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Chico Xavier — Mandato de amor — Autores diversos — 1ª Parte

 

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Arnaldo Rocha

Aos leitores

 

1.  Estas páginas não são fruto de veleidade literária. Posso classificá-las primeiramente como registros de uma profunda e humilde gratidão a um amigo que, com amor, caridade e toda a beleza que enaltece seu espírito, houve por bem amparar-me e orientar-me em momentos de tristeza e inquietudes. Em segundo lugar, como obediência fraterna às solicitações do diletíssimo Sr. José Martins Peralva Sobrinho, vice-presidente da União Espírita Mineira — U. E. M. — colmeia de trabalho e fraternidade, onde modesta e singelamente, porém de todo o coração, nos dedicamos às tarefas de servir, por acréscimo da misericórdia do Excelso Amigo Jesus. Considerações essas — acerca da responsabilidade pertinente a todos que tiveram a oportunidade de uma convivência mais ou menos longa com FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER — que resultaram na narração de fatos, ocorrências e exemplos presenciados, vividos e coletados com o admirável apóstolo da humildade, da renúncia, da abnegação, da honestidade e da lealdade aos sublimes princípios doutrinário-evangélicos do Cristianismo Redivivo.

 

O convívio com o nosso Chico. Como o conheci.

 

2.  Um simples e fortuito encontro de rua. Um esbarrão para ser sincero.

Foi numa tardezinha de 22 de outubro de 1946.

Subia apressadamente a Av. Santos Dumont, em direção contrária à Estação Ferroviária. Ia triste, angustiado e acabrunhado. Havia perdido minha esposa 21 dias antes e, desde então, estabelecera-se em minha cabeça uma infinidade de pensamentos e reflexões díspares, desconexas. Meus conceitos materialistas e ateus digladiavam-se violenta e brutalmente com uma verdade insofismável: a sobrevivência do ser, a vida além da morte física. Uma verdade constatada casualmente, certa noite.

Buscando abrigar-me de forte temporal, bati à porta da casa de meu irmão Geraldo, no momento exato de iniciar-se uma reunião de intercâmbio espiritual. Convidado a entrar, fiquei diante de um impasse: ou enfrentava a chuva fria e torrencial ou ficava para a reunião. A questão fé, religião e Doutrina Espírita não me interessava. Porém, contrariado, optei por ficar, sendo acomodado não longe da mesa de orações, próximo à D. Eny Fassanelo, uma amiga de longa data, originária da Itália, que, mesmo residindo no Brasil há mais de 30 ou 40 anos, ainda conservava um falar bem “macarronado”.

Atento aos acontecimentos, notei que as luzes foram diminuídas e as leituras e preces iniciadas. Pouco tempo depois, percebi mudanças em D. Eny que, subitamente, tornara-se fremente, estuante. Um estremecimento a fazia sofrer, parecia aflita, como se vomitasse substância grossa, viscosa, pegajosa.

Meu irmão Geraldo, defrontando com a ingerência — que para mim não passava de estultícia — dirigiu-se a ela com palavras ternas e carinhosas, acalmando-a, inspirando-a a relatar o que estava a lhe acontecer.  n

Um silêncio longo e inquietante foi logo quebrado pelo som claro, bonito e musical de uma voz que era-me muitíssimo familiar. Uma voz que fazia-me evocar doces recordações e que identifiquei como sendo de minha esposa, Irma, desencarnada havia poucos dias.  n

Estupefato, ouvi minha cunhada Luiza chamando-lhe de Naná — seu apelido — pedindo-lhe notícias, portando-se como se nada tivesse acontecido. Agindo tão naturalmente como se Meimei estivesse ali, em carne e osso, ainda que apresentando um corpo e rosto bem diferentes dos seus.

Aumentavam ali minhas perturbações e questionamentos. As elucidações de Geraldo foram insuficientes e, em minha ignorância, revoltei-me, reneguei o fato presenciado veementemente.

Pois bem: esvaí-me em desesperos e angústias noite e dia e até que se verificasse meu encontro casual com Chico Xavier, 22 dias se passaram. Vinte e dois dias vividos numa intensa comburência mentopsíquica e emocional.

Eu caminhava taciturno e distraído quando, inadvertidamente, fui de encontro a um senhor, derrubando ao chão sua pequena pasta. Desculpei-me de imediato, entregando-lhe o objeto, reparando em suas maneiras simples e modestas, demorando-me em seu olhar de imensa bondade e candura. Reconheci naquele homem a personagem de reportagens lidas, há pouco tempo, na revista “O Cruzeiro”. Sim! O homem simples, modestamente trajado, alvo de meu descuido no andar, era, incontestavelmente, o Sr. Francisco Cândido Xavier, o médium de Pedro Leopoldo!

Indizível emoção me envolveu. Queria falar-lhe, apresentar-me, mas perdera a voz. Pus-me a chorar em plena via pública. Situação desconcertante, nós dois ali parados, atrapalhando os outros, dificultando o fluir normal dos transeuntes!…

O Sr. Francisco olhava-me com infinita ternura. Tomou-me o braço e falou com sua voz quente, modulada de afeto e carinho:

— Escuta, Naldinho, não é assim que Meimei lhe falava? Ela está aqui, conosco, radiante de alegria pelos seus 24 janeiros, ou melhor, ela diz 24 primaveras de amor! Hoje não é o dia de seu aniversário?!? Deixe-me ver o retrato dela que você traz na carteira.

Fiquei estuporado, siderado mesmo! Nada lhe falara, a não ser o pedido de desculpas! Como sabia meu nome? Que sabia de Meimei ou de seu aniversário? Tentava controlar o choro, suava frio, envergonhado de mim mesmo. Inerme, mostrei-lhe a fotografia.

O médium pegou-a delicadamente. Pousou nela os olhos marejados de lágrimas e com um belo e reconfortante sorriso, segredou-me:

— Nossa querida princesa Meimei quer muito lhe falar. E hoje, em comemoração ao seu aniversário, podíamos fazer uma prece. Vamos à casa de Geraldo?

E para lá seguimos. Eu continuava mudo lívido, assustado. Havia terminado a leitura de “O Problema do Ser, de Destino e da Dor” (Léon Denis, 1919, F. E. B.), iniciara a leitura de “No Invisível” (Léon Denis, 1919, F. E. B.) e ainda estudava-o “O Livro dos Espíritos” (Allan Kardec, 1857), entretanto, meus conhecimentos doutrinários eram insignificantes, pequenos! Não compreendia, na essência, o que ocorria, não sabia que estava na companhia de um excelente clarividente.

Meu interlocutor discorria alegremente sobre Meimei, como se de muito a conhecesse. Falou-me de sua alegria de viver, de sua jovialidade, poesias, leituras, sonhos e de sua doença.

Aos poucos, o mutismo e o espanto deram lugar a um encantamento e, mais à vontade, pus-me a conversar, absorvendo atentamente tudo o que aquele homem estava me revelando.

Em casa de Geraldo, preparamos uma reunião íntima e, através da Psicofonia Sonambúlica, por mais de uma hora, Meimei falou-nos de sua nova vida, da amizade dos amigos espirituais — André, Dr. Cornélio, Monsenhor Horta, sua avó Mariana…

A todo momento, exclamava jubilosa:

— “Meu Meimei, aqui tudo é lindo! Sou tratada como se fosse uma princesa! Todos são fraternos, tão joviais e gentis!… Aceite um conselho: leia, estude, trabalhe e sirva sempre.”  n

No dia seguinte, meu novo amigo partiu para Uberaba, a serviço do Ministério da Agricultura, devendo encontrar lá um outro companheiro de Doutrina, o Dr. Rômulo Joviano, presidente do Centro Espírita Luiz Gonzaga, também diretor e superior de Chico na Fazenda Modelo, em Pedro Leopoldo.  n

Na Estação Central do Brasil, convidou-me gentilmente a visitá-lo em sua cidade, aconselhando-me que o fizesse em dezembro. E na época aprazada, por volta do dia 20, fiz-lhe minha primeira visita. Contudo, logo logo as visitas tornaram-se constantes e abracei, felicíssimo, a oportunidade de trabalhar conjuntamente com Chico nos serviços de ordem cristã.

 

Ocorrências e lições

 

3.  A bem da verdade, devo dizer que no início de nossa amizade estranhava muito a disciplina que Chico impunha à sua vida. Ele retornava do serviço na Fazenda Modelo à tarde, ocupando-se, incontinenti, em visitas aos enfermos, no atendimento aos necessitados e, ainda, além das noites de segundas e sextas-feiras, dedicadas às reuniões no Centro Espírita Luiz Gonzaga, aplicava-se ao trabalho silencioso de recepção de mensagens e livros ditados por instrutores espirituais.  n

Toda vez que eu voltava a Pedro Leopoldo, Chico inquiria-me com a mesma pergunta: — “O que está lendo? Fale-me de seus estudos e suas tarefas doutrinárias!” Com isso, aprendia a admirar e amar a “nossa alma querida”, exemplo de humildade, renúncia e abnegação.  n

Numa tarde de sábado, reunidos em casa de Luiza, decidimos inspecionar as obras do pequeno prédio que viria a ser a nova sede do “Luiz Gonzaga”. Chegando lá, deparamo-nos com situações de desentendimento e altercação.

Dr. Rômulo Joviano e Lindolfo Ferreira — o responsável pelas obras — discutiam entusiasticamente em torno de ideias divergentes. Percebendo a presença de Chico, os dois amigos tranquilizaram os ânimos inflamados, de maneira que, em poucos minutos, todos conversavam saudavelmente, num clima de alegria e descontração. Após a saída de Dr. Rômulo, Chico informou-nos que o terreno onde estávamos comportara, outrora, a casa em que nascera e que aquele exato local havia sido o quarto em que sua mãe, D. Maria João de Deus, dera à luz. Uma revelação emocionante!  n

Lindolfo, abraçando-nos, disse:

— Ora, vejam só! Dr. Rômulo tem atitudes estranhas! Será que pensa estarmos ainda no cerco de destruição de Jerusalém? Estamos é construindo um templo de oração!!!

— Não se preocupe com o acontecido — disse-me Chico, algum tempo depois, a caminho de casa. — Dr. Rômulo e Lindolfo são os antigos inimigos encontrados no “Há dois mil anos”. O primeiro, nas vestes do senador romano Pompílio Crasso, amigo do também senador Publio Lentulus — Emmanuel. E o segundo, o bravo defensor da pátria judia, André de Gioras. Ambos, inconscientemente, estão recordando acontecimentos já passados. É bom nos lembrarmos do belo ensinamento emmanuelino: “O ontem muitas vezes fala mais alto do que podemos admitir no tempo a que chamamos hoje”. É por isso que em determinados estados da experiência física atual, ao nos envolvermos ou não em desarmonias mentopsíquicas e emocionais, permitimos que se nos aflorem, das criptas da inconsciência, cenas, fatos e sensações de existências passadas, que nos levam a atitudes não condizentes com os padrões estabelecidos e criados pela personalidade atual.

Ensimesmado, procurava guardar a lição de Chico, apreendendo o sentido profundo que suas palavras encerravam.

 

D. Geny achava-se enferma. Aproveitando a presença de Clóvis Tavares, hospedado em casa de Chico, fomos visitá-la para palestrar, orar e atendê-la fluidoterapicamente.

A conversa conduziu-se para as lembranças da época em que Chico assentava-se ao extremo da mesa, na pequena sala onde durante anos funcionou o “Luiz Gonzaga”, para fazer suas preces e psicografar o “Há Dois Mil Anos”, o “50 Anos Depois” — páginas de Emmanuel — e outras de Cneio Lucius e Irmão X.

Rememoramos a belíssima passagem, na qual o orgulhoso senador romano, atendendo aos apelos de Lívia, e considerando o sofrimento da filha extremamente amada, resolveu sair à procura do Nazareno.  n

O médium, com voz embargada, lágrimas a correr pelas faces, relatou-nos ocorrências que, evidentemente, não constavam do livro. Intempestivamente, Clóvis e eu sapecamos-lhe uma pergunta, cuja resposta nada mais representou que uma ingente demonstração de honestidade e pureza de sentimentos:

— Chico, no momento em que Jesus apareceu no cenário e dialogou com o senador… você viu o Excelso Mestre?!?

