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Chico Xavier — Mandato de amor — Autores diversos — 1ª Parte


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Geraldo Lemos Neto

Teresa d‘Ávila


1  Este episódio, em torno da vida de Teresa Sánchez de Ahumada, nos foi relatado pelo médium Francisco Cândido Xavier. Teresa viveu entre os anos de 1515 e 1582 na Espanha, época do “século do ouro”, quando a Península Ibérica, sob os reinados de Carlos V e Felipe II, elevara-se a potência mundial. Neste século áureo, dizia-se conhecido adágio: “Quando a Espanha põe-se em movimento, treme o mundo.”

De fato o mundo havia tremido com as conquistas espanholas do Peru e do México, nas Américas. Com suas pretensões guerreiras contra a França e o Peru, com suas disputas sucessivas com os turcos, com sua opressão na Itália, com os morticínios praticados nos Países Baixos, com a queda de Portugal sob os seus domínios e com os horrores do tribunal da Inquisição, instaurado contra mouros e judeus, e contra os movimentos da Reforma.

Na guerra estrangeira, os espanhóis ostentavam a ferocidade dos bárbaros, dando largas à sua brutalidade e à sua avareza sobre os inimigos. Teresa de Ávila, contemporânea deste tempo tumultuado, vivenciou-o intensamente, na proximidade e na distância.

Filha de pais abastados, crescendo entre numerosos irmãos, entrou para o Convento Carmelita da Encarnação, em Ávila, aos 21 anos de idade. Passando a chamar a si mesma Teresa de Jesus, a partir de 1562, a grande mística assumiu uma atitude combativa em favor dos semelhantes. O círculo teresiano, composto de heroicos representantes do Cristianismo, disse um “não” resoluto a qualquer corrupção e a toda dissolução eclesiástica em voga. Exigia-se-lhe despojamento total.

Com seu inaudito sacrifício de si mesma, Teresa exerceu, consequentemente, uma poderosa influência.

Como a população masculina decrescera, vitimada pelos combates ao redor do mundo, deixando para trás famílias inteiras órfãs ou abandonadas, Teresa resolveu encetar uma série de viagens tomando a si a incumbência de fundar abrigos e lares de auxílio aos desvalidos por toda a Espanha. Empreendeu viagens de fundação dessas casas de socorro, que passariam à História como conventos ou mosteiros, utilizando rústicas carruagens montando mulas ou mesmo a pé.

No decorrer dos anos, atravessou toda a Espanha, de norte a sul, de leste a oeste, viajando de maneira incômoda milhares de quilômetros, numa verdadeira façanha em prol da caridade cristã. Os caminhos eram acidentados. Um calor causticante maltratou-a no verão. No inverno, expôs-se a ventos gelados. Perdeu-se em regiões desconhecidas, atravessou rios e, vezes sem conta, atolou-se em pantanais. A valorosa obreira não recuava diante das dificuldades mais acerbas. Suas viagens representavam fadigas inimagináveis, durante as quais era acometida por febres intermitentes angina e doenças que lhe causavam não poucos sofrimentos. Privava-se do necessário, pernoitando em albergues imundos. Contudo, mantinha acesa a chama da fé e do bom ânimo.

Desde San José de Ávila a Medina del Campo, Malagón, Valladolid, Toledo, Pastrana, Salamanca, Alba de Tormes, Segovia, Beas de Segura, Sevilla, Caravaca, Villanueva de la Jara, Valencia, Soria, Burgos, e até Granada, Teresa travava pertinazes negociações com senhores bispos e com os fazendeiros abastados, a fim de angariar autorização e fundos para as construções dos abrigos.

Certa vez, buscando a colaboração de um senhor de terras muito rico, que lhe havia prometido auxílio, Teresa de Ávila, seguindo a pé pelos caminhos do campo, viu que uma tempestade se anunciava. Nuvens carregadas se aproximavam ameaçadoras.

Apressou o passo, então, lembrando-se que, para chegar à fazenda em questão, deveria atravessar caudaloso rio. Infelizmente, porém, a chuva desabou, impiedosa. Teresa não se intimidou e, atingindo a margem do rio, procurou passar pelo vau, a fim de cumprir a travessia com segurança, pela parte mais rasa. A força da enxurrada, no entanto, foi maior e, num passo em falso, Teresa afundou em meio ao aguaceiro.

A força de sua extrema confiança em Jesus, Nosso Senhor, não lhe faltou. Extremamente concentrada, rogou auxílio de Mais Alto.

Na luta desesperadora para vencer as águas e sobreviver, vislumbrou a presença excelsa de Jesus.

