Bíblia do Caminho  † Testamento Xavieriano

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Alma e Vida — Maria Dolores


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A alegria de Jesus

   1 Ele, homem de fé,

  Ouvira alguém dizer, um dia,

  Que Jesus, em legando a paz ao mundo,

  Também deixara aos homens,

  Junto à bênção da paz, em sentido profundo,

  O dom celeste da alegria.

   2 A calma ele encontrara esquecendo as ofensas

  E cumprindo o dever que lhe cabia.

   3 No entanto, onde encontrar o júbilo do Mestre,

  Entre as contradições do caminho terrestre?


   4 Buscou sinceramente o serviço das crenças…

  Todas elas traçaram

  A senda nobre e reta,

  Mostrando a fé por meio e os altos Céus por meta,

   5 Mas, muitos dos fiéis, quase em todos os cultos,

  Eram tristes, amargos, sofredores;

  Pediam proteção, chorando as próprias dores,

  Fossem jovens ou adultos,

  Em vasta maioria,

   6 Oravam tão somente a rogar e a gemer,

  Pouca gente sabia agradecer

  Ao chão que lhes doava água, apoio e comida,

  Nem pensar na grandeza

  Da própria natureza

  Que lhes acalentava os dons da vida.


   7 Onde estava a alegria de Jesus?


   8 Ele foi procurá-la

  No cimo da montanha,

  Entretanto, a montanha em plena luz

  Que o Sol lhe endereçava em raios cor de opala,

  Era bela e altaneira,

  Mas lamentava os temporais

  Que lhe abriam no corpo as chagas da erosão.


   9 Foi ao vale a se abrir em pompas naturais

  Na beleza das flores…

  O vale era um jardim de perfumes e cores,

  Mas censurava as larvas que o feriam…


   10 Ele foi consultar

  As áreas de um pomar,

  As árvores mais fortes e mais belas

  Talvez fossem as altas sentinelas

  Da divina alegria…

   11 As árvores, porém,

  Todas vestindo em verde, alegres e felizes

  Sobre os sapatos das raízes,

  Davam a quem passasse os próprios frutos,

  Entretanto, queixavam-se do vento,

  Que lhes quebrava o corpo, ao furacão violento.


   12 O homem foi ao mar…

  O oceano que se reconhecia

  O gigante maior; existente no mundo,

  Expressava-se em cólera sombria,

  Talvez gritando a dor em que vivia,

  Por ocultar, no próprio fundo,

  As vítimas de guerra

  E os resultados da pirataria…


   13 Ele peregrinou, quase que em toda a Terra,

  Sem achar a alegria de Jesus.


   14 Numa noite, porém, chuvosa e fria,

  Lobrigou na calçada

  Um velhinho caído sem ninguém…

  Sofreu ao ver-lhe o peito e os braços nus;

   15 Não quis saber quem era…

  Ali estava alguém

  Que devia tratar qual se lhe fosse irmão.

   16 Conhecia um telheiro próximo e vazio,

  Podia socorrê-lo e livrá-lo do frio.

   17 Tomou-o com cuidado,

  Aconchegando ao peito o infeliz desmaiado;

   18 No entanto, ao dedicar-lhe a máxima atenção,

  Sentindo que lhe ouvia o próprio coração,

  Notou que lhe nascia

  No âmago do ser um júbilo profundo

  Associado à paz de que se revestia.

   19 Ao transportar o pobre ancião,

  Ele reconheceu que descobria,

  Sob o calor de estranha luz,

  Em sublime alegria,

  A celeste alegria de Jesus.


   20 Desde então, muito embora

  Cumprisse as obrigações de cada hora,

  Em todos os sentidos,

  Fez-se o irmão dos caídos…

   21 Carregava esses pobres companheiros

  Que encontrasse na rua

  Para abrigos, refúgios e telheiros.

   22 Não só isso,

  Doava sempre a quem necessitasse

  A própria prestação de apoio e de serviço…


   23 O tempo desgastou-lhe o corpo alterado e doente

  Ele, porém, sentia-se feliz,

  Servindo sem cessar

  Na mesma diretriz.


   24 Numa noite, entretanto, ele caiu,

  Ao carregar um ébrio desditoso…

   25 Estirado no pó, quase que num instante,

  Viu-se fora do corpo enfermo e idoso…

  Sob dor lancinante,

  Qual se agudo punhal lhe traspassasse o peito…


   26 Fitou o antigo corpo imóvel,

  Conquanto fraco, embora,

  Usufruía agora

  Um corpo mais perfeito.

   27 Sentiu-se um tanto inquieto… O que seria?

  Mas alguém se mantinha de vigia…

  Era um homem trajando um manto acolhedor

  Que lhe estendia os braços num sorriso

  Feito de paz e amor…


   28 E ele que carregara tanta gente

  Viu-se, então, transportado, de repente,

  E esquecendo a doença, o desgaste e o cansaço,

  Notou que resguardado com carinho,

  Ele e o homem de luz

  Subiam juntos para o Grande Espaço…


   29 Que se passava ali? O que haveria?

  Ele não quis saber… Repousava e seguia

  Nos braços que o guardavam,

  Atento ao benfeitor que o conduzia;

   30 Ele sabia apenas

  Que atravessava as regiões serenas

  Da Altura recamada

  De branda e extensa luz

  Buscando o Grande Além, chorando de alegria,

  Na celeste alegria de Jesus.


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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