Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Diálogo dos vivos — Autores diversos — F. C. Xavier / J. Herculano Pires


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Incêndio do edifício Joelma

.Francisco Cândido Xavier


Tão logo nos chegou pelo rádio a notícia do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, reunimo-nos em prece, quatro amigos, solicitando auxílio dos Benfeitores Espirituais para as vítimas do aflitivo acidente. O nosso Emmanuel atendeu-nos e escreveu a prece que lhe envio. É uma oração sem título, simplesmente oração.

Tenho a certeza de que, se houvesse título, ele seria escrito com as nossas próprias lágrimas.

Até hoje, sob a forte impressão do incêndio do Edifício Andraus que acompanhamos pessoalmente em fevereiro de 1972, o triste acontecimento nos dói profundamente no coração. Por isso, na ideia de que a prece do nosso benfeitor Emmanuel n possa confortar algum coração amigo, mais diretamente atingido pela dolorosa provação coletiva que a todos nos fere, enviamo-la à sua atenção. Deus nos fortaleça e abençoe a todos.


Nota da Editora — Recebida em reunião íntima realizada no dia 1.° de fevereiro de 1974, data em que ocorreu o incêndio no Edifício Joelma.


SENHOR JESUS!


.Emmanuel


1 Auxilia-nos, perante os companheiros impelidos à desencarnação violenta, por força das provas redentoras.

2 Sabemos que nós mesmos, antes do berço terrestre, suplicamos das Leis Divinas as medidas que nos atendam às exigências do refazimento espiritual. 3 Entretanto, Senhor, tão encharcados de lágrimas se nos revelam, por vezes, os caminhos do mundo, que nada mais conseguimos realizar, nesses instantes, senão pedir-te socorro para atravessá-los de ânimo firme.

4 Resguarda em tua assistência compassiva todos os nossos irmãos surpreendidos pela morte, em plena floração de trabalho e de esperança e acende-lhes nos corações, aturdidos de espanto e retalhados de sofrimento, a luz divina da imortalidade oculta neles próprios, a fim de que a mente se lhes distancie do quadro de agonia ou desespero, transferindo-se para a visão da vida imperecível.

5 Não ignoramos que colocas o lenitivo da misericórdia sobre todos os processos da justiça, mas tocados pela dor dos corações que ficam na Terra — tantos deles tateando a lousa ou investigando o silêncio, entre o pranto e o vazio — aqui estamos a rogar-te alívio e proteção para cada um!… 6 Dá-lhes a saber, em qualquer recanto de fé ou pensamento a que se acolham, que é preciso nos levantemos de nossas próprias inquietações e perplexidades, a cada dia, para continuar e recomeçar, sustentar e valorizar as lutas de nossa evolução e aperfeiçoamento, no rumo da Vida Maior que a todos nos aguarda, nos planos da União Sem Adeus.

7 E, enquanto o buril da provação esculpe na pedra de nossas dificuldades, conquanto as nossas lágrimas, novas formas de equilíbrio e rearmonização, embelezamento e progresso, engrandece em teu amor aqueles que entrelaçam providências no amparo aos companheiros ilhados na angústia. 8 Agradecemos, ainda, a compreensão e a bondade que nos concedes em todos os irmãos nossos que estendem os braços, cooperando na extinção das chamas da morte; 9 que oferecem o próprio sangue aos que desfalecem de exaustão; 10 que umedecem com o bálsamo do leite e da água pura os lábios e as gargantas ressequidas que emergem de tumulto de cinza e sombra; 11 que socorrem os feridos e mutilados para que se restaurem; 12 e os que pronunciam palavras de entendimento e paz, amor e esperança, extinguindo a violência no nascedouro!…

13 Senhor Jesus!…

Confiamos em ti e, ao entregarmo-nos em Tuas mãos, ensina-nos a reconhecer que fazes o melhor ou permites se faça constantemente o melhor em nós e por nós, hoje e sempre.


O ENIGMA INSOLÚVEL


.Irmão Saulo


As provas coletivas, profundamente dolorosas, como a do incêndio do Edifício Joelma, constituem enigma insolúvel para os que creem em Deus mas não conhecem os princípios da sua Justiça Divina. Diante da tragédia absurda o coração vacila e muitas vezes a fé desmorona. Como pode Deus castigar assim as criaturas humanas ou até mesmo permitir ocorrências dessa espécie? Não há argumentos que possam acalmar a revolta dos que perderam entes queridos.

Mas a prece de Emmanuel começa por uma referência a “provas redentoras”. ( † ) E a seguir nos lembra que nós mesmos, ao reencarnar na Terra, suplicamos às leis divinas as medidas de que necessitamos. ( † ) Assim, orando a Jesus, Emmanuel nos envia também a mensagem esclarecedora sobre as razões ocultas da tragédia.

Cada criatura humana se define como personalidade pela sua consciência. Graças à consciência, a individualização humana nos separa da individualização animal e nos confere a dignidade espiritual. Conscientes do que somos e do que fazemos, somos naturalmente responsáveis pelos nossos atos. Essa responsabilidade se acentua quando o espírito, livre da ilusão da matéria, se defronta com a realidade no mundo espiritual. É então que pede para voltar à Terra numa reencarnação de provas redentoras, submetendo-se aos mesmos suplícios que infligiu a outros em vidas anteriores.

Quem conhece a História da Humanidade sabe de quantos horrores ela se constitui. O egoísmo humano, a ganância, a sede de poder, a arrogância desmedida dos homens — não obstante a natureza passageira da vida terrena — levaram-nos a muitos desvarios por mares e terras do planeta. Agora, numa fase decisiva da evolução terrena, muitos Espíritos anseiam por aliviar sua consciência dos crimes do passado, preparando-se assim para experiências mais altas no mundo melhor que vai nascer.

Há quem se revolte à ideia de que uma criatura querida tenha praticado crimes em vida anterior. Mas a verdade é que somos todos, sem distinção, espíritos endividados com a nossa própria consciência. Nada devemos a Deus, que nada nos cobra, mas tudo devemos a nós mesmos. A natureza divina do espírito se revela nas leis de justiça da consciência. E é por esse tribunal secreto, instalado em nós mesmos; que nos condenamos a suplícios redentores. A tragédia passageira resulta em benefícios espirituais na vida sem limites que nos aguarda além-túmulo.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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