O Mestre Divino ofereceu-lhe o apoio de seus braços fortes, agarrando-a pela mão.

Teresa salvou-se. Profundamente agradecida pelo amparo celeste, exclamou:

— Ah, Senhor! Graças a sua misericórdia, estou viva! Estou a salvo do perigo! Com o seu auxílio bondoso, venci a travessia do vau!

E Jesus, compassivo, retrucou-lhe:

— “Você está vendo, Teresa? É assim, em meio aos perigos da estrada, que eu trato os meus discípulos e os meus amigos queridos!”

Teresa de Ávila ouviu muito atentamente o Senhor. Logo após meditar um pouco, redarguiu ao Mestre, em tom curioso, revelando um lúcido senso de humor:

— Oh, Senhor, compreendo! É por isso que os tendes tão poucos!!!


Paris, 18 de abril de 1857


(Um relato baseado em conversa com o médium Chico Xavier).


2  Em princípios de 1857, o livreiro E. Dentu, amigo do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail desde os idos de 1828, havia encaminhado os originais da primeira obra espírita compilada pelo referido professor à tipografia de Beau, situada em Saint Germain en Laye, 23 quilômetros a oeste de Paris.

O proprietário da tipografia presidia normalmente os trabalhos de revisão e aprimoramento do que viria a ser a primeira obra da Codificação Espírita, quando algo inesperado sucedeu-se: sua desencarnação.

O fato logo repercutiu negativamente no andamento da obra, já que os dois filhos varões do tipógrafo relegaram-na ao esquecimento ao assumirem o posto do pai.

Os apelos do professor Rivail não se fizeram ouvir e os varões limitavam-se a dizer que a feitura da edição iria demorar muito.

Valendo-se de inspiração superior, o professor Rivail resolveu por bem solicitar o concurso da viúva do tipógrafo. Deliberou visitá-la em sua residência e esclareceu-lhe sobre o que se passava. A viúva, tomada de simpatia pela causa, leu os originais de “O Livro dos Espíritos”. Sentindo-se reconfortada em sua dor moral, e usando de sua autoridade perante os filhos, escreveu sobre os originais a ordem irrevogável:


TRÉS URGENT (URGENTÍSSIMO)


A tipografia logo iniciou a impressão e o indispensável acabamento dos 2.000 primeiros exemplares, em formato grande, com 176 páginas.

Raiava o inesquecível dia 18 de abril daquele ano de 1857, e os editores, representados por Dentu, finalmente trouxeram a lume, na praça parisiense, a auspiciosa edição. A Cidade-Luz acabava de acolher, então, em seu seio, a luz mais brilhante e poderosa de sua história.

Neste mesmo dia, conceituado jornal parisiense anunciava a visita a Paris da célebre escritora francesa, de pseudônimo George Sand, chamada Amandine Aurore Lucien Dupim, Baronesa Dudevant. A extraordinária mulher, literata das mais notáveis, era dona de uma personalidade bastante forte e de uma cultura invulgar, acostumada que estava ao convívio de amigos da vanguarda europeia, como Victor Hugo, Franz Liszt e Eugene Delacroix. Fora, inclusive, a companheira, por longos anos, do inesquecível Frédéric Chopin. A nota do jornal dizia respeito a mais uma das visitas de George Sand à capital francesa, vinda da cidade de Nohant, distante 8 horas, por carruagem. La Sand teria ido a Paris como crítica de arte para assistir à peça teatral “Demi Monde”, que propunha-se a analisar a personalidade feminina “meio doméstica, meio do mundo”!…

Amigo de George Sand desde muitos anos, o professor Rivail havia lido com atenção a referida nota jornalística. Eles, que já haviam trocado tantas ideias espiritualistas, certamente poderiam encontrar-se de novo. Seria gratificante ao valoroso professor saber a opinião de Madame Sand sobre o “O Livro dos Espíritos”.

E assim foi que, andando pelas ruas de Paris, com o primeiro exemplar do livro nas mãos e, por isso, pleno de alegria, o professor avistou a carruagem de Sand, reconhecendo-a em seu interior. Imediatamente acenou e, cumprimentando-a, disse:

— Madame Sand, venho oferecer-lhe o primeiro livro da Doutrina dos Espíritos!

Ao que ela, surpresa, retrucou:

— Ah, professor Denizard, — ela assim o chamava — eu sei que o senhor está fazendo experiências verdadeiras. Eu mesma sou delas testemunha, porque desde quando muito jovem, observava alguém, um vulto, a me acompanhar o tempo todo, a me espreitar! De pequena, lutei muito para que os demais compreendessem o que se passava comigo, mas, em vão!… Bem não nos importemos com as incompreensões e sigamos avante!… O senhor está de parabéns, professor!

