Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Alma e Vida — Maria Dolores


7

A árvore e a fonte

   1 Era uma laranjeira de alto porte,

  Muito perto da fonte que a nutria,

  No recanto obscuro de um pomar…

  Aves faziam dela um reino de alegria

  Sobre o apoio do tronco largo e forte.


   2 Quadro de paz e amor da Natureza:

  A árvore a farfalhar, entre as frondes felizes,

  Os melros, os sabiás e os gaturamos

  Tecendo ninhos nos seus ramos,

  Uma fonte, alentando-lhe as raízes

  E o céu azul ao sol, cobrindo-lhe a beleza!…


   3 Vegetal esquecido pelo dono,

  Não se queixava de abandono,

  Muito contrariamente, ao invés disso,

  Era um palácio verde em constante serviço…

  Abelhas tinham nele um refúgio e um tesouro,

  A sorverem-lhe o mel dos frutos que lembravam

  Pomos vestidos de ouro…


   4 Mas, um dia, surgiu extenso bando

  De homens sedentos e famintos

  Que deram pasto franco aos seus próprios instintos;

   5 Depois de enlamear a fonte de águas claras

  Agrediram a nobre laranjeira,

  Manobrando facões, pedras e varas

  E, em estreitos minutos,

  Despojaram-na, inteira,

  De todos os seus frutos.


   6 A fonte sempre calma

  Guardou manchas e mágoas,

  Lavando sobre a areia as suas próprias águas…


   7 A árvore fez silêncio.

  Maltratada e ferida

  Deitava a seiva em pingos qual se fossem

  Densas gotas de pranto…


   8 Os pássaros, no entanto,

  Não choravam somente os estragos nos ninhos;

  Entre arbustos vizinhos,

   9 Lastimavam as duas benfeitoras:

  A fonte que os mantinha em constante alegria

  E a árvore de bênçãos protetoras

  Que lhes doava o pão de cada dia…

   10 E pipilavam com tamanha dor

  Que pareciam todos juntos

  Numa prece de amor,

  Rogando a Deus, em voz enternecida,

  Que as protegesse

  E as refizesse para a luz da vida.

   11 E Deus lhes atendeu aos rogos de ternura

  Dentro de tempo breve, em verdes resplendores,

  O tronco era, de novo, um palácio de flores

  E a fonte era mais pura.


………………………………………………


   12 Nesse quadro do campo, alma querida,

  Vejo-te a vida, — o tronco, — e a fé que sintetiza

  A fonte linda do teu belo ideal,

   13 Entre os pobres irmãos adversários

  Da crença que nos guarda e nos eleva,

  Sem saber que se fazem

  Intérpretes da treva

  E empreiteiros do mal…

  Tristes amigos irritados!…

   14 Sei que te ferem, alma boa,

  Entretanto, trabalha, ama e perdoa;

  No tempo que se altera sobre o tempo,

  Surgirão transformados!…

   15 Os descrentes e os maus, na condição de ateus

  São sempre corações desesperados

  Com saudades de Deus.


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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