Bíblia do Caminho  † Testamento Xavieriano

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Cartas e crônicas — Irmão X

 

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Oração diante do tempo

1 Senhor Jesus!

Diante do calendário que se renova, deixa que nos ajoelhemos para implorar-te compaixão.

2 Tu que eras antes que fôssemos, que nos tutelaste, em nome do Criador, na noite insondável das origens, não desvies de nós teu olhar, para que não venhamos a perder o adubo do sangue e das lágrimas, oriundo das civilizações que morreram sob o guante da violência!…

3 Determinaste que o Tempo, à feição de ministro silencioso de tua justiça, nos seguisse todos os passos…

4 E, com os séculos, carregamos o pedregulho da ilusão, dele extraindo o ouro da experiência.

5 Do berço para o túmulo e do túmulo para o berço, temos sido senhores e escravos, ricos e pobres, fidalgos e plebeus.

6 Entretanto, em todas as posições, temos vivido em fuga constante da verdade, à caça de triunfo e denominação para o nosso velho egoísmo.

7 Na governança, nutríamos a vaidade e a miséria.

8 Na subalternidade, alentávamos o desespero e a insubmissão.

9 Na fortuna, éramos orgulhosos e inúteis.

10 Na carência, vivíamos intemperantes e despeitados.

11 Administrando, alongávamos o crime.

12 Obedecendo, atendíamos à vingança.

13 Resistíamos a todos os teus apelos, em tenebrosos labirintos de opressão e delinquência, quando vieste ensinar-nos o caminho libertador.

14 Não te limitaste a crer na glória do Pai Celeste.

Estendeste-Lhe a incomparável bondade.

15 Não te circunscreveste à fé que renova.

Abraçaste o amor que redime.

16 Não te detiveste entre os eleitos da virtude.

Comungaste o ambiente das vítimas do mal, para reconduzi-las ao bem.

17 Não te ilhaste na oração pura e simples.

Ofertaste mãos amigas às necessidades alheias.

18 Não te isolaste, junto à dignidade venerável de Salomé, a venturosa mãe dos filhos de Zebedeu.

Acolheste a Madalena, possuída de sete gênios sombrios.

19 Não consideraste tão somente a Bartimeu, o mendigo cego.

Consagraste generosa atenção a Zaqueu, o rico necessitado.

20 Não apenas aconselhaste a fraternidade aos semelhantes.

Praticaste-a com devotamento e carinho, da intimidade do lar ao sol meridiano da praça pública.

21 Não pregaste a doutrina do perdão e da renúncia exclusivamente para os outros.

Aceitaste a cruz do escárnio e da morte, com abnegação e humildade, a fim de que aprendêssemos a procurar contigo a divina ressurreição…

22 Entretanto, ainda hoje, decorridos quase vinte séculos sobre o teu sacrifício, não temos senão lágrimas de remorso e arrependimento para fecundar o Saara de nossos corações…

23 Em teu nome, discípulos infiéis que temos sido, espalhamos nuvens de discórdia e crueldade nos horizontes de toda a Terra! É por isso que o Tempo nos encontra hoje tão pobres e desventurados como ontem, por desleais ao teu Evangelho de Redenção.

24 Não nos deixes, contudo, órfãos de tua bênção…

25 No oceano encapelado das provações que merecemos, a tempestade ruge em pavorosos açoites… Nosso mundo, Senhor, é uma embarcação que estala aos golpes rijos do vento. Entre as convulsões da procela que nos arrasta e o abismo que nos espreita, clamamos por teu socorro! 26 E confiamos em que te levantarás luminoso e imaculado sobre a onda móvel e traiçoeira, aplacando a fúria dos elementos e exclamando para nós, como outrora disseste aos discípulos aterrados: — “Homens de pouca fé, porque duvidastes?” (Mt)

 

.Irmão X

(.Humberto de Campos)

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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