O professor Rivail agradeceu-lhe a acolhida fraterna, dizendo-lhe que estimaria muitíssimo ver sua apreciação da obra. — “La bonne dame de Nohan” — respondeu-lhe, afável.

Professor Denizard, guarde para si este exemplar, do qual não sou digna. Alegrar-me-ei bastante em opinar sobre ele mais tarde, quando o tempo me permitir. Atualmente, tenho a vida atribulada de compromissos. Prometa enviar-me outro volume posteriormente.

A 20 de maio do mesmo ano, Allan Kardec endereçava-lhe expressiva carta, com um exemplar de “O Livro dos Espíritos”, em anexo.

Madame Sand leu a obra com atenção e, três meses depois, procurando o amigo, falou-lhe:

— Professor Denizard, gostaria muito de acompanhá-lo em suas demandas por estas ideias renovadoras de nosso mundo, mas sinto que somente iria atrapalhar seu livre desenvolvimento. Minha condição de mulher, com conceitos e comportamentos revolucionários, não ajudaria em nada a verdade que esta filosofia representa. Recuso-me, pois, a escrever qualquer artigo sobre este livro de luz. Eu, certamente, apenas contribuiria para obnubilá-lo. Conto com a sua compreensão e prometo, outrossim, colaborar com o senhor no que estiver ao meu alcance.

Dez anos mais tarde, na edição de janeiro de 1867 da Revista Espírita, sob o título “Os Romances Espíritas”, Allan Kardec comentaria, da seguinte forma, algumas obras literárias de George Sand:

“Em “Consuelo” e na “Confesse de Rudolf-State”, da Sra. George Sand, o princípio da reencarnação representa papel capital. O “Drag”, da mesma autora, é uma comédia representada, há alguns anos, no Vaudeville, cujo enredo é inteiramente espírita”. (…)

Kardec igualmente comentaria ser a obra “Mademoiselle de La Quintine”, de Sand, uma obra que encerrava pensamentos eminentemente espíritas.

Allan Kardec e George Sand novamente se encontraram, em 18 de abril de 1957, cem anos decorridos sobre aquele encontro nas ruas de Paris e, desta vez, despojados da veste corporal.

George Sand foi um dos espíritos de elite que compareceu à grande solenidade espiritual, em homenagem a Allan Kardec, levada a efeito na Vida Maior por ocasião do primeiro centenário de “O Livro dos Espíritos”.


Evangelho e renovação


(Depoimento do médium Francisco Cândido Xavier.)


3  No final da década de 20, passou por Pedro Leopoldo um cego, de nome Gregório, nascido na Bahia. Sem contar com residência fixa, Gregório viveu algum tempo do auxílio de amigos, caminhando pela cidade guiado por garotos, que lhe estendiam os braços fraternos. Numa destas caminhadas, ao cruzar uma ponte sobre a via férrea, próxima à cidade, ocorreu-lhe um grave acidente. O rapaz que o conduzia, assustando-se com a aproximação da locomotiva, correu, largando-o sozinho no meio dos trilhos. Gregório, presumindo o desastre, apressou o passo incerto entre os dormentes, com a intenção de fugir à presença ameaçadora do trem de ferro. Na fuga apressada, tropeçou, despencando de grande altura, ferindo-se seriamente em meio às pedras de um riacho.

Desamparado e sem lar, Gregório foi acolhido nas dependências do Centro Espírita Luiz Gonzaga, acomodando-se num leito improvisado. Sua situação era aflitiva — cego, ferido e sozinho! Além disso, ninguém dispunha de tempo para fazer-lhe companhia. Durante quase todo o decorrer do dia, Gregório ficava só. Devido às nossas obrigações de trabalho, somente poderíamos assisti-lo durante o intervalo do almoço, ministrando-lhe os medicamentos prescritos pelos médicos e trocando-lhe os curativos. Depois, só voltávamos a vê-lo após o serviço da noite. Naqueles instantes, desfrutávamos juntos o Culto do Evangelho no Lar, após o que Gregório recebia passes.

Existia em Pedro Leopoldo um periódico, o Correio da Semana, editado com muita eficiência pelo Sr. Ataliba Murce, agente da Central do Brasil. O Correio da Semana publicava anúncios e pedidos os mais diversos, endereçados aos habitantes da cidade. Justamente por isso era lido por todos, desfrutando de grande aceitação. Pesava-nos observar Gregório abandonado à própria solidão, durante grande parte do dia. Até que tivemos a ideia de utilizar o jornal do Sr. Ataliba para a colocação de um anúncio-convite ao auxílio de Gregório. Através deste anúncio, solicitamos o concurso fraterno de alguém que se dispusesse a fazer-lhe companhia por duas ou três horas diárias. Apenas para uma conversa amiga, ou uma leitura que o distraísse durante o dia.

