Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Ave, Cristo! — Emmanuel — 1ª Parte


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Corações em luta

1 Em sua vila adornada de rosas, no sopé do Aventino,  †  para o lado do Tibre, Quinto Varro, jovem patrício romano, meditava…

Regressara ao templo doméstico, depois de longo trabalho na galera da frota comercial de Opílio Vetúrio, na qual desfrutava a distinção do comando, para ligeiro descanso no lar, e, depois do beijo carinhoso à esposa e ao filhinho, que se deliciavam brincando no triclínio, repousava agora, lendo algumas sentenças de Emílio Papiniano,  †  em florido caramanchão do jardim.

Roma atravessava, no ano 217, sob pesada atmosfera de crimes e inquietações, os últimos dias do imperador Marco Aurélio Antonino Bassiano,  †  cognominado de Caracala. n

Desde a morte de Papiniano, cruelmente assassinado por ordem do César, desiludira-se o Império quanto ao novo dominador.

Bassiano, longe de respeitar as tradições paternas, na esfera governamental, desmandara-se em vasta conspiração de tirania contra o direito, não só alimentando a perseguição contra os grupos nazarenos, mais humildes, mas também contra todos os cidadãos honrados que ousassem desaprovar-lhe a conduta.


2 Encantado com os conceitos sábios do célebre jurisconsulto, Varro confrontava-os com os ensinamentos de Jesus, que detinha de memória, refletindo sobre as facilidades da conversão da cultura romana aos princípios do Cristianismo, desde que a boa vontade pudesse penetrar o espírito dos seus compatriotas.

Descendente de importante família, cujas raízes remontavam à República, não obstante a grande pobreza de bens materiais em que se debatia, era apaixonado cultor dos ideais de liberdade que invadiam o mundo.

Doíam-lhe na alma a ignorância e a miséria com que as classes privilegiadas mantinham a multidão e perdia-se em vastas cogitações para encontrar um ponto final aos milenários desequilíbrios da sociedade de sua pátria.

Reconhecia-se incapaz de qualquer mensagem salvadora e eficiente ao poder administrativo. Não possuía ouro ou soldados com que pudesse impor as opiniões que lhe fervilhavam na cabeça, entretanto, não ignorava que um mundo novo se formava sobre as ruínas do velho.

Milhares de homens e mulheres modificavam-se mentalmente sob a inspiração do espírito renovador. A autocracia do patriciado lutava, desesperadamente, contra a reforma religiosa, mas o pensamento do Cristo, como que pairava acima da Terra, conclamando as almas a descerrarem novo caminho ao progresso espiritual, ainda mesmo à custa de suor e sangue no sacrifício.


3 Abismado em reflexões, foi trazido à realidade pela esposa, Cíntia Júlia, que veio ter com ele, guardando nos braços o filhinho Taciano, com apenas um ano de idade, a sorrir, doce e terno, como se fora um anjo arrebatado ao berço celeste.

Cíntia revelava nos olhos escuros a chama da vivacidade feminil, deixando entrever, de imediato, a trama das paixões que lhe desbordavam da alma inquieta. Largo peplo de nevado linho realçava-lhe as formas de madona e menina, evocando o perfil brejeiro e lindo de alguma ninfa que se houvera repentinamente transformado em mulher, contrastando com a severa expressão do marido, que parecia infinitamente distanciado da companheira pelas afinidades psíquicas.

Quinto Varro, não obstante muito moço, trazia a máscara fisionômica do filósofo, habituado a permanente mergulho no oceano das ideias.

No contentamento de uma cotovia palradora, Cíntia reportou-se à festa de Úlpia Sabina, a que comparecera na véspera, junto de Vetúrio, que lhe fora desvelado parceiro.

Deteve-se, entusiástica, na descrição dos bailados de invenção da própria dona da casa, que aproveitara a vocação de escravas jovens, tentando repetir para o esposo, com harmoniosa voz, alguns trechos da música simbólica.


4 Varro sorria, condescendente, qual se fora um pai austero e bondoso escutando as infantilidades de uma filha, e pronunciava, de quando em quando, uma ou outra frase curta de compreensão e encorajamento.

A certa altura da conversação, fixando a esposa, como quem pretendia tocar em assunto mais sério, observou:

— Sabes, querida, que hoje à noite será possível ouvir uma das vozes mais autorizadas do nosso movimento nas Gálias?  † 

E talvez porque a mulher silenciasse, pensativa, continuou:

— Refiro-me a Ápio Corvino, o velho pregador de Lião n que se despede dos cristãos de Roma. Na mocidade, foi contemporâneo de Átalo de Pérgamo, admirável herói entre os mártires gauleses. Corvino conta mais de setenta anos, mas, segundo as impressões gerais é portador de um espírito juvenil.


5 A jovem senhora esboçou largo gesto de enfado e murmurou:

— Porque nos preocuparmos tanto com esses homens? Francamente da única vez que te acompanhei às catacumbas, voltei aflita e desanimada. Haverá qualquer senso prático nas divagações que ouvimos? Porque arrostar com os perigos de um culto ilegal para somente insistir em desvarios da imaginação?

