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Caderno de mensagens — Autores diversos


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Encontro com Divaldo Pereira Franco

Nossos votos cordiais de muita paz. n

Profundamente sensibilizado, agradeço ao irmão e amigo Nestor Masotti, Presidente da Federação Espírita Brasileira, o seu testemunho de bondade e de estímulo, ensejando-me, no crepúsculo desta existência, a oportunidade das alegrias a que se refere o Evangelho de Jesus, quando o discípulo da Boa Nova procura seguir a diretriz traçada pelo incomparável Mestre. Transfiro aos bons Espíritos, que tiveram a misericórdia de utilizar-me, tudo aquilo que é agradecimento, emoção, para que eles continuem nos inspirando a todos, neste momento muito difícil que vive a sociedade terrestre.

Antes de adentrar-me na proposta que me foi apresentada, eu gostaria de conversar com os irmãos, as irmãs e os amigos, em um tom muito coloquial, considerando a gravidade da hora que atravessamos e as recomendações do ínclito Codificador quando, referindo-se aos vários períodos por que passaria a Humanidade depois do advento do Espiritismo, elucida que o quinto seria o da renovação social. Essa renovação social prevista por Kardec lentamente está se operando na Terra a duras penas, seja pelas questões político-econômicas que abalam o Planeta, seja pela necessidade de espiritualização, ou seja pelo que o Espiritismo poderá realizar junto às criaturas humanas e, consequentemente, junto às autoridades que administram os países, apressando o seu momento de chegada através da justiça social, que será o melhor recurso para diminuir a violência e a agressividade vigentes.

Recordo-me de um fato no qual participei, em companhia de Francisco Cândido Xavier, há mais de cinquenta anos, e que tem grande atualidade, para que nós, os espíritas, neste momento em que se nos abrem as portas da divulgação, não nos esqueçamos da fidelidade à Codificação centrada no Evangelho de Jesus.

Há uma tendência inevitável de afastarem-se as criaturas da vivência com os simples, os sofredores, as filhas e os filhos do calvário. O intelecto deslumbra, as posições relevantes fascinam e, naturalmente, em nossa condição de humanidade, somos atraídos pelo brilho efêmero das lâmpadas da projeção e, quando menos esperamos, distanciamo-nos, sem nos darmos conta do caminho reto, do dever, atraídos pelos diversos desvios, que se abrem, fascinantes, à nossa frente.

Não foi diferente o que aconteceu com o Cristianismo. A partir de Constantino, em 313, quando se lhe abriram as portas do Império Romano e o Cristianismo passou a experimentar cidadania, naturalmente começou também o ofuscar das suas luzes libertadoras da ignorância, da impiedade, do crime, dos desvios de conduta. A Mensagem cristã pulcra resistiu quase inalterada por aproximadamente trezentos anos. Suportou perseguição por quase três séculos, ofereceu mais de um milhão de mártires ao testemunho. O Espiritismo, porém, ainda não completou cento e cinquenta anos e, na sua estrada central, já notamos muitas veredas convidando a desvios perigosos, envolvendo e atraindo pessoas bondosas, sensatas, dedicadas, e que, por uma ou outra razão, se deixam atrair para esses caminhos mais curtos do fascínio e da projeção pessoal…

No ano de 1954, no mês de junho, eu me encontrava em Pedro Leopoldo. Como, na época, eu fazia viagens duas vezes por ano àquela cidade, na ocasião, no dia 20 de junho, ao terminarmos a reunião em que Chico Xavier psicografava, aos sábados à noite, depois do atendimento aos sofredores, nos arredores da sua cidade, ele me disse, enquanto caminhávamos na direção da residência do seu irmão André, que, naquela noite, experimentara um fenômeno muito especial. Estando desdobrado parcialmente, enquanto os Benfeitores psicografavam, havia recebido a visita de duas damas espanholas (encarnadas) que estavam recebendo a sua ajuda material durante a expiação redentora na atualidade, e vinham pedir-lhe para que não esquecesse de levar-lhes comida, porque ainda não havia terminado o seu resgate doloroso, mas a fome poderia interromper esse processo libertador, e que, no domingo — já era madrugada de domingo — à tarde, nós iríamos visitá-las. Chamavam-se Lia e Maria da Conceição as duas senhoras muito pobres que residiam ali próximo, num lugarzinho conhecido como a Lapinha.

