Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Alma e Vida — Maria Dolores


19

Alvorada do Reino

   1 Tiago, filho de Alfeu, em desconforto,

  No desapontamento que o invade,

  Antes que se rompesse a tempestade

  Prestes a desabar sobre Jerusalém,

  Foi ver o Cristo morto.


   2 O vento escorraçava a multidão,

  Que descia tangida à chibatas de pó;

  Vendo o topo do monte quase sem ninguém,

  Sob certo disfarce, o aprendiz de Jesus

  Subiu, ansioso e só,

   3 E falou para o Mestre, aos pés da cruz:

  — Por que morrer assim, Jesus, se as profecias

  De nossas tradições e de nossas memórias,

  Falam de ti no Reino que previas,

  Na condição de rei, cercado de vitórias?

  O povo te saudou por Príncipe Perfeito,

  Alto libertador da Terra Prometida…


   4 Por que não combateste, ao menos, por respeito

  Aos que disseste amar nas agruras da vida?

  Perdoa-me, Senhor, a repulsa que tenho,

  Nada vejo que a fé nos recomponha…

  Ai de nós que ficamos!… Este lenho

  Para sempre, será nossa própria vergonha.

   5 O apóstolo pausara, cismarento,

  Mas do próprio madeiro,

  Varando o ribombar do firmamento,

  Veio, em amargo acento,

  A voz de um Mensageiro,

  Dos muitos que velavam, na hora extrema,

  Pela paz do Divino Companheiro:

   6 — Silencia, Tiago!… O reino que esperavas

  É o mesmo desta hora em que se escuta

  O terrível clamor de sofrimentos e luta

  Das vastas multidões de almas escravas…

   7 De que vitórias falas? As da guerra?

  Da pilhagem no sangue em que se alaga?

  Da púrpura dos reis que refulge e se apaga,

  Ante a cinza dos túmulos da Terra?

   8 Jesus não trouxe ao mundo o império da opressão

  E sim a luz do Reino Superior

  De verdade e de paz, de esperança e de amor,

  Alto Reino de Deus que deve se elevar

  De nosso coração!…


   9 Emudecera a voz, mas o apóstolo aflito

  Voltou a perguntar:

  — Então Jesus, o Ungido dos Ungidos,

  Não veio proclamar

  A terra em que nasci por nação de escolhidos?!…


   10 O Emissário, porém, clamou da cruz, em tom profundo:

  — Tiago, não te dês a preconceitos vãos,

  Todo povo é de Deus, nos caminhos do mundo,

  Todo somos irmãos!… Todos somos irmãos!…


   11 O aguaceiro no céu, a jorros se destampa…

  O apóstolo descia, pensativo,

  Mas, na última rampa,

  Encontra um pobre homem morto-vivo…

  É um mendigo estirado, ao pé do morro,

  A rogar por socorro…

  Está febril, cansado, espancado e ferido.

   12 Tiago enxerga nele um farrapo sangrento

  E refletiu, de si para consigo:

  — Será este, meu Deus, o divino momento

  De compreender Jesus?


   13 Inquieto e surpreendido,

  A sentir-se, por dentro, em nova luz,

  Toma o desconhecido

  E, a carregá-lo nos seus próprios braços,

  Registra estranha força a sustentar-lhe os passos…

  Lembra a história do Bom Samaritano ( † )

  E, na grandeza do seu gesto humano,

  Leva o infeliz a humilde hospedaria…


   14 Na rua, a tempestade atroava e rugia…


  O apóstolo recorda o Cristo entre os doentes,

  Desolados, sozinhos, maltrapilhos,

  Que tratava por filhos,

  Entre afagos e zelos permanentes…


   15 Em seguida, contempla, enternecido,

  Aquele companheiro anônimo e vencido;

  Limpa-lhe o corpo em chaga e oferece-lhe um leito,

  De inesperado amor inflama-se-lhe o peito…

   16 Nessa transformação,

  Abraça-se ao pedinte por irmão!…


  Lá fora, o temporal estrugia, violento,

  Apedrejando a Terra, entre os uivos do vento!…


   17 Tiago se rendera à extrema compaixão…

  Tocado de alegria excelsa e rara,

  Sentiu, dentro do próprio coração,

  Que a construção do Reino começara…


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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