Com ironia e agressividade, prosseguia para o esposo triste:

— Acreditas possa eu conformar-me com a louca renunciação de mulheres, quais Sofrônia e Cornélia, que desceram do fausto patrício para a imundície dos cárceres, ombreando com escravas e lavadeiras?

Desferiu rumorosa gargalhada e acrescentou:

— Faz alguns dias, quando ainda te encontravas em viagem na Aquitânia,  †  Opílio e eu conversávamos na intimidade, quando Popeia Cilene veio ter conosco, pedindo esmolas para as famílias vitimadas nas últimas perseguições, e, vendo os meus jarros, instou comigo para abandonar o uso de cosméticos. Rimo-nos fartamente da sugestão. Para atendermos aos princípios de um homem que morreu na cruz dos malfeitores, vai para duzentos anos, precisaremos adotar a indigência e vaguear no mundo, como se fôssemos fantasmas? Nossos deuses não nos reservam um paraíso de mendigos discutidores. Nossos sacerdotes guardam dignidade e compostura.


6 Após leve pausa, em que fitou o esposo sarcasticamente, aduziu:

— Aliás, devo dizer-te que tenho sacrificado a Esculápio,  †  em teu favor. Temo por tua saúde. Vetúrio é de parecer que os cristãos são dementes. Não observas quanta modificação transparece do teu procedimento para comigo, desde o início de tuas novas práticas? Depois de longas ausências da família, não regressas na posição do marido afetuoso de antes. Em vez de te reportares à nossa intimidade carinhosa, guardas o pensamento e a palavra em sucessos do culto abominável. Há tempos, afirmava Sabina que a perigosa mística de Jerusalém enfraquece os laços do amor que os numes domésticos nos legaram e dir-se-ia que esse Cristo te domina por dentro, afastando-te de mim…

Cíntia, agora, de semblante conturbado, enxugava o pranto nervoso, enquanto o filhinho sorria, ingênuo, em seu regaço.

— Grande tola! — obtemperou o marido, preocupado — poderás admitir que te possa esquecer? onde reside o amor senão no santuário do coração? Quero-te como sempre. És tudo em minha vida…

— Mas… e a dependência em que vivemos? — clamou Cíntia, descoroçoada — a pobreza é um espantalho. És empregado de Opílio e residimos numa casa que ele nos cede por favor… Porque não te arrojares, tanto quanto meu primo, no campo dos negócios, para que tenhamos também navios e escravos, palácios e chácaras? Acaso não te sentes humilhado, ante a nossa posição de inferioridade?


7 Quinto Varro estampou indisfarçável amargura no semblante calmo. Afagou a linda cabeleira da esposa e objetou, contrafeito:

— Porque motivo te agastares assim? não apreciarás a nossa riqueza de caráter? conviria o favor da riqueza sobre a desgraça de tantos? como reter escravos, quando tentamos libertá-los? estimarias ver-me em transações inconfessáveis, com a perda de nossa consciência reta?

A esposa chorava, desagradavelmente, mas, evidenciando o propósito de alterar o rumo da conversação, Varro acentuou:

— Esqueçamos as futilidades. Vamos! Ouviremos juntos a palavra de Corvino? Um carro nos conduzirá à noitinha…

— Para voltarmos ao lar, morrendo de fadiga? — respondeu a mulher, derramando copiosas lágrimas. — Não! não irei! Estou farta. Que nos podem ensinar os gauleses bárbaros, cujas pitonisas leem os augúrios nas vísceras, ainda quentes, de soldados mortos?

O jovem esposo deixou transparecer nos olhos invencível tristeza e considerou:

— Crueldade nos gauleses? e nós? Com tantos séculos de cultura, afogamos mulheres indefesas, na corrente viciada do Tibre, assassinamos crianças, crucificamos a mocidade e desrespeitamos a velhice, sentenciando anciães veneráveis ao repasto das feras, simplesmente porque se consagram a ideais de fraternidade e trabalho com a dignificação da vida para todos. Jesus…


8 Varro ia fazer uma citação evangélica, recorrendo às palavras do Divino Mestre; Cíntia, porém, elevando o tom da voz, que se fez mais áspera, gritou:

— Sempre o Cristo!… sempre o Cristo!… Lembra-te de que a nossa condição social é miserável… Foge à punição dos deuses, rendendo culto a César, para que a Fortuna  †  nos favoreça. Estou doente, alquebrada… Não tenho a vocação da cruz! detesto os nazarenos, que esperam o Céu entre discussões e piolhos!…

O moço patrício contemplou a companheira, compadecidamente, como se deplorasse, no íntimo, a insensatez das palavras que pronunciava, e notando que o pequenino chorava a estender-lhe os braços, tentou acariciar a criança, observando:

— Porque tanta referência à pobreza? Nosso filhinho não será, por si mesmo, um tesouro?

Cíntia, contudo, arrebatou-o à ternura paterna e, recuando num salto precipitado, exclamou:

— Taciano jamais será cristão. É meu filho! Consagrei-o a Dindimene.  †  A mãe dos deuses defendê-lo-á contra a bruxaria e a superstição.

Em seguida, buscou o interior apressadamente, tangida por incompreensível tortura moral.

Quinto Varro não tornou à leitura.

