Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Dádivas de amor — Maria Dolores


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Conversa no Campo Santo

  1 Sim, alma irmã,

  Teremos sempre um Dia de Finados,

  Dia de sonhos mortos,

  Supostamente mortos, porque todos eles

  Ressurgem renovados,

  No clima de outros portos,

  Onde a vida,

  Revelada em beleza indefinida,

  É perene manhã.


  2 Agradeço-te as preces,

  Recamadas de flores,

  E as doces vibrações nas quais me aqueces

  Com pensamentos reconfortadores.

  Olha, porém, comigo, alma querida e boa,

  Este campo de mármores lavrados,

  Quantas vezes mais belos

  Que a mais formosa porcelana!…

  Aqui, em miniaturas de castelos,

  Gemem segredos de ternura humana…


  3 Ali, os rendilhados

  Criam lauréis no brilho das legendas;

  Além, anjos parados de mãos postas,

  Em lacrimosas oferendas,

  Mostram cruzes depostas,

  Vinculadas ao chão…

  Ainda além, primores de escultura,

  Em lápides custosas,

  São tesouros de amor e desventura,

  Orvalhados de pranto e de aflição!…


  4 Na triste majestade que se estampa,

  Por traço de amargura, campa em campa,

  Não vemos luxo e sim o sofrimento

  De quem ficou a sós,

  De coração entregue ao desalento…


  5 Entretanto, alma boa,

  Este reino de pedras lapidadas,

  Quais lâminas de dor,

  Quer largar-se da morte,

  A fim de partilhar

  A construção de um mundo superior…


  6 Estas altas riquezas esquecidas

  Ficariam mais nobres

  Se pudessem levar sustentação

  Às áreas de outras vidas,

  As vidas que se vão apagando, ao relento,

  Ante a febre, ante a noite e as injúrias do vento,

  A sonharem amparo, teto e pão,

  Livro, afeto, agasalho,

  Proteção e trabalho,

  Paz e renovação…


  7 Nesses doces assuntos,

  Oremos todos juntos…

  E peçamos a Deus

  Para que os mortos redivivos

  Possam solicitar aos seus entes amados

  A desejada alteração,

  A fim de que o lugar dos supostos finados

  Não precise brilhar entre fortunas mortas,

  Pois todos nós, na vida, em sentido profundo,

  Queremos mais conforto e alegria no mundo!…


  8 Para que nos lembremos uns dos outros,

  Bastam as nossas dores como são,

  Uma pequena cruz, um nome e a relva verde e mansa,

  Que nos falem de paz e de esperança

  Na saudade sem fim do coração.


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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