Sua resposta:

— Meus companheiros queridos! … Quem sou eu para vislumbrar o Divino Amigo! Pobre de mim, cisco que sou! Somente com uma inefável alegria pude registrar, muito palidamente, os reflexos de amor e gratidão sublimemente luminescentes, que o coração amoroso e agradecido de nosso benfeitor Emmanuel criara naquele instante de profunda reverência e de recordações!…

 

***

 

4.  Na tela de minhas doces memórias, tenho gravada uma grande lição de verdadeiro amor fraterno e de desprendimento das coisas materiais, que a alma simples e caridosa da cidade de Pedro Leopoldo me exemplificou. Verificou-se por ocasião do Natal; quando de minha primeira visita ao amigo.

Havia levado pequena cesta, com frutas e guloseimas natalinas. Uma cesta de carinho, com a qual pretendia presenteá-lo. Logo que cheguei, fui recepcionado com calor e estima, sendo apresentado aos donos da casa, Lindolfo e Luiza, e a suas filhas — Maria Alice, a Pingo, e Lúcia. De pronto, entreguei-lhe o singelo presente, o qual muito me agradeceu.

Após conversarmos rapidamente, Chico convidou-me a fazer visitas. Em todos os lugares visitados, mostrava a tal cesta, deixando-me um tanto quanto acanhado.

Nos dirigimos especialmente a uma casa de extrema pobreza, iluminada por lamparina a querosene. No quarto humilde, uma velhinha lastimosa jazia no leito. Seus olhos tristes, cansados e remelentos iluminaram-se de inenarrável contentamento, ao reconhecer Chico Xavier como seu visitante.

Estávamos ali na tentativa de aliviar o sofrimento daquela senhora. Conversamos, oramos, ministramos-lhe passes. E nestes instantes de doação sincera, parecia que milhares, milhões de lamparinas iluminavam o modesto aposento.

Ao final da visita, Chico falou à pobre mulher, olhando para mim:

— Nosso companheiro quis conhecê-la e trouxe estas coisas gostosas. Permite que eu prove de uma uva?!?

Centenas de vezes, através dos anos, eu e outros amigos presenciamos tais cenas. Tudo que Chico recebia amorosamente transferia, sem alarde, aos menos afortunados.

Clóvis, bem apropriadamente, costumava dizer: “Nosso Chico é igual ao outro — o de Assis!…”

 

***

 

5.  Nosso querido amigo há muito claudicava. Doía-lhe um pé. Dr. José Rocha, médico vizinho e amigo, já lhe ministrara medicamentos sem, contudo, minorar seu sofrimento. Dr. Rômulo, um admirável gerador magnético, já lhe havia aplicado assistência fluidoterápica. Eu, de minha parte, também colaborara, dentro de minhas limitações. Tudo de pouca valia! As dores persistiam, fazendo Chico manquitolar horrivelmente.

Os funcionários da Fazenda Modelo retornavam às suas casas servindo-se de uma charrete — o “Charretão” — puxada por dois belos cavalos da raça Pocherrão. O veículo adentrava a cidade por uma rua onde localizava-se, então, o meretrício.

Uma tarde, Chico e seus companheiros, ao passarem pelo “Biriba” — designação vulgar dada ao logradouro — foram abordados por uma das moças que habitavam o Ingar. E dirigindo-se a Chico, disse:

— Venha até minha casa. Preciso lhe falar.

Gracejos, motejos, risadas e comentários infelizes fizeram-se ouvir. Chico desceu do carro, com dificuldade, acompanhando a moça até sua residência.

Todas as meretrizes que lá viviam receberam-no com profundo respeito, oferecendo-lhe uma cadeira, na qual Chico assentou-se.

A moça que o abordara trouxe uma pequena bacia, com água limpa. Humildemente, pediu-lhe permissão para descalçá-lo dos sapatos, colocando seu pé doente dentro da bacia. Segurando raminhos de flores do campo, a moça rezou e todas as outras a acompanharam, contritas. Ela molhava os raminhos e os batia, delicadamente, no pé de Chico, repetidamente, por várias vezes. Em seguida, enxugou-o, beijou-o e o calçou novamente.

Dois dias depois, chorando de emoção, Chico contou-nos o que presenciara na casa de encontros. Através de sua vidência, registrou que o líquido da bacia foi ficando escuro e lodoso, à medida que a mulher banhava-lhe o pé, fazendo com que a dor se esvaísse lentamente.

Para todos os presentes, a água manteve-se inalterada, límpida, nada mudara.

Chico nunca mais sentiu tal dor. A pobre meretriz, no ato humilde, no gesto simples, na bacia insignificante e nos raminhos de mato, mais que nós outros, colocara em sua oração algo sublime e operador de maravilhas: o amor!

 

***

 

6.  Já era noite e bem tarde, quando fomos à casa de Lucila. Chegando lá, deparamo-nos com Neusa acamada. Uma garota bonita, pobrezinha, tão magra, tão pálida e triste!

Sem demora, iniciamos as preces, informados por Chico sobre a necessidade urgente de aplicação de passes.

Pacheco, Lucila e Dorinha postaram-se de um lado da cama, enquanto que Chico e eu, no lado oposto. Apagada a luz, o medianeiro pôs-se a orar, para que envolvêssemos a enferma em vibrações terapêuticas.

Um perfume de rosas invadiu o recinto. Senti que algo leve e úmido tocava minha cabeça, braços e dedos. Chico, inebriado de êxtase fraterno, solicitou que mantivéssemos as mãos à altura do peito.

Finalmente, encerradas as preces, constatamos estar cobertos, bem como o leito e o chão, de dezenas, coloridas, olorantes e frescas pétalas de rosas!

Este foi um dos mais belos fenômenos por nós presenciado, através da sensibilidade mediúnica do apóstolo do amor e da caridade.

Pela manhã, fomos notificados sobre a desencarnação de Neusa.  n

 

***

 

O drama das obsessões

 

7.  Muitas e muitas vezes, Chico falou-me de seu irmão José. Discorria acerca de seu amor à Doutrina Espírita, sua dedicação e interesse nas tarefas com os obsidiados que aportavam no “Luiz Gonzaga”. Enfatizava a paciência no atendimento em reuniões de intercâmbio e enfermagem espiritual às personalidades obsessoras que manifestavam-se presas da insanidade, do ódio e das perturbações mentais. E afirmava que, com a desencarnação do irmão mais velho, jamais entregara-se a tais misteres. Todavia, necessitava destas reuniões. Dia a dia avolumava-se, de forma expressiva, o número de companheiros em busca de um lenitivo ou amparo.

Condoía-me particularmente o desfile dos infelizes. Preocupava-me e afligia-me o drama dos lamentavelmente azorragados pelos comparsas do passado, e também daqueles outros que movimentavam-se na incúria e na desídia do presente.  n

A areia escorria na grande ampulheta do tempo. As referências de Chico ao irmão, aos dramas dolorosos de obsessão que, semana após semana, afluíam ao Centro, denotavam a incontestável urgência de providências emergentes e eficazes. Tornou-se imperativo criar um grupo assistencial de socorro. E assim foi feito.

Ainda que infrequentemente, dedicamo-nos ao serviço. Mas, logo no começo de 1950, a questão transformou-se na tônica de nossos diálogos, dos quais eu discretamente fugia, apavorando-me e acovardando-me em assumir tamanha responsabilidade.

Conviver com Chico cotidianamente foi uma tarefa bastante difícil. Eu estava muito aquém dos padrões morais e intelectuais que eram e são-lhe próprios. E convencido disso, mais e mais me apaixonava pelo apóstolo dos gentios — Paulo de Tarso — cujos ensinamentos obrigaram-me a reestruturar radicalmente sentimentos, hábitos e valores. Porém, ainda assim, não intencionava imputar à minha vida semelhantes obrigações.  n

Em 31 de julho de 1952, fizemos a primeira reunião do “Meimei”. Havia vencido minha relutância e covardia, resolvendo assumir a responsabilidade sobre as reuniões de desobsessão.  n

A expressão “espírito obsessor” nunca me agradou muito. Sabia que por maldade, inveja ou fanatismo religioso muitos irmãos de caminhada situavam-se em tal catalogação. Por outro lado, gravava-se em minha mente, de forma indelével, a escala espírita – 100ª questão de “O Livro dos Espíritos”, páginas 87 a 89 — na qual um percentual bastante expressivo de habitantes, encarnados e desencarnados, de nossa casa terrestre, mundo de expiação e provas, constitui a terceira ordem: a dos espíritos imperfeitos — questões 101ª a 106ª, páginas 89 a 92.

A sublime palavra do Excelso Amigo Jesus esclarece-nos quanto à Lei de Causa e Efeito, e em meus primeiros passos no campo doutrinário o drama dos obsidiados despertou em mim uma intensa compaixão. A preocupação e o interesse fraternos em entender, bem como compreender os estados patológicos no sentido de ajudar de alguma forma — acredito, sinceramente, proporcionaram-me também a assistência de bons amigos, em ambos os planos da vida. E Chico, claro, foi um deles.

Para que eu pudesse entender o paciente, sua história, pensamentos, hábitos, manias, gostos, etc., procurei sempre raciocinar em termos de pluralidade das existências, conforme estuda-se nas questões 918 e 919 do 12° capítulo — Da Perfeição Moral — de “O Livro dos Espíritos” — páginas 422 a 426.

A sincera dedicação às tarefas de intercâmbio e enfermagem espiritual, tão necessárias, dilatou-me os horizontes do entendimento e da compreensão. Havia, afinal, apreendido a lei: a aparente vítima do hoje havia sido direta e indiretamente o algoz do ontem. Assinalou-me um outro aspecto sutil, melindroso, delicado: por hábito, a vivência em determinada corrente mental fazia hóspede e hospedeiro se entrelaçarem de tal maneira como se fossem a hera e o muro, a roda e o eixo. Conscientizei-me também que todos nós éramos obsidiados. Porque cada criatura vivia na paisagem pensamental e emocional criada por si mesma. Emmanuel ensinara-nos que “a obsessão é um conúbio de sombras”, e Meimei também foi-me um fulcro admirável de aprendizado sobre o assunto.

Dolorosos dramas apresentaram-se. As mais variadas técnicas, processos os mais sutis, artifícios maquiavélicos desfilaram perante minha sensibilidade. Se os companheiros que compareciam ao “Luiz Gonzaga”, amparados, carregados por seus familiares, conhecessem as reais razões de suas dores e sofrimentos — creio — perderiam totalmente o equilíbrio mental. O outro lado da moeda, a realidade, a verdade, a causa em si mesma era tantas e tantas vezes mais contristadora! Minha alma confrangia-se ao ouvir os relatos penalizantes das vítimas da ganância, da maldade declarada, dos artifícios da vaidade e do orgulho, da política e do obscurantismo religioso, fanático e cruel! Pensava, às vezes, que os efeitos eram ainda bastante suaves! Em certos momentos, se não tivesse havido para mim o amparo de benfeitores da Vida Imortal, não saberia conduzir-me e ajudar em tão pungentes dramas.

Quanto mais estudava e refletia sobre o 23° capítulo de “O Livro dos Médiuns” — Da Obsessão (Allan Kardec, 1861, páginas 297 a 314), mais me apercebia que existiam outros aspectos, outras nuances que escapavam à nossa capacidade de observação.

Finalizadas as tarefas, certa noite, eu comentava com os amigos Ennio Santos, Francisco Carvalho e Chico sobre a confusão mental em que me encontrava, pois entristecia-me a vivência e participação em situações tão infelizes.  n Ocorreu-me uma ideia. Dirigindo-me a Chico, perguntei:

— Quem sabe o “senador” não nos forneça maiores esclarecimentos acerca da obsessão?