Perdido em profundas reflexões, debruçou-se no muro que separava o jardim da via pública e demorou-se na contemplação de extenso bando de meninos, que se ocupavam num jogo infantil, lançando pedrinhas sobre as águas e, de pensamento centralizado em seu pequeno Taciano, sem saber definir os escuros pressentimentos que lhe envolviam o peito, reparou que estranha amargura lhe tomava o coração.


9 No crepúsculo adiantado, sem conseguir reavistar-se com a esposa, que se ocultara com o filhinho na câmara do casal, tomou o carro de um amigo que o conduziu até à casa humilde do venerável Lisipo de Alexandria, um grego ilustre, profundamente devotado ao Evangelho, que residia em desconfortável choupana, a desmantelar-se na estrada de Óstia.  † 

Pequena assembleia de adeptos havia-se formado na sala simples.

Com surpresa, foi informado de que as despedidas do grande cristão gaulês não se realizariam naquela noite e, sim, na seguinte.

Corvino achava-se, desse modo, à disposição dos amigos para um entendimento familiar.

Não havia, porém, outro assunto mais fascinante para o grupo que as reminiscências das perseguições de 177.  † 

Os tormentos dos cristãos lioneses eram narrados minuciosamente pelo nobre visitante.


10 Enquanto o círculo ouvia, extático, o ancião das Gálias recordava, com prodigiosa memória os mínimos acontecimentos. Repetia os interrogatórios efetuados, incluindo as respostas inspiradas dos mártires. Reportava-se às preces ardentes dos companheiros da Ásia  †  e da Frígia  †  que, piedosamente haviam socorrido as comunidades de Lião e Viena. n Falava, entusiasmado, da imensa caridade de Vétio Epágato [Vettius Epagathus], o abnegado senhor que renunciara à nobre posição que desfrutava, a fim de converter-se em advogado dos cristãos humildes. Inflamava-se-lhe o olhar, comentando a estranha coragem de Santo [Sanctus], o diácono de Viena, e o heroísmo da débil escrava Blandina,  †  cuja fé confundira o ânimo dos carrascos. Pintou a alegria de Potino,  †  o chefe da Igreja de Lião, cruelmente ultrajado e espancado na rua, sem uma palavra de revolta, aos noventa anos de idade.

Por fim, deteve-se com misteriosa alegria, aljofrada de lágrimas, nas aventuras e tormentos de Átalo de Pérgamo, que lhe fora o iniciador na fé.

Relacionava todos os pormenores dos suplícios a que se submetera o venerável amigo. Lembrava-se da dilação havida no processo [A execução de Attalus foi temporariamente suspensa por ele ser cidadão romano], em razão da consulta do Propretor a Marco Aurélio,  †  e demorava-se na descrição dos últimos sofrimentos do grande cristão, esmurrado, chicoteado, atado à cadeira de ferro incandescido, e finalmente degolado, em companhia de Alexandre,  †  o devotado médico frígio que, em Lião, oferecera ao Senhor admirável testemunho de fé.

A assembleia escutava, embevecida com as referências. Mas, porque o pregador teria trabalho intensivo na noite próxima, Lisipo mandou servir algumas tigelas de leite e fatias de pão fresco e a conversação foi encerrada.


11 De espírito edificado pelas narrativas do velho gaulês, Varro tornou a casa.

Regressava mais cedo e um só pensamento lhe absorvia agora a mente: apaziguar a alma inquieta da companheira, propiciando-lhe calma e alegria, com a reafirmação da sua ternura e devotamento. Aproximou-se, devagarinho, no intuito de surpreende-la, afetuoso.

Atravessou o pequeno átrio, varou a porta semicerrada, mas, diante da sua câmara de repouso, estacou, intrigado.

Ouviu vozes em diálogo aceso.

Achava-se Opílio Vetúrio em seu quarto de dormir.

Tentou compreender a tempestade moral que lhe amarfanhava o destino.

Não supunha o homem para quem trabalhava capaz de atrair-lhe a esposa a semelhante procedimento.

Opílio era primo de Cíntia e sempre fora recebido ali como irmão. Era dez anos mais velho que ele, Varro, e enviuvara, desde algum tempo. Heliodora, a esposa morta, fora para Cíntia uma segunda mãe. Deixara dois filhinhos Helena e Galba, gêmeos infelizes, cujo nascimento ocasionara o falecimento da genitora, e que residiam com o pai, cercados de escravos devotadíssimos, em palacete magnífico, a ilustrar os braços da família.

Trabalhava para Vetúrio nas embarcações e morava numa vila que lhe pertencia. Achava-se lamentavelmente empenhado a ele, desde o casamento, por dívidas pesadas, que se propunha resgatar honestamente, com serviço pessoal, respeitável.


