Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Ave, Cristo! — Emmanuel — 1ª Parte


6

No caminho redentor

1 Dias amargos surgiram para a igreja de Lião,  †  depois da morte de Silvano.

Gratificada por Eustásio, que odiava o Evangelho, a viúva Mércia, mãe da criança, veio a público acusar o irmão Corvino, declarando-o feiticeiro e infanticida. Afirmou, perante as autoridades, que o menino fora vítima de sortilégios malditos, chegando à crueldade de acrescentar que Silvano, órfão, tinha sido fascinado por engodos do pregador.

Extremamente humilhado, o amigo dos pobres foi conduzido a interrogatórios oficiais em que se comportou com admirável nobreza.

Varro nada reclamou.

Esclareceu que visitara a residência de Vetúrio com a melhor intenção e que, inadvertidamente, uma das crianças fora atacada por um cão bravio, solto não sabia como.

Não podia, desse modo, culpar a ninguém.


2 Não faltaram insultos, por parte de romanos sarcásticos, que ele suportou com humildade e heroísmo.

Contudo, quando a prisão dele se fazia iminente, Artêmio Cimbro, patrício de grande fortuna e de não menor generosidade advogou-lhe a causa, empenhando privilégios e haveres por livrá-lo do cárcere. Mobilizando altos valores políticos, junto ao legado propretor, conseguiu sustar a internação temporariamente, arquivando-se o processo para despachos ulteriores, mas o risonho lar dos meninos desapareceu.

As crianças foram recolhidas à pressa, em vários domicílios de irmãos que as receberam com amor.

Considerado, pelas autoridades, indigno de orientar a infância, o companheiro dos sofredores sentiu despedaçar-se-lhe o coração, quando o último petiz o abraçou, chorando, às despedidas.


3 Quinto Varro, o padrão varonil do bom ânimo e o exemplo da fé viva, não obstante a fortaleza espiritual de que invariavelmente dera testemunho, cedeu à tortura que antecede o desalento.

Entre a paixão pelo filho inacessível e o amor pelas crianças de que fora irremediavelmente despojado, era surpreendido, vezes frequentes, entre lágrimas.

Em muitas ocasiões, dentro da noite, via-se diante da chácara senhoril de Vetúrio, tentando ver o rosto de Taciano, em algum ângulo das janelas iluminadas e, não raro, horas mortas, buscava essa ou aquela residência particular para avistar-se com algum dos filhinhos do coração.

Estudava intensamente, tentando fugir aos próprios pensamentos, em longas vigílias que terminavam pela extrema fadiga. Mal se alimentava, empenhando-se em trabalhos sacrificiais pelos doentes, receando talvez mergulhar-se na amargura, da qual resvalaria fatalmente para o desânimo.


4 Apesar das advertências dos superiores e dos amigos, perseverara na excessiva movimentação, até que caiu no leito, sob invencível cansaço. Febre alta devorava-o, devagarinho, constrangendo-o a oscilar entre a vida e a morte.

Por fim, à custa de carinho e devotamento dos companheiros, venceu o inquietante desequilíbrio, mas, apático e abatido, deixou-se permanecer na enxerga do quarto humilde, sem coragem de levantar-se.

Certa noite, acariciado pelo vento fresco que passava, sussurrando brandamente, lembrava ele o velho Corvino com maior intensidade…

O luar e a atmosfera pura, a câmara pequena e a solidão compeliam-no a recuar no tempo.

Sentia imensas saudades do apóstolo que lhe tomara o lugar nos braços escuros da morte…


5 Esposara a missão evangélica com extremado fervor.

Dera à igreja os mais belos sonhos. Renunciara a todos os prazeres do homem comum, para favorecer, em si mesmo, a obra da espiritualização. Buscara esquecer o que fora, para transformar-se no irmão de todos. Dividira o tempo entre o enriquecimento da vida interior e o serviço constante, mas trazia o espírito sequioso de amor.

Seria crime o propósito de aproximar-se do filho para consagrar-se a ele? seria reprovável o desejo de ser igualmente querido?

Na condição de homem, procurara compreende a esposa e honrar-lhe, no íntimo, a escolha feita. Cíntia poderia transitar no caminho que lhe aprouvesse. Era livre e, em razão disso, a mulher não lhe ocupava o pensamento, contudo, a lembrança de Taciano vergastava-lhe o coração. O anseio de ajudá-lo convertera-se-lhe nalma em ideia fixa. Realmente, vira-o agressivo e cruel. Jamais lhe olvidaria a revolta, em ouvindo o nome de Jesus nos lábios tenros de Silvano. Entretanto — pensava —, o rapaz era fruto da falsa educação na casa de Opílio. O homem que o condenara à morte física, sentenciara-lhe o filhinho à morte moral.


6 Seria aconselhável nada fazer pelo jovem que apenas começava a existência? constituiria ato culposo devotar-se um pai ao próprio filho, com a melhor intenção?

Recordando, porém, a grandeza do ideal que o impelia ao amor da Humanidade, perguntava a si mesmo por que motivo queria ao rapaz assim tanto…

Se a igreja povoava-se de meninos e jovens a lhe merecerem atenção e ternura, que razões subsistiriam para concentrar-se em Taciano com tamanha afetividade, quando não desconhecia os intransponíveis impedimentos que os separavam?

Depois de muitos anos de resignação e heroísmo, auscultando os enigmas da própria alma, Quinto Varro rendia-se, não às lágrimas serenas filhas da sensibilidade comovida, mas ao pranto convulso, vizinho do desespero.

A brisa suave, em correntes refrigerantes, penetrava a janela aberta, como se buscasse afagar-lhe a cabeça dolorida…

Agora, todavia, alheava-se dos encantos da Natureza.


7 Apesar da multidão dos amigos de Lião, sentia-se abandonado, sem ninguém… A presença do filho seria provavelmente a única força capaz de restituir-lhe a sensação de plenitude.

De pensamento voltado para a memória de Corvino, recordava-lhe os minutos derradeiros. Falara-lhe o venerando amigo, em termos inesquecíveis quanto à sobrevivência da alma. Alentara-o com a certeza da irrealidade da morte. Consolidara-lhe a confiança e investira-o na posse de imorredoura fé.

