Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 1ª Parte


23

Pero Neto


O ESPÍRITO

  1 Rompeu-se a grade.

  Pássaro livre plana, plana… 2 n


  2 No solo profundo,

  partiu-se o grilhão de pedra.

  A fonte corre, corre… 5


  3 O livro continha letras enfileiradas,

  correntes encarcerando a ideia.

  Mas a ideia era chama e fugiu… n


  4 Cântico que persistes nas lonjuras do céu,

  onde a garganta que te soltou a melodia das masmorras de sombra

  para a festa dos sóis?

  Perfume que vagas, aéreo,

  onde a flor que te vazou a essência da terra limitada

  para o espaço infinito?

  Quem és, luz que esgarçaste a bruma de todas as prisões?


  5 Ave, regato, pensamento, som, aroma, n

  tudo que voa no sem fim,

  alga consciente e imóvel, no oceano do tempo,

  sou eu,

  o Espírito que transcende os estágios da carne e as máscaras da morte,

  para ser em triunfo

  o pólen do Universo! n


EU SÓ

  1 Eu só e o surdo mundo… 23 n

  O leito me veste em branco.

  As cadeiras repousam em branco.

  As paredes estão levantadas em branco,

  sustentando o teto parado, em branco.

  As janelas talhadas em branco

  deixam passar o vento gárrulo e brincalhão,

  que desliza sem cor.

  As cortinas, parecendo longas mãos brancas,

  engastadas nos braços rijos da porta,

  acenam adeus, em branco.


  2 Eu só e o surdo mundo… 34

  Quero fitar os rostos que me cercam,

  mas vejo apenas semblantes graves,

  semelhantes a camafeus de cobre em placas de alumínio.

  Quero gritar o terror do desconhecido,

  mas a boca foi trancada pelas chaves da névoa muito branca

  que me envolve de todo…

  Falam somente em mim as grossas gotas brancas

  que me rolam da face.


  3 Eu mudo e o surdo mundo…

  Depois de muitas horas da expectativa em branco,

  na vazante branca em que ainda respiro, n

  surge a enchente das sombras.

  Tudo crepeia em torno…

  Céus! Não sou Deus

  que traduz a noite em poema de estrelas,

  nem pirilampo humilde que acende a lanterninha lucilante…


  4 Eu cego e o surdo mundo…

  Levanto-me, tateio, choro, clamo, esmagado pelas mós invisíveis da escuridão, n

  por muito tempo…


  5 De improviso, porém, nova luz rasga as trevas, e os fotônios,

  que me atingem as pupilas cansadas, dizem-me sem palavras

  para que me aquiete,

  anunciando, por fim,

  que Deus é meu pai

  e que a Vida é minha mãe,

  guardando-me nos braços,

  para sempre, para sempre!


Caetano PERO NETO — Contista, romancista, e poeta do grupo dos “novíssimos”, cursava o 5.° ano da Faculdade de Direito de S. Paulo, quando desencarnou. Nos últimos tempos de ginásio, colaborava nos jornais de Itápolis. Depois encetou a publicação de poesias e contos nos periódicos Álvares de Azevedo, Tribuna Liberal, XI de Agosto, etc. Orador oficial da Associação Acadêmica “Álvares de Azevedo”, aos 19 anos já “era o representante intelectual do corpo discente da Faculdade” (apud Xangô e…, pág. 12). Em 1936, foi eleito presidente da referida Associação Acadêmica. Redigiu, com Osmar Pimentel e Mário da Silva Brito, a folha universitária Anhanguera. Participou do movimento intelectual da “Bandeira”, chefiado por Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Membro da Academia de Letras da Faculdade. Ulisses Guimarães (apud Dic. Aut. Paul., página 469) disse que ele “foi um lírico, como tal eminentemente subjetivo”. “Seus poemas,” — escreveu Dulce Salles Cunha (Aut. Contemp. Brasileiros, pág. 229) — “em geral muito pessoais, são quase todos isentos de senões.” (Itajobi, Est. de S. Paulo, 21 de Agosto de 1916 — S. Paulo, Est. de S. Paulo, 23 de Dezembro de 1937.)

BIBLIOGRAFIA: Xangô e Outros Poemas, obra póstuma.



[1] 2-5. Observe-se o ricochete nos dois versos: “Pássaro livre, plana, plana…” e “A fonte corre, corre…”

[2] Epanástrofe: “…encarcerando a ideia. /Mas a ideia…” Cf. Dic. Gramatical — Português, Prof. Francisco Fernandes.

[3] Enumeração: “Recurso estilístico, denominado enumeração caótica por Leo Spitzer, e consistente em uma apresentação, quase catalogal, de ideias ou elementos que se sucedem com um máximo de rapidez e fluência, sem prejuízo da qualidade do texto, …” (Geir Campos, Op. cit.)

[4] Dentro dos moldes modernistas, “O Espírito” guarda aquela beleza das coisas transcendentais. “Pólen do Universo — o Espírito” — imagem das mais admiráveis; “soltar a melodia das masmorras de sombra para a festa dos sóis”; “esgarçar as brumas de todas as prisões” — são versos que pelo seu poder imagístico e dinamismo expressivo por si sós revelam a perícia do poeta para contagiar o espírito do leitor com o belo que dimana de seus versos livres. Aliás, Pero Neto preenche a finalidade do poeta: “fixar a beleza que passa”, com a diferença de que ele fixa, agora, a beleza que nunca passará — o Espírito.

[5] 23-34. Observem-se, versos mais abaixo, as variantes do antecanto “Eu só e o surdo mundo”.

[6] Digno de nota o gosto obsessivo do poeta pelo vocábulo “branco”, chegando a praticar, quase, a batologia.

[7] Atente-se na dinamização expressiva dada pelo assíndeto.


(Psicografia de Francisco C. Xavier)


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