Chico registrara minha questão e, em instantes breves, falou-me:

— Nosso benfeitor Emmanuel pede para inteirar-lhe que no momento acha-se ocupado em determinados setores de serviço, que o impedem de atender-nos, como seria de seu desejo. Mas solicitará a um amigo a cooperação fraterna de sua experiência nesse mister!

Agradecemos-lhe e ficamos na expectativa.

Algumas semanas decorridas, tivemos, então, uma agradável surpresa, durante os momentos dedicados à recepção da palestra de encerramento. Após modificações significativas nas faces de Chico, ocupou-se de seus condutos psicofônicos sonambúlicos o Dr. Francisco Menezes Dias da Cruz, que apresentou-se dizendo-nos estar atendendo às solicitações do mentor Emmanuel.

A partir desta noite, 15 de julho de 1954, iniciou-se com a entidade a palestra “Alergia e Obsessão”, um ciclo de explanações maravilhoso sobre “Parasitose Mental”, “Domínio Magnético”, “Fixação Mental e Terapêutica da Prece”, com o destaque dos magníficos temas “Auto-Flagelação” e “Obsessão Oculta”.  n

 

História de uma grande lição

 

8.  Certa feita, em 1947, estávamos em uma reunião no “Luiz Gonzaga”. Dr. Rômulo havia terminado a leitura dos textos de “O Livro dos Espíritos” e de “O Evangelho segundo o Espiritismo” (Allan Kardec, 1864), os quais seriam debatidos naquela noite.

Rubens Costa Romanelli e Clóvis, amigos nossos convidados, explanaram sobre a leitura com a beleza, a simplicidade e a eficiência que lhes eram peculiares, ambos muito conhecedores da Doutrina.  n

Após as palavras de Romanelli, fez-se silêncio e qual não foi minha surpresa ao ouvir Lico chamar-me para prestar minha colaboração! Fiquei simplesmente apavorado! Nunca havia falado para tão grande plateia e, timidamente, cônscio de minhas pobres letras e da indigência de meus valores intelectuais, e principalmente incentivado pelos companheiros, fiz minha primeira alocução, suando frio e tremendo muito.  n

Terminada a palestra, seguimos para a casa de André, onde sempre degustávamos um cafezinho singular. Chico nos fez parar para transmitir uma grande e benéfica lição. Olhando para mim, disse:

— Meu amigo, Emmanuel lhe aconselha que quando for convidado a colaborar nos estudos, faça-o. Entretanto, apresenta-lhe três regrinhas primordiais. Primeira: não agrida os ouvidos dos presentes com todo o potencial de sua voz. Não grite, module-a educadamente. Segunda: ao referir-se a outras interpretações evangélicas, faça-o com respeito e consideração. Cada criatura encontra-se no estágio evolutivo de compreensão que lhe é próprio. E terceira regra: analise seus pensamentos e palavras. Caso não encontre neles uma mensagem de esclarecimento, de paz, de amor fraterno, de alegria e consolação, não fale nada! Mantenha-se em silêncio.

Humilde e agradecido, ouvi, aprendi o ensinamento. E através dos anos, tenho procurado ser fiel a esse roteiro.

 

O Grupo Coração Aberto

 

9.  Por orientação de nossos benfeitores espirituais, passamos a nos reunir, Chico, Ennio, Chiquinho e eu, aos sábados, por um período de 12 meses. Indaguei Chico sobre a razão de tais encontros. Respondeu-nos:

— Emmanuel aconselhou-nos a aguardar confiantemente a bondade de Jesus!

Mentalmente, observei: — “Nada me disse. Qual a finalidade real?” — Acreditava que, provavelmente, tais reuniões seriam dedicadas a tratamentos de enfermos, já que, há algum tempo, semanalmente, visitávamos doentes de toda a espécie. Orávamos e aplicávamos-lhes assistência fluidoterápica, de magnetização de água, orientando-lhes quanto ao seu uso. Abro uma ressalva para observar que, de quando em vez, atendíamos dois doentes numa mesma casa. O frasco d’água de cada um tinha odor característico e distinto, e bem como nos disseram, sabores diferentes. O cheiro de éter era uma constante, em qualquer local em que nos colocássemos na hora de servir.

Cheguei ao “Meimei” para a primeira atividade, na hora marcada, e não encontrei nenhum enfermo. Mas nada comentei. Num canto do salão, havia uma cadeira de balanço em vime, na qual Chico preferia sentar-se. Ennio e Chiquinho acomodaram-se à sua esquerda, enquanto que eu, à sua direita.

Fizemos as preces e leituras iniciais. Fascinados, presenciamos o belo fenômeno de intermundos: a justaposição da personalidade espiritual com o medianeiro. O rosto de Chico rejuvenesceu e afilaram-se-lhe as faces. Era José Xavier, seu querido irmão, que apresentou-se cumprimentando meus companheiros. E virando-se para mim, disse:

— “É, caríssimo amigo, você conjeturou bem, ao chegar e não ver aqui nenhum irmão necessitado de assistência. Ocorre que os enfermos já se encontram no locai. Somos nós mesmos, meu amigo! Nossos benfeitores da Vida Maior, após estudos em nossas fichas cármicas, houveram por bem permitir a autorização de tal tarefa — a de assistência a nós mesmos! Aguardemos a magnanimidade do Pai Amantíssimo! Saibamos valorizá-la! Companheiros dedicados e amorosos porfiam em análises e teses de assuntos específicos, nos quais nos comprometemos em vidas pregressas. Lembramos-lhes que a paciência, a humildade, a ternura e o carinho, a sinceridade, a lealdade e a oração deverão ser permanentemente aplicados com o amparo de Jesus nos reencontros que, naturalmente, esperamos venham a se concretizar. Humildade e prece! Confiança! Não estaremos desamparados no Grupo Coração Aberto!”

José Xavier encerrou, assim, sua comunicação, desligando-se dos condutos psicofônicos. Silêncio expectante para, logo após, sermos surpreendidos por uma gargalhada sarcástica, ferina, infausta. Fitamos o médium e defrontamo-nos com uma fisionomia estranha, nada lembrando o rosto bonacheirão e tão querido de Chico. Estava gélido, pesado e feio! A entidade manifestou-se por mais de 90 minutos. Conversamos, houve tentativas de reconciliação, súplicas de perdão!… Houve até uma leve promessa de provável entendimento futuro, tão comumente proferida pelos espíritos presos ao mundo material. Embora desconfiado e resistente, agradeceu-nos as preces e informou-nos estar espantado de encontrar-se conosco — nobres e distintos amigos dada a convivência, ainda que transitória, com seres quiçá mais necessitados que ele de proteção e misericórdia divinas.

Aos poucos, o semblante do nosso bem-amado Chico tornou-se suave, doce e iluminado. Emmanuel apresentava-se inconfundivelmente, discorrendo com muita beleza e seriedade o que certamente iria acontecer em nossos futuros colóquios. Solicitou-nos empenho ao trabalho, firmeza na fé e humildade na vida, fazendo-nos recordar as afirmativas de Paulo, num trecho da 1ª Carta aos Coríntios — 15,33: “Não vos enganeis. As más conversações corrompem os bons costumes”.

Emmanuel finalizou a reunião, deixando-nos a refletir sobre as palavras do Evangelho, do capítulo 12, versículo 1, dos Hebreus: “Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de tão grande número de testemunhas, deixemos todo o embaraço”.

Doze meses depois de iniciadas as tarefas, numa bela noite, após as orações costumeiras, José Xavier apossou-se do corpo físico do irmão e conversou conosco. A certa altura, proferiu estas palavras:

— “Vocês são criaturas felizes, pois aqui mesmo, na Terra, estão reencontrando velhos compromissos e esforçando-se para a redenção. Somente neste estágio em que me encontro é que estou saldando os meus e, sinceramente — deu um longo suspiro — na Terra é bem mais fácil!”

Depois, foi a vez de Meimei:

— “Quero suplicar uma caridade aos vossos bondosos corações. Façam seus comentários sobre estes eventos sempre com amor e lembrem-se na oração dos irmãos que nos auxiliaram na tarefa. Brevemente, será possível que todos nós venhamos a nos agrupar novamente, com propósitos sinceros de servir a Jesus!”

Já achando estranho a ausência de manifestações outras, falei ao Ennio:

— Que perfume delicioso! — notando, com grande alegria, que Chico estava de pé, assumindo o aspecto facial e a postura inconfundível de Emmanuel. Havia bem uns 6 meses que não éramos honrados com sua nobre presença.

— “Meus caros condiscípulos, meus filhos! Que o Senhor e Mestre seja convosco! Nossos celestiais benfeitores aconselham-nos, nesta data, o encerramento destas atividades a que nos detivemos durante 12 meses. O Todo Magnânimo concedeu-nos oportunidades sublimes no decorrer destas 52 semanas vencidas, as quais obviamente saberemos valorizar. Há muitos processos pendentes. Contudo, a escola aí está. Glorifiquemos as horas e honremos nossos compromissos. Que o Mestre e Senhor nos ampare!…

E ponto final nas reuniões do Grupo Coração Aberto.  n

 

***

 

10.  Meu relacionamento com Chico — criatura bendita, como dizia minha mãe, Maria José — foi difícil no começo, como já disse. Não o compreendia. Primeiro, por ser ele inimigo número um da ociosidade e indisciplina. Vivia criando ocupações. Algumas vezes, lhe falei: — “Você se parece muito com minha mãe. Ela sempre dizia que cabeça desocupada é oficina do diabo!” E ele replicava: — “Ela estava certa! Vamos ocupar a cabeça e o coração, senão a tentação aparece. Em segundo lugar, pelas respostas às minhas indagações sobre determinada questão doutrinária, evangélica ou mediúnica. Respondia-me: — “É, meu jovem amigo, muito interessante a sua pergunta! Se não me falha a memória, em “tal” livro, capítulo “tal”, irá encontrar a resposta que deseja. Posso afirmar que deparará com elementos que muito lhe ajudarão o raciocínio, o pensamento e a reflexão!”… E passado algum tempo, dias ou semanas, ele calmamente indagava-me: — “Como é, ficou satisfeito com a leitura de “tal” livro? O que aprendeu? Fale-me sobre o assunto!” que, muitas vezes, nem me lembrava mais. Então, recordava-me a pergunta feita e, assim, eu discorria sobre o tema lido, falava dos estudos feitos, da conclusão tirada. Ele ouvia-me atenta e silenciosamente. Quando terminava minha modesta exposição, com a delicadeza de sempre, convidava-me a enfocar o tema sob outros ângulos. E calmamente, detidamente, com uma beleza encantadora, especificava e apresentava exemplos que enriqueciam, sobremaneira, o tema em tela.

A questão mediunidade sempre foi e é para mim um assunto de raro fascínio. Para muitos de meus condiscípulos, esta continua sendo uma questão de simples mediação entre os dois planos da vida — o físico e o espiritual — esquecendo-se que médium também significa intermediário, intérprete e outros, não tantos, confundem mediunidade com Espiritismo.  n

Sempre procurei estudar o fenômeno mediúnico com especial respeito e com critérios kardequianos. Tal colocação ajudou-me e tem-me ajudado a compreender as manifestações transeanímicas e as de personalidade espiritual. Inúmeras vezes, tais manifestações apresentaram-se muito sutis, muito delicadas. Percebi, inclusive, onde estão as fronteiras da influenciação do desencarnado e onde começa a atuação do médium.  n

 

Instruções Psicofônicas

 

11.  Devo, já de há muito, uma explicação aos que me interpelam acerca da expressão “psicofônica”. E qual a razão de ter sido tão econômico em detalhes quanto à característica medianímica psicofônica sonambúlica de nosso querido Chico. É, indiscutivelmente, algo de um encantamento total o presenciar um transe desse tipo!

Dr. Gustave Geley, médico e notável pesquisador do fenômeno mediúnico, em seus magistrais trabalhos “O Ser Subconsciente” — L´Être Subconscient, 1974, F. E. B. — e “Resumo da Doutrina Espírita” — 2ª Edição, 1957 — oferece-nos dados que ampliam nossos conhecimentos. Em “Resumo da Doutrina Espírita”, usa expressões como “tratar-se de uma verdadeira encarnação momentânea do ser comunicante” (páginas 47 a 70).

