Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Ave, Cristo! — Emmanuel — 1ª Parte


7

Martírio e amor

1 Atirado ao calabouço, o irmão Corvino passou a experimentar os efeitos da implacável perseguição de Opílio Vetúrio.

Ordenações dos assessores de Maximino  †  começaram a aparecer, recomendando o suplício dos chamados “desordeiros galileus”.

Artêmio Cimbro e alguns outros patrícios influentes embalde tentaram opor resistência à chacina criminosa, porque o deplorável movimento alastrou-se, irrefreável.

Álcio Noviciano, velho guerreiro da Trácia,  †  chegou à cidade, em companhia de alguns frumentários,  †  na posição de enviado do tirano que comandava o poder, sendo recebido festivamente.

Exibições no anfiteatro da cidade foram organizadas com esmero.

O amigo de Maximino era portador de cartas diversas às autoridades lugdunenses, recomendando o maior rigor no castigo aos seguidores do culto nazareno e, a fim de corresponder às mensagens ilustres, dezenas de plebeus foram lançados à sanha carnívora de feras africanas, ao som de músicas alegres.

O benfeitor dos pobres, entretanto, e outros prisioneiros altamente categorizados pela opinião pública foram reservados a interrogatório dirigido pelo destacado visitante.


2 No dia justo, o tribunal de audiências regurgitava de povo.

Vastas galerias jaziam apinhadas de gente.

Todos os adversários da nova fé como que se congregavam ali, para a ironia e o escárnio.

Renteando quase com o embaixador do imperante, Opílio, Galba, Taciano e Súbrio acompanhavam o desenrolar dos acontecimentos com sombrio aspecto.

Vetúrio, denunciando no rosto envelhecido as extremas aflições que o atormentavam, revelava-se inquieto, levando a destra aos olhos, de momento a momento, evidenciando a emotividade de que se via possuído, enquanto Taciano, recordando o enfermeiro abnegado, mostrava no semblante um misto de compaixão e desprezo. Caracterizava-se Galba pela frieza habitual, mas Flávio Súbrio, não obstante decrépito, espreitava os menores rumores do largo recinto, com a vivacidade de um felino, parecendo disposto a registrar as mínimas particularidades do espetáculo.


3 O irmão Corvino, escoltado por guardas numerosos, apareceu no grande salão.

Esquelético e descorado, falava, sem palavras, da fome que curtia no cárcere. No pulso, trazia feridas rubras e, na face, sinais de chicotadas revelavam o martírio nas celas, onde legionários ébrios costumavam realizar exercícios de crueldade, mas os olhos do condenado como que se mostravam mais brilhantes. Não era só a paciência que se irradiava deles, demonstrando-lhe a grandeza espiritual, mas também uma superioridade indefinível, misturada de compreensão e piedade pelos verdugos.

À frente do missionário, os representantes da casa de Opílio fizeram-se pálidos.

Imprecações reboaram de todos os lados, acirrando os ânimos contra o apóstolo indefeso.

— “Abaixo o feiticeiro! morte ao assassino! suplício ao matador de mulheres e crianças!…”

Impropérios como esses eram bramidos à solta por centenas de lábios duros e espumejantes.


4 Quinto Varro, porém, que a consciência tranquila parecia coroar de imperturbável serenidade, passeou o olhar calmo e bondoso pela assembleia irritada e a multidão aquietou-se, de chofre, qual se fora dominada por força irresistível.

O próprio Álcio, habituado à agressividade da caserna, estava surpreendido.

Levantou-se, imponente, e tentando, em vão, assumir o aspecto respeitável de um magistrado, arengou, por alguns minutos, salientando as preocupações do governo na eliminação do culto proibido e advertindo os cidadãos contra a ideologia religiosa que pretendia confundir escravos e senhores.

Em seguida, dirigiu-se solenemente ao presbítero, notificando:

— Creio-me exonerado de qualquer consideração para com os prisioneiros sem títulos que os recomendem ao respeito do Estado, contudo, tantos empenhos foram interpostos, junto de minha autoridade, em vosso favor, tantas famílias aristocráticas se interessam por vosso destino, que me sinto no dever de ajuizar quanto à vossa situação com especial benevolência.


5 Corvino escutava o legado, serenamente, mas insopitável inquietude dominava a multidão.

— Sois acusado de haver provocado a morte de uma criança — prosseguiu Novaciano, empertigado —, para cultivar sortilégios malignos, e de haver assassinado uma distinta dama patrícia, doente e irresponsável, depois de atraí-la, provavelmente com promessas de cura imaginária. Todavia, ponderando as solicitações de vários principais, dignar-me-ei analisar o processo alusivo às culpas referidas, tratando-vos como cidadão do Império, mas, antes de tudo, desejo certificar-me de vossa fidelidade às nossas tradições e princípios, de vez que sois indicado como membro da seita renegada, para cuja extinção não possuímos outros recursos que não sejam o exílio, a punição ou a morte.

Fez ligeiro intervalo, fixou o presbítero de frente, buscando, em vão, suportar-lhe o olhar confiante e calmo e inquiriu:

— Em nome do Imperador Maximino, exorto-vos a jurar lealdade aos deuses e obediência às leis romanas!


6 Varro, concentrado em si mesmo, evidenciando longa distância espiritual da atmosfera de crueldade e pequenez que predominava no recinto, respondeu com firmeza e simplicidade:

— Ilustre legado, consoante as lições do meu Mestre, sempre dei a César o respeito que César espera de mim, no entanto, não posso sacrificar aos ídolos, porque sou cristão e não desejo abandonar minha fé.

— Que ousadia! — exclamou Novaciano, encolerizado, enquanto o populacho prorrompia em gritos: — “morte ao traidor! degolem o celerado!…”

O religioso, porém, não expressou a mínima alteração facial.

O juiz agitou pequeno martelete de bronze, exigindo silêncio, e voltou a interpelar:

— Sois atrevido até ao insulto?