12 Sentindo que a cabeça se lhe transformara num vulcão de perguntas Varro pensava…

Por que razão se entregava assim a esposa à aventura menos digna? Não era ele um companheiro leal, extremamente dedicado à felicidade dela e do filhinho? Ausentava-se comumente de Roma, guardando-nos no coração. Se as tentações de ordem inferior lhe assediavam o espírito, durante as viagens habituais, Cíntia e Taciano lhe eram a invariável defesa… Como ceder às sugestões da maldade, quando se acreditava o arrimo único da mulher e do anjinho que lhe povoavam a alma de santificadas aspirações? e porque Vetúrio lhe conspurcava, assim, o lar? não se sentia na condição dum amigo convertido em devotado servidor? Quantas vezes, em portos distantes, era convidado ao ganho fácil e renunciava a qualquer vantagem econômica de procedência duvidosa, atento às responsabilidades que o ligavam ao primo de sua mulher! Em quantas ocasiões, constrangido pela gratidão, era obrigado a esquecer possibilidades seguras de melhoria da sorte, simplesmente por notar em Opílio, não somente o patrono do seu pão material, mas também o companheiro, credor do seu mais amplo reconhecimento!…

Angustiado e abatido, considerava consigo mesmo, dentro do aflitivo minuto: — Se Cíntia amava o primo, porque desposara a ele? Se ambos haviam recebido uma bênção do Céu, com a chegada do filhinho, como repudiar os laços conjugais, se Taciano era a sua melhor esperança de homem de bem?


13 Semi-alucinado, passou a refletir contra a própria argumentação. E se estivesse prejulgando? e se Opílio Vetúrio ali estivesse em missão de auxílio, atendendo a solicitação da própria Cíntia? Era necessário, pois, acalmar a mente inquieta e ouvir com isenção de ânimo.

Colocou a destra sobre o coração opresso e escutou:

— Nunca te habituarás aos devaneios de Varro — dizia Vetúrio, senhor de si —, é inútil qualquer tentativa.

— Quem sabe? — aventurou a prima, preocupada — espero deixará ele, algum dia, a odiosa convivência dos cristãos.

— Nunca! — exclamou o interlocutor, rindo-se, francamente — não há notícia de pessoas que voltassem inteiramente à razão depois de ambientadas nessa praga. Ainda mesmo quando parecem trair os votos, com temor das autoridades, à frente de nossos deuses, voltam mais tarde ao encantamento. Tenho acompanhado vários processos de recuperação desses loucos. Dir-se-ia sofrerem temível obsessão pelo sofrimento. Pancadas, cordas, feras, cruzes, fogueiras, degolamentos, tudo é pouco para diminuir a volúpia com que se entregam à dor.

— Realmente, estou farta… — suspirou a jovem senhora, baixando o tom de voz.


14 Evidenciando a segurança dos laços afetivos que já lhe prendiam o espírito à dona da casa, Opílio acentuou, decidido:

— Ainda mesmo que Varro alterasse as próprias opiniões, não conseguirias modificar a nossa posição. Pertencemo-nos mutuamente. Há seis meses és minha e que diferença faz?

Sarcástico, observou:

— Acaso, teu marido disputa a mulher? acha-se demasiadamente interessado no reino dos anjos… Não admito, sinceramente, esteja à altura de tua expectativa. Por Júpiter! Todos os meus conhecidos que se renderam à mistificação nazarena, afastaram-se da vida. Varro falar-te-á do paraíso dos judeus, repleto de patriarcas imundos, em vez de conversar contigo sobre os nossos jogos, e garanto que se desejares uma excursão alegre, mais que natural em teu gosto feminino, conduzir-te-á sem dúvida a algum cemitério isolado, exigindo que te regozijes ao lado de ossos podres…


15 Uma gargalhada irônica fechou-lhe a frase, mas notando, provavelmente, algum gesto inesperado na prima, prosseguiu:

— Além disso, precisas considerar que teu marido não passa de meu cliente. n Tem tudo e nada tem. Mas, por Serápis, não lhe vejo qualidades para cercá-lo de favores. Sabes que te amo, Cíntia! Não ignoras que te queria, em silêncio desde o primeiro instante em que te reconheci, jovem e formosa. Nunca teria preferido Heliodora, se os serviços de César não me tivessem mantido na Acaia  †  por tanto tempo! Quando te encontrei, enamorada de Varro, senti uma tormenta no coração. Fiz tudo por tua felicidade. Inclinei as simpatias de minha mulher, em teu favor, cerquei-te de mimos, ofereci-te uma residência digna de teus dotes, para que jamais te confundisses com as mulheres miseráveis, que a privação compele à velhice precoce e, por ti, suportei até mesmo o esposo que te acompanha, incapaz de compreender-te o coração! Que farás de mim, agora, viúvo e triste quanto estou? Nunca proporcionei a Heliodora, depois de reencontrar-te, senão a estima respeitosa de que se fazia credora pela virtude irrepreensível. Nossos escravos sabem que te pertenço. Mecênio, meu velho pajem, veio trazer-me a notícia de que os servos acreditavam Heliodora envenenada por mim, para que lhe tomasse o lugar! E, realmente, que mãe mais honrada e carinhosa poderia encontrar para meus filhos? Resolve, pois. Uma palavra tua bastará.

— E meu esposo? — indagou Cíntia, com inexprimível temor na voz.