O instrutor espiritual André Luiz, outro admirável pesquisador, em sua grandiosa obra “Nos Domínios da Mediunidade” — 1955, F. E. B. — psicografado por Chico, apresenta-nos, no 8° capítulo, suas observações e explanações de um outro mestre no assunto, o benfeitor espiritual Áulus.

Reconheço que se o medianeiro não for portador de reais valores morais, evangélicos, doutrinários e culturais, a manifestação mediúnica poderá ser bastante perigosa. O fenômeno tem características comprobatórias identificativas, quando trata-se de personalidade que tenhamos conhecido plenamente em vida física. O controle sobre o médium é incrível: 50, 60, 80%! É difícil determinar ou catalogar a percentagem manifesta em gestos, tiques peculiares, expressões faciais, modulação de voz, o andar, o assentar!… São atitudes facilmente observáveis. Quantas vezes confundi-me, esquecendo que tratava-se de transe mediúnico! Afinal, o espírito comunicador tem toda uma liberdade de ação.  n

Em meus estudos, observava, semanalmente, casos e mais casos manifestos mediunicamente e graças ao gesto gentil do professor Carlos Torres Pastorino, que me presenteara com um gravador, eu possuía um número expressivo de fitas gravadas.  n

Indo ao Rio de Janeiro, procurei o amigo Dr. Wantuil de Freitas e mostrei-lhe as fitas, contando-lhe que acalentava a esperança de reproduzi-las em série. Argumentei que muitos adversários da Doutrina acusavam o psicógrafo de mentiroso, afirmando que as mensagens eram fruto de trabalho adredemente preparado. No caso do disco, ou da fita, jogaríamos por terra tão tola acusação. Dr. Wantuil, homem prático e inteligente, atentou-me para o alto custo do empreendimento, aconselhando-me a organizar um livro.  n

De volta a Pedro Leopoldo, dei conhecimento a Chico da ideia e começamos a empreitada. Quando já possuíamos 65 palestras transcritas e datilografadas, Chico e eu nos envolvemos na luta de escolher para o livro um título adequado. E conforme orientações espirituais, concluí que era meu dever definir, sem ambiguidade, o formato das instruções. Não gostara da classificação “Mediunidade de Incorporação”. Achei-a imprópria e feia! Passei a procurar, então, uma designação melhor.

Recordando-me de um livro publicado por Diaulas Riedel, intitulado “Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas”, pude encontrar, no setor “Vocabulário Espírita”, à página 39, a seguinte definição: Psicofonia — do grego Psike, alma, Phone, som ou voz; transmissão do pensamento dos espíritos pela voz do médium falante.

Naquelas palavras estava o fio que conduziu-me ao título definitivo: “Instruções Psicofônicas”. Um título objetivo e de fácil assimilação, como eu idealizara.

Fomos ao cartório de registros da cidade e legitimamos os direitos autorais à F. E. B. — Federação Espírita Brasileira.

A obra veio a lume e uma série de bombardeios difamadores caiu sobre mim. Alguém, que nunca frequentara ou estivera presente às reuniões do “Meimei”, resolvera, através de artigos e livros, pontificar que não era eu o responsável pelo direcionamento das tarefas e que estava envaidecido e hipocritamente tentando criar neologismos doutrinários. Mas ocorreu que os bons e amados benfeitores espirituais decidiram banir o malfadado termo “incorporação”, adotando dali para a frente o vocábulo “psicofonia”, honrando o nobre codificador, pai e criador da palavra em questão.  n

 

Uma viagem curiosa

 

12.  Estávamos no ano de 1954. Havíamos ido passar alguns dias em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, porque Chico necessitava realmente de um período de descanso. Ennio nos acompanhava.

Chico havia nos dito que aproveitaria o passeio para visitar amigos que há muito não via.

No trajeto até Angra, paramos em Barra do Piraí para rever Sebastião Lasneaux. Depois, passamos a tarde em Resende, onde intencionávamos conhecer a cidade. Vivia ali um amigo de Chico, que correspondera-se com ele 20 anos antes e que não conhecia fisicamente.  n

Já nos habituáramos com seu insólito viver e, mesmo assim, perguntamos-lhe se ao menos sabia o endereço de tal amigo. Respondeu-nos:

— Conheço a rua e a casa! Às vezes, amigos espirituais me trazem aqui!…

E lá fomos os três.

A casa era bonita, com lindo jardim. Tocamos uma sineta e uma senhora idosa recebeu-nos ao portão. Chico identificou-se e abraçaram-se, sorrindo e chorando.

— Ah, querido benfeitor! Temos sentido muito a sua ausência. Ele anda muito doente, estranho! Os médicos não conseguem definir um diagnóstico!

Adentramos a moradia, decorada com muito bom gosto. Seguimos até o quarto do enfermo que, acamado, respirava com dificuldade. Estava pálido, translúcido, mal aguentando seus presumidos 40 anos. Ao ver-nos, tentou levantar-se e, nesse momento, Chico pediu que nos retirássemos, pois pretendia ficar a sós com o amigo.

A senhora levou-nos a outra sala, serviu-nos café e relatou que havia 2 dias escrevera a Chico. O serviço de correio naquela época era por demais moroso e, por isto, calculei que a correspondência só chegaria a Pedro Leopoldo na semana vindoura. — Sou católica. Entretanto, meu filho se interessa muito pela Doutrina Espírita. Temos todos os seus livros — referiu-se ao médium — com dedicatórias delicadas, escritas por suas próprias mãos! Sabia que viria aqui hoje. O bondoso Padre Victor me disse!…

Ao deixar-nos, por instantes, virei-me para Ennio:

— Professor — nós nos tratávamos assim por pura brincadeira — esse pessoal é “lelé da cuca”! Bem lhe falei que andar com o “Gustusura” não é nada fácil! Topa-se com o extraordinário a todo momento!!!

Permanecemos na saleta por umas duas horas. Para nossa surpresa, Chico surgiu abraçado ao doente, todo risonho, bem como a senhora. Palestramos ainda por mais alguns minutos e despedimo-nos.

Na rua, fugindo à regra imposta pela discrição, perguntei a Chico:

— Gostaria que respondesse a algumas perguntas!…

Ao que ele respondeu:

— Padre Victor é um Espírito muito bom e venerado nessas regiões e em todo o sul de nosso Estado… [v. “Chico no Monte Carmelo”] Quanto às perguntas, não as façam, por favor!

Calei-me. Chico sugeriu que pernoitássemos em algum hotel, talvez no Itatiaia. Um táxi conduziu-nos num percurso que durou pouco mais de uma hora.

O hotel era agradável, aconchegante, porém bastante incomum. Logo na entrada, no salão, cravado no mármore da lareira, havia o símbolo do Comunismo — a foice e o martelo. Nas portas de todos os pequenos apartamentos, inscrições a óleo de trechos evangélicos. Tocou-nos um quarto, com 3 camas, de porta delicadamente pintada com a inscrição: “E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, perante Deus e os homens” — Lucas, 2.52. Na parte de dentro, uma citação de Marcos 14,34: “Minha alma está triste até a morte! Ficai aqui e vigiai.” Depois de instalados, Chico aconselhou-nos a ter cuidado com as palavras.

Pela manhã, Ennio e eu fomos surpreendidos por Chico, completamente pronto e alegre, que nos acordara convidando-nos para um passeio. Olhei o relógio: eram 5:30 da manhã, um frio horrível! Mas lá fomos os três, caminhando por veredas desconhecidas, em busca de uma cachoeira.

O local era majestoso! Assentamo-nos numa grande pedra e Chico, em tom coloquial, informou-nos da presença de vários Espíritos — homens, mulheres e crianças — num ritual. Perguntei:

— Eles nos veem, Chico, registram nossa presença?

— Emmanuel esclarece que são Espíritos simples, ingênuos. Pelo nosso calendário, poderíamos dizer que encontram-se ainda no século XV, no mundo que lhes é próprio. Nós não existíamos. Eles não nos veem e encontram-se em fase evolutiva bem acanhada. São índios que habitavam estas glebas. Estão, sim, meus amigos, completamente nus, pelados! — Chico olhou-nos de forma gaiata. — Não é esta a sua pergunta mental? Meio sem graça, falei:

— Virgem! Com esse frio horroroso?!?

Compreendemos perfeitamente a situação daqueles Espíritos. No mundo espírita, há a superposição de dimensões, de locais, de estados mentais. Cada um se situa na esfera mental que lhe é devida.

Ficamos ali até o começo da tarde, retornando ao hotel para o almoço. Como a saída do ônibus para Angra facultava-nos um bom par de horas livres, fomos visitar uma igreja muito antiga, que nos chamara a atenção.

As construções seculares fascinavam-nos. Nelas havia, muitas vezes, uma atmosfera muito agradável, acolhedora e de um suave encantamento.

Tão logo adentramos a igreja, percebemos em nosso querido companheiro expressões nossas muito conhecidas. Seus passos tornaram-se lentos, de aspecto introvertido. De quando em quando, pequeninos movimentos labiais e manuais, quase imperceptíveis, apresentavam-se. Pedi ao Ennio que o deixasse caminhar só. Assim, percorremos todo o interior do lugar.

Nossos passos nos levaram a um pequeno salão, onde avistamos imagens e estatuetas antigas, muito bonitas. Havia ainda uma mesa grande ao centro, ladeada por 12 cadeiras altas, entalhadas. O teto do salão era todo pintado com motivos evangélicos. Uma senhora simples cuidava da limpeza de enorme e belo móvel, todo trabalhado em relevos. Chico pôs-se a conversar com a mulher, que era comunicativa, bem falante e informada sobre tudo.

— Ah, meu bom senhor, o Padre Bulcão era um santo! Era pai de todos nós! Quando morreu, houve o enterro mais bonito de toda a redondeza. Veio gente de toda parte. Ele está no céu, olhando por nós, os seus filhos!

Já a caminho de Angra, Chico, todo feliz, deu-nos notícias de suas observações:

— Que bom e santo espírito é o Padre Bulcão! Acolheu-nos fraternalmente à porta do templo e acompanhou-nos durante toda a nossa visita! Havia muitos espíritos ali presentes. Gente simples, humilde, alguns escravos… Uns, conscientes, sob a orientação do Padre Bulcão, ministravam auxílio e amparo. Porém, muitos estavam completamente inconscientes de seu estado espiritual. Mães e esposas ajudando seus entes queridos!… Pobre de um padre, tão jovem, completamente insano!… Um senhor reclamava, de forma desagradável, ao bom irmão Bulcão, do esquecimento a que lhe relegaram seus parentes. … E ao conduzir-nos à saída, agradeceu a visita e nossas preces, rogando a Deus que sempre nos ampare!

E enxugando as lágrimas, continuou:

— Há muitos anos não ia a uma igreja! Um lugar assim representa uma verdadeira colmeia de trabalho cristão.

Chegamos à noite em Angra dos Reis. Enquanto saímos, eu e Ennio, a passeio pela cidade, Chico preparou-se para dormir. Há em mim, realmente, um enorme carinho pelas velhas cidades. Sentia saudades da minha Tiradentes, de São João Del Rey e, ao percorrer as ruas, pedia a Ennio que atentasse para os casarões antigos, para as inscrições nas platibandas: “Esteja a gosto, 1830”, ou “Seja bem-vindo, 1855”! … Construções bonitas, com inúmeras janelas e sacadas, avançando por sobre as nossas cabeças.

Percebia-se que a cidade fora originalmente porto, na época, para o escoamento de café. Ainda é importante ponto de chegada e saída de muitas mercadorias, principalmente produtos siderúrgicos provindos da CSN — Companhia Siderúrgica Nacional —, de Volta Redonda. Angra dos Reis ainda era pequena, calma, sossegada e tranquila, sem as badalações e usinas radioativas dos dias atuais.