— Rogo-vos desculpas se a minha palavra incomoda, no entanto, indagais e respondo por minha vez.


7 A atitude serena e digna de Corvino de novo impusera quietação à grande assembleia.

Álcio enxugou o suor copioso que lhe corria da fronte enrugada e tornou:

— Confessais, então, vosso conúbio com a seita maldita dos nazarenos?

— Não vejo qualquer maldição nela — replicou o preso, sem azedume —, os seguidores do Evangelho são amigos da fraternidade, do serviço, da bondade e do perdão.

O emissário de César passou a destra pela calva oleosa, brandiu um bastão de prata no estrado em que se apoiava e bradou:

— Sois apenas velha quadrilha de mentirosos! que fraternidade poderia ensinar-vos um galileu desconhecido que vos induz ao suplício, há quase duzentos anos? que serviço prestaríeis à coletividade, pregando a indisciplina entre os escravos com falaciosas promessas de um reino celestial? que bondade exerceríeis, conduzindo mulheres e crianças ao espetáculo sangrento dos circos? e que perdão conseguireis exemplificar, quando o vosso heroísmo não passa de vileza e humilhação?


8 Varro percebeu a dureza intelectual do inquiridor e objetou:

— Nosso Mestre padeceu na cruz por sentir-se o irmão maior da Humanidade, necessitada, não de força bruta ou de violência, mas de valor moral para compreender a grandeza do espírito eterno; o serviço para nós não é a exploração do homem pelo homem e sim o livre acesso da criatura ao trabalho para o engrandecimento dos méritos pessoais de cada um; a bondade, em nosso campo de ação, é…

Álcio, entretanto, cortou-lhe a palavra, gesticulando, furioso:

— Calai-vos! porque aturar o vosso sermão sem nexo? Ignorais, porventura, que posso decidir sobre o vosso destino?

— Nossos destinos jazem nas mãos de Deus! — retorquiu Varro, sereno.

— Sabeis que posso lavrar a vossa sentença de morte?

— Respeitável legado, o poder transitório do mundo está em vossas determinações. Obedecei a César, ordenando o que vos aprouver! Obedecerei a Cristo, submetendo-me à vossa vontade.


9 Novaciano trocou expressivo olhar com Vetúrio, como se estivessem acertando, em silêncio, os pontos de vista que lhes eram comuns e clamou:

— Não tolero o sarcasmo!…

Convocou um dos assessores e recomendou que o prisioneiro recebesse três chicotadas de relho curto na boca.

Um guarda de aspecto feroz foi o escolhido.

Varro, enquanto açoitado, parecia em oração.

O sangue borbotava-lhe dos lábios, escorrendo sobre a túnica humilde, quando um jovem, aproximando-se, ajoelhou-se, junto dele, e exclamou em pranto:

— Pai Corvino, eu sou teu filho! Recolheste-me quando eu vagava na rua, sem ninguém! Deste-me uma profissão e uma vida digna… Não sofrerás sozinho! Estou aqui…


10 Todavia, no estupor geral que a cena impunha aos circunstantes, o benfeitor ferido, embora sangrando, inclinou-se para o rapaz e rogou:

— Crispo, meu filho, não afrontes a autoridade! porque te rebelas, assim, se ainda não foste chamado?

— Meu pai — soluçou o jovem, quase menino —, também quero o testemunho! desejo provar minha fidelidade ao Senhor!…

E, voltando-se para o representante de César, declarou:

— Eu também sou cristão!


11 Corvino acariciou-lhe os cabelos em desalinho e continuou:

— Esqueceste que a maior exemplificação dos seguidores do Evangelho não é a da morte e sim a da vida? Não sabes que Jesus espera de nós a lição do amor e da fé onde respiramos? Meu testemunho no tribunal ou no anfiteatro será dos mais fáceis, mas poderás honrar o nosso Mestre, de maneira mais sacrificial e mais nobre, trabalhando por ele, em benefício dos nossos irmãos em Humanidade e por ele sofrendo, dia a dia… Vai em paz! Não desrespeites o mensageiro do Imperador!…

Como se o ambiente estivesse magnetizado por forças intangíveis, o moço, enxugando as lágrimas, saiu sem ser molestado por ninguém.


12 Tornando a si da surpresa que o senhoreara, Novaciano reergueu a voz e considerou:

— O legado de Augusto não pode perder tempo. Sacrificai aos deuses e o processo que vos envolve o nome será examinado atenciosamente…

— Não posso! — insistiu Corvino, sem afetação — sou adepto do Cristianismo e nessa condição desejo morrer.

— Morrereis então! — gritou Álcio, indignado.

E assinou a sentença, indicando o campo próximo em que o prisioneiro seria decapitado no dia seguinte, ao amanhecer.

Varro escutou-a, sem modificar-se.

A fé e a tranquilidade imperturbáveis fulgiam-lhe no semblante.


13 Na assembleia, contudo, reinava amplo mal-estar.

Opílio e Galba abraçaram o legado com visíveis sinais de satisfação. Taciano, porém, sentia-se inexplicavelmente angustiado, lutando consigo mesmo para sobrepor-se a qualquer ato de simpatia. As conversações que mantivera com o enfermeiro em outro tempo afloravam-lhe à memória. Aquele homem ultrajado e abatido impunha-se-lhe à admiração, ainda mesmo contra a sua própria vontade. Tudo faria para não pensar, mas a grandeza moral dele confundia-o e o chamava à reflexão. Instintivamente, inclinava-se a defende-lo, contudo, não seria lícito conceder a si mesmo tal aventura. Corvino poderia ser um gigante de heroísmo, mas era cristão, e ele, Taciano, detestava os nazarenos.


14 Afastou-se alguns passos, a fim de apreciar soberba estátua de Têmis  †  que jazia no recinto, mas alguém correu ao encontro do condenado, que voltava à prisão, resignadamente.

