| 1 Eu só e o surdo mundo… 23 n
O leito me veste em branco.
As cadeiras repousam em branco.
As paredes estão levantadas em branco,
sustentando o teto parado, em branco.
As janelas talhadas em branco
deixam passar o vento gárrulo e brincalhão,
que desliza sem cor.
As cortinas, parecendo longas mãos brancas,
engastadas nos braços rijos da porta,
acenam adeus, em branco.
2 Eu só e o surdo mundo… 34
Quero fitar os rostos que me cercam,
mas vejo apenas semblantes graves,
semelhantes a camafeus de cobre em placas de alumínio.
Quero gritar o terror do desconhecido,
mas a boca foi trancada pelas chaves da névoa muito branca
que me envolve de todo…
Falam somente em mim as grossas gotas brancas
que me rolam da face.
3 Eu mudo e o surdo mundo…
Depois de muitas horas da expectativa em branco,
na vazante branca em que ainda respiro, n
surge a enchente das sombras.
Tudo crepeia em torno…
Céus! Não sou Deus
que traduz a noite em poema de estrelas,
nem pirilampo humilde que acende a lanterninha lucilante…
4 Eu cego e o surdo mundo…
Levanto-me, tateio, choro, clamo, esmagado pelas mós invisíveis da escuridão, n
por muito tempo…
5 De improviso, porém, nova luz rasga as trevas, e os fotônios,
que me atingem as pupilas cansadas, dizem-me sem palavras
para que me aquiete,
anunciando, por fim,
que Deus é meu pai
e que a Vida é minha mãe,
guardando-me nos braços,
para sempre, para sempre! |