Na manhã seguinte — dia encantador — fomos os três visitar o Convento São Francisco, em ruínas. Fora construído em meados do século XVI ou XVII.

Enquanto caminhávamos, distraidamente, Chico falou:

— Meu bom Ennio, creio que terá algumas surpresas hoje!

— Sr. Chico, Arnaldo e eu estamos repletos de surpresas e questionamentos desde ontem!!!

Mas Chico nada disse, deixando as surpresas acontecerem por si.

No cemitério do Convento, em velhas lápides, gastas pelo tempo, quase que destruídas, Ennio encontrou os nomes de seus avós paternos e maternos! Emocionados, seguimos em frente.

Mais adiante, vislumbramos uma grande escada de madeira. Subimo-la com excessivo cuidado, pois, em certos pontos, a madeira apodrecia ou consumia-se ao apetite voraz dos cupins. Deparamo-nos com um grande salão. Um lugar muitíssimo estranho! Chico tornara-se lívido, tenso. Em voz baixa, mas firme, convidou-nos à retirada imediata. Concluímos que a psicosfera local era má, perniciosa e, conhecedores da sensibilidade psíquica e de suas reações a certas circunstâncias, acatamos-lhe o convite, sem demora.

Fora do ambiente umbroso, avistamos, não muito longe, a boiar nas águas preguiçosas da baía, uma pequena lancha. Havíamos preparado um bom e farto farnel, já dispostos a nos aventurar por uma deserta e graciosa ilha, nossa velha conhecida.

A lancha levou-nos até a pequenina porção de terra macia e velozmente. O azul do céu resplandecia nas águas cristalinas, o sol refletia seus raios quentes e estes pareciam milhares de diamantezinhos flutuantes. Despedimo-nos do condutor, obtendo dele a promessa de nos buscar algumas horas mais tarde.

Enquanto nadava, exercitando meu corpo nas ondas espumantes, Chico e Ennio conversavam alegremente, com as calças dobradas até os joelhos, como duas crianças, patinando nas marolas. Foi uma tarde memorável, pois pude ver Chico descansado e feliz, como há muito não via.

Por volta das 16 horas, fomos surpreendidos por uma repentina mudança de tempo. Céu e mar confundiam-se num negrume assustador! O barqueiro demorava e as ondas gigantescas e espessas invadiam com fúria a pequena praia, antes tão serena. Um temporal desabou impiedoso e nada mais víamos. Ouvíamos apenas o barulho do mar querendo nos engolir e, ao longe, o som abafado do barco que tentava aproximar-se. Tive a impressão de ter vivido meio século, tamanha a demora, tamanho o esforço do homem para nos salvar de tão horrível situação.

Com muito custo, embarcamos. O barqueiro, aturdido, rezava. Desesperado, perdera o rumo, temia os recifes, as ondas, o vento! A pequena embarcação, frágil ante ao tormento, adernava violentamente, para todos os lados. O motor apresentou problemas, parando subitamente.

Chico, Ennio e eu, assentados juntos, os três, estávamos encharcados e nada dizíamos. O vento ululava freneticamente e só a nossa fé inabalável em Deus poderia ser o corolário de nossa salvação.  n

 

***

 

13.  A noite estava maravilhosamente linda! A chuva e o vento haviam varrido para longe as nuvens que ousaram esconder a abóbada celeste. Chico jantara pouco e estava introspectivo. Ennio havia se recolhido, alegando cansaço. Sozinho, pus-me a meditar sobre os acontecimentos da viagem.

Decidi procurar por Ennio que, àquela hora, já devia estar descansado. Analisamos as ocorrências do dia, os acontecimentos em Resende, as lições aprendidas no templo católico e a magnanimidade de Deus, que sempre nos atende as necessidades através de nós mesmos, considerando, é claro, o móvel dos desencarnados, como Padre Bulcão, por exemplo, que assiste fraternalmente seus paroquianos também fora do corpo físico, estendendo sua bondade aos irmãos na carne.

Tão absorvidos estávamos com os temas enfocados que nos assustamos com a presença inesperada de Chico. Afirmando bater por diversas vezes à porta e não tendo sido atendido, entrara. Nosso querido Chico era e é portador de exemplar educação, um grande respeitador da privacidade alheia e, mesmo entre os amigos, conservava a gentileza e a cordialidade, brindando-nos sempre com seu elevado espírito. Naturalmente, ele havia se refeito das últimas emoções, sentia-se bem, ao ponto de vir partilhar de nossas conversas.

Usufruímos de uma noite agradável e instrutiva, em que seu verbo bonito, suave e rico muito nos engrandeceu. Aconselhou-nos uma prece em conjunto e que nos mantivéssemos em meditação construtiva. Emmanuel ia manifestar-se. Saudou-nos, como lhe era peculiar:

— “Meus diletos e caríssimos amigos! Que o Senhor e Mestre se compadeça de nossas necessidades! Devemos estar preparados para tarefas de assistência e enfermagem espiritual!”

Mentalmente, perguntei se também no hotel iríamos nos ocupar de tais tarefas.

E o instrutor, de imediato, respondeu-me:

— “Sim, meu amigo. Aqui e em todos os lugares. Sejam quais forem, são lugares que o Senhor nos oferece para servi-lo.”

De repente, Chico assumiu ares estranhos. De pé, andando de lá para cá, pelo quarto, manifestava a presença de um capitão de navio posto a pique em combate, em mares angrenses — presumimos — por volta de 1808, 1810. Travara combate com corsários franceses. Demonstrava o cuidado com seus comandados, com a carga, com o inimigo. Dava ordens: — “Atirem!… Carreguem os canhões!… Coragem!…”

— E uma grande preocupação com a invasão das tropas napoleônicas, em Portugal.

“Como enfrentaremos esta grande porta aberta, de mais de 6.000 léguas marítimas que temos no Atlântico?… Ah, Napoleão! Eu que tanto o admirava, não passas de um conquistador cruel e desumano!…”

Era triste ver sua aflição e amargura. Um homem do dever! Para nós, devia estar nos seus 40, 45 anos. E era culto e inteligente.

Após receber os eflúvios sublimes da fé e da prece, acalmou-se. Ouviu educadamente as explicações que lhe apresentamos, chorando por seus comandados, pela esposa e pelos filhos. “Que a Virgem Santa os tenha em sua guarda!… Como é possível, caros senhores? Amava tanto o bravo general Napoleão! Como pode se transformar nesse homem ávido de poder, nessa ave de rapina? Ele, que foi o libertador das raças oprimidas, que lutou pelos ideais sublimes de igualdade, fraternidade e Liberdade? Deus, nosso Senhor, ajudai-nos!”  n

Muitas outras manifestações se apresentaram aos nossos olhos: um juiz que vendera sua consciência, à época do Primeiro Império de D. Pedro I, proferindo sentenças iníquas para obter títulos de nobreza, fortuna e prestígio político; a farra dos franciscanos, que na ganância, luxúria e avidez por riquezas, matavam os viajantes que pernoitavam no convento para roubá-los; as bacanais, as missas negras, o furto de recém-nascidos nas senzalas e os rituais sacrílegos, onde os inocentinhos serviam de oferenda na prática da bruxaria, cujos sangues eram ingeridos.

Houve o desfile de uma horda de criaturas satânicas, sórdidas e cruéis. Seres em forma de répteis. Homens e mulheres que, por vício degenerativo de suas mentes, achavam-se travestidos, exibindo grandes órgãos sexuais masculinos ou femininos — fenômenos de Zooantropia — tão horríveis e nauseabundos!

Não me esqueço de um brioso, digno e humilde escravo, atado ao tronco de castigos, onde morrera de tanto ser chicoteado, e por que crime? Unicamente porque fora, boamente, suplicar a seu senhor, o Prior dos franciscanos, que não tomasse sua filha Aninha para pasto de sua luxúria. Como nos feriram a alma suas súplices palavras!

— “Oh, meu sinhô! Vosmicê é tão bão! Num faze essa coisa cum minha cuburquinha Aninha, não! Sinhô, vosmicê é um santo! Aninha é luz dos meus óio tão cansado de pintá as figurinha nos livro de vosmicê!…

Nós chorávamos. Orávamos! Demos-lhe as atenções devidas da caridade, mas era um problema difícil, delicado! Somente obtivemos solução, quando apresentamos-lhe Meimei, dizendo-lhe que, doravante ele era de sua propriedade, sendo que o havia comprado do Prior.

— “Uai, sinhá! Vosmicê tá beijando negro sujo? Aninha mora cum vosmicê?!? Num faze isso, não! Negro Pedro é que beija sua mão e as dos outros moço!” — de joelhos, Chico beijava minhas mãos e as de Ennio e continuava — “Vosmicê são gente de Deus. O veio Pedro inda sabe fazê sabão de bola cum alecrim pra ficá cheroso… Vô fazê, viu? É um chero tão bão!!!”

Com que alegria ele seguiu Meimei! Seguiu-a entre lágrimas e sorrisos, pronunciando o nome de sua amada Aninha!

Ficou-nos o hábito de tratar as pessoas, às vezes, por “vosmicê”, em pobre e humilde homenagem ao valoroso coração de pai do velho negro Pedro.

 

***

 

14.  O médium, deitado no chão do apartamento, desesperadamente cobria com as mãos os braços e a cabeça, urrando de dor! Um monodeísmo impressionante! Com algum esforço, preces, assistência magnética, palavras de socorro e carinho fraterno criamos em sua mente a ideia de estar na Santa Casa. Que éramos médicos e que ele se encontrava acamado, doente, mas iria, com as bênçãos de Deus, curar-se. Oramos o Pai Nosso, no qual nos acompanhou contritamente. Passados alguns instantes, deu um grande suspiro e, entre lágrimas de desespero, ódio e fé, piedade e nojo, relatou-nos a sua história. Era jovem ainda, pareceu-nos estar com 30 anos e era de nacionalidade portuguesa.

Eis seu relato:

— “Meu pai era morgado de… Barão de… Eu cá era o único varão de sua descendência. Nossa família amava a Igreja. Nossos ancestrais, do lado francês, acompanharam o senhor Barão Luiz de Boullion à Santa Cruzada…. Cães! Abutres! Conspurcadores do Altar! Sacrílegos!… O pai queria a mim, segundo as tradições de família, nas armas, onde, naturalmente, em novas terras, eu poderia aumentar as riquezas, o patrimônio familiar! Mas eu, desde pequeno, havia recebido de minha santa mãe ensinamentos de amor aos pobres e oprimidos, aos desamparados pela sorte e, firmemente, fui integrar a companhia dos pobrezinhos descalços de nosso pai São Francisco de Assis! Oh! Quantas lágrimas ledas e felizes desciam dos olhos de minha santa mãezinha! Ao ver-me vestido, eu, Jacinto, com as roupas do santo de Assis! Oh, meu doce pai São Francisco! Rogue a Deus que Sua vingança mande um raio destruir esse lupanar em que transformaram-lhe a casa! Bons amigos ajudaram que eu viesse servir a Deus, nestas santas terras! Quanta alegria! Quanta tristeza! Cá, compreendi que os poderosos eram mais cruéis que em Portugal! A volúpia da carne os animalizara. A sede de poder, da posse do ouro, tornaram-nos torpes, tiranos! E com a alma prenhe de vergonha e de humilhação, vi com meus próprios olhos, ouvi com meus próprios ouvidos que tudo era infinitamente exacerbado na casa de Deus! A luxúria, a sodomia e a degradação da alma e do corpo ativavam condições maiores que em Sodoma e Gomorra. Oh, senhores, por quem são, peçam a Deus a Sua vingança! … Querem me apedrejar!… Diz-me o irmão confessor que nós somos puros, representamos Deus na Terra e tudo podemos fazer!” — e ria, sardônico e lascivo. — “Tentei a fuga! Quis ir à corte, denunciá-los. Apanharam-me… Oh, acudam-me! Jesus de minha santa mãezinha, ampara-me! Ampara-me!…

Era dolorosíssimo seu desequilíbrio mental. Ignorava que fora apedrejado, o que explicava o gesto de proteger a cabeça. Intercedemos junto aos nossos benfeitores, em seu auxílio. Mas fomos esclarecidos que duas pessoas foram encontradas mortas de forma horrível por causa da loucura de Jacinto. E uma outra, coitada, ficou “doidinha da silva”. Perambulava pelas ruas, sem destino certo, dizendo ser o dono de tal convento. Outras vezes, punha-se a celebrar missas, falando em Latim. Perseguia senhoras, falando em Francês. Um dia, foi achado morto na praia, onde afogara-se.