Esse alguém era o velho Flávio Súbrio, que se abeirou do religioso e disse-lhe em voz baixa:

— Reconheço-te! Agora, não alimento qualquer dúvida… Vinte anos não me fariam olvidar-te!…

Quinto Varro lançou-lhe dolorido olhar, sem nada responder.


15 O antigo lidador, todavia, recebeu-lhe o silêncio como sendo a confirmação que aguardava e, contendo a custo o pranto que lhe enevoava os olhos, segurou-lhe as mãos que pesadas algemas enlaçavam e acentuou:

— Meu amigo, não teria sido mais suave a tua morte no mar? como me pesa haver cooperado para o teu sacrifício! como lastimo a tua infortunada sorte, observando o fardo de angústia que te verga os ombros!…

O interpelado, porém, sorriu, triste, e replicou:

— Súbrio, a escravidão a Jesus é a verdadeira liberdade, tanto quanto a morte, em companhia do nosso Divino Mestre, é a ressurreição para a vida imperecível! Só um fardo deveremos temer — o da consciência culpada!…


16 E, reparando-lhe, com surpresa, as lágrimas de sincera compunção, que não chegaram a transbordar, acrescentou:

— Se procuras agora algum meio de acesso à verdade, não deixes para amanhã o teu encontro com o Cristo. Faze alguma coisa por tua salvação e o Senhor fará o resto…

Nesse instante, porém, o chefe de vigilância, acreditando que Súbrio insultava o prisioneiro, abeirou-se de ambos e vociferou, sarcástico:

— Nobre romano, deixa comigo este feiticeiro! Prepará-lo-ei a bastonadas para o espetáculo de amanhã…

E antes que Súbrio, estupefato, pudesse mover-se, Varro foi arrastado, de novo, para o cárcere.


17 Desde esse momento, porém, o velho guerreiro em disponibilidade pareceu tomado de incompreensível perturbação.

Desligou-se dos amigos íntimos, dirigiu-se apressadamente à herdade, retirou de antigo cofre todas as peças de ouro que possuía e voltou ao centro da cidade, procurando os companheiros do irmão Corvino.

Nos arredores da igreja, num telheiro abandonado, encontrou Ênio Pudens por indicação de algumas mulheres piedosas.

Deu-se a conhecer ao clérigo respeitável e entregou-lhe, para a igreja de São João, todo o dinheiro que pudera amealhar, durante anos, rogando-lhe abençoar as suas novas resoluções. Ênio, comovido, orou em companhia dele, deprecando a assistência celestial e confortando-o com generosas palavras de bondade, compreensão e fé.


18 Apesar de semelhante socorro, o velho soldado parecia diferente, abstraído, dementado…

Em vão, Opílio procurou-o em casa, debalde Taciano buscou-lhe a companhia.

Súbrio retirara-se para o campo, mantendo-se em meditação, a reconsiderar os caminhos percorridos.

Tornou ao ambiente doméstico, nas primeiras horas da madrugada, mas não conseguiu acalmar-se.


19 Quando Vetúrio veio acordá-lo, para seguirem juntos, no rumo do campo da execução, já havia seguido para o local, onde Galba e o pai a ele se reuniram.

Taciano absteve-se. Alegou súbita indisposição orgânica, a fim de subtrair-se ao espetáculo. Não desejava enfrentar a presença de Corvino, cuja serenidade o molestava.

Não obstante a hora matutina, vasta multidão se aglomerava na praça livre, não faltando grande número de personalidades eminentes, inclusive Novaciano, que se sentira fortemente impressionado com a resistência moral do prisioneiro.


20 Atendidas as formalidades, então vigentes, o representante de Maximino ordenou ao carrasco se aproximasse.

O irmão Corvino evidenciando indescritível ansiedade no olhar percuciente e límpido, fitava o grupo de Opílio, a procura de alguém que não aparecia…

Pesados momentos transcorreram.

A Natureza, como que indiferente aos crimes e aos infortúnios dos homens, engalanava-se de luz.

O Sol coroava a paisagem com raios de ouro, enquanto o vento cantava, em sopros frescos, carreando para longe a fragrância das ramarias em flor.


21 Entristecido, de vez que não conseguira surpreender Taciano na assembleia popular que o rodeava, Quinto Varro passou à oração silenciosa.

Espiritualmente distanciado do ensurdecedor vozerio, observou que vultos luminosos o acariciavam… Lembrou-se, insistentemente, do venerando Corvino e sentiu-se consolado com a perspectiva de igualmente morrer na reafirmação de sua fé… Procurava aguçar os sentidos para penetrar com segurança no mundo invisível, quando escutou os gritos estentóricos de alguém, junto dele.


22 Era Flávio Súbrio que bradava, possesso:

— Eu também sou cristão! Abaixo os deuses de pedra! Viva Jesus! Viva Jesus! Prendam-me! Prendam-me com razão! Sou um assassino que se transforma! Já matei muitos! Matem-me agora também!… Infelizes romanos, porque converterdes a honra dos antepassados num rio de sangue! somos todos celerados sem remissão! Quero, por isso, a nova lei!…

Em meio da perplexidade geral, Vetúrio abeirou-se do aristocrático visitante e informou:

— Ilustre Novaciano, apresse a execução. Flávio Súbrio é comensal de minha casa, há muitos anos, e acaba de enlouquecer, talvez, em razão da idade avançada. Incumbir-me-ei de afastá-lo, sem qualquer inconveniência.


23 A ordem foi expedida.

O condenado ajoelhou-se.

Artêmio Cimbro, que ninguém ousava incomodar, em virtude das suas prerrogativas, aproximou-se dele, valorosamente e cobriu-lhe o rosto com pequena toalha de linho tenuíssimo, a fim de que a cena brutal lhe não ferisse a visão.

