Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 1ª Parte


13

Rodrigues de Abreu


ELA

  1 Onde ela passa qual estrela,

  Célere e luminosa,

  Varrendo a escuridão da vida humana,

  O carvão da miséria

  Faz-se bendito lume,

  Atraindo as mãos frias

  De velhos e crianças

  Que soluçam na sombra.


  2 Onde ela passa docemente,

  Por divina visão

  Entre os campos do mundo,

  Toda planta esmagada

  Reverdece de novo

  Ao brilho da esperança.


  3 Onde ela passa generosa,

  Sobre a lama da Terra,

  Lírios brotam do charco,

  Perfumados e puros,

  Como bênçãos do Céu

  Projetadas no lodo.


  4 Ninguém lhe ouviu jamais qualquer palavra

  De azedia ou censura.


  5 Apenas a vaidade muitas vezes

  Lhe toma a retaguarda

  E espalha o pessimismo

  Nos corações, em torno,

  Comentando, agressiva,

  A torva indiferença

  Dos que bebem a sós

  O vinho da ilusão

  E devoram, cruéis,

  O pão da mesa farta,

  Dando sobras ao mofo,

  Atolados na usura

  Que o ouro anestesia. n


  6 Ela passa, entretanto,

  Nobre, serena e bela,

  Em profundo silêncio,

  Educando e servindo

  Sem que ninguém lhe escute

  Sequer o próprio hálito… n

  Porquanto, em tudo e em todos,

  É sempre a Caridade — a Luz que vem de Deus.


OURO

  1 Todo o ouro dos bancos n

  Pode nutrir, um dia, a glória do trabalho…


  2 Todo o ouro guardado

  Nos altares dos templos

  É riqueza da fé

  Que o tempo transfigura.


  3 Todo o ouro das joias

  Que esplende nos salões

  É láurea passageira

  Em louvor à ilusão.


  4 O ouro dos museus

  A derramar-se, estanque,

  Faz-se ornato da morte

  Para a festa da cinza.


  5 Todo o ouro das minas

  É promessa de pão,

  E o ouro da moeda

  Que auxilia e circula

  É sangue do progresso.


  6 Mas apenas o ouro

  Que gastas apagando

  As aflições dos outros,

  Acendendo sorrisos

  Em máscaras de pranto,

  É o ouro da alegria

  Nos tesouros de amor

  Que acumulas no Céu.


RENASCIMENTO

  1 O que sentes agora,

  Já sentiste.

  O que pensas agora,

  Já pensaste.

  O que dizes agora,

  Já disseste.

  E aquilo que desejas

  Novamente fazer,

  Muita vez já fizeste.


  2 Resguarda, assim, o sonho

  De luz e de beleza

  Que bebeste na altura,

  Para a nova jornada,

  Sentindo no amor puro,

  Pensando de alma reta e renovada,

  Falando com nobreza,

  E conservando, em suma, a lei do bem de cor,

  A fim de que realizes a bondade n

  Para a Vida Maior.

  3 Todo berço na Terra é novo marco…

  E a alma reencarnada é como a estrela n

  Refletida no charco.


RODRIGUES DE ABREU (Benedito Luís de Abreu) — Poeta, teatrólogo, educador. Escreveu nos principais jornais e revistas do País. Tendo sido a infância de R. de Abreu uma das mais afanosas, iniciou ele o curso primário em Piracicaba, completando-o em S. Paulo. Depois de muitas reviravoltas por diversos colégios, de outras cidades, regressa o poeta à Capital paulista, onde passa a lecionar. Posteriormente, transfere-se para sua terra natal, desencarnando, mais tarde, em Bauru. Péricles Eugênio da Silva Ramos (in Lit. no Brasil, III, t. 1, página 538) classifica R. de Abreu como poeta modernista não “histórico” e acrescenta, adiante, que ele “cultivou uma poesia simples, sentimental e dolorida”. Embora Afonso Schmidt (in Dic. Aut. Paulistas, pág. 16) o considere “um dos maiores poetas de S. Paulo”, Domingos Carvalho da Silva, “o seu melhor crítico”, diz que RA, como poeta, foi “alto valor que não chegou a realizar-se, mas que manteve sempre a sua individualidade” (apud Pan. VI, pág. 80). (Município de Capivari, Est. de São Paulo, 27 de Setembro de 1897 — Bauru, Est. de São Paulo, 24 de Novembro de 1927.)

BIBLIOGRAFIA: Noturnos; A Sala dos Passos Perdidos; Casa Destelhada; etc.



[1] Ler assim este verso: “Que o/ ou/ro a/nes/te/si/a”

[2] Leia-se com hiato: pró/prio/ há/li/to.

[3] Ler com hiato em: To/do o/ ou/ro; o / ou/ro; E o/ ou/ro; É o/ ou/ro.

[4] Ler rea-li-zes, com sinérese.

[5] Leia-se E a/al/ma, em três silabas.


(Psicografia de Francisco C. Xavier)


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