Depois disso, nunca mais voltamos a Angra.

 

***

 

15.  Nessa fonte admirável das medianimidades de nosso Chico, há um fator que sempre me deixou pasmado: sua clarividência. O simples toque das mãos, o ato de palestrar, desencadeava, digamos assim, o desenrolar de fatos e cenas de passadas existências ou o conhecimento de pensamentos ou estados emocionais do interlocutor do momento. Todo diálogo era simplesmente magistral! Quantas e quantas confirmações, no que diz respeito a outras vidas, obtivemos através destas comunicações mediúnicas.  n

Deu-se comigo o seguinte fato:

Chico possuía entre suas relações amigas um casal muito distinto. Visitavam-se constantemente.

Certa vez, acompanhei-o à casa deste casal. Apresentou-me, atribuindo a mim valores muito além dos reais.

Tendo o amigo adoecido, Chico recomendou-me assisti-lo duas vezes por semana, fluidoterapicamente, tarefa esta que já vinha exercendo há algum tempo, com outros enfermos. Assim, dei início à visitação.

Um belo dia, alguém me procurou, colocando em minhas mãos um polpudo cheque, a segredar: — “Sei que é amigo de C… Vista-o duas vezes por semana. O cheque é seu. Peça ao seu amigo…” — e confidenciou-me certo assunto.

Preguei, graças a Deus, a mais linda mentira! Jamais me envolveria em tais enredos, mas fui ao tal endereço, cujos moradores nem conhecia. Conhecia, sim, D. Maria, lá empregada, minha conhecida e companheira no Centro Espírita “Luz e Humildade”. Eu entrava e saía pela porta de serviços, ficando lá o tempo necessário para as orações e passes que ela me solicitava.

A pessoa interessada e articuladora, tomando conhecimento do fato e vendo que efeito nenhum surtira, olhou-me de forma expressiva percebendo que seria inútil insistir. Cessou o assédio à minha pessoa, indo-se embora, “cuspindo fogo”. Era uma quarta-feira.

Dias depois, em casa de Chico, almoçávamos eu, Clóvis e Dr. Teodoro Vianna. Zamira, amiga querida, filha de coração de Luiza, adentrou a cozinha e entregou a Chico um envelope, dizendo: — “O portador já foi-se embora:

Chico pediu-nos licença, abriu o envelope, olhou-me singularmente e falou:

— Meu jovem, você está liberado para falar mentiras às quartas-feiras! Nosso amigo agradece a colaboração. Ele seguirá numa prolongada viagem ao estrangeiro, pois sente-se bem melhor de saúde.

Apalermado com o insólito, engasguei com a comida. Chico nada contou aos amigos o porquê de suas palavras. Nem eu também.

 

Casos de Psicometria

 

16.  Eu havia acabado de ler “Enigmas da Psicometria”, de Ernesto Bozzano. Esse tipo de faculdade medianímica, onde o médium em contato com determinados objetos toma conhecimento de tudo que os envolvera, sempre me impressionou. Em nossa alma querida, tenho várias observações sobre o fato.  n

Uma ocasião, presenteei Chico com uma joia. Um broche, de ouro e ametista, feito com um par de alianças que pertencera à minha mãe, e que fora confeccionado sob encomenda para Meimei, na época minha noiva. Era um ornamento de grande estima para mim. Entretanto, nada comentei com Chico.

Ao ofertá-lo ao amigo, reparei que o tocava curiosamente, rodando-o entre os dedos, passeando, com o tato, seu desenho, forma e reentrâncias.

Depois de um certo tempo, Chico falou:

— Arnaldo, meu amigo, este objeto tem histórias! Histórias de sua querida mãe, histórias de Meimei! Fale-me sobre ele!

Como sempre, Chico me surpreendera com seus conhecimentos espíritas. Tudo que eu sabia sobre o broche, o médium já sabia de antemão, ou melhor, soube pelo simples contato de suas mãos abençoadas!

 

***

 

17.  Uma de nossas tarefas, junto a Chico, era de organizar toda a correspondência que, diariamente, chegava à sua casa. Um número enorme de cartas, das mais diversas procedências, dos mais diversos tamanhos, cores e espessuras. Algumas subscritas à máquina. Outras, manualmente. Ficávamos horas a fio, eu, Ennio e Chico, naquela atividade de separá-las, conforme seu conteúdo.

Enquanto eu e Ennio abríamos envelope por envelope, classificando assunto por assunto, Chico apenas tocava as cartas, sem sequer abrir os invólucros. Eu achava aquilo tudo muito estranho e deduzia ser correspondências de pessoas amigas, às quais Chico conhecesse a letra. Que nada! Muitas delas estavam datilografadas, o que tornava remota a possibilidade.

Chico as separava, colocando sobre elas mensagens concernentes ao solicitado. Algumas, colocava no bolso do paletó, levantava-se da mesa, pedindo-nos licença para que pudesse respondê-las.

Através da Psicometria, Chico pode auxiliar e servir seus semelhantes. Mesmo à distância, pois fez das suas as mãos da caridade.

 

***

 

18.  Jofre Leles, sobrinho do estimado professor Cícero Pereira, ao retornar de uma viagem a Teófilo Otoni, encontrou, por acaso, às margens do Rio Mucuri, restos do que havia sido uma espada: suas copas com uns dez centímetros de lâmina já bastante enferrujada e carcomida pelo tempo.

Ele contou que, desde o achado, vivia sonhando com lutas sangrentas, soldados guerreiros, espadas e tudo o mais. Bastante impressionado, resolveu procurar Chico para uma conversa em torno do assunto. De espada na mão, melhor dizendo, apenas um pedaço dela, relatou ao médium amigo o ocorrido. Chico pegou o objeto, sem nem mesmo olhá-lo detidamente.

 Limitou-se a tocá-lo, devagarinho, como se naquele gesto extraísse toda a sua história. Uma verdade, pois, sem demora, Chico falou-lhe:

— Capitão Jofre, esta espada lhe pertence há muito tempo. Por volta de 1840, você, nas vestes de um capitão da milícia mineira, guerreou bravamente na cidade de Filadélfia, hoje Teófilo Otoni, durante sua revolução, a chamada Revolução Liberal.

Na refrega, foi ferido e a espada lá ficou!

Jofre, espantado, analisava a novidade, sem saber se acreditava ou não nas palavras de Chico. Este, percebendo-lhe a surpresa e a dúvida, informou que, no pedaço de lâmina oxidado, estava gravada sua insígnia de coronel de 100 anos atrás, a mesma que ele usava na atualidade, como capitão da Polícia Militar que era.

Jofre, ao chegar em Belo Horizonte, tudo fez para limpar o metal envelhecido, a fim de certificar-se, de uma vez por todas, da veracidade da história.

E debaixo de tudo que cobria o aço brilhante, lá estavam duas pequeninas palavras. Duas palavras latinas que eram a sua insígnia: HONOR E FIDES [Honra da fé]. Duas palavras que resumiram e atestaram a capacidade psicométrica do médium Chico Xavier.  n

 

E para terminar…

 

19.  Nosso Chico transferira-se para Uberaba. Ennio havia sugerido que ocupássemos as tardes de sábado em tarefas fraternas. Iniciamos as visitas aos enfermos, condicionando que, às 18 horas, lancharíamos em minha casa.

Certa tarde, deparamo-nos com um problema difícil e bastante delicado, o que nos causara atraso, fazendo-nos chegar em casa muito além da hora marcada.

Neuza, minha querida, tolerante e paciente esposa preparou-nos caprichosamente o lanche. Eram momentos inesquecíveis! Ennio sempre elogiava-lhe a delícia dos quitutes.  n

Moyrinha, minha filha adorada, abraçava-se ao tio Ennio e à mesa, como sempre, assentava-se em suas pernas.

Como justificativa pela demora em excesso, relatei à Neuza as dificuldades com o processo obsessivo apresentado durante o atendimento da tarde. E que não sabíamos o que fazer. Ponderamos que se Chico estivesse na cidade, perto de nós, sua assistência fraterna e orientação amiga seriam de inestimável valor!

Ennio olhou-me e, como era-lhe característico, esfregou energicamente as mãos, abaixou-se e colocou Moyra no chão. Ainda agachado, com voz triste e saudosa, lamentou:

— É, querida Neuza, com a mudança de nosso querido Chico para Uberaba, Arnaldo e eu estamos como dois pássaros de asas quebradas! … Nem voos rasteiros sabemos fazer!…

Havia lágrimas em seus olhos. Em nossos olhos. Nos olhos de todos daquela casa.

Ennio se fora. Neuza, no quarto, orava com Moyrinha. Eu, assentado na sala silenciosa, meditava. O amigo estava tão distante! As dificuldades da tarde, a rolança do tempo trouxeram-me à memória todas as lições recebidas.

Com saudades, lembrei-me de meus questionamentos, quando lhe indagava: — “Meu querido, li ou passei por “tal” experiência e estou com dificuldades em compreender”. — Olhando-me, dizia: — “É isso mesmo! Em “tal” livro, “tal” capítulo, você encontrará subsídios que lhe serão muito úteis!”

Quase sempre, ficava azedo com tais respostas. Mas o sábio mudo — o tempo — foi-me ensinando a metodologia do caríssimo amigo. Sua atitude era aquela para que eu não ficasse com obstinação mental quanto às respostas prontas. Que eu raciocinasse e procurasse o caminho com meus próprios passos e não ficasse na sua dependência.

Sempre perguntava sobre minhas leituras, minhas dúvidas. Quando não me lembrava do assunto, o recordava e pedia que eu falasse sobre ele. Ouvia-me e apontava outros ângulos de enfoque. Incentivava-me e indicava exemplos, reportando-se aos ensinamentos que lhe foram ministrados pelos queridos benfeitores da Espiritualidade Maior. Ensinou-me também o hábito de orar e confiar na Providência Divina! … Rememorando tudo isto, levantei-me e fui buscar os livros para a elucidação do problema obsessivo que tinha em mãos.

É tristemente comum ouvir pessoas estranhas ao nosso meio e — infelizmente — de companheiros de ideal espírita expressão do tipo: “Chico Xavier é uma pessoa de poucas letras.”

Que tolo engano! Chico é portador de uma inteligência magnífica e de uma cultura multiforme! Sua inter-existência com os admiráveis mentores espirituais, sua dedicação aos livros, sua capacidade incrível de recordar vidas passadas, tudo isto, adicionado a uma vontade disciplinada, dotaram-no de um cabedal de cultura geral e evangélica extraordinário! Acrescenta-se-lhe ainda uma humildade e singeleza inatas!

Acredito, sinceramente, que assentam-lhe como luva as palavras de Paulo de Tarso, aos amigos de Corinto: “A minha palavra, a minha pregação não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de espírito e poder”. — 1ª aos Cor. 2,4.

Devo a Chico meu amor ao estudo e à meditação. Ele ensinou-me a amar e respeitar os gigantes missionários e fiéis servos de Jesus: Allan Kardec, Paulo de Tarso, Léon Denis e tantos e tantos seareiros do trabalho, da fraternidade, do Evangelho e da fé.

Para terminar minhas pobres letras, insuficientes para o esboço dessa figura tão humana e amorosa, tão simples e humilde, tão boa, achei, com todo respeito e propriedade, que cabem a ele as palavras do historiador evangélico João, 21,25 : “E se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem o mundo poderia conter os livros que se escrevessem!”…

 

.Arnaldo Rocha

 


[1] Geraldo, psicofonicamente, transmitia ao espírito manifestante esclarecimentos de Dr. Cornélio Millward.