Glabro Hércules, antigo gladiador do anfiteatro, agora convertido em verdugo, ergueu o gládio com mãos trêmulas, descendo o instrumento sobre o pescoço da vítima. Todavia, poderes invisíveis atuavam para que o gume da espada não atingisse o lugar visado. Havendo desferido o terceiro golpe, recebeu do legado de César a determinação de sustar o serviço.


24 Existia uma lei, proibindo o quarto golpe em qualquer decapitação.

Quinto Varro, banhado em sangue, foi, por isso, transferido para o calabouço, onde, agora, lhe assistia o direito de morrer lentamente.

Vetúrio acompanhou as mínimas particularidades do quadro terrível, sem alterar-se, e quando voltou a procurar por Flávio Súbrio, que se distanciara para não ver a horrenda exibição, não mais o encontrou.

O cliente de Opílio tomara um carro e voltara, rápido, para casa.


25 Profundamente transtornado, quase irreconhecível, convocou Taciano a entendimento particular e passou a narrar-lhe o passado, sintetizando quanto possível.

O moço patrício, boquiaberto e aterrado, ouvia-lhe as reminiscências, quando Vetúrio chegou suarento e aflito, e, adivinhando o que se passava, tentou interrompe-lo.

— Flávio Súbrio enlouqueceu! — rugiu irado.

— Não Taciano, não! — protestou ele, em voz firme — meu juízo não está desequilibrado! Minha saúde nunca foi tão robusta quanto agora! Minha consciência apenas acorda para justiçar a si mesma. Tenho crimes sobre crimes! Não perpetrarei mais esse — o de ocultar-te a realidade. Corre ao campo da execução e, se teu pai ainda vive, não lhe prives do teu carinho à última hora! Seguirei contigo, seguirei contigo!…


26 Opílio, desesperado, revelando comprometedor desequilíbrio que, de modo algum, se coadunava com o seu temperamento calculado e cortês, interferiu, gritando:

— Cão, recua! Não quebrarás a harmonia de minha casa! Não menosprezes a memória do pai de Taciano, que sempre nos foi extremamente sagrada!…

Com as veias intumescidas, denunciando a emotividade que lhe oprimia a alma, Súbrio estampou feroz expressão na fisionomia, dantes fleumática e impenetrável, e retorquiu:

— Não é verdade, Taciano! Opílio recomendou-me apunhalar Quinto Varro sobre as águas, mas, por gratidão ao passado, poupei-o, assassinando um apóstolo que o acompanhava e que, certamente, lhe legou o nome. Ainda que eu morra, estou agora mais aliviado, quase feliz. Extravasei o fel que me envenenava o coração, expeli algo de minha própria baixeza… Mas, não percamos tempo, sigamos!


27 Vetúrio, porém, de imediato, cingiu-lhe a cintura e imobilizou-lhe os braços, chamando os servos, alarmado e lívido.

Escravos musculosos, em obediência ao amo, trancafiaram-no em aposento primorosamente mobilado, mas escuro e triste.

O lidador do pretérito, não obstante a senectude, mostrava naquela hora a agilidade de um tigre posto a ferros, tentando reagir à altura da agressão.

Todavia, antes que Opílio e o esposo de Helena se retirassem, Súbrio calou-se, inexplicavelmente.


28 Brilhavam-lhe, agora, os olhos, tomados de estranha lucidez, e, transcorridos alguns instantes, falou, pausadamente:

— Taciano, minha história é a versão real dos fatos. Algo me diz ao espírito que teu pai ainda não partiu. Vetúrio encarcerou-lhe, supondo asfixiar a verdade… Naturalmente, acredita que poderá reter-me, quanto fez com tua desventurada mãe, entretanto, engana a si mesmo, mais uma vez… e já que me sinto impossibilitado de uma confissão, à frente do legado de Augusto, a fim de receber o castigo que mereço, morrerei para que creias em mim! Troco minha vida prejudicial e inútil pelos momentos de consolo que Varro nos merece…

Opílio desferiu uma risada nervosa, reiterando a convicção de que o companheiro delirava.


29 Súbrio, no entanto, continuou calmo, dirigindo-se ao rapaz:

— Quando eu tiver punido a mim mesmo, pondera a minha revelação e não vaciles…

Vetúrio, porém, impediu qualquer novo entendimento. Arrastou o genro para o interior doméstico, convidando-o a preparar-se para a refeição.

No triclínio, buscou dissipar a tristeza do filho adotivo, ensaiando conversação alegre e calmante, e, findo o repasto, passaram a breve repouso em amplo terraço, ambos procurando distração e refazimento.


30 Quando o filho de Cíntia parecia mais animado, eis que surge Epípodo, muito pálido, anunciando que o velho Súbrio se dependurara na grade mais alta da câmara-prisão.

Enteado e padrasto entreolharam-se, apavorados.

Correram, instintivamente, ao quarto sombrio e encontraram o corpo do velho amigo a pender, inerte, de grossas vigas de madeira.

O antigo soldado cumprira a palavra, suicidando-se.

Taciano, então, qual se estivesse impulsionado por indomável energia, não mais hesitou. Afastou-se, presto, na direção da cavalariça e, quando se aboletava em carruagem ligeira, foi abraçado por Opílio, que declarou:

— Vou contigo. Convencer-te-ás de que o miserável feiticeiro está morto e de que Súbrio foi simplesmente vítima de loucura e ilusão.


31 O Sol das primeiras horas da tarde dardejava por entre as frondes dos gigantescos carvalhos que protegiam o caminho pelo qual os dois associados do destino seguiam silenciosos, ruminando, mentalmente, as próprias reflexões. Contudo, enquanto Taciano, jovem e vigoroso, se perdia num abismo de indagações, Opílio, encanecido e inquieto, afundava-se em dilacerantes sofrimentos. Como escapar aos dissabores daquela hora, se o condenado ainda estivesse vivo? como reaver a confiança do genro, se a palavra de Súbrio fosse confirmada?