Ah! como necessitava, naquele instante, de uma palavra que o arrebatasse ao torvelinho de angústia!

Ele, que ensinara a resistência moral, sentia-se agora frágil e enfermiço.

Pensou no amigo morto, como a criança transviada suspira por reencontrar o regaço materno…


8 Relegado a si mesmo, na solidão do quarto, soluçava com a cabeça dobrada sobre os joelhos, quando notou que leve mão lhe pousava nos ombros recurvos.

Perplexo, ergueu os olhos, inchados de chorar, e — oh! surpresa maravilhosa! — o ancião desencarnado regressara do túmulo e achava-se ali, diante dele, revestido de luz… Era o mesmo apóstolo de outro tempo, mas o corpo como que se fizera diáfano e mais  jovem.

Irradiações de safirina claridade fulgiam-lhe na fronte e desciam como que em jorro sublime do coração.

O presbítero quis gritar a felicidade que lhe invadia o espírito, prosternando-se à frente do mensageiro do Céu, mas uma força incoercível emudecia-lhe a garganta e chumbava-o ao leito pobre.

Com um sorriso inexprimível, traduzindo melancolia e saudade, amor e esperança, a entidade falou-lhe com carinho:

— Varro, meu filho, porque desanimas, quando a luta apenas começa? Reergue-te para o trabalho. Fomos chamados para servir. Divino é o amor das almas, laço eterno a ligar-nos uns aos outros para a imortalidade triunfante, mas que será desse dom celeste se não soubermos renunciar? o coração incapaz de ceder a benefício da felicidade alheia, é semente seca que não produz.


9 O emissário espiritual fez uma pausa ligeira, como a impor ordem à enunciação dos próprios pensamentos e continuou:

— Taciano é filho do Criador, quanto nós mesmos. Não reclames dele aquilo que ainda te não pode dar. Ninguém se faz amado através da exigência. Dá tudo! aqueles que desejamos ajudar ou salvar nem sempre conseguem compreender, de pronto, o sentido de nossas palavras, mas podem ser inclinados ou arrastados à renovação por nossos atos e exemplos. Em muitas ocasiões, na Terra, somos esquecidos e humilhados por aqueles a quem nos devotamos mas, se soubermos perseverar na abnegação, acendemos no próprio espírito o abençoado lume com que lhes clarearemos a estrada, além do sepulcro!… Tudo passa no mundo… Os gritos da mocidade menos construtiva transformam-se em música de meditação na velhice! Ampara teu filho que é também nosso irmão na Eternidade, mas não te proponhas escravizá-lo ao teu modo de ser! Monstruosa seria a árvore que se pusesse a devorar o próprio fruto; condenável seria a fonte que tragasse as próprias águas! os que amam, sustentam a vida e nela transitam como heróis, mas os que desejam ser amados não passam muitas vezes de tiranos cruéis… Levanta-te! Ainda não sorveste todo o cálice. Além disso, a igreja, casa de Jesus e nossa casa, espera por ti… Os que lhe batem à porta, consternados e desiludidos, são nossos familiares igualmente… Esses velhos abandonados que nos procuram tiveram também pais que os adoravam e filhos que lhes dilaceraram o coração… Esses doentes que apelam para a nossa capacidade de auxiliar conheceram, de perto, a meninice e a graça, a beleza e a juventude!… Nossas dores, meu amigo, não são únicas. E o sofrimento é a forja purificadora, onde perdemos o peso das paixões inferiores, a fim de nos alçarmos à vida mais alta… Quase sempre é na câmara escura da adversidade que percebemos os raios da Inspiração Divina, porque a saciedade terrestre costuma anestesiar-nos o espírito…


10 O mensageiro fez breve silêncio, fitou-o com mais ternura, e, em seguida, acentuou:

— Varro, procura teu filho, com a lâmpada acesa do amor, nos filhos alheios, e o Senhor abençoar-te-á, convertendo-te a amargura em paz do coração… Ergue-te e aguarda de pé a luta dentro da qual reeducarás aqueles que mais amas…

O presbítero, num misto de dor e de alegria, de emotividade e de angústia, refletiu sobre a exaustão que o torturava, mas o enviado espiritual, anotando-lhe os mais íntimos pensamentos, aconselhou:

— Não te rendas ao sopro frio do infortúnio, nem creias no poder do cansaço… Que seria de nós se Jesus, entediado de nossos erros, se entregasse à fadiga inútil? ainda que o corpo se recolha às transformações da morte, mantém-te firme na fé e no otimismo… O túmulo é a penetração na luz de novo dia para quantos lhe atravessam a noite com a visão da esperança e do trabalho.


11 O religioso considerou intimamente quão proveitosa lhe seria qualquer informação alusiva ao futuro… Poderia, acaso, esperar alguma aproximação com Taciano? conseguiria reconstituir a escola que perdera?

Bastou que semelhantes indagações lhe assomassem ao cérebro para que a entidade lhe dissesse bondosamente:

— Filho, não aguardes, por agora, senão renúncia e sacrifício… Jesus até hoje não foi compreendido, mesmo por muitos que se dizem seus seguidores. Auxilia, perdoa e espera!… As vitórias supremas do espírito brilham além da carne.

Nesse instante o apóstolo desencarnado inclinou-se e apertou-o nos braços afetuosos.

Quinto Varro adivinhou-lhe a despedida.

Oh! daria tudo para abrir-lhe a alma e relacionar-lhe todos os acontecimentos daqueles anos de saudade e separação, mas trazia as cordas vocais entorpecidas.


12 Corvino osculou-lhe os cabelos, na atitude de um pai que se despede de um filhinho, antes de adormecer, e, recuando até à saída, dirigiu-lhe comovedor adeus.

Lá fora, a noite esmaltada de estrelas embalava-se de brisas perfumadas e refrescantes.

Aquietou-se o doente no leito, com uma sensação de paz somente compreensível por aqueles que vencem em si mesmos os grandes combates do coração.

A breve tempo, qual se houvera sorvido brando entorpecente, dormiu tranquilo.

No dia imediato, acordou registrando singular revigoramento.