16 Houve um silêncio expressivo, dentro do qual Vetúrio parecia meditar, intencionalmente, expressando-se, logo após:

— Pretendo oferecer ao teu esposo a quitação de todos os débitos. Além disso, posso ampará-lo noutros setores da vida imperial. A distância de nós, conseguiria dar expansão aos próprios ideais. Temo por ele. As autoridades não perdoam. Daqueles cuja intimidade desfrutamos, vários têm sido presos, castigados ou mortos. Aulo Macrino e dois filhos foram encarcerados. Cláudia Sextina, por todos os títulos venerável, apareceu assassinada em sua chácara. Sofrônio Calvo teve os bens confiscados e foi apedrejado no fórum. Teu marido poderia dar vazão aos sentimentos dele onde quisesse, menos aqui.

— Mas que seria feito de Taciano, se atingíssemos uma solução favorável?

— Ora, ora — aventou o interlocutor, como um homem não habituado a ponderar obstáculos —, meus filhinhos estão na idade do teu. Cresceria ao lado de Helena e de Galba na melhor ambientação. Não podemos esquecer, igualmente, que a minha herdade, em Lião, necessita de alguém. Alésio e Pontimiana, meus administradores, sempre reclamam a presença de pelo menos um dos nossos familiares. Dentro de alguns anos, o pequenino Taciano poderia transferir-se para a Gália e assumir, em nossa propriedade, a posição que lhe compete. Viria a Roma, tanto quanto desejasse, e desenvolveria a personalidade em ambiente diverso, sem qualquer ligação com a influência paterna…


17 Nesse ponto da conversação, Varro não mais suportou.

Sentindo que um vulcão de angústia lhe rebentava no peito, arrastou-se pelo corredor próximo, em busca do aposento onde o filhinho repousava, junto de Cirila, jovem escrava de que Cíntia se fazia acompanhar.

Ajoelhou-se, ante o berço adornado, e, ouvindo a abafada respiração do menino, deu campo largo às próprias emoções.

Como um homem que se visse arremessado a fundo abismo, dum momento para outro, sem encontrar, de pronto, qualquer base firme para suster-se, não conseguiu, por alguns minutos, conciliar os próprios pensamentos.

Recorreu à prece, a fim de apaziguar-se e então, passou a refletir…

Contemplou a fisionomia calma da criança, através do espesso véu das lágrimas, e indagou a si mesmo — para onde iria? como resolver o delicado problema criado pela mulher?


18 Não desconhecia, agora, a crueldade de Opílio. Sabia-o detentor das atenções de César que, segundo a versão popular, lhe utilizara a cooperação no assassínio de Geta,  †  pelo que recebera enorme patrimônio de terras na Gália distante e, naquele momento, não duvidava de que ele houvesse facilitado a morte da abnegada Heliodora, movido de paixão por Cíntia.

Considerou a situação vexatória a que fora projetado e asilou o propósito de revide.

A inolvidável figura do Cristo, porém, assomou-lhe à imaginação superexcitada…

Como harmonizar a vingança com os ensinamentos da Boa Nova, que ele mesmo difundia em suas viagens? como destacar o impositivo do perdão para os outros, sem desculpar as falhas do próximo? O Mestre, cuja tutela buscara, havia esquecido os golpes de todos os ofensores, aceitando a própria cruz… Vira muitos amigos presos e perseguidos, em nome do Celeste Benfeitor. Todos demonstravam coragem, serenidade, confiança… Conhecia o devotado pregador do Evangelho, na Via Salária,  †  Hostílio Fúlvio, cujos dois filhinhos haviam sido trucidados sob as patas de dois cavalos, conduzidos intencionalmente sobre eles por um tribuno embriagado. Ele mesmo, Varro, ajudara a recolher os despojos dos inocentes e vira que o pai, de joelhos, orara, chorando, agradecendo ao Senhor os sofrimentos com que ele e a família eram rudemente experimentados.


19 A aflição daquela hora não seria a mão de Deus que lhe exigia um testemunho de fé? Mas não seria melhor perecer no anfiteatro ou ver Taciano devorado por animais ferozes que se confiarem ambos à vergonha da morte moral?

E, perguntava em pranto mudo: — como se portaria Jesus, se tivesse sido pai? Entregaria uma criança inerme a um lobo terrível da floresta social, sem a mínima reação?

Por si, não se notava com direito a qualquer exigência. Reconhecia-se na posição do homem comum e, por isso mesmo, pecador, com a necessidade indisfarçável de adaptar-se à virtude.

Não poderia reclamar devotamento à esposa, embora perde-la lhe custasse imensa dor.

No entanto, e o pequenino? Seria justo abandoná-lo à mercê do crime?

Ó Deus! — soluçava, intimamente — como lutar com um homem poderoso, quanto Opílio Vetúrio, capaz de alterar as determinações do próprio César? Que a mulher amada o seguisse era uma ferida que a esponja do tempo, de certo, lhe absorveria no âmago da alma, contudo, como separar-se do filhinho, que era a sua razão de viver?


20 Ergueu-se, maquinalmente, retirou o menino adormecido, dentre os panos de lã em que descansava, e asilou a tentação de fugir.

Não seria, porém, indesculpável temeridade expor a criança à intempérie? E como situaria a companheira, no dia seguinte, à frente da vida social?

Cíntia não havia pensado nele, pai carinhoso e amigo, mas poderia ele, discípulo dos ensinamentos de Jesus, votá-la ao desprezo de si mesma ou à desconsideração pública?