À porta da enxovia, foram recebidos pelo administrador da prisão, com especiais deferências, que, loquaz e gentil, informou achar-se o irmão Corvino moribundo…

A pedido de Artêmio Cimbro, o carcereiro Edúlio prestava-lhe assistência, mesmo porque o generoso patrício obtivera permissão para sepultar-lhe o corpo, tão logo expirasse.


32 Opílio, trêmulo, rogou licença para visitarem o agonizante a sós, sendo imediatamente atendido.

Afastado o enfermeiro, ambos penetraram a câmara estreita, onde o condenado, de olhos imensamente lúcidos, aguardava o instante final.

Finíssimos lençóis, oferecidos por mãos anônimas, apresentavam-se manchados de sangue.

Os golpes de Hércules tinham-lhe massacrado o omoplata, invadindo o tórax, que se apresentava aberto.

Taciano, dominado por inenarrável angústia, permutou com ele inesquecível olhar…


33 E, de espírito iluminado pela verdade, qual ocorre às grandes almas ao se avizinharem da morte, Quinto Varro, com esforço, falou-lhe abertamente:

— Meu filho, supliquei a Jesus não me permitisse a grande viagem, sem reencontrar-te… Estou convencido de que Flávio Súbrio revelou ao teu coração todos os sucessos que já se foram…

Porque o rapaz, aterrorizado, se voltasse para Vetúrio, o genitor continuou:

— Já sei… Este é Opílio, que te criou como pai. Compreendo o constrangimento com que nos ouve, no entanto, rogo a ele me releve esta conversação de última hora… Ontem, Cíntia ausentava-se da Terra, hoje sou eu…


34 A essa altura, o moribundo sorriu, conformado.

O jovem, todavia, evidenciando os próprios conflitos mentais, deixou que a emoção lhe extravasasse do peito, interrogando:

— Se és meu pai, como compreender tamanha serenidade? Se Súbrio foi verdadeiro, não tens em meu padrasto o maior inimigo? Se Vetúrio mandou que te assassinassem para usurpar-te o destino de minha mãe, como pudeste tolerar tão horrível situação, quando uma simples palavra tua conseguiria clarear qualquer dúvida? Ó deuses, como vencer o tenebroso labirinto?!…


35 O sentenciado, porém, recompondo a expressão fisionômica, tentou esboçar um gesto de carinho e acrescentou, reticencioso:

— Taciano, não te perturbes, no justo momento em que nos despedimos. Não consideres Vetúrio como adversário de nossa felicidade… Lembra-te, meu filho, do afeto com que te orientou o desenvolvimento… Ninguém alcança a dignidade pessoal sem abnegados condutores. Olvidas, porventura, o devotamento com que se consagrou ao teu bem-estar? O agradecimento sincero é uma lei para os corações nobres e leais. Ainda que fosse ele um criminoso comum, merecer-nos-ia respeito pela ternura com que te seguiu os primeiros passos… Supões devamos identificar nele um inimigo de nossa casa, entretanto, não poderemos esquecer haver sido ele o homem amado por tua mãe… Sempre honrei os desejos de Cíntia nas menores particularidades e não deixaria de compreende-la numa escolha do coração…


36 O ferido interrompeu-se, por alguns instantes, readquirindo forças, e prosseguiu:

— Não me creias transviado do sentimento… Aprendi com Jesus que o amor, acima de tudo, é o meio de cooperarmos na felicidade daqueles a quem nos devotamos… Amar é fazer a doação de nós mesmos… Admito que o pretérito poderia ter sido orientado por outras normas, entretanto, quem de nós poderá penetrar com segurança a consciência alheia? que faríamos se estivéssemos no lugar deles? Opílio, decerto, foi querido com infinito enternecimento pela alma a quem tanto devemos e, talvez por isso mesmo, não hesitou em manifestar-lhe as mais íntimas aspirações…

— Se devo reconhecê-lo como pai — soluçou o moço, de joelhos —, não entendo o perdão das ofensas!


37 Varro afagou-lhe a cabeça e, como que revigorado por forças extraterrenas, considerou:

— És moço ainda para compreender as tempestades que nos convulsionam o coração… Eu também comecei a perceber a vida pelas tradições dos nossos antepassados. Júpiter enfeixava para mim o poder supremo e acreditei que as criaturas fossem apenas seres agraciados ou perseguidos pelo favor ou pelo desagrado dos deuses… Mas depois encontrei Jesus-Cristo em meu caminho e percebi a grandeza da vida a que somos destinados… Cada homem é um espírito eterno em crescimento para a glória celestial. Somos felizes ou infelizes por nós mesmos… Por esse motivo, não avançaremos para diante, sem a bênção da grande compreensão… A justiça divina observa-nos… Como, pois, nos elevarmos pela virtude sem esquecer as mãos que nos ferem? Conforma-te!… O tempo é o calmante de todas as aflições… Ajuda aos que te atormentam, ampara os que te não entendem… Quantas vezes o criminoso é apenas infeliz?!… Não te arrojes aos precipícios da vaidade e do orgulho! És moço em demasia… Podes aceitar o Evangelho do Senhor e realizar obras imortais!…

— Não posso, não posso!… — clamou o rapaz, abeirando-se do desespero — sinto que não me é possível fugir à verdade! Sou teu filho, sim, mas sou contra o Cristo… Não admito uma fé que anula o brio e o valor! Se não fosses cristão, provavelmente não teríamos atingido este abismo de sofrimento moral! Morrerei com os nossos antigos orientadores. Consagrei minha total confiança às divindades, não posso afastar-me do santuário de nossa fé!…