Com espanto geral, dirigiu-se aos ofícios religiosos da manhã, para o culto da alegria e do reconhecimento. Mal terminara as preces habituais, notou, não longe do átrio, desusado movimento de povo. Gritaria ensurdecedora vagueava no ar. Ante a silenciosa indagação que esboçava no rosto, alguém esclareceu que alguns bailarinos mascarados se achavam em função na via pública, anunciando o espetáculo de gala que se realizaria no anfiteatro, em homenagem à união matrimonial do moço Taciano com a jovem patrícia Helena Vetúrio.


13 A casa de Opílio tencionava solenizar o acontecimento com vários divertimentos públicos, de vez que o ricaço, senhor de extensas propriedades, pretendia fazer-se mais intensamente respeitado na comunidade citadina.

Com efeito, Vetúrio e a família, acompanhados de grande séquito de clientes e aduladores, haviam chegado para a grande celebração.

A herdade, dantes simples, embora imponente, convertera-se em verdadeiro palácio romano, superlotado de damas elegantes e de tribunos discutidores, de políticos ociosos que comentavam as intrigas da Corte e de bajuladores sorridentes à procura do vinho farto.

Escravos inúmeros iam e vinham à pressa.

Movimentavam-se liteiras e carros, de variadas procedências.


14 Helena não cabia em si de júbilo, entre o carinho do noivo e a admiração de quantos lhe cortejavam a beleza.

Extremamente adestrada na vida social, fazia prodígios para agradar à aristocracia gaulesa, derramando-se em atenções por toda parte.

Cíntia, porém, viera transformada. Intencionalmente, fugia de todas as festividades que lhe agitavam o lar. Ausente das conversações e dos saraus, era dada por enferma na palavra de Vetúrio e de Taciano, ante as interrogações das visitas.

Mas um homem antigo, velho associado de Opílio desde a mocidade, asseverava entre os íntimos que a senhora se fizera cristã.

Esse homem era o mesmo Flávio Súbrio, o velho soldado coxo, renovado também nas concepções da vida.


15 Súbrio recebera em Roma inestimáveis benefícios da coletividade evangélica e alterara os princípios que lhe norteavam o destino.

Do ateísmo e do sarcasmo passara à crença e à meditação.

Não era um adepto do Cristo, na verdadeira acepção da palavra, entretanto, fazia leituras edificantes, respeitava a memória de Jesus, dava esmolas e evitava o crime que, em outro tempo, constituía para ele trivialidade sem importância.

Por algumas vezes, comparecera às pregações das catacumbas e modificara-se. Conseguira reter na consciência a bênção do remorso e reconsiderara o caminho percorrido…


16 Todavia, de todos os dramas escuros que lhe povoavam o espírito, o assassínio de Corvino era talvez o que mais lhe dilacerava o coração.

Em muitas ocasiões, perguntara, sem resposta a si mesmo, que teria sido feito de Quinto Varro… Onde teria desembarcado? Conseguira sobreviver? Nunca mais obtivera dele a menor notícia.

Jamais esquecera a expressão de calma dos olhos de Corvino, quando lhe apunhalara o tórax envelhecido. Supôs que o apóstolo gritasse revoltado, entretanto, em se descobrindo, angustiado, o ancião levou a destra ao peito opresso, sem o mais leve gemido de reação. Aliás, ao sair, notou que ele orava… Aquele quadro nunca mais se lhe apagou da memória. Perseguia-o em todos os lugares. Se procurava mergulhar-se em taças fascinantes ou se buscava outros ares e companhias, com o intuito de fugir de si mesmo, lá se achava, no fundo da mente, a figura indelével do velho pregador, retribuindo-lhe a punhalada com a oração.


17 Atormentado pela própria consciência, não tolerara o suplício que infligira a si mesmo, e enlouquecera.

Nas provações da demência, fora socorrido por um grupo de cristãos, cujas preces lhe haviam balsamizado o espírito sofredor. Desde então, modificara o modo de ser, não obstante conservar encerrados consigo os seus inquietantes segredos, confiando-se aos braços renovadores do tempo.

Quando Opílio o convidou a transferir-se para a Gália, não hesitou.

Sabia que o missionário morto pertencera à coletividade lionesa e propunha-se algo fazer pela organização que ele tanto amara. Conhecia as hostilidades de Vetúrio contra o Evangelho, no entanto, não lhe faltariam recursos para ajudar, anônimo, à família espiritual que o irmão Corvino legara aos companheiros.


18 Sempre ligado à casa de Vetúrio, fora informado por uma escrava de confiança que Cíntia, enferma, se dispusera a receber o auxílio cristão, nos aposentos que lhe eram particulares e, restabelecida, alterara espiritualmente os próprios rumos.

Simpatizara com a nova atitude da matrona, todavia, a esse respeito, nunca pudera ter com ela a mais ligeira entrevista.

Efetivamente, essa informação era verdadeira. Cíntia tomara-se de súbita inclinação para o Cristianismo.

Logo após a temporária separação do filho, fora igualmente atacada pela peste, somente debelada com a interferência de um santo homem que, conduzido ao seu leito, às ocultas, por algumas escravas, lhe impusera as mãos em prece, devolvendo-lhe a paz íntima.


19 Reerguera-se da cama, contudo sentia-se presa de insopitável melancolia.

As crises de coração eram frequentes.

Quando a casa se envolvia em silêncio, descia para o jardim, preferindo a meditação a qualquer bulício doméstico. Nessas ocasiões, muitas vezes Opílio a recolheu nos braços, enxugando-lhe as lágrimas abundantes.

A princípio, julgou-a repentinamente escravizada à memória de Varro e tentou distraí-la, mas acabou percebendo que a mulher amada abraçara novos princípios religiosos.

Estabeleceu com ela discussões que, gradativamente, se fizeram amargas e rudes e, por fim, considerou prudente afastar-se de Roma, por tempo indeterminado, esperando que a palavra de Taciano a dissuadisse.