O anúncio foi publicado e nada! Quinze dias se passaram e nada de aparecer alguém. Entretanto, duas irmãs, dedicadas à caridade, não obstante vinculadas ao comércio das forças sexuais, se apresentaram pressurosas, indagando-me:

— Será que nós duas podemos servir a esta obra de caridade?

Entre surpreso e contente, disse-lhes:

— Mas é claro! Por favor, venham depressa, porque assim 96 vocês aliviam nossa preocupação com o enfermo!

As duas irmãs passaram, então, a fazer companhia ao cego Gregório, diariamente, fazendo leituras e travando conversas gerais.

Por intermédio dele, tomaram conhecimento da realização do Culto do Evangelho naquela casa, todas as noites e, certo dia, disseram:

— Chico, nós sabemos que você e o seu Gregório têm feito preces aqui, todo dia!

— Ah, sim, o Culto do Evangelho de Jesus!… É verdade, todas as noites nós temos orado!

— Será que nós duas podemos frequentá-lo também? — arguiram, acanhadas.

— Mas claro que sim! Podem, sim, todos os dias, às 19 horas!

E, de fato, as duas irmãs passaram a participar diariamente do Culto do Evangelho, conosco, no recinto do Centro Espírita Luiz Gonzaga. Reconhecíamos que ambas não possuíam noção alguma do Evangelho e da Doutrina Espírita, mas identificamos uma viva atenção pelas leituras. Elas ouviam com grande interesse as mensagens e as explicações contidas no “O Evangelho segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec. Seus olhos brilhavam, denotando a sincera emoção na alma, diante das exortações evangélicas. Chegaram mesmo a viajar para Belo Horizonte, somente com o intuito de adquirir dois exemplares da obra de Kardec, achando-as na Livraria Oliveira Costa, na Av. Afonso Pena.

Dois meses se passaram. Gregório sentiu-se mais forte, recuperando-se a olhos vistos. Quando finalmente seus ferimentos se curaram, e ele ficou bom de saúde, os amigos do Centro Espírita Luiz Gonzaga facilitaram-lhe a realização do sonho de voltar para a Bahia, comprando-lhe uma passagem para Montes Claros, situada no norte de Minas, a meio caminho de sua terra natal.

Com a partida de Gregório, o Culto do Evangelho foi interrompido. Outros compromissos nos absorveram o tempo, junto às atividades do Centro. Ao informar a suspensão das orações às estimadas irmãs, notamos-lhes os olhos cheios de lágrimas.

— Puxa, Chico, com estas leituras que estamos fazendo, e com o apoio destas preces, não estamos mais tolerando a vida que até então tivemos aqui, em Pedro Leopoldo. Nós queremos mesmo é mudar de vida! Mas, como fazer se precisamos do sustento de cada dia? Quem sabe, Chico, se você não conhece alguém, longe daqui, que nos poderia arrumar trabalho digno?

Aquela rogativa revestia-se de tanta sinceridade, que prometi-lhes pensar no assunto. Efetivamente, algum tempo depois, lembrei-me da família Gusmão, que se mudara de Pedro Leopoldo para Belo Horizonte, havia pouco tempo. O Dr. Rivadávia Gusmão havia-me operado um tumor no calcanhar, com muito sucesso. Não fossem a dedicação e o cuidado com os quais havia me tratado, provavelmente ainda estaria com muita dor no calcanhar, a depender da boa vontade de alguém para a própria locomoção.

A esposa do Dr. Gusmão, D. Henriqueta Herbster, era uma senhora extraordinariamente boa! Naquela época, todos haviam sido muito bons comigo e, quem sabe, poderiam me auxiliar no caso em questão. Decidi escrever-lhes uma carta, com o pedido de aconselhamento.

Em breves dias, veio a resposta, afirmativa, para nosso júbilo. Obtendo a devida autorização de D. Henriqueta, chamei as duas irmãs e transmiti-lhes o endereço dos Gusmão, em Belo Horizonte. Pedi, entretanto, que se aconselhassem com a bondosa senhora, contando tudo o que se passara em suas vidas, até então. Que não escondessem nada de D. Henriqueta.