Qual se estivesse amparado por estranha força invisível, repôs o pequenino no leito, e, depois de beijá-lo enternecidamente, inclinou-se demoradamente sobre ele e chorou, humilde, derramando copiosas lágrimas, como se vertesse o cálido rocio do próprio coração na preciosa flor de sua vida.

Logo após, certificando-se de que o diálogo continuava na câmara íntima, regressou à via pública, buscando ar renovado para o corpo enlanguescido.

Parou nas margens do Tibre,  †  invocando à memória os padecimentos de todas as vítimas daquelas águas misteriosas e tranquilas, que deviam ocultar os gemidos de inúmeros injustiçados da Terra. A mudez do velho rio não representava uma inspiração para o campo agitado de sua alma?

Os raros transeuntes e os carros retardatários não lhe notavam a presença.

Dividindo o olhar entre o firmamento cintilante e as águas tranquilas, abismou-se em profundas indagações que ninguém poderia sondar…


21 Ao alvorecer, tornou a casa, apático e desorientado, e, cerrando-se num cubículo, entregou-se a sono pesado e sem sonhos, do qual despertou ao sol avançado, pelos gritos dos escravos que transportavam material para construções próximas.

Quinto Varro procedeu à higiene da manhã e, procurado por Cirila e a criança, afagou o filho, entre grave e afetuoso, recebendo um recado da mulher, anunciando-lhe que se ausentara, em companhia de amigas, para uma festividade religiosa no Palatino.

Acabrunhado, afastou-se da residência na direção da via de Óstia.  †  Desejava entender-se com alguém que lhe pudesse lenir a chaga íntima e, recordando a nobre figura de Corvino, propunha-se faze-lo confidente de todas as mágoas que lhe fustigavam o coração.


22 Recebido por Lisipo, este informou bondoso que o ancião se ausentara, atendendo a vários enfermos, acentuando, porém, que estaria ele à noite, na Via Ardeatina.  † 

O anfitrião, todavia, observou tamanha palidez no visitante inesperado que o convidou a sentar-se e a servir-se de um caldo reconfortante.

Varro aceitou, experimentando grande melhora espiritual. A paz do recinto singelo como que lhe acalmava o espírito desarvorado.

Adivinhando-lhe os tormentos morais, o velhinho desenrolou diversas páginas consoladoras, que continham informações sobre o heroísmo dos mártires, como que pretendendo cicatrizar-lhe as úlceras invisíveis.

O jovem ouviu, atento; leu compridos trechos das descrições e, alegando abatimento físico, deixou-se ficar, junto de Lisipo, até mais tarde, quando ambos se dirigiram para os sepulcros num carro de velho amigo.

Alcançaram os túmulos dentro da noite.

Transpuseram a porta que um dos companheiros vigiava, atento, e desfilaram nas galerias, junto de numerosos irmãos que seguiam, conduzindo tochas, em conversações coroadas de esperança.


23 Os cemitérios cristãos, em Roma, eram lugares de grande alegria. Inquietos e desalentados na vida de relação, com infinitas dificuldades para se comunicarem uns com os outros, dir-se-ia que ali, no lar dos mortos que as tradições patrícias habitualmente respeitavam, os seguidores do Cristo encontravam o clima único, favorável à comunhão de que viviam sedentos. Abraçavam-se aí, com indizível ternura fraterna, cantavam jubilosos, oravam com fervor…

O Cristianismo de então não se limitava aos ritos sacerdotais. Era um rio de luz e fé, banhando as almas, arrebanhando corações para a jornada divina do ideal superior. As lágrimas não surgiam na condição de gotas de fel incendiado, mas como pérolas de amor e reconhecimento, nas referências aos suplícios dos companheiros sacrificados.

Aqui e ali, sepulturas róseas e brancas ostentavam dísticos afetuosos, que não lembravam qualquer ideia escura de morte. Só a bondade de Deus e a vida eterna mereciam exaltação.

Varro relia com avidez as palavras que lhe eram familiares, buscando apoio moral para a resistência íntima de que se reconhecia necessitado.

Não longe, a carinhosa amizade de alguém escrevera a saudação: — “Festo, Jesus te abençoe.” Adiante, grafara um pai devotado: — “Gláucia, querida filha, estamos juntos” Acolá, brilhava a inscrição “Crescêncio vive”, mais além, fulgurava outra, “Popeia glorificada”.

Nunca sentira Varro tamanha paz nos túmulos. Reconhecendo-se na posição de um homem expulso do próprio lar, sentia agora na multidão anônima dos companheiros a sua própria família. Detinha-se nos semblantes desconhecidos, com mais simpatia e interesse, e pensava consigo mesmo que naquela fileira de criaturas, que ansiosamente buscavam os ensinamentos do Senhor, talvez existissem mais dolorosos dramas que o dele e chagas mais profundas a lhes sangrarem nos corações. Sustentava Lisipo no braço robusto, como se houvera reencontrado a alegria de ser útil a alguém e, pelos olhares felizes que permutavam entre si, pareciam ambos agradecer a influência de Jesus, que concedia ao velho afetuoso a graça de amparar-se num filho e ao moço infortunado a ventura de encontrar um pai a quem poderia servir.


24 Em grande recinto iluminado, hinos de alegria precederam a palavra do pregador que, assomando à tribuna, falou com indescritível beleza, acerca do Reino de Deus, encarecendo a necessidade de paciência e de esperança.