20 Em Lião, o padrasto entendeu-se com o rapaz, que, orgulhoso e inflexível, lhe escutou as confidências, de semblante espantado e sombrio. O moço aguardou uma oportunidade favorável ao tipo de conversação que desejava e, na véspera do casamento, valendo-se de ensejo adequado, alegou a necessidade de apresentar à mãezinha alguns novos trabalhos que vinha movimentando e retiraram-se ambos para vinhedo próximo.

Ante o Sol que se afigurava um braseiro perdido no poente afogueado, o jovem recordava, pelo caminho, que aquele era o seu último dia de mocidade sem compromisso. Na manhã imediata, marcharia ao encontro de novo destino.

Sob ramalhudo e anoso carvalho que parecia interessado em proteger a plantação nascente, tomou as mãos maternas e comentou os receios que lhe feriam a alma…

Porventura, teria ela esquecido os votos sagrados do coração? Soubera pelo pai adotivo que vivia agora dominada pelos sortilégios nazarenos… Seria isso verdade? Não podia conformar-se com a ideia de que houvesse alterado a direção da fé. Sabia-a forte, como sempre consagrada aos numes domésticos, sem qualquer traição aos antepassados, e nela confiaria até ao fim.


21 A genitora registrou-lhe as palavras, de olhos velados pela névoa do pranto que não chegava a cair e, como se guardasse n’alma a sombra do crepúsculo que começava a vestir a paisagem, respondeu com amargura:

— Meu filho, amanhã terei cumprido integralmente a minha tarefa de mãe. O teu casamento assinala o fim de minhas responsabilidades nesse sentido. Podemos, pois, conversar, de coração para coração, como dois velhos amigos… De alguns anos para cá, sinto muita sede de renovação espiritual…

— Mas porque renovação se o carinho dos deuses jaz sobre a nossa casa? — atalhou o rapaz agastado e apreensivo. — Acaso nos falta qualquer coisa? não vivemos uns para os outros na doce confiança recíproca que os protetores celestes nos conferiram?

— A fartura de bens materiais nem sempre traz felicidade ao coração — observou a matrona, sorrindo, triste —; a riqueza de Vetúrio pode não ser a minha riqueza…


22 Pousou no filho os olhos molhados e calmos que o sofrimento íntimo enobrecera e continuou, depois de longa pausa:

— Nossa personalidade, enquanto somos jovens, é semelhante a pedra preciosa por lapidar. Mas o tempo, dia a dia, nos desgasta e transforma, até que um novo entendimento da vida nos faça brilhar o coração. Sinto-me em nova fase. És hoje um homem e podes entender… Há muito tempo observo a decadência que nos rodeia. Decadência nos que governam, a expressar-se em desmandos de toda a sorte, e decadência nos governados que fazem da existência uma caça ao prazer… Noutra época, tive também os olhos vendados. Por mais falasse teu pai, avisadamente, buscando acordar-me, mais surdos se me faziam os ouvidos… Hoje, porém, as palavras dele ressoam em minha consciência com mais nitidez. Achamo-nos atascados no lodo de vícios e misérias morais. Só uma intervenção espiritual, diversa daquela em que até hoje temos acreditado, pode solevar o mundo…

— Mas, meu pai — explicou Taciano, visivelmente contrafeito — era um filósofo que não se afastou de nossas tradições. A documentação que nos deixou atesta-lhe a cultura. Além do mais, foi assassinado quando cumpria nobre dever no combate à praga cristã.


23 A senhora estampou indisfarçáveis sinais de amargura, na fisionomia serena e replicou:

— Enganas-te, meu filho! Cresceste ao lado de Vetúrio, sob a névoa espessa que nos esconde o passado… Devo, porém, asseverar-te agora que Varro era seguidor de Jesus…

Tomando conhecimento da inesperada revelação, o rapaz transtornou-se.

Estranho rubor subiu-lhe à face. Intumesceram-se-lhe as veias do rosto, crisparam-se-lhe os lábios e animalizou-se-lhe a expressão.

Amedrontada, Cíntia emudeceu.


24 Qual acontecera no dia da morte de Silvano, o jovem patrício colocou-se fora de si.

Não podia insubordinar-se naquela hora, contudo, bradou em desabafo:

— Sempre defrontado por esse Cristo que não procuro! Pela glória de Júpiter, nunca cederei, nunca cederei!…

A genitora recuou, possuída de forte espanto.

Jamais lhe percebera tamanho desequilíbrio.


25 Taciano apresentava a máscara indefinível do sofrimento e do ódio, qual se estivesse, de chofre, à frente do seu mais terrível adversário.

Contemplou Cíntia, trêmula, e esforçando-se, em vão, por acalmar-se, enunciou com um ar de desalento:

— Mãe, Opílio tem razão. A senhora está mesmo demente. A peste enlouqueceu-a!…

E depois de alguns instantes de silêncio, em que apenas se lhe ouvia a respiração ofegante, acrescentou, melancólico:

— Amanhã, desposarei Helena com um dardo envenenado a pungir-me o peito.

Logo após, enlaçou-a, nervoso, com a preocupação de quem conduz um doente grave e, sem qualquer palavra, deixou-a, aflita e desapontada, em ataviada câmara de repouso.


26 Desde aquele crepúsculo inolvidável, Cíntia Júlia foi tida à conta de louca no seio da família.

O casamento dos jovens realizou-se com solenidades excepcionais. Por três dias consecutivos, a herdade e o anfiteatro regurgitaram de convidados para os jogos e festejos gratulatórios, com alegres cerimoniais de louvor e reconhecimento aos numes tutelares. Mas, no esplendor do regozijo público, duas personagens jaziam estigmatizadas por infinita angústia. Opílio e Taciano, constrangidos a manter a dona da casa no indevassável exílio doméstico, guardavam o sorriso artificial de quem recebia o júbilo do povo como taça brilhante cheia de fel.

Os aposentos da matrona permaneciam sob a guarda severa que Epípodo dirigia.

Proibiu-se-lhe a ela a recepção de visitas.

A entrada dos próprios servidores passou a ser devidamente controlada. A esposa de Vetúrio só poderia avistar-se com os mais íntimos.


