Sem distinção de lugar.
12 Adoto nome trocado
E assino como convém;
Sei que a vaidade da Terra
Não tem valor de um vintém,
Mas tenho amigos no mundo,
Não quero ferir ninguém.
Joaquim Serra |