Quando terminou a enternecedora alocução, Lisipo e Varro aproximaram-se para reconduzi-lo a casa.

Um carro, além dos sepulcros, aguardava-os, solícito.

E na intimidade doméstica, ante os dois velhinhos que o escutavam, surpresos, o moço patrício, pontilhando a narrativa de lágrimas, expôs o que sofria, nos recessos da vida particular, rogando a Corvino um bálsamo para as feridas que lhe oprimiam o coração.


25 O velho gaulês fê-lo sentar-se e, acariciando-lhe a cabeça, como se o fizesse a um menino atormentado, indagou:

— Varro, aceitaste o Evangelho para que Jesus se transforme em teu servidor ou para que te convertas em servidor de Jesus?

— Oh! sem dúvida. — suspirou o rapaz —, se a alguma coisa aspiro no mundo é ao ingresso nas fileiras dos escravos do Senhor.

— Então, meu filho, cogitemos dos desígnios do Cristo e olvidemos nossos desejos.

E, fitando o céu pela janela humilde, deixando perceber que solicitava a inspiração do Alto, acrescentou:

— Antes de tudo, não condenes tua mulher. Quem somos nós para sondar o coração do próximo? poderíamos, acaso, torcer o sentimento de outra alma, usando a maldade e a violência? quem de nós estará irrepreensível para castigar?

— Todavia, como extinguir o mal, se não nos dispomos a combate-lo? — ajuizou Varro, gravemente.


26 O ancião sorriu e considerou:

— Acreditas, porém, que possamos vence-lo à força de palavras bem feitas? Admites, porventura, que o Mestre haja descido das Alturas, simplesmente para falar? Jesus viveu as próprias lições, guerreando a sombra com a luz que irradiava de si mesmo, até ao derradeiro sacrifício. Achamo-nos num mundo envolvido em trevas e não possuímos outras tochas para clareá-lo, senão a nossa alma, que precisamos inflamar no verdadeiro amor. O Evangelho não é somente uma propaganda de ideias libertadoras. Acima de tudo, é a construção dum mundo novo pela edificação moral do novo homem. Até agora, a civilização tem mantido a mulher, nossa mãe e nossa irmã, no nível de mercadoria vulgar. Durante milênios, dela fizemos nossa escrava, vendendo-a, explorando-a, apedrejando-a ou matando-a, sem que as leis nos considerem passíveis de julgamento. Mas, não será ela igualmente um ser humano? viverá indene de fraquezas iguais ás nossas? porque conferir-lhe tratamento inferior àquele que dispensamos aos cavalos, se dela recebemos a bênção da vida? Em todas as fases do apostolado divino Jesus dignificou-a, santificando-lhe a missão sublime. Recordando-lhe o ensinamento, será lícito repetir — quem de nós, em sã consciência, pode atirar a primeira pedra.


27 E, fixando significativamente os dois ouvintes, acentuou:

— O Cristianismo, para redimir as criaturas, exige uma vanguarda de espíritos decididos a executar-lhe o plano de ação.

— No entanto — ponderou o jovem romano, algo tímido —, poderemos negar que Cíntia esteja em erro?

— Meu filho, quem ateia fogo ao campo da própria vida, de certo seguirá sob as chamas do incêndio. Compadece-te dos transviados! Não serão suficientemente infelizes por si mesmos?

— E meu filho? — perguntou Varro com a voz embargada de pranto.

— Compreendo-te a aflição.


28 E, vagueando o olhar lúcido pela sala estreita, Corvino pareceu mostrar um fragmento do próprio coração, acrescentando:

— Noutro tempo, bebi no mesmo cálice. Afastar-me dos filhinhos foi para mim a visitação de terrível angústia. Peregrinei, dilacerado, como folha relegada ao remoinho do vento, mas acabei percebendo que os filhos são de Deus, antes de pousarem docemente em nossas mãos. Entendo-te o infortúnio. Morrer mil vezes, sob qualquer gênero de tortura, é padecimento menor que esse da separação de uma flor viva que desejaríamos reter ao tronco do nosso destino…

— Entretanto — comentou o patrício, amargurado — não seria justo defender um inocente, reclamando para nós o direito de protegê-lo e educá-lo?

— Quem te ouviria, contudo, a voz, quando uma insignificante ordem imperial poderá sufocar-te os gritos? E além do mais — aduziu o ancião, afetuosamente —, se estamos interessados em servir ao Cristo, como impor a outrem o fel que a luta nos constrange a sorver? A esposa poderá não ter sido generosa para com o teu coração, mas provavelmente será abnegada mãe do pequenino. Não será, pois, mais aconselhável aguardar as determinações do Altíssimo, na graça do tempo?