E assim foi feito. D. Henriqueta, com sua generosidade natural, consultou o marido, médico de vastas relações na capital, pedindo-lhe colocação de serviço para as duas irmãs na Santa Casa de Misericórdia ou na Maternidade Silviano Brandão. Após a averiguação das possibilidades, Dr. Rivadávia comunicou à esposa:

— “Só encontrei serviço para sal forte. Assunto de cozinha, lavação pesada e banheiros no hospital. As duas podem revezar-se no trabalho, podendo dormir no emprego”.

D. Henriqueta, satisfeita com o desfecho favorável, comunicou às irmãs:

— “Vocês querem enfrentar panelas, fogões, pisos e roupas sujas? Estão mesmo dispostas para o trabalho? Lembrem-se que lá no hospital vocês contarão com um local assegurado para viver e trabalhar dignamente!”

Emocionadas e agradecidas à família Gusmão, elas aceitaram a vida nova e, em breve tempo, empregaram-se em suas novas obrigações.

Decorridos dois meses, voltaram a Pedro Leopoldo. Com surpresa e alegria, recebemo-las em reunião no Centro Espírita Luiz Gonzaga.

— Ah, Chico, nós estamos gostando muito do trabalho! Com a oportunidade do emprego em Belo Horizonte, nós pudemos esquecer o passado!

Algum tempo depois, soubemos que o Dr. Rivadávia havia observado o esforço e a dedicação de ambas as nossas irmãs, junto ao hospital, reconhecendo-lhes a dignidade no proceder. Por isso mesmo, tomou a liberdade de sugerir-lhes a aproximação com determinado grupo de senhoras parteiras — grupo extra-oficial, muito comum naquela época, que fazia às vezes do obstetra de hoje.

No convívio com estas senhoras dedicadas ao parto, as duas adquiriram muitos conhecimentos, aceitando a sugestão do Dr. Rivadávia para integrar o grupo. Assim, as duas tornaram-se atuantes auxiliares de Ginecologia, sempre muito eficientes e estimadas por todos.

De quando em vez, voltavam a Pedro Leopoldo, notadamente renovadas e felizes.

Instruíram-se mais e mais, aperfeiçoando a linguagem e a cultura.

Concluíram honradamente uma longa existência de sacrifícios, de renovação interior, vindo ambas a desencarnar muito idosas, em Belo Horizonte.


Médium: uma pessoa interexistente


(Depoimento do médium Francisco Cândido Xavier em 10.04.1988.)


4  Há muitos anos atrás, o professor Herculano Pires me dizia ser todo médium uma pessoa inter-existente. Eu não compreendia muito bem o que ele queria exatamente dizer com isso e pedia-lhe maiores explicações. O professor tentava explicar-me, dizendo que o médium, ao mesmo tempo, vive duas realidades de vida distintas. Mas, mesmo assim, ficava eu por entender o que tentava me transmitir.

Passados alguns anos, quando o professor já havia desencarnado, compareci, como de costume, a uma reunião no Grupo Espírita da Prece, aqui em Uberaba. A reunião transcorria normalmente e comecei a receber, pela psicografia, uma mensagem de um rapaz recém-desencarnado, dirigida a sua mãe que se encontrava aflita.

Durante a mencionada recepção da mensagem, enquanto minha mão escrevia, um espírito amigo aproximou-se e disse: — “Chico, nós precisamos de você neste mesmo instante em uma reunião no Plano espiritual, ligada por laços de afinidade ao Grupo Espírita da Prece. Você faça o favor de me acompanhar até lá?”

Com a devida permissão de Emmanuel, resolvi, então, seguir o amigo em espírito. Andamos muito até chegarmos a um salão muito amplo. Lá dentro, ocorria uma reunião e todos estavam em silêncio e prece. Com grande alegria, identifiquei a figura do professor Herculano Pires, presidindo o encontro. Cumprimentamo-nos rapidamente pelo pensamento e soube que deveria substituir um médium que havia faltado ao serviço.

U’a mãe em estado de sofrimento esperava obter notícias de seu filho. Ambos já estavam desencarnados, mas a respeitável senhora desesperava-se por não ter ainda se encontrado com o filho querido, desencarnado 10 anos antes dela. O estado íntimo de angústia desta mãe impedia-lhe a visão do filho dileto, que se encontrava em condição espiritual um pouco melhor.

Assim, enquanto meu corpo físico psicografava uma mensagem de um rapaz no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba, meu corpo espiritual também recebia uma mensagem de outro rapaz, com outro tema, na reunião do plano espiritual, completamente diversa da primeira.

Quando tudo terminou, o professor veio falar comigo:

— “Você entendeu agora, Chico, o que é ser inter-existente?”