 

[2] Irma Castro. Nasceu cm 22 de outubro de 1922, em Mateus Leme, Minas Gerais. Casamo-nos quando ela estava com 22 anos de idade. Desencarnou em 1 de outubro de 1946, aos 24 anos, em Belo Horizonte, vítima de nefrite crônica. Logo após seu desenlace, manifestou-se espiritualmente a Chico Xavier, cujas mensagens psicográficas deram origem a inúmeras obras de cunho evangélico-doutrinário. É o espírito iluminado “Meimei”, alcunha carinhosa dada ainda em vida física por mim — uma expressão chinesa que significa “a noiva bem-amada”.

 

[3] “No sonambulismo, o Espírito está na posse plena de si mesmo. Os órgãos materiais, achando-se de certa forma em estado de catalepsia, deixam de receber as impressões exteriores. Esse estado se apresenta principalmente durante o sono, ocasião em que o espírito pode abandonar provisoriamente o corpo, por se encontrar este gozando do reforço indispensável à matéria. Quando se produzem os tatos do sonambulismo é que o Espírito, preocupado com uma ou outra, se aplica a uma ação qualquer, para cuja prática necessita de utilizar-se do corpo. Serve-se, então, deste como se serve de uma mesa ou de outro objeto material no fenômeno das manifestações físicas, ou mesmo como se utiliza da mão do médium nas comunicações escritas. Nos sonhos de que se tem consciência, os órgãos, inclusive os da memória, começam a despertar. Recebem imperfeitamente as impressões produzidas por objetos ou causas externas e as comunicam ao espírito, que então, também em repouso, só experimenta, do que lhe é transmitido, as sensações confusas, amiúde, desordenadas, sem nenhuma aparente razão de ser, mescladas que se apresentam de vagas recordações, quer da existência atual, quer de anteriores. Facilmente, portanto, de compreender, os sonâmbulos nenhuma lembrança guardam do que se passou enquanto estiveram no estado sonambúlico e porque os sonhos de que se conserva na memória as mais das vezes não têm sentido. Digo as mais das vezes, porque também sucede serem a consequência de lembrança exata de acontecimentos de uma vida anterior e até, não raro, uma espécie de intuição do futuro. ”

 

[4] Dr. Rômulo Joviano era diretor da Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura, em Pedro Leopoldo. Aliava à grande cultura e integridade moral os melhores sentimentos de fraternidade, que lhe caracterizavam a nobre formação doutrinária. Chico deveria seguir a Uberaba para encontrar-se com ele, em função da realização de uma Exposição agropecuária.

 

[5] Fazenda Modelo: Departamento da Inspetoria Regional do Serviço de Fomento da Produção Animal do Ministério da Agricultura – Seção Minas Gerais.

 

[6] Clóvis Tavares, de Campos, Rio de Janeiro, e Wallace Leal Rodrigues, de Araçatuba, São Paulo, foram admiráveis amigos que Jesus me deu através de Chico. Foi Clóvis que ensinou-nos a chamar o médium de “nossa alma querida”. Clóvis Tavares desencarnou em 13 de abril de 1981 e Wallace Leal Rodrigues, em 13 de setembro de 1988.

 

[7] Para aqueles que conhecem o Centro Espírita Luiz Gonzaga, é a saleta onde se encontra o quadro a óleo do pintor Del Pino Filho, retratando Emmanuel. A respeito do retrato, eis um fato muito interessante:

Del Pino Filho fora convidado a visitar a cidade de Pedro Leopoldo, com a finalidade de conhecer Chico em pessoa e, consequentemente, segundo sua, indicações e orientações, ilustrar a figura de seu mentor espiritual Emmanuel.

Até então, Chico era a única pessoa que “c onhecia” — e muito bem — os traços do ex-senador romano.

Conta-nos Chico que Del Pino o procurara em sua residência, momentos antes de iniciar-se uma reunião pública no Centro Espírita Luiz Gonzaga, para a qual deveria dirigir-se. Impossibilitado de encontrar-se com o médium como desejava, Del Pino seguiu para o Hotel Diniz, não sem antes combinar com o amigo um novo encontro.

Após desincumbir-se de suas tarefas espirituais. Chico imediatamente seguiu para o hotel, onde o pintor o esperava com suas telas e paletas.

Adentrando o quarto, o médium deparou-se com o busto de Emmanuel, totalmente esboçado sobre a tela branca!

Del Pino Filho havia sido inspirado por outro artista, desencarnado, amigo de Emmanuel, o que possibilitou a feitura do retrato com fidelidade e rapidez impressionantes.

O fato foi amplamente divulgado na época em livros e revistas de todo pais.

Maria João de Deus nasceu em Santa Luzia, Minas Gerais. Desencarnou em 29 de setembro de 1915, quando Chico ainda era criança, com 5 anos de idade. Foi seu primeiro contato espiritual.

 

[8] Todos sabemos que a recepção mediúnica de um romance não se restringe à aplicação da psicografia mecânica. A tarefa em si mesma é muito delicada e, até em certas ocasiões, melindrosa. O autor espiritual possui um leque de opções, a saber: a) o guia espiritual atua sob o psiquismo do recipiente, em processos delicados e sutis à nossa compreensão, no sentido de lhe reavivar os setores mnemônicos espirituais, induzindo-os a refletir na consciência atual, cenas, fatos, episódios, etc., dos quais deseja servir-se; b) induz, plasma no consciente do recipiente os elementos que irá movimentar na obra que pretende executar; c) provoca a exteriorização consciente ou inconsciente da alma do médium, conduzindo-a aos locais que deseja transportar para o livro. Todavia, os itens a e c podem perfeitamente, às vezes, provocar no recipiente uma espécie de reação em cadeia que o levará a uma revivência profundamente dolorosa. Não nos esqueçamos que cada consciência é um mundo de experiências, pois somos inter-existentes. Recordemos a leitura do 19º capítulo de “O Livro dos Médiuns”, a respeito de seu papel nas comunicações espirituais. O médium não é simplesmente um aparelho mecânico. E, portanto, queiram ou não, é um co-autor da obra, exceto em casos de pneumatografia.

 

[9] Neusa Xavier Lerroy, casada com Adalberto Lerroy, deixou dois filhos: Paulo Estevão e Cidália. Irmã de Chico por parte de pai, em segundas núpcias com Cidália Batista.

Vejamos a síntese genealógica de Chico Xavier: seu pai, João Cândido Xavier, casou-se a primeira vez com Maria João de Deus. Tiveram 9 filhos:

Maria Cândida, casada com Francisco Rodrigues, que por sua vez tiveram 6 filhos; Maria da Glória, José, Áurea, Raymunda, Marta e Elvira, esta adotiva;

Luíza, casada com Lindolpho José Ferreira, que por sua vez tiveram 3 filhos; Maria Lúcia, Maria Alice e Luciano;

Carmosina, casada com Nelson Pena, que por sua vez tiveram 5 filhos: Nelson, Adriano, Nelma, Elma, Mauro;

José, casado com Geni Pena, que por sua vez tiveram 2 filhos: Emmanuel Luiz e Flávio Renaud;

Maria de Lourdes, casada com José Fernandes, que por sua vez tiveram 6 filhos: José, Ilca, Delza, Mariza, Alcione e Waldir;

Francisco Cândido Raymundo, casado com Maria Pena que por sua vez tiveram 2 filhos: João Herculano e Ana Maria;

Maria da Conceição, casada com Jacy Pena, que por sua vez tiveram7 filhos: David, Sidália, paulo Pedro, Amauri, Francisco, Cláudio e Ismael;

E Geralda, csada com Pedro Quintão, que por sua vez tiveram 4 filhos: Radamés, José Cândido, Alzira e Nelma.

João Cândido Xavier casou-se pela segunda vez com Cidália Batista e tiveram 6 filhos:

André Luiz, casado com Edith Malaquias, que por sua vez tiveram 2 filhos: Ademir e Ângela;

Lucília, casada com Waldemar Batista, que por sua vez tiveram 2 filhos: Wagner e Pablo;

Neusa, casada com Adalberto Lerroy, que por sua vez tiveram 2 filhos: Paulo Estêvão e Cidália;

Cidália, casada com Francisco Teixeira Carvalho, que por sua vez tiveram 2 filhos: Maryrose e Willer;

Doralice e Joáo Cändido Filho.

 

[10] Desde os meados do ano de 1948. os boníssimos benfeitores espirituais Dr. Cornélio e Monsenhor Horta deram-me a responsabilidade de dirigir e atender às tarefas de desobsessão no pequeno Grupo Espírita Dalva de Assis, em Belo Horizonte. De vez em quando, nosso Chico brindava-me com sua presença, participando ativamente das tarefas de enfermagem espiritual através da mediunidade psicofônica. Era uma alegria geral quando isso acontecia! Após a reunião, por sua palavra simples e carinhosa, eu recebia uma porção de informações e esclarecimentos quanto a tarefa. Entretanto, no íntimo, sentia que o móvel de sua presença era também para observar e analisar minha sincera atuação junto aos tristes enfermos mentais, vítimas de si mesmos ou do desrespeito às leis do amor. Ele observava-me e eu procurava, cada vez mais e melhor, cumprir com humildade e paciência meus sagrados deveres. Paulo de Tarso, em sua primeira carta aos condiscípulos de Corinto, houve por bem grafar este sábio conselho: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas me convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” 1 Cor. 6,12.

 

[11] Naquela época, eu já possuía as seguintes tarefas: aos domingos, pela manhã, vinha a Belo Horizonte para a aulinha de estudos doutrinário-evangélicos na escolinha Crianças de Jesus, no Centro Espírita Luz e Humildade. Era tão bonito! Crianças de 4 a 13 anos iam receber instruções! Que Deus abençoe as queridas amigas Corina Prado e Zinia Orsini Pereira por toda a beleza de suas almas encantadoras, suprindo minhas deficiências e bisonhices com as crianças. Às quartas-feiras, participava de reuniões no Centro Espírita Dalva de Assis. Há algum tempo, organizara um pequeno grupo, com amigos muito diletos, para estudos doutrinário-evangélicos, exclusivamente. .As obras da Codificação e o Evangelho eram as bases de toda a nossa atenção. Um quê de saudade há em nós! Quanta fraternidade! Cada um dava o melhor de si e, uma vez por mês, as alegrias eram exuberantes! Nosso Chico ia estudar conosco. Muitos dos condiscípulos já retornaram à pátria espiritual: Henrique Kemper Borges, Ovídio Correia da Silva, Virgílio Gomes de Almeida, Ennio Santos, Osvaldo Martins Ferreira, Ademar Nogueira, Ademar Dias Duarte, José Flaviano (Zeca) Machado e Clóvis Tavares. E aqui morejam: Martins Peralva, Walter Maia Faria, José de Melo Messias e as caríssimas amigas Eugênia Cavalcanti Borges, Eny Viana Faria, Laura e Elza Vieira.

Este foi um grupo diferente, altamente democrata. Ninguém o presidia. Sorteava-se, antes da reunião, o nome de quem iria coordenar as tarefas. Lia-se o tema e cada companheiro emitia sua forma de entendimento. O coordenador comentava todas as ideias, emitia as suas e casualmente abria-se o Evangelho. Era incrível: 90% das vezes o assunto encontrado dizia objetivamente ao tema da Codificação que fora estudado. Mas havia uma exceção ao sistema. Quando Chico aparecia, muitas vezes utilizava-se do quadro negro. Foram lições memoráveis e primorosas! Quantas e quantas vezes Chico fez hiatos em suas exposições para nos avisar: — “Nosso benfeitor Emmanuel está presente Procurarei transmitir seus pensamentos sobre o tema.” — e isto com a maior naturalidade! Quantas e tão lindas dissertações de instrutores e amigos espirituais nós recebemos! Que saudades!

