Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Caminhos do amor — Maria Dolores


13


O amigo leal

  1 Falávamos de afeto e ligações humanas,

  Destacando uniões formosas e ideais,

  Tanto quanto anotando atitudes insanas

  Que, muita vez, transpiram

  De casos passionais,

  Quando um amigo afável e sisudo,

  Que nos seguia o estudo,

  Exclamou para nós, de modo convincente:


  2 — Tudo quanto dizeis é verdade inconteste

  Sobre os entes queridos que lembrais,

  Entretanto, igualmente,

  Se falamos de amor, é preciso se ateste

  O amor dos animais.


  3 E como se tivesse ali, de lado,

  O passado recente,

  Contou, emocionado:

  — Em minhas lides de engenheiro,

  Fui, certa vez, designado

  Para serviços na fronteira;

  Levei comigo a companheira,

  O pequeno filhinho, —

  — um garoto de aninho, —

  E o nosso velho cão policial

  Que recebera, em nossa companhia,

  O nome de Leal.


  4 No trabalho incessante em que me via,

  Fosse qual fosse o ambiente,

  Possuía em Leal o cão valente

  Que nos guardava a casa, dia a dia;

  Ensinei-o a velar por nosso pequenino

  E dedicou-se o cão, de tal maneira,

  Que mantinha atenção, semana inteira,

  Entre a porta do quarto e o berço do menino.


  5 Morávamos, então, no agreste bravo…

  Achavam-se, não longe, algumas feras;

  Era o lobo e, além dele, era o jaguar,

  A rondarem malocas e taperas…

  Necessário, porém, agir e trabalhar,

  Orientando a agrimensura.


  6 Tinha sempre dois homens, de vigia,

  Na defesa do lar,

  Junto de atenciosa governanta.

  Minha esposa saía

  Algumas vezes para compras justas,

  Usando o nosso jipe reforçado

  Para atingir pequeno povoado…


  7 O narrador fez pausa e tornou, em seguida,

  Expressando-se em voz mais comovida:

  — Certo dia de ação com mais ampla demora,

  Voltei ao lar, mais tarde… Noite escura…

  Ausentara-se a esposa e a governanta

  Atendia, em conversa, um tanto lá por fora,

  A diversos parentes

  Que, por certo, lhe vinham à procura…

  Os vigias andavam pela brenha

  Buscando para nós

  Alguns feixes de lenha…


  8 Acompanhado de um amigo,

  Ansioso, ouvi a voz

  De meu filhinho em algazarra…

  Naquele choro de pavor,

  Pressentia perigo

  Francamente, a gelar-me…

  Em vão, tentei fazer qualquer alarme;

  O companheiro me seguia,

  Enquanto, em minha inquietação,

  Só escutava a gritaria

  Do filhinho a cortar-me o coração…


  9 Varei a porta aberta

  Da habitação que vi claramente deserta…

  Foi, então, que a tremer, desorientado,

  Vi o cão a correr para junto de nós;

  Leal se nos mostrava, ensanguentado…

  Mancando, ele gania,

  Não sei se de loucura ou de agonia…


  10 O companheiro disse a mim:

  — O cão está zangado, dê-lhe o fim,

  É preciso afastá-lo, sem tardança,

  Deve ter atacado a indefesa criança.


  11 Tomado de terror, atirei sobre o cão,

  E, ganhando os recessos do aposento,

  Vi meu filhinho salvo, aconchegado ao leito,

  Sem qualquer sofrimento,

  Mas um jaguar jazia, ali no chão,

  Certamente abatido por Leal.

  O cão, com segurança e eficiência,

  Liquidara, afinal,

  A fera perigosa

  Que penetrara em nossa residência.


  12 Com meu filho nos braços

  Retornei à presença de meu cão;

  Ansiava mostrar-lhe a nossa gratidão,

  Mas Leal enviou-me um derradeiro olhar…

  Sufocado de dor, nada pude falar.

  No instante de morrer, no terrível revés,

  Leal ainda arrastou-se com cuidado

  Para beijar-me os pés!…


  13 Calou-se o narrador,

  Sob o peso cruel da própria dor.

  Depois, disse a chorar:

  — Neste Infinito Espaço em que habitamos,

  Deve haver um lugar

  Que acolha os animais,

  Amigos quase humanos,

  Em plena evolução, à busca de outros Planos…

  Sempre aceitei os cães por nossos cireneus,

  Os animais também são criaturas de Deus…


  14 Aquela história viva,

  Que ouvíramos, ali, de ânimo atento,

  Fez o ponto final de nosso entendimento.

  No entanto, o companheiro,

  Que nos falava de Leal,

  Fitava o Azul Imenso, a Pátria Universal,

  E, qual se transmitisse um sublime recado

  Ao próprio coração,

  Clamava, consternado:

  — Deus não me negará resposta à constante oração…

  Hei de achar o meu cão!… Hei de achar o meu cão!…


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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