Só então eu pude compreender o que ele quis me dizer. Neste instante, lembrei-me que minha abnegada mãe, D. Maria João de Deus, em uma de suas aparições, havia me asseverado com gravidade:

— “Chico, a mediunidade é uma enxada bendita de trabalho, quando sabemos aceitá-la com Jesus”.

E fiquei, então, a meditar sobre o assunto.


Um caso de identificação espiritual


5 Certa vez, estando nosso estimado Chico em São Paulo, aproveitou para fazer uma visita de rotina ao seu médico oftalmologista, Dr. Nadir Sáfadi, que vinha cuidando de suas dificuldades de ordem visual.

O respeitado médico examinava as órbitas oculares de Chico com toda a atenção e cuidado que a profissão exige, quando soltou-lhe, à queima-roupa, a seguinte questão:

— Chico, me diga uma coisa, você vê mesmo os espíritos? Ao que Chico respondeu, prontamente:

— Vejo, sim, senhor, Dr. Nadir. É verdade que trago comigo a faculdade mediúnica da vidência!

O médico, curioso, retrucou-lhe:

— Mas como é que enxerga os espíritos com estes olhos, assim, tão debilitados`? Você os vê com estes olhos mesmo?

— Ah, não senhor. A mediunidade vidente não depende dos olhos do corpo físico. O assunto nos exige muito estudo, disse-lhe o Chico.

— Então, me diga se está vendo algum espírito aqui, em meu consultório, Chico.

— Eu confirmo que estou vendo um Espírito aqui conosco, Dr. Nadir.

— Mas, então, diga-me, Chico, quem é que está aqui? Qual o nome dele?

Chico parou por um momento, meio desconcertado. O espírito já havia se identificado, mas o estimado médium vacilava entre aceitar ou não aquele nome tão incomum. “Afinal — pensava Chico — — será que estou sendo vítima de alguma chacota dos Espíritos? Não me lembro de ter ouvido este nome antes, um nome assim tão estranho, me fazendo lembrar a figura da cebola! Meu Deus, que fazer?”

Tudo isso pensava silenciosamente o médium, deixando Dr. Nadir na expectativa da resposta.

Ante a sua insistência, Chico respondeu, afinal:

— Ele está me dizendo chamar-se Senobelino Serra. Diz ter sido natural de São José do Rio Preto. Dr. Senobelino Serra.

— Oh, Chico, não me diga que ele está aqui conosco! — espantou-se o Dr. Nadir. — Dr. Senobelino Serra foi meu professor, foi muito amigo meu!

Mais aliviado com a confirmação da identidade espiritual, Chico completou:

— Pois, então, é ele mesmo, Dr. Nadir. Ele está me dizendo que foi designado pela Espiritualidade Maior para ajudar o senhor na profissão de médico oftalmologista, juntamente com outros amigos, porque o senhor ajuda muita gente aqui no consultório, Dr. Nadir!

Visivelmente emocionado, o médico nada mais perguntou.


Os livros do Dr. Inácio Ferreira


(Depoimento do médium Francisco Cândido Xavier, em 12.01.1990.)


6 Recentemente, ocorreu-me um fato muito interessante.

Eu estava em meu quarto de dormir, ressonando, quando alguém se aproximou rapidamente. A princípio, assustei-me, mas qual não foi minha agradável surpresa ao reconhecer a figura inconfundível de Dr. Inácio Ferreira! Assim, fui logo exclamando:

— Dr. Inácio, é o senhor mesmo, meu bom Deus! Que alegria revê-lo! — quase chegando às lágrimas por reconhecer o estimado confrade. Ele encontrava-se tal qual acostumamo-nos a vê-lo aqui, em Uberaba. O mesmo traje branco, o mesmo jeito. — Dr. Inácio, conte-me algo sobre sua passagem. Estou curioso por ouvir do senhor o relato sobre o reencontro com os nossos amigos da outra vida! Quantos dos nossos o senhor já reviu? Quero saber tim tim por tim tim!

Ao que ele retrucou:

— “Ah, Chico, meu caro, não há tempo para isso. Vim aqui para pedir-lhe o favor de uma providência que não deve fazer-se esperar. Ademais, tenho visto tanta gente que, se fôssemos conversar sobre isto, passaríamos dias na prosa. E você sabe como é, Chico, eu poderia esquecer de mencionar alguém, tantos são os amigos! De forma que, ao menos por enquanto, não nos aventuraremos por este terreno. Mas vamos logo ao assunto que me trouxe aqui. Chico,… nós dois vamos até minha casa. Você precisa me acompanhar até lá para podermos conversar com Maria Aparecida”.