38 — Não te conturbes! — observou o pai, sereno e bondoso — não seria agora, nos derradeiros instantes de meu corpo, que terçaria armas contigo, em disputa religiosa… Começas, presentemente, a viver. Quantos problemas te reserva o futuro? quantas lições recolherás, em contato com as dores humanas? enquanto os nossos velhos deuses se arrojarão ao pó de que se formaram, Jesus viverá eternamente. Ele te socorrerá em algum ângulo da estrada, como socorreu a mim!… Amanhã, quando o muro de sombra estiver levantado entre nós, continuarei velando por teus passos!… seguir-te-ei a luta, de perto, e voltarei a estar contigo, possivelmente noutro corpo… Renasceremos sempre até o aprimoramento integral de nossa alma… Aqueles que se amam jamais se separam… Morrer não é afastar-se de maneira irremediável… De uma vida mais livre, podemos acompanhar os seres amados de nosso roteiro, inspirando-lhes novos rumos… Por enquanto, nada possuo de mim com que te possa auxiliar, contudo, confio na eficácia da oração e continuarei implorando a bênção de Jesus, em nosso favor… Não importa a transitória impossibilidade de crer em que te encontras… Por minha vez, nada fiz ainda com que possa merecer a divina proteção e tenho recebido, incessantemente, o amparo celeste… Espiritualmente, meu filho, somos ainda crianças no grande e abençoado caminho… Qual acontece ao menino inconsciente, na infância terrestre, que se desenvolve sem perceber a grandeza do Sol que nos sustenta, seguimos na senda humana, ignorando a Infinita Sabedoria que nos ampara e dirige… Apesar disso, por trás de todos os dons que nos felicitam, vive Deus que nos criou para o Bem Eterno e que espera por nosso crescimento com desvelos paternais…


39 Nesse instante, provavelmente pelo excesso de forças que despendera, o moribundo caiu em perigosa crise hemorrágica.

Golfava o sangue, copioso, através da boca e das narinas, dificultando a respiração.

Taciano inclinou-se, então, com filial piedade para o agonizante, buscando socorre-lo.

Sentia-se, enfim, tomado de compaixão.

Percebendo talvez o carinho que renascera no espírito do enteado, Vetúrio, sem dizer palavra, retirou-se, deixando-os a sós. Entretanto, o presbítero não mais tornou ao entendimento particular com o filho. Quando reabriu os olhos, trazia-os desmesuradamente abertos, qual se estivessem postos em horizontes diferentes da vida…


40 Quinto Varro não mais enxergou o recinto acanhado da clausura. As paredes do cárcere, ante a visão dele, haviam desaparecido. O duro leito era o mesmo e podia ver Taciano, junto de si, mas o espaço, em torno, estava repleto de entidades espirituais.

Dentre todas, o agonizante reconheceu, de imediato, o velho Corvino e o pequeno Silvano, que o olhavam afetuosamente.

O santo apóstolo que o precedera, na grande viagem da morte, sentara-se à cabeceira e acariciava-lhe a fronte empapada pelo suor da agonia…

Silvano, por sua vez, fazia-se seguir de algumas dezenas de crianças, sobraçando  delicados instrumentos de música.

Varro estampara, no rosto, largo e belo sorriso.


41 Dirigindo-se a Corvino com palavras que o jovem patrício passou a tomar como sendo manifestação alucinatória, falou em voz baixa, estranhamente reanimado:

— Benfeitor querido, este é o filho de minh’alma!… é o doce menino, a quem me referi, em nossas antigas conversações em Roma… Cresceu em outros braços e desenvolveu-se em outro clima!… Ó meu pai, tu sabes que longas e torturantes saudades me dilaceraram o coração!… Tu sabes como suspirei por esta hora de compreensão e harmonia!… Contudo, ai de mim! os que se amam profundamente, na Terra, costumam reencontrar-se no justo momento da grande separação… Ó pai querido, não me relegues à aflição que trago no peito opresso… Balsamiza meu espírito ulcerado, sustenta-me para a viagem da morte!… Dá-me forças, a fim de que eu possa seguir em paz, avançando no caminho que o Senhor me traçou! Não permitas que os meus pés venham a vacilar na jornada nova! Daria tudo agora para ficar e desvelar-me pelo filho inesquecido, no entanto, o nosso Divino Mestre honrou-me com o seu testemunho de confiança!… Devo partir, deixando na retaguarda o fatigado corpo que me serviu de tabernáculo!… Consola-me, porém, a certeza de que prosseguiremos ligados uns aos outros pelos laços sublimes do amor que, em toda a parte, é a herança gloriosa de Nosso Pai Celeste!… Perdoa-me a insistência com que me prendo a Taciano, nos minutos supremos de minha despedida da Terra!… Ele ainda está moço e inexperiente… Não tem ainda suficiente altura espiritual para compreender o Evangelho, mas o futuro nos auxiliará a vê-lo triunfante… Abnegado Corvino, não o abandones!… Ajuda-o a refletir na grandeza da vida e a descobrir a luz do conhecimento cristão!…


42 O agonizante fez longo intervalo, enquanto o rapaz lhe afagava as mãos, sufocando as lágrimas.

Em seguida, retomou a palavra, exclamando:

— Sei que só a meditação na magnanimidade do Eterno devia ser agora o meu pensamento único… Sei que só a Infinita Bondade do Senhor pode suprir o vazio de minha insignificância, contudo… Taciano é meu filho e Jesus nos prometeu ilimitado perdão quando muito amássemos!… Taciano…

O mártir parecia interessado em prosseguir e o filho mostrava-se ansioso em continuar escutando, mas a resistência de Varro chegara ao fim…

O moribundo emudecera.

Somente os olhos, fitos no jovem angustiado, falavam sem palavras do carinho e da inquietação que lhe vagueavam na alma.


43 Foi então que Silvano e a multidão dos meninos que o acompanhavam cercaram-lhe a enxerga humilde e começaram a cantar…

Quinto Varro ouviu o velho hino, simples e terno, que ele mesmo compusera para felicitar os visitantes de sua escola, enquanto as crianças repetiam:


Companheiro,

Companheiro!