27 E enquanto Opílio, agora mais estreitamente ligado a Galba, se devotava a largos empreendimentos na pecuária, junto de Helena e Taciano que se amavam, risonhos e felizes, Varro, desacoroçoado de qualquer entendimento com o filho, voltava à posição de protetor dos desamparados, dividindo-se entre as tarefas sacrificiais de sempre e as pregações edificantes, em que a sua palavra sublime parecia banhar-se de redentora luz.

A fama do irmão Corvino aumentava dia a dia, entre o ódio gratuito dos romanos gozadores e o agradecimento das almas simples que buscavam nele o refúgio e a consolação, a saúde e a esperança…


28 O ano 235 entrara sob escuros vaticínios.

Repletava-se o Império de incessante mal-estar.

Importante corrente do patriciado, sob a instigação de sacerdotes consagrados às divindades olímpicas,  †  acusava os adeptos da Boa Nova com referências amargas, atribuindo-lhes a causa dos desastres que atormentavam a vida coletiva.

A peste que flagelava o mundo latino, em todas as direções, as colheitas mirradas, as vicissitudes da guerra e a instabilidade política eram tidas como consequência do trabalho punitivo dos deuses, que castigavam os cristãos, sempre mais numerosos em toda a parte.


29 Nuvens terríveis acumulavam-se sobre os trabalhadores do Evangelho, que, em preces, aguardavam o desabar de novos temporais.

Em meio de prognósticos sombrios, Caio Júlio Vero Maximino  †  subira ao trono romano.

Alexandre Severo fora assassinado cruelmente, desaparecendo com ele a influência das mulheres piedosas que amparavam o Cristianismo no trono imperial.

O novo césar assemelhava-se a um monstro que se apoderara da púrpura, sedento de sangue e de poder.

Fortaleceu, à pressa, os tiranos da administração e do exército e vasta perseguição aos prosélitos do Cristo foi reiniciada, com impulso avassalador.

Embora Maximino se mantivesse nas lides belicosas do mundo provincial, o movimento de morte irradiou-se de Roma, despertando a autocracia e a violência.


30 Diversas proclamações foram levadas a efeito, recomendando, a princípio, apenas o assassínio dos bispos e dos religiosos que lhes acolitassem o ministério, com anistia aos que abjurassem a fé, mas, a breve tempo, avolumou-se a onda arrasadora contra todos os profitentes do credo martirizado.

Inúmeras igrejas, levantadas desde a ascensão de Caracala,  †  com ingentes sacrifícios, foram vítimas de pavorosos incêndios.

Na metrópole, os perseguidos tornavam ao culto exclusivamente nas catacumbas, e, nas cidades distantes, a repressão era graduada ao talante dos principais.

Com os cultivadores do Evangelho reconduzidos aos tribunais, aos calabouços e aos anfiteatros, recomeçou vasta efusão de sangue em toda a parte.


31 Em Lião, a igreja de São João foi interditada e os objetos sagrados passaram às mãos irreverentes de autoridades inescrupulosas. O corpo eclesiástico e os religiosos de obrigações definidas foram expulsos desapiedadamente, mas alguns deles, dentre os quais o irmão Corvino, resistiram à situação e permaneceram na cidade velando pelo rebanho aflito.

Os seguidores de Jesus, nas Gálias, não obstante todos os reveses da imensa luta, persistiram na fé, valorosos e invictos. Como os druidas, seus heroicos antepassados, procuraram a floresta para os seus cânticos de louvor a Deus. Depois do trabalho de cada dia, marchavam à noite, rumo ao campo amigo e silencioso, em cujas catedrais de arvoredo, sob o firmamento estrelado, oravam e comentavam as divinas revelações, como se respirassem, por antecipação, as alegrias do Reino Celeste.


32 Quirino Eustásio, o questor, movimentou os mais escuros fios da intriga e da calúnia, para que se efetuasse uma grande matança, mas Artêmio Cimbro, patrício por todos os títulos venerável, opunha toda a sua poderosa influência contra qualquer medida extrema.

Diante dos obstáculos que lhe estorvavam os desejos, Quirino aventou a ideia de os grandes senhores realizarem, nas próprias casas, o que denominava como sendo o “justo escarmento”. Os escravos reconhecidamente cristão seriam condenados à morte, e seus descendentes vendidos para outras regiões, a fim de que a cidade sofresse um expurgo tão completo quanto possível.

Uma ordem do legado imperial, por ele obtida sem dificuldade, completou-lhe os propósitos, encetando-se o morticínio em seu próprio lar.

Seis homens cativos foram trucidados espetacularmente, ao toque de músicas e entre júbilos populares, alastrando-se a medida por várias casas nobres.


33 Chegada a vez do palácio rural de Opílio, o questor visitou-o para articular as providências necessárias.

— Ao que me consta — informou Vetúrio, depois de interpelado —, temos aqui tão somente um recalcitrante.

— Já sei — falou Eustásio, malicioso —, trata-se de Rufo, nosso teimoso e velho conhecido.

Taciano foi chamado a opinar.

O filho de Cíntia trouxe pelo braço a jovem esposa, em cujo regaço dormia Lucila, a primogênita recém-nata.


34 A conversação prosseguiu animada e ferina.

— Suponho — explicou o dignitário enfatuado — que não temos outra alternativa. Exterminaremos a canalha ou seremos exterminados por ela. Observo que alguns dos nossos compatriotas, e dos mais eminentes, receiam afrontar a ameaça galileia, em nossa cidade, considerando talvez os seus fatores numéricos. Entretanto, é imprescindível reagir. Lião é a metrópole moral das Gálias,  †  tanto quanto Roma é o centro do mundo. Que seria de nós estimulando aqui o favoritismo? Que Artêmio Cimbro agasalhe os velhacos, valendo-se do seu prestígio com senadores e altos magistrados de Roma, é calamidade que não podemos evitar, mas procedermos nós do mesmo modo, com servos imundos e ladrões, seria digno dos nossos foros de nobreza?

Os circunstantes aprovaram-lhe as palavras, com expressivos sinais de simpatia.

— Os escravos — continuou Quirino, convincente — são instrumentos passivos de trabalho e um instrumento, por si, não pode raciocinar. Somos nós os responsáveis. Providenciar é nosso dever.