— Mas, Dr. Inácio, o senhor deve estar doido! Eu não posso sair a estas horas da noite! O meu corpo está exausto, o senhor deve estar a par de minha peleja e os médicos me recomendaram repouso! Como é que eu sairia na rua tarde da noite? Além disso, sua casa é por demais distante, do outro lado da cidade!!! — disse-lhe.

— “Chico, não se preocupe com isso, porque você estará sob os nossos cuidados. O fato é que nós devemos ir andando até lá. No trajeto, eu lhe digo o porquê. Vamos, Chico, dê-me o braço”.

Ao apoiar-me em Dr. Inácio, senti-me leve como pluma. O corpo já não mais me pesava. Uma força levemente eletrizante animou-me, a ponto de sentir-me plenamente disposto para a caminhada. Foi aí que reparei na beleza de Dr. Inácio. Por todo o seu corpo, vi pequenas irradiações brilhantes, que fizeram-me compreender que ele já havia alcançado o estágio de auto-luminosidade. Ante meu espanto natural, retrucou:

— “Chico, não temos tempo para conversas! O trabalho nos espera. Vamos andando!”

Súbito, começamos a andar celeremente, tomando a calçada. À medida que caminhávamos, mais rápido íamos, de maneira que deslizávamos a meio palmo do chão. Vocês não imaginam o quanto dista a residência de Dr. Inácio de minha casa e, em questão de poucos minutos, havíamos atravessado toda Uberaba e já nos aproximávamos do lugar.

— E se alguém me vir andando assim, na rua, Dr. Inácio, altas horas da madrugada! — exclamei.

— “Não se preocupe, Chico. Ninguém nos verá”.

— Mas, meu Deus! O que é que D. Maria Aparecida vai pensar de mim? Isto não é hora para visitas, Dr. Inácio!

— “Você precisa conversar com ela, Chico. Ela já deve estar desperta pelos amigos espirituais”.

A esta altura, já estávamos diante da porta de entrada da casa de Dr. Inácio. O silêncio dominava a madrugada. Eu estava aflito pela possibilidade de importunar D. Maria Aparecida, àquela hora. Dr. Inácio parou em frente à porta e disse-me:

— “Chico, você fique aqui e aperte a campainha”.

— Mas o que é isso, Dr. Inácio? D. Maria Aparecida vai achar que estou ficando doido, parado aqui, tocando a campainha tão tarde da noite!

— “Chico, não se preocupe que ela já deve estar de pé. Infelizmente, minha condição perispiritual ainda não me permite atuar diretamente sobre os metais, de forma que não posso abrir a fechadura para você. Por favor, me espere aqui fora, enquanto tentarei forçar a parte de madeira da porta, a fim de ajudar a abri-la. Toque a campainha, que Maria Aparecida atenderá ao chamado”.

Assim foi feito. E segundos mais tarde, D. Maria Aparecida abriu a porta, um pouco espantada com o inusitado da visita, pois, afinal, era a primeira vez que eu ia até lá.

Gentilmente, convidou-me a entrar. Sentamo-nos na sala, falamos sobre a recente partida de Dr. Inácio, cuja presença ela não percebia. As lágrimas nos tomaram muitos minutos de saudade e ouvi, com muita atenção e carinho, os lamentos de profundo pesar da estimada irmã.

Passados alguns instantes, disse-lhe, pausadamente, de acordo com as instruções recebidas de Dr. Inácio:

— O que eu tenho a lhe informar, D. Maria Aparecida, é que Dr. Inácio está presente, a pedir-lhe paciência. Pede-me para dizer-lhe que a vida continua e que ele está firme nos propósitos de servir, junto ao Sanatório. Dr. Inácio continua à frente dos trabalhos, com planos para o futuro. A senhora me perdoe se lhe disser algo menos cortês, mas é que ele está me pedindo para dizer-lhe que, por amor a Deus, não doe os livros de sua biblioteca.

Um tanto quanto espantada, D. Maria Aparecida respondeu:

— Mas, Chico, eu não dispus de livro algum! Não tenho doado livro nenhum de Inácio.

— “Chico — insistiu ele — ela tem dado meus livros e provavelmente está encobrindo o fato porque o fez com grande carinho. Diga a ela que ainda preciso muito de minha biblioteca e quero conservá-la aqui em casa até o dia em que o Sanatório estiver preparado para recebê-la, numa nova e arejada sala. Conte a ela, Chico, que após a desencarnação, continuei trabalhando muito pelo Sanatório. Não tenho tido tempo ainda para conhecer outras esferas de trabalho. Diga a ela que, em meus momentos de descanso, este é o pouso bendito que busco para rever os velhos assuntos, a meditar na bondade divina. Eu preciso de meus livros, Chico!”

Aos poucos, D. Maria Aparecida foi percebendo a presença do antigo companheiro. Entre um e outro esclarecimento, que Dr. Inácio fazia-me dar, ela finalmente considerou, surpresa:

— Mas, Chico, somente eu poderia saber disto! Como é que você pode estar me contando isso???

— É o Dr. Inácio, D. Maria Aparecida, que está aqui, pedindo-me para falar em seu nome. A senhora me perdoe!

Decorridos alguns instantes de recordações silenciosas, repletas de saudade, D. Maria Aparecida, influenciada por amigos espirituais, convidou-me a repousar por algum tempo. Dr. Inácio esclareceu-me que o repouso se fazia necessário, tendo em vista a recomposição de nossas forças. Descansamos, então, por três horas. E somente após as cinco horas da manhã, despedimo-nos emocionados da amiga.

No caminho de volta, Dr. Inácio pediu-me o obséquio de, logo pela manhã, às 7:30 horas, telefonar à D. Maria Aparecida, a fim de relatar-lhe o ocorrido. Disse-me, também, que o Dr. Bezerra de Menezes havia considerado a necessidade de que o encontro espiritual não fosse registrado pela memória corporal de D. Maria Aparecida. Segundo Dr. Inácio, ela havia recebido dos amigos espirituais forte carga magnética de esquecimento. Não obstante, guardaria no coração e na memória espiritual aqueles instantes, daí a importância do telefonema. Chegamos em casa rápido. Entrando em meu quarto, assustei-me, sobremaneira. A princípio, pareceu-me que alguém dormia em minha cama. Sem deixar transparecer o desagrado que invadiu-me naquele momento, exclamei:

— Que é isso, Dr. Inácio??? Como alguém pode estar deitado em minha cama???

— “Não há ninguém deitado lá, Chico!” — retrucou.

— Como não? O senhor não está vendo esta coisa de desagradável aparência, esparramada em minha cama? Como pode ser isso, meu Deus? Dê-me paciência para tolerar esta situação, porque esta coisa horrível mais me parece uma massa gelatinosa, escura, debaixo dos lençóis!

— “Acalme-se, Chico. Confie em minha palavra. Não há ninguém em sua cama!”

— Mas como é que vou deitar-me em cima disto??? — perguntei alarmado.

— “Pode confiar em mim, Chico. Está tudo certo. Vamos, deite-se”.

Vagarosamente, deitei-me, então, recostando por cima daquela massa de desagradável aparência. Senti-me entrando dentro daquilo como que u’a mão entrando numa luva. Um frio percorreu-me todo durante o encaixe e somente assim percebi que se tratava de meu corpo físico. Com o susto que a inesperada descoberta causou, despertei. Já não via Dr. Inácio e os primeiros raios da manhã invadiam o ambiente. Olhei em volta para ver se ainda registrava a presença do estimado confrade, mas a visão terrena nada me mostrou. Apenas pude perceber, pela mediunidade audiente, sua voz.

— “Até a próxima, Chico. Não posso ficar mais. Não se esqueça de telefonar para Maria Aparecida, às 7:30 horas, está bem?”

Disse isso e partiu. O relógio marcava 6:30 horas da manhã e não pude mais dormir, dada a emoção que me invadiu o coração. As lágrimas vieram-me espontaneamente ao rosto ao lembrar-me de Dr. Inácio Ferreira. Levantei-me, chorando, tomado de sentimentos, dirigindo-me à cozinha, a fim de fazer a primeira refeição e alimentar os gatinhos. A colaboradora de nossa casa já estava de pé e, surpresa, disse-me:

— Ainda é muito cedo, seu Chico! O que é que o senhor está fazendo de pé, assim, chorando, meu Deus?!?

— Minha nega, estou vindo da casa de Dr. Inácio. Estive com ele a noite toda, numa visita à D. Maria Aparecida respondi-lhe, banhado em lágrimas, não contendo a emoção que o encontro me causara.

Pude perceber que a estimada servidora pensava silenciosamente na distância da casa de Dr. Inácio e que, com certeza, eu estava ficando doido mesmo. Passada a emoção das lembranças, esperei a chegada das 7:30 horas para desincumbir-me da tarefa. Na hora certa, liguei e D. Maria Aparecida atendeu muito surpresa. Expliquei que tinha algo a lhe relatar. Então, ficamos a conversar longamente sobre o acontecido!… n



[1] Dr. Inácio Ferreira de Oliveira desencarnou em 27 de setembro de 1988. O fato ocorreu por volta de 11 de janeiro de 1989. Sua esposa: Maria Aparecida V. Ferreira.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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