Na senda que te conduz,

Que o Céu te conceda à vida

As bênçãos da Eterna Luz!…


Companheiro,

Companheiro!

Recebe por saudação

Nossas flores de alegria

No vaso do coração…


44 Quando o coro infantil emudeceu, Varro levantou-se, admirado.

Contemplou o corpo que se imobilizara, abatido e exangue. A gratidão pelo invólucro amigo, que lhe propiciara tantas lições, banhava-lhe agora a alma em prece. Em minutos rápidos, reviu todas as lutas e dores do passado, com indefiníveis sensações de paz e de alegria.

Corvino abraçava-o, com a ternura de um pai a um filho querido, enquanto vários amigos, a distância, lhe dirigiam pensamentos de amor.

O presbítero desencarnado via-se, no fundo, aliviado, quase feliz, mas, de inopino, como quem acorda pela manhã clara, retomando alguma preocupação dolorosa da véspera, sentiu-se dominado por chaga invisível a corroer-lhe o coração. Repentinamente fixou Taciano, que chorava em silêncio, e reconheceu nele a sua única dor.


45 Inclinou-se, impulsivamente, sobre o rapaz e abraçou-o. Ah! o calor daquele corpo como que lhe comunicava nova existência, os raios de sentimento emitidos pelo coração filial pacificavam-lhe o íntimo, balsamizando-lhe a mente atormentada!… Conchegou-o, de encontro ao peito, com infinito desvelo, experimentando intraduzível alegria mesclada de amargura, entretanto, o velho Corvino enlaçou-o brandamente, e falou:

— Varro, há mil meios mais seguros de auxiliar, acima das impressões infrutíferas da tristeza ou da aflição. Reergue-te! Taciano é filho de Deus. Muitos companheiros encarceram-se, após a morte, nas teias escuras da afetividade menos construtiva, quais pássaros embaraçados em visco de mel, e transformam-se em algozes carinhosos e inconscientes dos próprios familiares… Levanta o teu padrão de sentimento e caminhemos. Voltarás, decerto, a rever teu filho e estender-lhe-ás os braços robustos e generosos, mas, por agora, Jesus e a Humanidade devem ser as nossas essenciais preocupações de servidores do Evangelho.

O interpelado procurou recompor-se e ergueu ao Senhor o pensamento em rogativa de paz…


46 Sentindo-se dono de faculdades mais sutis, assinalou vozes argentinas, ao longe, num cântico de glorificação a Deus.

Varro lembrou-se, então, dos laços de trabalho e ideal que o ligavam à comunidade cristã e encontrou forças para desprender-se do filho.

Obedecendo ao terno constrangimento de Corvino, afastou-se. Lá fora, no campo, centenas de companheiros aguardavam-no, em regozijo. Numerosos mártires das Gálias, ostentando palmas de luz que brilhavam de conformidade com a elevação espiritual de cada um, cantavam, jubilosos, em homenagem ao novo herói.

Quinto Varro, em pranto de alegria, recordou velhos amigos e lembrou-se de Clódio, o antigo benfeitor, sendo informado de que encontraria o apóstolo naquele mesmo dia, à noite, em Roma, no cemitério de Calisto.

Horas mortas, a luminosa assembleia se pôs em movimento, dando a ideia de uma procissão de arcanjos, na direção da cidade imperial.

Em pouco tempo, espalhando bênçãos de harmonia no firmamento, atingiram a grande metrópole.

Inúmeros missionários da Espiritualidade uniram-se aos irmãos gauleses, de tal modo que, ao chegarem os viajores aos túmulos, constituíam imensa multidão.

Irmanados em pensamentos de amor, sustentados por misteriosa comunhão, formavam prodigioso ambiente sob o manto da noite bordado de lentejoulas a faiscarem, sublimes, em todas as direções.


47 Corvino pronunciou sentida oração de reconhecimento a Jesus e, quando terminava a comovente prece de hosanas, um astro solitário surgiu no espaço, descendo no rumo da luzente assembleia.

Pousando à pequena distância, transformou-se, rápido, num ancião nimbado de luz.

Era Clódio que, aproximando-se, saudou, risonho, os companheiros de fé.

Recolheu Quinto Varro num longo e carinhoso abraço e, depois, passando à tribuna, discorreu com indescritível beleza acerca das tarefas sacrificiais do Evangelho, na redenção do mundo…

Todos os ouvintes lhe escutavam a palavra, tomados de jubiloso assombro.

A elevação geral do pensamento coletivo despedia feéricas irradiações em torno, a incidirem nas lágrimas que inúmeros pioneiros da Boa Nova derramavam, enlevados e comovidos…


48 Terminando, o lúcido orador considerou, com emoção:

— Celebramos hoje o regresso de Varro, nosso abnegado irmão de ideal e de luta. Paladino da nossa Causa, honrou todas as oportunidades recebidas. Valoroso soldado do Cristo, quando ferido não feriu, quando humilhado, jamais humilhou… Nas horas de treva, acendeu a claridade da própria alma, e, quando o mundo julgava derrotá-lo, soerguia-se pela fé e pelo amor, dando ao Mestre os mais altos testemunhos de confiança… Compreendeu o ensinamento evangélico do sacrifício pessoal pela felicidade dos outros, e, oferecendo a própria vida no corpo terrestre, reencontrou a si mesmo, na gloriosa imortalidade! Antigamente conosco, em recuados séculos, combatia a favor do mentiroso poder humano, adquirindo aflitivas desilusões… Vexilário do ideal de dominação política, não hesitava em submeter os semelhantes pela força, a fim de alcançar os objetivos de vaidade e orgulho pessoais, mas, agora, em legítimos combates consigo mesmo, expurgou sentimentos e propósitos, redimindo-se e santificando-se, em longa e porfiada ascensão… Como filho, cumpriu todos os deveres que lhe cabiam no lar; na condição de esposo, exalçou a mulher que lhe partilhou os destinos, respeitando-lhe as ideias diferentes das dele; como pai, soube sofrer até à suprema renunciação, de modo a garantir a felicidade do filho que lhe possuía a afetividade, e, na posição de homem, consagrou-se ao erguimento moral de todas as criaturas…


49 Campeão do serviço e da fraternidade, guerreou o ódio, exemplificando o amor, e exaltou os dons imarcescíveis do espírito pela humildade com que se devotou à expansão da Boa Nova!

