Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Antologia dos Imortais — Autores diversos — 1ª Parte


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Irene Sousa Pinto


NATAL

  1 Natal! Grande bolo à mesa

  A árvore linda em festa. n

  O brilho da noite empresta

  Regozijo ao coração…

  É como se a Natureza

  Trouxesse Belém de novo

  Para os júbilos do povo

  Em doce fulguração.


  2 Tudo é bênção que se enflora,

  De envolta na melodia

  Da luminosa alegria

  Que te beija e segue além…

  Mas se reparas, lá fora,

  O quadro que tumultua,

  Verás quem passa na rua

  Sem ânimo e sem ninguém. n


  3 Contemplarás pequeninos

  De faces agoniadas,

  Pobres mães desesperadas,

  Doentes em chaga e dor…

  E, ajudando aos peregrinos

  Da esperança quase morta,

  Talvez enxergues à porta

  O Mestre pedindo amor.


  4 É sim!… É Jesus que volta

  Entre os pedestres sem nome,

  Dando pão a quem tem fome,

  Luz às trevas, roupa aos nus!

  Anjo dos Céus sem escolta,

  Embora a expressão serena,

  Tem nas mãos com que te acena

  Os tristes sinais da cruz.


  5 Natal! Reparte o carinho

  Que te envolve a noite santa.

  Veste, alimenta e levanta.

  O companheiro a chorar.

  E, na glória do caminho

  Dos teus gestos redentores,

  Recorda por onde fores

  Que o Cristo nasceu sem lar. n


ESSE PEQUENO…

  1 Esse pequeno sozinho,

  À noite, no pó da estrada,

  De roupa suja e rasgada,

  Que passa pedindo pão, n

  É um anjo pobre a caminho,

  Sob inocente amargura…

  Pássaro triste à procura

  De ninho e consolação.


  2 Criança desconhecida…

  Dormirá? Quem sabe onde?… n

  É órfão?… Ninguém responde.

  Aceita o que se lhe dê.

  Quantas mágoas tem na vida,

  Quanta miséria a consome,

  Quanto anseio, quanta fome, n

  Ninguém sabe, ninguém vê…


  3 Nunca lhe atires ao lado

  Qualquer palavra ferina…

  Socorre, ampara, ilumina

  Em nome do Eterno Bem,

  Que esse menino exilado,

  Sem lar e sem companhia, n

  Se o Céu quisesse podia n

  Ser teu filhinho também!


  4 Encoraja-lhe a esperança,

  Envolve-o no teu sorriso

  E sentirás, de improviso,

  A bênção de doce luz!

  É que no amor da criança,

  Que te agradece o carinho,

  Receberás, de mansinho,

  A gratidão de Jesus!


NÃO JULGUES

  1 Não julgues o companheiro

  Por desumano e insensato

  Porque te não busque o trato,

  Nas rosas de teu jardim.

  Entende, ampara primeiro…

  Não digas, em contrassenso:

  — “Decerto, isso é como eu penso,

  Deve aquilo ser assim…”


  2 Muita vez, quem vai ausente,

  Do conforto que te afaga,

  Mostra o peito aberto em chaga,

  A golpes de provação.

  E enquanto o Céu te consente

  A paz das horas seguras,

  O pobre irmão que censuras

  Traz fogo no coração.


  3 De outras vezes, quem se isola,

  Longe de falas e festas,

  Não tem o mal que lhe emprestas,

  Nem delibera fugir.

  Apenas vive na, escola

  Do dever e da constância,

  E se respira, a distância,

  É para melhor servir.


  4 Não vasculhes lodo e jaça,

  Mirando a alheia conduta.

  Quase sempre há dor e luta

  Onde vês passo infiel. n

  Frequentemente, na taça

  Que aparenta vinho oculto,

  O pranto cresce de vulto,

  Tisnado de angústia e fel.


  5 Se ensinas a caridade,

  Ouve Jesus que nos chama!

  Não guardes vinagre e lama

  Sob a fé que te conduz.

  Acende a luz da bondade,

  Porquanto também um dia

  Mendigarás simpatia

  Nas sombras da própria cruz!


PERDOA

  1 Recebe a provação de alma serena.

  Desculpa todo golpe que te doa.

  Guarda contigo a paz singela e boa,

  Inda mesmo ante a voz que te condena.


  2 Tudo no mundo é caridade plena.

  A fonte beija a pedra que a magoa

  A estrela mostra o brilho na lagoa.

  A rosa enfeita o acúleo que envenena.


  3 A árvore esquece o vento que a desnuda.

  A Terra inteira serve, humilde e muda.

  A chuva desce ao bojo da cisterna…


  4 Perdoa e quebrarás grilhões e algemas,

  Buscando, enfim, as vastidões supremas

  Para a glória do amor na vida eterna.