Estava presente, na ocasião, um vulto proeminente das finanças paulistas. O Dr. Francisco Pereira de Andrade, na época, um dos três diretores do Banco do Estado de São Paulo, que, naquela oportunidade, era uma potência financeira.

No mesmo dia, às 15 horas, Chico contratou dois táxis, porque o Dr. Francisco estava com a esposa, D. Lucy, e uma cunhada — o casal residente na cidade de São Paulo e a cunhada em Santos — e também iria conosco a irmã dele, D. Luísa.

Dirigimo-nos à Lapinha, um lugar muito humilde. Fazia muito frio, porque, àquela época, o inverno era rigoroso na região.

Em ali chegando, saltamos, enquanto o Chico foi nos contando que o drama daquelas duas senhoras era tão grande que a sua genitora, antes de desencarnar, em 1914, já se referia que, toda vez quando experimentava grandes dores, encontrava conforto no testemunho de D. Lia e na coragem de Maria da Conceição. Isso havia ficado na sua memória, como resultado dos relatos maternos dentro de casa — ele era criança de três para quatro anos. Nunca mais ele ouviu falar sobre essas senhoras até que, mais ou menos pelos anos quarenta, Luísa, sua irmã mais velha, narrou a história de D. Lia, elucidando que essa senhora se havia casado com um homem portador de transtornos psiquiátricos muito graves.

Naquela época, ela residia com a família em uma das fazendas em torno do Curral del Rei, quando esse senhor muito rico se apaixonou e pediu-a em casamento. O pai dela aquiesceu, e ela viu o futuro marido apenas nesse dia e no das bodas.

Ele levou-a para a sua propriedade, após o consórcio matrimonial, quando começou o calvário da senhora, porque, muito atormentado, entre os vários desvios de conduta, ele era portador de um ciúme mórbido, e depois que nasceu a primeira filha, desvairado, ele começou a atribuir que a menina não era sua filha e sim do capataz. Depois de mandar surrar o empregado e expulsá-lo da fazenda, ele queimou com tição de fogo as partes pudentas da mulher, para que ela ficasse impossibilitada de traí-lo outra vez com quem quer que fosse.

D. Lia criou a filha com abnegação, com muito sofrimento, sem nunca sair daquela herdade. A filha casou-se, mais tarde, conforme os padrões da época, e foi morar com o seu marido em uma outra propriedade. Dois anos após, estando grávida, mandou pedir à mãe que fosse acompanhá-la no momento da délivrance e levasse também a aparadeira, uma parteira prática muito famosa que havia na região.

Era a primeira vez que D. Lia saía de casa, para ir ajudar a filha numa situação muito grave. O parto foi muito difícil e, quando nasceu a criança, a parteira teve um choque muito grande, porque a menina apresentava anomalias teratológicas muito graves: a cabeça era normal, mas o corpo se apresentava retorcido como se fosse moldado por mãos impiedosas que lhe mudaram a estrutura. A parteira, assustada, mostrou-a à mãe, ainda no leito. A senhora teve uma crise de loucura e atirou a filha pela janela. Então D. Lia saiu correndo — a avó —, pegou a criança e desapareceu. Não se soube, durante muitos anos, do paradeiro das duas, até que as notícias começaram a aparecer, narrando a história dolorosa de uma senhora que carregava um monstro, pedindo esmolas pelas cidades interioranas próximas a Belo Horizonte.

D. Luísa se lembrou que chegou a vê-las e contou isso ao irmão comovido.

No começo dos anos 50, ele estava numa das suas reuniões de atividades mediúnico-doutrinárias, psicografando, quando, fora do corpo, ele viu adentrarem-se duas damas muito belas, vestidas ricamente, à espanhola, e que se lhe acercaram. Aquela que parecia ser a de mais idade perguntou-lhe em Espírito:

— Você é o filho de D. Maria João de Deus, o Chico Xavier?

Ele respondeu: — Sim, sou.