35 E talvez porque a pausa se fizesse mais longa, Helena opinou, com firmeza:

— Concordo plenamente. Desde muito observo que a praga nazarena tem, sobretudo, deletérios efeitos psíquicos. Parece desfigurar o caráter e apagar o brio das pessoas. Antigamente, os sentenciados a morte nos circos lutavam, denodados, com as feras ou com os gladiadores, conseguindo, muitas vezes, recuperar o direito de viver e a própria liberdade. Agora, contudo, com os ensinamentos do homem crucificado, arrefeceu-se-lhes a galhardia. Há, por toda a parte, uma enchente de vergonha. O combate nas festas sempre foi um belo símbolo. Atualmente, porém, ao invés da lança em riste, vemos braços cruzados e ouvimos cânticos até ao fim.

Eustásio soltou estentórica risada e acentuou:

— Bem lembrado! bem lembrado! se a moda pega, viveremos de joelhos para que os vagabundos se mantenham de pé.

O entendimento prosseguiu demorado e minucioso.


36 Marcaram o dia da derradeira tentativa para a recuperação de Rufo.

Solenizariam o acontecimento.

Os escravos não seriam dispensados da cena final.

Eustásio traria consigo um comprador da Aquitânia e, se o renitente não cedesse, vender-lhe-iam a esposa e as duas filhinhas, no instante em que se lhe processasse a eliminação.

A medida seria uma advertência aos demais e, provavelmente, sustaria novos surtos de indisciplina.

Examinaram entre si o gênero de morte mais adequado à situação, caso Rufo se revelasse inflexível.


37 Salientou Vetúrio que um machado nas mãos de Epípodo não seria usado em vão, mas Quirino, perverso, recordou que um servo delinquente, arrastado pela cauda de um potro selvagem, era sempre um quadro festivo, digno de ser visto.

O dia do expurgo na fazenda de Opílio surgiu sob pesada expectação.

Indisfarçável angústia transparecia do semblante de numerosos trabalhadores, concentrados em extenso pátio.

Vetúrio, Taciano e Galba, seguidos de Quirino, de outras personalidades destacadas e do mercador de cativos, penetraram o recinto, empertigados, dominadores e livres.


38 Rufo, ladeado por musculosos guardas, foi trazido ao centro da praça, em cujos limites se amontoavam homens, mulheres e crianças.

Foi então que Vetúrio determinou que uma senhora e duas meninas se aproximassem.

Eram Dioclécia, a esposa do prisioneiro, e as duas filhinhas Rufília e Diônia, que o abraçaram com sofreguidão e alegria.

— Papai! papaizinho!…

As vozes cariciosas ecoaram, comoventes, arrancando lágrimas, enquanto o escravo mostrava o pranto que lhe manava dos olhos, como gotas de orvalho diamantino, deslizando sobre expressiva máscara de bronze.


39 Epípodo, atendendo a um sinal do senhor, separou o belo grupo familiar e a voz de Opílio bradou, emprestando às palavras o máximo de energia:

— Rufo! chegou o momento decisivo! Jurarás fidelidade aos deuses e serás salvo, ou seguirás o impostor galileu, sentenciando-te à morte e provocando o banimento definitivo dos teus. Escolhe! não há tempo a perder!…

— Ah! senhor — chorou o servo, caindo de joelhos —, não me condeneis! Compadecei-vos de mim!… sou escravo desta casa, desde que nasci!…

O infeliz calou-se, dominado pela angústia, e a cabeça noutro tempo ereta e altiva baixou o rosto até à poeira que Vetúrio pisava.

— Não invoques o passado! Atende ao presente! porque a ilusão nazarena, quando as nossas divindades te propiciam o pão farto e a vida feliz?


40 Rufo, porém, reergueu a fronte, recuperando a serenidade.

Contemplou a esposa que o fitava, amargurada, e, em seguida, estendeu os braços para Diônia, meigo anjo moreno de quatro anos, que se precipitou, de novo, para ele, exclamando, confiante:

— O senhor vem conosco, papai?

O interpelado fixou a menina, com inexprimível ternura, mas não respondeu.

Ninguém poderia conhecer o drama que se desenrolava por trás daquele semblante sulcado pelo sofrimento.


41 Os olhos estáticos pararam de chorar.

Súbita e inabalável firmeza estampara-se-lhe no rosto.

Elevou a atenção para o Céu, evidenciando íntima atitude de oração, mas Opílio tornou a falar, contundente e gritante:

— Não delongues, não delongues! Renegas a superstição nazarena e abominas agora o impostor da cruz?

— O Evangelho é revelação divina — informou Rufo, possuído de calma impressionante —, e Jesus não é um mistificador e sim o Mestre da Vida Imperecível…

— Como ousas? — atalhou Vetúrio, encolerizado — a tua morte não passará de suicídio e serás o verdugo da própria família. Dioclécia e as meninas serão expulsas e, quanto a ti mesmo, em poucos momentos descerás ao convívio das potências infernais.


42 Lançou-lhe rancoroso olhar e rematou, depois de ligeiro intervalo:

— Desgraçado, não temes?

O escravo, parecendo envolvido em vigorosas forças espirituais, fitou-o, com tristeza, e esclareceu:

— Senhor, os que vão morrer colocam-se à frente da verdade… Dói-me o coração reconhecer a esposa e as filhinhas humilhadas pelo incerto destino que as espera na Terra, entretanto, entrego-as nesta hora ao Juiz do Céu. Hoje podeis sentenciar. A casa, o solo, o arvoredo e o ouro permanecem em vossas mãos. Amanhã, porém, sereis chamado à prestação de contas nos tribunais divinos. Onde estão aqueles que, em outro tempo perseguiram e condenaram? Arrojaram-se todos ao mesmo pó em que se confundem os servos e os senhores. As liteiras da vaidade e do orgulho consomem-se no tempo… Não temo a morte, que para vós é enigma e mistério, e para mim é libertação e vida…

A grande assembleia escutava com insopitável torpor de assombro.


43 Opílio, manietado talvez por fios intangíveis, jazia imóvel como o bastão lavrado em que se apoiava, por nota marcante de sua autoridade doméstica.