DESCULPA

  1 Escuta serenamente

  Quem te repele ou censura.

  Há muito fel de amargura,

  Em forma de maldição.

  Às vezes quem te maltrata

  Arrasta apenas consigo

  Sede, fome e desabrigo

  Por brasas no coração.


  2 Quem te injuria e escarnece,

  Na frase agressiva, azeda,

  Em si sofre a labareda

  Que verte do próprio mal.

  Toda cólera é doença.

  Aquele que se enraivece

  Solicita o pão e a prece

  Do socorro fraternal.


  3 Muita gente cai nas trevas,

  Por não achar, no caminho,

  Brandura, silêncio e ninho,

  No peito amigo de alguém.

  Inda que ofensas te cubram

  E lâminas te retalhem,

  Que as tuas forças não falhem

  Na força que espalha o bem.


  4 Desculpa, constantemente,

  O golpe, a pedrada, o insulto,

  Apesar do pranto oculto,

  Amargo, desolador!

  Quem tolera e quem perdoa, n

  Embora de alma ferida,

  Encontra, na própria vida,

  O reino do Eterno Amor.


DEUS TE ABENÇOE

  1 Deus te abençoe o gesto de carinho,

  Alma da caridade, branda e pura,

  Pela migalha de ventura

  Aos tristes do caminho.


  2 Deus te abençoe a refeição sem nome

  Que trazes, cada dia,

  Aos cansados viajores da agonia n

  Que esmorecem de fome.


  3 Deus te abençoe a roupa restaurada

  Com que vestes, contente,

  A penosa nudez de tanta gente

  Que vagueia na estrada!…


  4 Deus te abençoe a bolsa de esperança

  Que abres, a sós, sem que ninguém te espreite,

  Para a gota de leite

  Destinada à criança…


  5 Deus te abençoe o pano do lençol

  Com que envolves, em doce cobertura,

  Os enfermos que choram de amargura,

  À distância do sol.


  6 Deus te abençoe, por onde fores,

  E te conserve as luzes

  Em que extingues, removes ou reduzes

  Os problemas, as lágrimas e as dores!


  7 Deus te abençoe a fala humilde e santa, n

  Com que aplacas a ira n

  Da calúnia, do escárnio, da mentira,

  Na frase que perdoa e que levanta.


  8 Caridade, que o teu nome ressoe,

  Pleno de amor profundo,

  E por tudo o que fazes neste mundo,

  Deus te guarde e abençoe!…


IRENE Ferreira de SOUSA PINTO — Poetisa de fino talento e bela inspiração. A seu respeito, diz Enéas de Moura (Colet. Poetas Paul., pág. 97): “Começou seus estudos no Colégio Florence, de Jundiaí, e os terminou no Sion, de São Paulo. Colaborou na Revista Feminina; foi a criadora das crônicas sociais do Correio Paulistano.” Contista, escreveu na Feira Literária, e em 1921 estreava como romancista, publicando Rosa Maria. No Cemitério da Consolação, de S. Paulo, os filhos da poetisa erigiram-lhe um túmulo, onde gravaram o belíssimo soneto “Último Desejo”, de autoria dela. (Amparo, Estado de São Paulo, 8 de Abril de 1887 — Rio de Janeiro, Gb, 21 de Maio de 1944.)

BIBLIOGRAFIA: Primeiro Voo; Gorjeios; O Tutor de Célia, contos; etc.



[1] Leia-se com hiato: A/ ár/vo/re.

[2] Epímone — Cf. 1ª nota do cap. 3 da 1ª Parte.

[3] Aliteração em p.

[4] Ler com hiato: sa/be/ on/de e, no verso seguinte É/ ór/fão.

[5] Poliptoto: “Quantas…/Quanta…/ Quanto…”

[6] Epímone — Cf. 1ª nota do cap. 3 da 1ª Parte.

[7] “Se o Céu quisesse podia.” Entenda-se: se a Espiritualidade Maior indicasse…

[8] Leia-se in-fi-el, com diérese.

[9] Epímone — Cf. 1ª nota do cap. 3 da 1ª Parte.

[10] Ler via-jo-res, com sinérese.

[11] Note-se a mestria com que a poetisa se serve do cólon “Deus te abençoe…”. — Cólon: “Expressão usada pelos preceptistas gregos para designar um MEMBRO MÉTRICO qualquer, repetido no poema sempre com as características métricas e rítmicas, …” (Geir Campos, Op. cit.)

[12] Ler com hiato: Com/ que a/pla/cas/ a/ i/ra.

[13] Essa é a 2ª lição do livro “Antologia Mediúnica do Natal”, editado pela FEB em 1966.


(Psicografia de Francisco C. Xavier)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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