Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Caminhos do amor — Maria Dolores


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Drama paterno

  1 Era um homem de bem, dono de um lar feliz;

  Recebera da vida tudo quanto quis:

  Uma esposa distinta, uma vultosa herança,

  Um filho, — um filho só que lhe trouxera à vida

  Uma nora querida

  E um neto que lhe abria um mundo de esperança.


  2 Tudo era céu azul, no entanto, um dia, a morte,

  Sem o menor aviso,

  Num tremendo improviso,

  Arrebatou-lhe a esposa nobre e forte.

  E, desde então,

  Ele sentiu sangrar-lhe o coração.


  3 Tangido pela dor,

  Chamou o filho em confidência,

  O filho em que encontrara o apoio da existência,

  E entregou-lhe em confiança,

  De modo comovente,


  4 Tudo o que se lhe erguia em propriedade

  Documentadamente:

  As lojas da cidade,

  A formosa vivenda

  Na qual fizera o próprio lar,

  A casa grande da fazenda,

  Terras, benfeitorias,

  As ações em diversas companhias

  E os créditos em bancos…


  5 Depois, falou ao filho em termos francos:

  — Filho, sem tua mãe já não tenho mais vida…

  Tudo o que é nosso é teu…

  Sou alguém a morrer com tarefa cumprida.

  Rogo que me reserves tão somente

  Um quarto independente,

  Em nossa própria casa

  Onde eu possa viver

  Na saudade terrível que me arrasa…


  6 O moço agradeceu, sorriu e, após uma semana,

  Deu ao pai, afinal,

  Um estreito recanto, oculto no quintal,

  Por nova moradia;

  Um telheiro a cair que ele devia

  Atingir através de porta lateral.

  O pai não se queixou, mas um tanto humilhado,

  Instalou-se no quarto, insalubre e isolado.

  Em seguida notou, admirado e atento,

  O filho transformado,

  A demonstrar

  Grave mudança de comportamento.


  7 A mansão familiar perdera a paz antiga,

  Noite a noite, era festa, entre jogos de azar,

  Insultos e baldões, ostentação e briga,

  Estranhas situações

  Que o triste genitor não podia evitar.


  8 Começou para ele, alma limpa e sincera,

  Um modo de viver que não quisera.

  Quando caía a noite, ei-lo em longas passadas…

  Ia em busca de antigos companheiros,

  Para escutar, de novo, histórias relembradas

  De inesquecíveis parelheiros

  Seguindo cães velozes nas caçadas…


  9 Um cálice de aniz, em dado instante,

  Tornava a maioria mais falante;

  Ele, sóbrio, porém, só bebia água pura,

  Água simples usada sem mistura…

  Tarde, voltava ele, a passo lento,

  Não desejava ver o filho amado,

  Em tresloucado movimento.


  10 Nunca bebera alcoólicos e adendos,

  Entretanto, os vizinhos

  Para ele inventaram

  Casos injuriosos e escarninhos.

  O filho já tratava o pai por beberrão

  Na base de calúnia e palavrão.


  11 Certa manhã, o moço orgulhoso e excitado,

  Vara o quarto do pai, a fim de repreendê-lo…

  Ele está debruçado

  Sobre mesa pequena,

  A revelar enorme desmazelo.


  12 Grita-lhe o filho irado:

  — Chega, velho infeliz,

  Estou certo de tudo o que se diz,

  Já conheço esta cena:

  Bêbado até agora!…

  Vou removê-lo sem demora,

  Não mais o quero aqui,

  Nada posso fazer, nem respondo por si…

  More onde quiser, com qualquer companhia,

  Nas espeluncas da periferia.


  13 Arranje, agora mesmo, a sua mala e suma!…

  A minha tolerância está no fim,

  Não quero vê-lo, em parte alguma,

  Afaste-se de mim…

  De hoje em diante, fuja de meu lado,

  Não mais aceito um pai embriagado…

  Levante-se, converse, venho ouvi-lo

  Na nova condição de bêbado de asilo!…


  14 No entanto, o interpelado

  Continuava debruçado

  Sobre mesa pequena…


  15 Arremessa-lhe o moço uma palavra obscena…

  Logo após, ostentando falso brio,

  Toca no genitor

  E vê que ele se encontra enrijecido e frio…

  Só então o rapaz sob espanto indizível

  Desfere um grito horrível…


  16 Chorando em desespero e desconforto,

  O filho descobriu que o pai estava morto.


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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