— Comentais a lamentável situação de minha companheira e de minhas filhas — continuou Rufo, depois de curto intervalo —, em vista de vossa resolução, exilando-as para outras terras, no entanto, com o respeito que a vossa família sempre nos mereceu, sou levado a perguntar por vossos antepassados… Onde viverão hoje vossos pais? Os títulos do patriciado não exoneraram vossos avoengos dos deveres para com o sepulcro. Sois tão separado deles, como serei doravante dos meus… E, enquanto a vossa saudade vagar como sombra inútil, corvejando sobre os vossos dias, a dor de minha mulher tanto quanto a minha própria dor produzirão em nós a confortadora certeza de estarmos cooperando na edificação de um mundo melhor… Somos escravos, sim, nascidos sob o jugo pesado de cruel cativeiro, contudo, nosso espírito é livre para adorar a Deus, segundo a nossa compreensão. Antes de nós, companheiros outros conheceram o martírio… Quantos terão sido assassinados nos circos, nas cruzes, nas fogueiras e nos tribunais?! quantos terão demandado o túmulo, carregando espinhosos fardos de aflição!… Entretanto, nossos corações feridos, como o lenho atirado ao fogo, alimentam a chama do idealismo santificante que iluminará a Humanidade! Nossos filhos jamais estarão órfãos. Tutelados do Cristo, no mundo, constituem a herança abençoada de nossa fé, destinada ao grande futuro… A felicidade celeste habita conosco nos cárceres da Terra. Nossos padecimentos são semelhantes às sombras ralas da madrugada que se misturam à luz nascente de novo dia!…


44 O prisioneiro fitou Vetúrio, de frente, com valorosa serenidade, e afirmou sem afetação:

— Vós, porém, romanos dominadores, tremei, enquanto rides! Jesus reina, acima de César!…

Vencendo a lassidão que o dominava, Opílio Vetúrio agitou os braços e clamou:

— Cala-te! nem mais uma palavra! Epípodo, o chicote!…

O capataz estalou o rebenque no rosto do escravo enobrecido, enquanto Vetúrio, em poucas palavras, concluía o negócio com o mercador.

Dioclécia e as filhinhas foram cedidas a preço ínfimo.


45 Enquanto o potro bravio era aparelhado, a esposa do mártir tentou lançar-se nos braços dele, mas algumas companheiras afastaram-na, com as meninas, para recanto próximo.

Rufo ia ser atado à cauda do animal que relinchava, escouceante, quando Berzélio, o comprador de cativos, abeirou-se dele e ciciou-lhe aos ouvidos:

— Tua família encontrará um lar em nossa casa da Aquitânia. Morre em paz, eu também sou cristão.

Pela primeira vez, naquele dia de terríveis recordações, belo sorriso estampou-se no semblante do mártir.

Mais tarde, algumas mulheres piedosas da igreja lhe recolhiam os despojos em matagal próximo.

Emancipara-se Rufo para servir com mais segurança aos desígnios do Senhor.


46 Da elevada janela dos seus aposentos de exílio, Cíntia acompanhara a cena horrenda. Vendo o animal desembestar pelo bosque, arrastando a vítima indefesa, desmaiara de pavor.

Escravas de confiança, orientadas por Helena, aflita, iam e vinham na azáfama do socorro. Taciano esqueceu as visitas e colocou-se ao lado da enferma, acabrunhado e abatido.

Duas horas de expectativa correram pesadas e tristes.

Depois de muitas massagens e de vários excitantes nas narinas, a senhora acordou, mas, para espanto de todos, desferia estranhas gargalhadas.

Cíntia Júlia estava louca…

A família Vetúrio, desde então, cobriu-se de provas inquietantes.


47 Um ano decorreu sem novidades de vulto.

Excursões diversas nas Gálias foram efetuadas com a doente, na companhia de Opílio e Taciano, em busca de melhoras que não apareceram. Médicos e oráculos famosos foram consultados sem proveito.

Não obstante reforçado o serviço de vigilância em casa, a guarda da enferma tornou-se mais difícil.

De quando em quando, era encontrada a falar consigo mesma, em voz alta, com evidente alienação mental, mais acentuada.


48 Certa feita, burlando as sentinelas, caminhou para um velho tugúrio, onde o irmão Corvino socorria os sofredores.

Quinto Varro orava com a destra suspensa sobre duas crianças paralíticas, quando notou a presença da mulher amada, que ele, de pronto, identificou.

Irreprimível amargura envolveu-lhe o coração.

Cíntia era apenas uma sombra.

O corpo descarnado, as rugas numerosas, a cabeleira quase branca e os lábios torcidos desfiguravam-na desapiedadamente.


49 Fixou-o, a princípio, com indiferença, mas observando-o sozinho, tão logo se haviam retirado as visitas, iluminou-se-lhe a expressão de fé e confiança.

Acercou-se, respeitosamente, do apóstolo e rogou, humilde:

— Pai Corvino, há muito tempo ouço referências ao vosso trabalho. Sois um intérprete de Jesus! Valei-me, por piedade! Sinto-me doente, cansada de tudo…

E, provavelmente porque reparasse a perplexidade do benfeitor, acrescentou, precipitada:

— Não me conheceis? Sou a segunda esposa de Opílio Vetúrio, um dos inimigos dos cristãos! A família declara-me dementada… Oh! sim, quem sabe? que pode fazer uma pobre mulher senão enlouquecer quando se vê plenamente ludibriada pela vida? poderá o coração vencer as dores irremediáveis? como conseguirá uma árvore resistir ao raio que a destrói? já vistes alguém sustar a corrente de um rio com um simples ramo de parra? Noutro tempo, fui a esposa de um homem que não soube compreender e sou mãe de um filho que me não entende… Estou exausta… Errei, preferindo o inferno do ouro, quando Deus me oferecia o paraíso da paz… Desprezei o companheiro que realmente me queria para a glória do espírito e julgaram-me senhora de robusto juízo… Agora, procuro recuperar minh’alma e tratam-me por louca… Estou farta de ilusões… Quero a bênção do Cristo consolador… Aspiro à renovação…


50 A infortunada matrona enxugou as lágrimas, ante o missionário que a fitava, aterrado e enternecido, e continuou:

— Avaliareis, por acaso, o sacrifício do coração materno, alimentando um filho, dia a dia, orvalhando-o com o pranto de sua dor e fortalecendo-o com os raios de sua alegria, para vê-lo, em seguida, conscientemente entregue à ferocidade? Podereis imaginar os padecimentos da mulher que, vítima de si mesma, permanece situada entre o desencanto e o remorso, ferida nas menores aspirações? Ah! pai Corvino, por quem sois! compadecei-vos de mim!… Desejo buscar o Mestre, mas estou condenada a respirar entre os ídolos que me enganaram… Socorrei a minh’alma que sangra!…

Ajoelhou-se como quem nada mais poderia dar de si própria senão a suprema humildade e, com surpresa, verificou que o irmão dos infelizes tinha lágrimas abundantes.