— Pois é, sua mãe foi muito amiga nossa. Nós estamos reencarnadas, resgatando dolorosos crimes anteriormente cometidos. Encontramo-nos numa situação muito lamentável e D. Maria João de Deus sugeriu-me que viesse pedir-lhe socorro, porque você é dotado de sentimentos cristãos e de muita misericórdia. Nós estamos morando aqui próximo, na Lapinha, e precisamos de alimentos para que nossos corpos resistam à expiação. Você poderia nos visitar, Chico?

Ele confirmou: — Mas com muito prazer.

Ela então explicou-lhe que havia exercido, na corte de Felipe II, uma posição muito relevante, havendo sido mãe de uma personalidade de alta significação no clero, tendo contribuído com a sua ambição para atormentar pessoas que eram acusadas como dignas de processo inquisitorial, por heresia. Ela e sua filha, irmã, portanto, da alta personalidade clerical, beneficiavam-se das denúncias que eram feitas contra pessoas muito ricas, porque, segundo a lei da época, os bens passavam a pertencer ao Estado, que ficava com 50%, outra parte ia para a Igreja e a outra para o denunciante. Elas compraziam-se nisso, mas nunca se deram ao trabalho de ver como eram arrancadas as confissões das suas vítimas. Sabiam, no entanto, que eram por processos muito bárbaros, e que, ao desencarnarem os três — ela primeiro, o filho depois e a filha em último lugar —, tiveram o despertar da consciência e encontraram grande número das suas vítimas, que os infelicitaram de maneira impiedosa, quase hedionda.

A Misericórdia Divina, apiedada dos seus sofrimentos, trouxe-os a expiações dolorosas e, durante várias vezes, reencarnaram-se sob os espículos da lepra, mas esta, na qual se encontravam, seria a última fase de recuperação, e que elas pretendiam — porque o filho já estava redimido — coroar a jornada com muito êxito.

Chico ficou muito sensibilizado e prometeu visitá-las. No dia seguinte, em companhia de D. Luísa, eles procuraram reunir alguns víveres do pouco que tinham e foram visitar o casebre de D. Lia e D. Conceição.

Era uma dessas construções de pau-a-pique muito modesta, no cimo de um aclive, num lugarejo separado do aglomerado de casas. A partir de então, vez que outra, quando ele dispunha de qualquer recurso, comprava alimentos e ia levá-los às duas senhoras.

D. Maria da Conceição era surda-muda, além da deformidade que apresentava no corpo. E era quase totalmente cega. Ela ouvia-o e sentia-o e os dois conversavam mentalmente. Quando ele se acercava, ela se agitava de felicidade, porque lhe percebia a presença. Então, com um jeito muito peculiar, ele disse-me: Pois é, eu sou o seu cabeleireiro. Eu sou o seu manicure. Sou eu que lhe corto os cabelos… lindos! Divaldo — ele me afirmou —, ela é linda! Parece Rita Hayworth.

Estava na época de Gilda, a célebre Rita Hayworth. E eu, com a minha imaginação juvenil, naquela época, já mentalizei aquela mulher hollywoodiana, fascinante, começando a concebê-la, deslumbrante.

— Agora o corpinho é deficiente, etc. — ele acrescentou, com um riso maroto.

Subimos o aclive e, quando ele bateu à porta, D. Lia abriu-a. Tratava-se de uma mulher nonagenária, e foi comovedor o encontro, porque ela o olhou, teve uma exclamação, informando: — Seu Chico, essa noite eu sonhei com vós. Eu dizia: Venha trazer comida pra nós, seu Chico, que nós tá morrendo!

Ele então olhou-me e sorriu, porque aí estava a confirmação do que nos houvera contado. Entramos. D. Luísa foi à cozinha, que era um pequeno vão ao lado, levar os alimentos e preparar um lanche, enquanto nós fomos ao outro quartinho. A cama era de varas, enfiadas no chão, com outras transversais, algum capim coberto com tecidos velhos, sujos, e um corpo, que não deveria ter mais do que seis palmos de uma mão adulta. A cabeça era perfeitamente normal. O cabelo, desgrenhado, não tinha nada a ver com aquele de que Chico falara. Como ele possuía beleza nos olhos e na alma! Eu olhei-a… era… engraçadinha… mas não parecida à Rita Hayworth como ele havia definido.

Nesse ínterim, ela se agitava, contorcia-se. Ele se acercou e disse-lhe: — Pois é, Maria da Conceição eu aqui estou. E acarinhou-lhe os cabelos.

Ela precisava de higiene, porque era uma vez por semana que ele podia ir ajudá-la. De imediato pôs-se a conversar, acalmando-a, suavemente.

Nesse comenos, D. Luísa veio da cozinha e, para que nós víssemos as deformidades da paciente, tirou o pano que a cobria. Foi a cena mais chocante que eu já vi. Era como se o corpo fosse retorcido, não exatamente como um parafuso, mas algo parecido, pequeno, com muitas limitações.

Então ela gritou, e Chico elucidou: — Luísa, você sabe que ela tem pudor, cubra-a!

Ela cobriu-a com carinho. D. Lucy, que era uma senhora muito generosa, elegante, estava vestida com um casaco de peles de alto preço, enquanto D. Lia, a idosa, tremia de frio, com um tecido muito ralo sobre o corpo arroxeado, sem quase roupa íntima…

Tremendo muito, sensibilizou a dama paulista que tirou o casaco de peles e vestiu-a, naquele momento, num gesto tão natural, como se fosse a coisa mais simples do mundo. Então, a senhora não entendeu nada. Foi, de imediato, à cozinha e, quando voltou, estava suja de borralho. Chico exclamou com jovialidade: — Mas que beleza, Lia! Já tirou o selo. É assim que a gente tem que fazer…

Aquilo me impressionou, porque a mente racional pensaria de maneira diferente. Diria: Bom, quando chegar em casa, eu irei comprar uns agasalhos, adquirirei um casaco e mando-os depois.

Instantaneamente recordei-me que, muitos anos antes, portanto, no fim dos anos 40, o próprio Chico me havia contado algo que lhe fora narrado pelo Dr. Bezerra de Menezes, de cuja reflexão o Benfeitor espiritual havia cunhado o seguinte conceito: Quando a caridade é muito discutida, o socorro chega tarde.

Contou-me, o médium abençoado, que duas damas estavam no teatro Bolchoi em Moscou, no fim do século XIX, assistindo à peça Boris Gudonov. Sensibilizaram-se muito. Nevava no exterior. Quando saíram do teatro, muito emocionadas, viram, à porta, um homem caído e mal agasalhado. Uma delas tirou o casaco para cobri-lo. A outra, mais prática, porém, advertiu-a: — Não faça isso! Ele não vai valorizar esse casaco. É muito caro! Quando chegarmos em casa, escolheremos roupas quentes, mandaremos um lacaio trazê-las, e ficará tudo bem. Seu casaco vale uma fortuna!

A amiga deteve o gesto. Foram para casa. Mas ao chegarem foram tomar chá quente. Conversaram, distraíram-se e esqueceram o necessitado. No dia seguinte, pela manhã, aquela que ia tendo o gesto de caridade lembrou-se do sofredor e mandou o lacaio levar cobertores, roupa quente. Somente que o lacaio quando lá chegou, o homem havia morrido de frio durante a madrugada. Daí Dr. Bezerra advogava: — A caridade não pode ser muito discutida. Pode ser até delineada, tracejada. Mas não muito discutida enquanto a miséria chora, sofre e morre. Tem que ser o gesto espontâneo como esse que D. Lucy havia praticado, sem ter ouvido a narração que Chico me fizera anos antes.

Ficamos ali sob forte emoção. Ele tratou de higienizar as duas. A irmã trouxe um caldo revigorante e quente. Então, o Dr. Francisco Pereira de Andrade propôs: — Chico, eu posso mudar essa situação. Gostaria de lembrá-lo de que eu tenho muita influência na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Eu poderia mandar buscar as duas pacientes para interná-las, retirando-as dessa situação deplorável.

Chico olhou-o carinhosamente. Deteve-se, silencioso, e, logo depois, respondeu: — Andrade, o seu gesto é comovedor. Mas as duas nutrem-se do amor recíproco. Quando uma desencarnar, a outra logo desencarnará. Ademais, não temos o direito de alterar os desígnios divinos. A Divindade colocou-as aqui e, se nós as retirarmos, provavelmente estaremos interferindo numa planificação de alta magnitude. Desde que você quer ajudar, ajude-as aqui. Você poderia assumir a responsabilidade de uma auxiliar para vir dar-lhes banhos, para cuidar delas, preparar-lhes a alimentação. Isto sim, nós podemos contribuir na condição de bons samaritanos.

O Dr. Andrade anuiu de boa mente, informando que, a partir daquele momento, ele assumia esse encargo abençoado e procuraria ajudá-las.

Voltamos a Pedro Leopoldo, já noite. Eu viajei de retorno a Salvador. No ano seguinte, no mês de março, quando eu retornei a Pedro Leopoldo, perguntei a Chico: — E D. Lia, nós iremos visitá-la?

Ele me respondeu: — Ah, Divaldo, você não faz ideia do que aconteceu! Eu não lhe contei tudo. Naquele período, eu estava muito sofrido. A imprensa… as acusações descabidas, incompreensões dentro e fora de casa. Meu próprio pai não me entendia. Era muito severo com as pessoas que vinham conversar comigo. Às vezes, portava-se mal, dizendo que eu não era médium coisa nenhuma, embora não o fizesse por mal. Ele era vendedor de bilhetes da Loteria Federal, e afirmava que se eu fosse médium e se existissem Espíritos, esses dariam o número do bilhete para ele e acabávamos com a problemática da nossa pobreza. Ele não entendia a mediunidade. Eu estava, numa noite de Natal, muito amargurado! Sem ninguém, fisicamente. Luísa se encontrava com os seus filhos e esposo, no lar, e eu não queria perturbá-los. Os meus irmãos reuniam-se com as suas famílias modestas, e esse era o momento deles. Então, quando tomado pela tristeza e solidão, lembrei-me: Como estariam Lia e Conceição? E já que nós éramos, possivelmente, as pessoas mais isoladas que eu poderia identificar, mais solitárias, resolvi visitá-las. Tomei um táxi e fui correndo até a Lapinha. Quando eu saltei do veículo e me aproximei do outeiro, eu vi uma espécie de “spot light”, que descia de um ponto, que eu não podia identificar, do Infinito, salpicado de estrelas. Estrelas matizadas cobriam aquela choupana modesta. Quando eu me acerquei, à porta estava Eurípedes Barsanulfo, porém com a indumentária de Rufus. n Estava ali Rufus, o bem-aventurado, porque, se ele já era cristão desse jaez àquela época, o seu ministério de apóstolo sacramentano era natural (numa preparação para as tarefas do Chico no mundo social pela mesma região triangulina). E, então, era o Natal mais lindo que se podia imaginar. Vozes, entoando hinos, e as duas, que uma visão apressada poderia confundir com obsidiadas. n

Então, ele passou o Natal mais feliz da sua atual existência. A partir daquela vez, toda época de Natal, quando terminava as tarefas, ele ia à casa de D. Lia e de D. Conceição.

Dando continuidade à resposta, ele me informou: — Pois é, eu estava, no mês de janeiro último, psicografando, quando Dr. Bezerra se me acercou, solicitando-me: — “Chico, assim que termine as atividades programadas, não dialogue com os nossos irmãos, porque Maria da Conceição está voltando ao Grande Lar. Já estamos operando o processo de libertação do Espírito, desimantando-o dos liames materiais e, logo, dentro de duas horas, no máximo, ela estará conosco. Gostaríamos que você fosse participar desse momento.”

Ele terminou o trabalho, desculpou-se, tomou um automóvel, seguiu à Lapinha e, então, comoveu-se com a mesma presença feérica de Entidades nobres, que ali visitavam o casebre modesto, e acompanhou o momento em que o próprio Dr. Bezerra de Menezes desenovelou a moribunda, agindo no centro coronário, (Tm) liberando-a dos últimos vínculos com a matéria.

Desprendendo-se, ela reconheceu-o, sorriu, e foi conduzida pelo Benfeitor para o mundo espiritual.

Ante a nova realidade, ele ficou numa conjuntura dolorosa. Que fazer agora com D. Lia, que já estava com mais de noventa anos? Sepultou D. Maria da Conceição e levou D. Lia para Pedro Leopoldo. Alugou um quartinho, próximo da sua casa, para dar-lhe assistência, mandou comunicar ao Dr. Pereira de Andrade e, mais ou menos, quinze dias após, também num sábado pela madrugada de domingo, o venerando Guia convidou-o, novamente, explicando-lhe: — Estamos retirando Lia do invólucro carnal. Conceição veio buscá-la, o filho e alguns beneficiários hoje dos seus sofrimentos, dos seus testemunhos dolorosos encontram-se presentes. Terminada a reunião, nós o aguardamos.

Concluída a reunião, ele correu à nova residência da anciã e, de longe, viu sobre aquela ruela sem saída, as luzes e a movimentação de Entidades nobres, ouvindo um coral, que houvera escutado anteriormente, quando a irmã desencarnou, que entoava um hino à vida. Quando D. Lia foi retirada do corpo, ele anotou, como houvera feito por ocasião da desencarnação, o poema de exaltação da Vida, que diz, em parte: [Vide o poema completo em: Hino do repouso]

Rasgaram-se os véus da noite,

Novo dia resplandece,

Viajor, descansa em prece

Ao lado da própria cruz.

No horizonte rebrilha

Nova aurora matutina,

Pois a morte descortina

Dia novo com Jesus.

A música continuava, e ele ainda pôde ver D. Lia sorrir-lhe, sem possibilidade de agradecer-lhe, ser retirada do corpo, levada para o mundo de origem.

Poucos dias depois de desencarnada, ela retornou, trazendo a netinha, que falecera com cinquenta e cinco anos de idade, mais ou menos, a qual então transmitiu uma mensagem de rara beleza, por psicofonia, que se encontra no livro “Vozes do Grande Além” [v. Ensinamento vivo], publicado pela FEB, organizado por Arnaldo Rocha, resultado das sessões mediúnicas do Grupo Meimei, de Pedro Leopoldo, entre 1952-1956.

Este fato veio-me à mente para apresentá-lo aqui coloquialmente, a fim de os convidarmos a uma releitura do Evangelho de Jesus, sem disfarces.

(…)

.Divaldo Pereira Franco



[1] REFORMADOR — Ano 123 — Nº 2114-A — Maio 2005. — ANEXOS, Anexo III, pág. 33.


[2] (Para quem não se recorda ou não leu o livro Ave, Cristo!, ditado por Emmanuel, Rufus era um escravo, que, no século II, na cidade de Lyon, deu seu testemunho de fé, quando Taciano mandou matar os cristãos que viviam na então chamada Gália Lugdunense. A morte de Rufus foi muito dolorosa, porque ele foi amarrado à cauda de um potro bravio, para sair em disparada e despedaçá-lo. Quando Rufus estava nessa situação pungente, recordou-se que a esposa e os filhinhos haviam sido vendidos a um mercador de escravos. Ele reflexionava em agonia: Jesus, que fazer? Eu poderei acabar com esta situação se abjurar à fé por amor a meus filhos e à minha mulher. Mas, que fazer? Ser fiel a Jesus… A minha vida eu a dou, mas a dos meus filhos e da companheira? Assim mesmo ele optou por permanecer fiel a Jesus. Nesse transe, que são alguns segundos e parecem horas, o homem que comprara a sua família como escravos acercou-se e deu-lhe uma bofetada. Ao fazê-lo, abaixou-se e ciciou-lhe ao ouvido: Morre em paz. Eu também sou cristão. Cuidarei da tua família. Ele então se entregou a Deus. E o Chico me narraria, depois, que os pedaços de Rufus ficaram pelas estradas, e que ele viu, psiquicamente, e essa parte não consta no livro, o sepultamento dos despojos recolhidos pelos seus irmãos de fé naquela noite, conduzindo archotes e cantando hinos de exaltação ao Bem.)


[3] (Como está muito em moda em nosso Movimento. Vê-se uma pessoa marcada por determinados sofrimentos, ou com determinados distúrbios, e logo se rotula: — Esse é um obsidiado. São obsessores. Tem uma legião de obsessores! Às vezes, não há nenhum. Trata-se de uma expiação libertadora — o Espírito errou na carne e na carne se redime.)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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