Terminadas as tarefas, íamos tomar chá em uma confeitaria na Av. Afonso Pena. Nosso amigo Peralva, bom observador que é, por diversas vezes, em artigos publicados em jornais doutrinários, difundiu o fruto dessas preleções proferidas pelo querido Chico nestas reuniões. Outrossim, nos dedicávamos às tarefas de materialização, com a fraterna colaboração de Fábio Machado. Nosso Chico, por motivos alheios à questão, por simples amizade, convidara o amigo e dedicado médium de efeitos físicos. O Sr. Fábio Machado, natural de Belo Horizonte, Minas Gerais, atuava no Centro Espírita André Luiz, acompanhado de Peixoto Lins, o Peixotinho, que por sua dedicação e amor à Doutrina, facultou-nos grandes experiências, as quais pudemos aplicar, com sucessos, nesse campo da mediunidade.

 

[12] No livro “Instruções Psicofônicas” (1955, F.E.B.), à página 9, explicação necessária, em rápidas letras, abordei a pequena história do grupo. Registro aqui profunda gratidão ao querido amigo Antonio Sampaio Jr., desencarnado em 1955, companheiro de primeira hora, que assumiu todas as despesas com a compra do terreno e da construção de sua modesta sede. Por outro lado, esclareço de forma clara e precisa uma questão surgida há algum tempo: nosso caroável Chico nunca se negou ao desempenho das tarefas de mediação junto aos nossos irmãos infelizes. Não se prestava somente à recepção da mensagem de encerramento das reuniões. Basta que se leia “Instruções Psicofônicas” e “Vozes do Grande Além”. Devo ainda ressaltar que seu exemplo de fraternal amor, de caridade, de verdadeiro sentimento cristão é que facultou-me, através de sua mediunidade psicofônica-sonambúlica, registrar as dolorosas e tristes manifestações de personalidades embrutecidas, animalizadas — manifestações zooantrópicas — de consciências tão enquistadas nas sombras mentais criadas por elas mesmas no crime, na crueldade e no fanatismo religioso. Seres total e completamente ensandecidos! Que Deus o abençoe por tanta abnegação!

 

[13] Ennio Santos: procedente do Estado do Espírito Santo. Sua atividade doutrinária desenvolveu-se no Grupo Meimei, da cidade de Pedro Leopoldo e no Lar de D. conceição, que abriga crianças necessitadas, instituição que procurava ajudar. Era filho de Ageu Pinto dos Santos e Eleonora Santos, tendo vivido grande parte de sua juventude no Asilo Deus, Cristo e Caridade, em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, fundado e dirigido pelo português Jerônimo Monteiro, abnegado seareiro espírita. Ennio Santos era um estudioso da Doutrina Espírita, o que o fazia seguro e equilibrado em suas dissertações.

 

[14] Alguns dos temas encontram-se nos livros “Instruções Psicofônicas” e “Vozes do Grande Além”. Ficamos profundamente agradecidos ao preclaro benfeitor espiritual Dr. Dias da Cruz, pela gentileza e bondade em trazer-nos sua experiência de fiel servidor do Excelso Mestre Jesus. Que ele o abençoe!

 

[15] Rubens Costa Romanelli era professor, escritor, poliglota e secretário de “O Espírita Mineiro”, jornal bimensal editado pela União Espírita Mineira. Colaborou na fundação do Colégio “O Precursor”, sendo seu primeiro diretor pedagógico. Foi um dos fundadores da União da Juventude Espírita de Minas Gerais. Desencarnou em 21 de dezembro de 1977, vitima de acidente automobilístico.

 

[16] Lico: Manoel Ferreira Diniz. Colega de serviço de Chico na Fazenda Modelo. Integrante do Centro Espírita Luiz Gonzaga, sendo, depois, seu presidente, com a saída de Dr. Rômulo Joviano.

 

[17] Gravei em fitas magnéticas certas reuniões. A palavra inicial e as explanações finais tiveram como autores os seguintes amigos e benfeitores: José Xavier, Meimei, Monsenhor Horta, Jésus Gonçalves, Calderaro, Áulus, Dr. Camilo Chaves, Dr. Efigênio Salles Victor, André, Emmanuel e André Luiz. Foram tarefas delicadíssimas, difíceis, melindrosas. Houve casos em que fazia-se necessária a regressão da memória no espaço/tempo e colhia-se 2 ou 3 vidas pregressas da personalidade comunicante. Procurava-se, dessa Forma, buscar as origens das causas para a facilidade de compreensão e entendimento dos efeitos. O sentimento da caridade impõe-me silêncio agora.

Desfilaram aos nossos olhos grandes dramas conscienciais. Páginas da História da Humanidade foram-nos apresentadas na realidade sem as censuras políticas ou religiosas: a Espanha da expulsão dos judeus, o drama das coletividades árabes, inquisidores e tribunais da Inquisição na Espanha e em Portugal, a Rússia de Catarina 11, as guerras contra os turcos, os jesuítas e dominicanos e suas organizações nas regiões trevosas, as guerras da Reforma e Contra-Reforma, o demonismo, as fogueiras inquisitoriais, o domínio espanhol nos Países Baixos, as guerras de Felipe, de Espanha com a França, o saque das tropas espanholas em Roma (os terços), a escravatura no Brasil, no primeiro e segundo impérios… Observávamos efeitos e ocorrências que nos deixavam pávidos: gritos, lamentações, cheiros nauseabundos, perfumes deliciosos, toque de sinos, fragor de batalhas… Tínhamos a ideia exata de estar num grande palco, ou melhor, num estúdio cinematográfico, em que cenas antigas eram revividas. A psicosfera às vezes era densa, difícil de se respirar! Vezes outras tão gostosa, tão linda! Esses acontecimentos foram registrados pelos nossos condiscípulos Ennio Santos e Francisco Carealho e também por amigos convidados por ordem dos benfeitores espirituais. Geralmente, aos domingos, quando tecíamos comentários e análises sobre as tarefas, nosso Chico dizia, dirigindo-se ora a mim, ora a Ennio: — “Há autorização para convidarmos C…” Oraram conosco: Badd Curi, Maria Philomena Alluotto Berutto, Clóvis Tavares, Joaquim. Alves, José Gonçalves Pereira, André Xavier, Pedro Quintão, José Martins Peralva, Ovídio Correia da Silva, Henrique Kemper Borges, Virgílio Gomes de Almeida, Ademar Dias Duarte, Theodoro Viana, Walter Maia Faria e Eny Viana Faria. Eu costumava comentar com o nosso Peralva: — Meu amigo, estamos cursando “Sorbonne”, nas matérias de Doutrina Espírita, mediunidade e contatos espirituais!

 

[18] “A mediunidade é um atributo peculiar ao psiquismo de todas as criaturas. A Doutrina Espírita é um curso de princípios morais, objetivando a libertação da alma humana para a Vida Maior” — Vozes do Grande Além, Francisco Cândido Xavier, Emmanuel (1957, F.E.B.) — Mediunidade e Espiritismo, Efigênio Salles Victor (Instrução 54, página 185)

 

[19] O mestre André Luiz, em seu excelente livro “Nos Domínios da Mediunidade”, trouxe-nos elementos admiráveis e indiscutíveis sobre o assunto.

 

[20] Sou verdadeiramente apaixonado por um belo transe mediúnico, quer seja a comunicação da personalidade espiritual ou anímica. A mediunidade, tão pobremente compreendida, é algo notável! Quanto devemos aos benfeitores sagrados, que tão bem a estudaram: Alexandre Aksakot, Gustave Geley, Gabriel Delanne, Léon Denis, César Lombroso, J. Herculano Pires, Hermínio C. Miranda, Yvonne Pereira, .Antonio J. Freire e Ernesto Bozzano. Que Deus os abençoe!

 

[21] Carlos Torres Pastorino: um dos mais atuantes espíritas de nosso tempo. Jornalista, escritor, professor de línguas na Universidade de Brasília, Distrito Federal. Foi padre, tendo estudado no Colégio Sacro, em Roma. .Abandonou a Igreja para casar-se. Dentre suas obras literárias, duas destacam-se pelo valor: “Técnica da mediunidade” e “Minutos de Sabedoria”.

 

[22] Dr. Antonio Wantuil de Freitas exerceu durante 27 anos, com rara proficiência e admirável descortínio, a Presidência da Federação Espírita Brasileira. Era sócio benemérito da União Espírita Mineira, por indicação da diretoria aprovada em reunião do Conselho Deliberativo de 18 de junho de 1955. Desencarnou em 11 de março de 1974.

 

[23] Tempos depois, a F. E. B. editou “Vozes do Grande Além”. Por um dever de consciência e gratidão, de honestidade e lealdade, registro aqui meus agradecimentos ao dileto condiscípulo Pacheco Silva, que sempre gentil e fraternalmente teve n trabalho de datilografar as páginas que originaram o livro.

 

[24] Sebastião Lasneaux militou em Barra do Pirai e era muito conhecido em Belo Horizonte, onde participou de várias “Semanas Espíritas”. Inúmeros estados conheceram-lhe a presença agradável, os belos sonetos que escrevia e que declamava nas festividades juvenis, encantando pela simplicidade e edificação de que se impregnavam os conceitos poéticos.

 

[25] Notei que Chico estava profundamente quieto. Pelo convívio, sabia que ele estava em contato com o Plano espiritual. Ao segurar as suas mãos, a guisa de reconforto, ele, baixinho, disse:

— Limite-se a orar. Depois, eu lhe conto.

O trajeto feito horas antes, de 30 a 40 minutos, demorou mais de 4 horas. Após o desembarque, caminhando para o hotel, Chico relatou-nos suas observações. Dois recém-desencarnados agarravam freneticamente as bordas do barco. Ele supôs que estavam pedindo socorro, quando Emmanuel lhe esclareceu:

— “São suicidas extremamente voltados ao mal. Estão tentando soçobrar o barco. Já tomamos as previdências devidas.”

Chico continuou o seu relato:

— Além desses, havia outros suicidas, uma verdadeira corte de seres monstruosos, e vítimas de assassínios que foram jogadas ao mar. A presença de Emmanuel e dos missionários da caridade levou-os a postos de socorro.

Chico falou que foram os momentos, até aquela época, mais difíceis para ele. Apesar de sua intervivência entre os dois Planos, ele jamais constatara dramas tão dolorosos.

 

[26] Iniciou-se assim uma temporada de tarefas, que se estendeu pelas 3 noites subsequentes à nossa estada em Angra dos Reis. Ditas tarefas repercutiram no “Meimei” bem umas 6 semanas, através de outros médiuns. Hoje, lamentamos a ausência do querido Ennio Santos, portador de uma memória invejável. Ennio retornou à pátria espiritual na década de 1970. Em mim, as lembranças esgarçaram-se com o tempo. E por caridade deleguei ao olvido as cena, tristes, dolorosas e cruéis que presenciamos.

 

[27] A querida e sempre lembrada Yvonne Pereira, que passara uns dias em casa de Chico, foi para mim uma seara sublime de observações e aprendizado. Quando a ouvia conversar sobre suas experiências. Yvonne era também excelente clarividente. Presenciei muitas vezes os conselhos e advertências de Chico a alguns companheiros e, consequentemente, a ocorrência do que poderiam ter evitado. Uma ressalva: Yvonne A. Pereira era portadora das mediunidades de clarividência, clariaudiência, da psicofonia, do desdobramento espiritual — exteriorização perispirítica sonambúlica — receitista homeopata, passista curadora, etc. Autora do famoso livro “Memórias de um Suicida”, desencarnou em 9 de março de 1984.

 

[28] “Enigmas da Psicornetria”, Ernesto Bozzano, 1965, F.E.B. — Tradução de Manoel Quintão.

 

[29] Jofre Leles, tempos depois, pesquisou os arquivos da Polícia Militar, encontrando dados confirmativos às informações dadas por Chico, inclusive seu nome e o grau de comando — coronelado — que lhe pertencera na época.

 

[30] Contraí em 1956 segundas núpcias com Neuza Tofani de Macedo. Deste casamento, tivemos uma filha: Moyra Tofani de Macedo Rocha.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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