— Chorais? — bradou a enferma, perplexa — só um emissário do Senhor pode assim proceder… Sou culpada! culpada!…


51 Lançando os olhos para o alto, começou a gritar com manifesto desequilíbrio:

— Perdoai-me, ó meu Deus! meus pecados são enormes. Tenho crimes que provocam o pranto dos vossos escolhidos! Malditos os deuses de pedra que nos arrojam aos despenhadeiros da ignorância! malditos os gênios do egoísmo, do orgulho, da perversidade e da ambição!…

Quinto Varro, que a fisionomia envelhecida e a longa barba tornavam irreconhecível, inclinou-se para ela e, dominado pelo carinho espontâneo, murmurou:

— Cíntia! espera e confia!… Deus não nos esquece, ainda mesmo quando sejamos induzidos a esquece-lo…


52 Estranho fulgor estampou-se no semblante da enferma, que lhe cortou a palavra, exclamando:

— Oh! esta voz, esta voz!… quem sois? como soubestes meu nome sem que eu vo-lo dissesse? Sereis, acaso, um fantasma que regressa do túmulo ou a sombra de um homem que morreu sem nunca estar morto?

O missionário afagou-a com ternura e osculou-lhe os cabelos, copiando, instintivamente, os gestos da mocidade.

Perplexa, a matrona recuou, exibindo no olhar profunda lucidez, qual se fora repentinamente chamada à realidade pela grande emoção…

Fixou o interlocutor, de frente, com inexprimível espanto, e gritou:

— Varro!…


53 Na inflexão com que pronunciara aquele simples nome, colocara todo o amor e todo o assombro que era capaz de sentir.

O apóstolo, no entanto, debalde aguardou a frase que se lhe apagara nos lábios descoloridos.

Cíntia contemplou-o por momentos curtos, emudecida, mantendo na expressão fisionômica a extática felicidade de quem encontra um tesouro há longo tempo acariciado…

Um peregrino da fé religiosa que surpreendesse o paraíso não revelaria maior ventura que a daquela face transfigurada por suprema alegria interior.

O quadro inolvidável, porém, foi breve como um relâmpago dentro da noite.


54 Destrambelhado o coração pelo júbilo do reencontro, a pobre senhora empalideceu repentinamente, os órgãos visuais arregalaram-se-lhe nas órbitas e o corpo oscilou, desgovernado.

Varro, aflito, correu a ampará-la.

A agonizante aquietou-se-lhe nos braços com a submissão de uma criança.

O valoroso patrício, que a fé metamorfoseara em sacerdote, rociando-lhe o rosto de lágrimas, cerrou-lhe os olhos, piedosamente.


55 Cíntia Júlia morrera como um passarinho, sem estertores, sem contrações.

Apertando-a, de encontro ao coração, Quinto Varro soluçou, balbuciando uma prece.

— Senhor! — clamou ele — tu, que nos reúnes com bondade, não nos separarias para sempre!… Amigo Divino, que nos concedes a luz do dia depois das sombras da noite, dá-nos serenidade, finda a tormenta!… Ampara-nos o coração desarvorado nos tortuosos caminhos do mundo e abre-nos o horizonte da paz! Tantas vezes morremos nas trevas da ignorância, mas a tua compaixão nos ergue, de novo, à claridade divina! Nada posso pedir-te, servo que sou agraciado por tantas bênçãos imerecidas, mas, se possível, rogo-te proteção para quem hoje te busca, com o espírito sedento de amor. Ó Mestre de nossas almas, socorre-nos na solução de nossas necessidades! Nada podemos sem a tua luz!…


56 Sufocado pela comoção, silenciou.

A oração falada morrera-lhe na garganta, mas o espírito fervoroso prosseguiu em súplica silenciosa, que somente foi interrompida à chegada de um irmão que o auxiliou a prestar as derradeiras expressões de carinho à morta, cujos lábios se entreabriam, imóveis, num sorriso indefinível.

Um mensageiro de confiança foi expedido ao palácio de Vetúrio, mas, temendo represálias, o emissário apenas notificou que a senhora, vítima de inopinado mal-estar, exigia imediata assistência.


57 A notícia foi recebida desagradavelmente.

Aquela fuga para o círculo cristão era detestável acontecimento.

Epípodo, o chefe da vigilância, foi advertido com severidade e um homem da estima familiar, à frente de vários cooperadores, foi incumbido de superintender a remoção da enferma para a casa.

Esse homem era Flávio Súbrio.

O velho soldado procurou o irmão Corvino e, surpreendido por aquela voz que não lhe parecia estranha, veio a conhecer a deplorável ocorrência.


58 Lançando olhares desconfiados para o apóstolo, que tinha nome idêntico ao da vítima que ele nunca esquecera, providenciou, respeitoso, o transporte do cadáver, que Varro ajudou carinhosamente a instalar na carruagem, convertida em coche mortuário.

Infinita consternação envolveu a residência romana outrora fulgurante e feliz, e, ao entardecer, um pelotão de legionários cercou o casebre em que o irmão Corvino meditava…

Vetúrio reclamara-lhe a prisão para o inquérito que pretendia instaurar.

O presbítero foi acintosamente recolhido e encarcerado sem a menor consideração.

O martírio supremo de Quinto Varro ia começar.


Emmanuel


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir