Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Alma e Vida — Maria Dolores


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Nesga de prova

   1 Foi num cenário de atualidade,

  No recinto de luxo, o público à vontade,

  Delirava e aplaudia

  A jovem que aliava harmonia e beleza,

  Qual se fosse uma flor da natureza,

  Enquanto se despia…


   2 A música ambiente

  Escorria no espaço, docemente.


   3 A atriz desajeitada

  Que era o enfeite daquela madrugada,

  No palco debruado a cores fascinantes,

  Embora a movimentação cadenciada,

  Passo leve de cisne pequenino,

  Mantinha os olhos baixos,

  Tentando recobrir o corpo alabastrino

  Com os cabelos tecendo longos cachos,

  Como se desejasse

  Esconder no rubor da própria face

  A dor com que guardava o seu próprio destino.


   4 O quadro da nudez artística surgia

  Apenas por instantes

  E, regressando a moça aos bastidores,

  Um senhor de alto porte

  Destacou-se de um grupo de senhores…

   5 Homem moço a exibir gestos brejeiros

  Parecia chegando aos quarenta janeiros…

  Ausenta-se da sala e aguarda na saída

  A jovem que desponta, ainda mais bela,

  Nobremente vestida.

   6 Embora revelando fino trato,

  Ele avança, zeloso, e diz à ela

  Quanto lhe admirara a beleza e o recato

  Na cena colorida

  Que ela marcara de ternura e vida.


   7 Ela agradece a saudação

  E procura afastar-se;

  Ele, porém, sem mais disfarce

  Da educação que mostra atravessa o limite,

  Faz-lhe estranho convite,

   8 Mas jovem lhe fala, olhos em pranto:

  — Não me ofenda, senhor,

  Tenho somente dezessete anos…

  Espero para breve um casamento

  E se aceito esta ingrata profissão

  É pelo pagamento

  Para a manutenção

  De minha pobre mãe tuberculosa…


   9 E acentuou mais triste e mais chorosa:

  — Ainda agora fui chamada

  Para vê-la, talvez, na despedida…

  Um longo tratamento foi inglório…

  Minha mãe, meu senhor,

  Agoniza, exilada em sanatório.


   10 Ela contrata um táxi, apressada…

  O cavalheiro sob enorme assombro,

  Liga o seu próprio carro e segue-a na largada.


   11 Entra a menina no hospital

  E ouve as opiniões de estimada enfermeira,

  Depois, segue ligeira

  Para o vasto aposento,

  Onde a mãezinha, em rude sofrimento,

  Aguarda a hora derradeira…


   12 Entre as duas, o olhar é de angústia e de pranto,

  Repleto de aflição, de amor e espanto…

   13 Mas nisso o cavalheiro esbaforido,

  À custa do obséquio de um porteiro

  Que peitara a dinheiro.

  Rápido, alcança o quarto em forçado alarido…

   14 Vendo, porém, a dama quase morta,

  Assusta-se, recua e quer voltar à porta,

  Mas a doente ganha forças

  E vencendo a terrível dispneia,

  Assombrada lhe diz:

  — Agenor!… Agenor!…

  Não fujas, nem desprezes nossa dor!…


   15 A santa mãe de Deus

  É que te trouxe aqui,

  Não te vás!… Nada temos contra ti!…

  Vinte anos passaram de saudade,

  O tempo para mim foi uma eternidade…

  Esperei-te em serviço,

  Sem jamais esquecer o nosso compromisso,

  Até que o corpo frágil me traiu,

  A saúde caiu

  Mas nada me faltou…

   16 Nossa filha, empregada de escritório,

  É meu apoio neste sanatório…

  Mas agora… Agenor…

  A morte já vem perto…

  Perdoa-me se levo o teu amor

  No meu peito cansado, enfermiço e deserto…

   17 Mas… se posso fazer-te algum apelo,

  Ampara a nossa filha,

  Protege-a, sob a força de teu zelo…

  Jovem, quase menina,

  Ela é a nossa heroína

  Que nunca me deixou sem remédio e sem pão…

   18 Se é que vieste ver-me,

  Vem por Deus a fim de recebê-la,

  Como sendo no mundo a nossa estrela

  E o nosso coração…


   19 O cavalheiro pálido, suspenso,

  Enxuga as próprias lágrimas num lenço.

  Talvez pela energia despendida,

  A senhora calou-se em paz indefinida…

  Aquele corpo triste, enfim, morrera,

  Guardando da alma ausente um sorriso de cera.

   20 Ante quatro enfermeiras espantadas

  O homem agora em pranto

  Humildemente busca a menina que chora,

  Toma-lhe a mão da qual não mais se desvencilha,

  Abraçam-se depois,

  Em soluços os dois…

  E olhos postos talvez nas brumas do passado

  O cavalheiro transformado

  Reconhece que achara a sua própria filha!…


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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