29 Detendo-se na dolorosa expressão fisionômica do pai desventurado, Corvino observou, depois de longa pausa:

— Não te submetas ao frio do desengano, anulando os próprios recursos. A dor pode ser comparada a volumosa corrente de um rio, suscetível de conduzir-nos à felicidade na terra firme, ou de afogar-nos, quando não sabemos sobrenadar. Ouve-nos. O Evangelho não é apenas um trilho de acesso ao júbilo celestial; depois da morte. É uma luz para a nossa existência neste mundo mesmo, que devemos transformar em Reino de Deus. Não te recordas da visita de Nicodemos ao Divino Mestre, quando o Senhor asseverou, convincente: — “importa renascer de novo”? ( † )


30 Ante o sinal afirmativo de Quinto Varro, o ancião continuou:

— Também sofri muito, quando, ainda jovem, me decidi ao trabalho da fé. Repudiado por todos fui compelido a distanciar-me das Gálias,  †  onde nasci, demorando-me por dez anos consecutivos em Alexandria,  †  onde renovei os meus conhecimentos. A igreja de lá permanece aberta às mais amplas considerações, em torno do destino e do ser. As ideias de Pitágoras são ali mantidas num grande centro de estudos, com real proveito, e, depois de ouvir atenciosamente padres ilustres e adeptos mais esclarecidos, convenci-me de que renascemos muitas vezes, na Terra. O corpo é passageira vestidura de nossa alma que nunca morre. O túmulo é ressurreição. Tornaremos à carne, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, até que tenhamos alijado todas as impurezas do íntimo, como o metal nobre que tolera o cadinho purificador, até que arroje para longe dele a escória que o desfigura.


31 Corvino fez ligeiro intervalo, como a dar oportunidade à reflexão dos ouvintes, e prosseguiu:

— Jesus não falava simplesmente ao homem que passa, mas, acima de tudo, ao espírito imperecível. Em certo passo dos seus sublimes ensinamentos, adverte: “melhor será entrares na vida aleijado que, tendo duas mãos, te aproveitares delas para a descida às regiões inferiores”. n Refere-se o Cristo ao mundo, como escola em que procuramos o nosso próprio burilamento. Cada qual de nós vem à Terra, com os problemas de que necessita. A provação é remédio salutar. A dificuldade é degrau na grande subida. Nossos antepassados, os druidas, ensinavam que nos achamos num mundo de viagens ou num campo de reiteradas experiências, a fim de que possamos alcançar, mais tarde, os astros da luz divina para sermos um com Deus, nosso Pai. Criamos o sofrimento, desacatando as Leis Universais e suportamo-lo para regressar à harmoniosa comunhão com elas. A justiça é perfeita. Ninguém chora sem necessidade. A pedra suporta a pressão do instrumento que a desgasta, a fim de brilhar, soberana. A fera é conduzida à prisão para domesticar-se. O homem luta e padece para aprender a reaprender, aperfeiçoando-se cada vez mais. A Terra não é o único teatro da vida. Não disse o próprio Senhor — a quem pretendemos servir — que “existem muitas moradas na Casa de Nosso Pai?” ( † ) O trabalho é a escada luminosa para outras Esferas, onde nos reencontraremos, como pássaros que, depois de se perderem uns dos outros, sob as rajadas do inverno, se reagrupam de novo ao sol abençoado da primavera…


32 Passando a mão pelos cabelos brancos, o velho acentuou:

— Tenho a cabeça tocada pela neve do desencanto… Muitas vezes, a agonia me visitou a alma cheia de sonhos… Em torno de meus pés, a terra fria me solicita o corpo alquebrado, mas dentro do meu coração a esperança é um sol que me abrasa, revelando em suas projeções resplendentes o glorioso caminho do futuro… Somos eternos, Varro! Amanhã, reunir-nos-emos, felizes, no lar da eternidade, sem o pranto da separação ou da morte…

Ouvindo aquelas palavras, repletas de convicção e de ternura, o moço patrício aquietou o espírito atormentado.


33 Mais alguns minutos de animadora conversação correram céleres e, algo refeito, dispôs-se a partir.

Uma biga ligeira, por ele solicitada, esperava-o a reduzida distância.

Quando o galope dos cavalos se fundiu no grande silêncio, à porta do templo doméstico, o jovem, mais tranquilo, notou que poucas estrelas ainda fulguravam palidamente, enquanto o firmamento se tingia de rubro.

Alvorejava a manhã…

Varro, contemplando o formoso céu romano e pedindo a Jesus lhe conservasse a fé haurida no entendimento com o velho cristão gaulês, na estrada de Óstia,  †  julgou encontrar naquela madrugada de surpreendente beleza o símbolo do novo dia que lhe marcava agora o destino.


Emmanuel



(Nota 2. do Autor espiritual) — O governo de Caracala,  †  conquanto fosse um tanto benigno para os cristãos situados em posição favorável na vida pública, permitiu a perseguição metódica aos escravos e plebeus dedicados ao Evangelho, então considerados inimigos da ordem política e social.


(Nota 3. do Autor espiritual) — No tempo da dominação de Roma, nas Gálias, o nome da cidade de Lião era Lugdunum.  † 


(Nota 4. do Autor espiritual) — Cidade da França, próxima de Lião.  †  [As perseguições aos cristãos em 177 foram relatadas por Eusebius Pamphili Caesariensis. Histoire de l’église, Tome 5 - Google Books]


(Nota 5. do Autor espiritual) — Pessoa pobre, entre os antigos romanos, que se valia dos favores de um amigo rico.


(Nota 6. do Autor espiritual) — Evangelho de Marcos, 9:43


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