Agora, que a sua alma, credora do nosso mais amplo reconhecimento, se afinou, através de notáveis triunfos, com as mais elevadas esferas do Amor Divino, saudemos nosso valoroso companheiro, em trânsito para resplendentes cimos da vida!…

Se quiser, poderá, presentemente, dos cumes do saber e da virtude, colaborar com o Mestre em arrojados cometimentos, na santificação do mundo!

Que o Senhor o abençoe, na trajetória sublime que lhe cabe por gloriosa conquista, em direção do porvir!…

Clódio, sorridente, dera por finda a saudação, enquanto comovedora melodia de hosanas vibrava sob o céu enxameado de cintilantes estrelas…


50 Chorando de alegria, o recém-desencarnado abeirou-se do excelso mensageiro e exprimiu-se, humilde:

— Abnegado amigo, tuas palavras falaram fundo à minhalma. Recebo-as por incentivo caridoso à minha pobre boa vontade, de vez que não as mereço, de modo algum… Sei que a tua generosidade me descerra novos horizontes, que a tua bondade pode conduzir-me às alturas, entretanto, se é possível, deixa-me na Terra mesmo… Reconheço-me, por enquanto, incapaz de seguir adiante, mesmo porque minha tarefa não foi concluída. Alguém…

Clódio acariciou-lhe a cabeça e cortou-lhe a frase, acentuando:

— Já sei. Referes-te a Taciano. Procede como desejares. A decisão te pertence. Recebeste permissão para ajudá-lo, durante um século, e possuis grande saldo de tempo.


51 Fixou nele os olhos doces e penetrantes que exteriorizavam a beleza de sua alma, e perguntou:

— Como desejas alongar a tarefa?

— Gostaria de renascer na carne e servir junto do filho que o Céu me confiou — esclareceu Varro, humildemente.

O emissário refletiu alguns instantes e declarou:

— Em nome dos nossos Superiores, posso autorizar a execução dos teus propósitos, entretanto, devo notificar-te que Taciano perdeu as melhores oportunidades da juventude física. Valiosos recursos lhe foram ofertados, em vão, para que se erguesse à glória do bem. Agora, não obstante amparado por teu carinho, será visitado pelo aguilhão da dor, a fim de que desperte, renovado, para as bênçãos divinas.


52 Varro esboçou um sorriso de paciência e compreensão e pronunciou sentido agradecimento.

O ágape fraterno prosseguiu brilhante, todavia, quando os companheiros se despediam para o retorno a obrigações comuns, o herói de Lião, instado pelo velho Corvino ao descanso, desejou rever Taciano, antes de partir…

O venerando amigo atendeu-lhe à solicitação, prontamente.

Jubilosos e unidos, tornaram à Gália Lugdunense  †  e penetraram, tranquilos, na área do palácio de que o presbítero fora modesto jardineiro.

Não precisaram recorrer ao interior doméstico:

Ao se aproximarem, perceberam os apelos mentais do jovem patrício, à pequena distância…


53 Incapaz de desprender-se da angústia que o absorvia, desde o momento em que se afastara do cadáver paterno, ralado de dor, Taciano abandonara os aposentos particulares e descera ao jardim, em busca de ar fresco. Tomado de terrível amargura, procurou a praça das roseiras, onde tantas vezes permutara impressões com o genitor, então transformado em carinhoso enfermeiro.

Parecia-lhe ouvir, de novo, as referências e observações de outro tempo, recapitulando preciosas conversações acerca de literatos e filósofos, professores e cientistas.

Revia-lhe, na imaginação, o semblante calmo e, somente agora, reconhecia naquela solicitude de todos os instantes a ternura familiar, que, em sua impulsividade, não pudera discernir…

Profunda saudade misturada de irremediável aflição pungia-lhe o espírito.

Sob o pálio das constelações matutinas que tremiam alvinitentes, Quinto Varro aproximou-se e osculou-lhe a face orvalhada de lágrimas copiosas.

— Meu filho! meu filho!… — falou, abraçando-o — Deus é amor infinito! não desfaleças! a oportunidade de redenção ressurge sempre com a divina misericórdia!… Reanima o coração perturbado e levanta-te! Nossa boa e santificante luta apenas começa…


54 O rapaz não escutou com os ouvidos da carne as palavras que lhe eram dirigidas, mas recolheu-as em forma de vibrações de incentivo e esperança.

Sentindo-se inexplicavelmente aliviado, enxugou o pranto e contemplou o céu constelado de luz.

— Vamos!… — continuou o pai abnegado — não gastes inutilmente as próprias forças!…

Enlaçado brandamente, ergueu-se o jovem, sem saber como, e, sustentado pelo benfeitor espiritual, retomou o caminho de volta a casa, entregando-se ao repouso.

O missionário invisível orou junto dele e impôs-lhe as mãos.

Envolvido nas ondas reconfortantes de doce magnetismo, Taciano adormeceu…

Com a íntima ventura de quem cumpre um dever sagrado e belo ao coração, Quinto Varro, amparando-se em Corvino, retirou-se, feliz.

Abraçados, os dois amigos alçaram-se ao santuário de paz e reconforto que lhes serviria de residência, nas esferas da alegria imortal.

Em torno, a alvorada ruborizava o longínquo horizonte…

Esmaecia o fulgor das estrelas e passarinhos madrugadores anunciavam à Terra que um novo dia começava a brilhar.


Emmanuel


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