Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Alma e Vida — Maria Dolores


1

Regresso de Simão Pedro

   1 Simão Pedro desperta, além da vida humana.

  Retoma, pouco a pouco, as forças da memória.

  Terminara, por fim, a luta insana

  Do flagelo por grande pesadelo.

   2 Recorda a cruz do fim, levantada ao avesso,

  Que aceitara na Terra por vitória…

  Sabe que está no Além, pensando em recomeço

  Do próprio apostolado…


   3 Onde estaria o Mestre Sempre Amado?

  E os outros companheiros

  De ânimo nobre e forte,

  Que o haviam, no mundo, precedido,

  Sob a perseguição sem pausa e sem sentido,

  Ao encontro da morte.


   4 A brisa da manhã suave e cristalina

  Trazia-lhe perfume ao leito novo e alvo…

   5 Indagava Simão: “Que surpresas teria?”

  Tocou o próprio corpo, achou-se são e salvo

  E chorava, enlevado, em suprema alegria…


   6 Alguns instantes mais e ouviu, enternecidamente,

  Cânticos de louvor e saudação;

   7 Alguém surgiu à porta, de repente,

  Envolto em doce luz

  A doar-lhe conforto e proteção…

  Pedro entendeu quem era e bradou-lhe: “Jesus!”


   8 Erguendo-se, em seguida,

  Leve e ágil, gritou: “Ave, Senhor da Vida!…”

   9 Cristo abeirou-se dele, a enlaçá-lo sorrindo,

  Depois vieram outros companheiros,

  Instrutores, amigos, mensageiros,

  Do júbilo fazendo o festival mais lindo…


   10 Pedro enxergou, feliz, os vergéis exteriores…

  Eram jardins imensos,

  Recheados de flores.


   11 Em profunda euforia,

  O ditoso Simão

  Tomou a si a mão

  Que Jesus lhe estendia

  E disse, quase em pranto:

   12 — Senhor; estou cansado,

  Não mais me distancies de teu lado…

  Trago comigo a dor

  Dos que moram no mundo,

  Aquele imenso caos, cada vez mais profundo,

  De penúria, fadiga e sofrimento…

   13 Não desejo perder as luzes que hoje alcanço,

  Permite-me, Senhor ficar contigo,

  Neste celeste abrigo…

   14 Necessito de paz, de socorro e descanso…

  Louvo a ti por me buscares…

  Deixa-me nestes bosques estelares…

   15 Ao mundo de onde venho,

  Pelas tribulações padecidas no lenho,

  Não mais quero voltar…

  Desejo aqui viver contigo, neste lar…


   16 Mas Jesus apontou-lhe o imenso espaço à frente

  E falou-lhe a sorrir:

  — Fica, Simão, se estás contente…

   17 Estes sítios são teus,

  Tanto quanto de todos os irmãos

  Que serviram, na Terra, à bondade de Deus…


   18 Cristo fez pausa e, logo após,

  Explicou: Quanto a mim,

  Não posso repousar;

  A construção do bem é o meu lugar…

   19 Ouve, Simão!… Enquanto

  Houver na Terra um só gemido

  Numa gota de pranto,

  Enquanto houver no mundo um coração caído,

  Devo esforçar-me por permanecer

  No trabalho do amor que é meu dever…

   20 Mas, descansa, Simão!… Ver-nos-emos depois,

  Nunca houve distância entre nós dois…


   21 Afastou-se Jesus,

  Entretanto, Simão fitando o Excelso Amigo,

  Bradou sem vacilar:

  — Senhor, eu vou contigo!…


   22 No passo firme do Divino Mestre,

  Ambos se retiraram das Alturas,

  Buscando a direção das faixas obscuras

  Da vastidão terrestre…


   23 Na retaguarda, em paz, ficou a multidão

  De almas angelicais, numa doce canção,

  Cujo estribilho recordava

  Esta expressão de luz dos hinos galileus:

  — “Louvado seja o amor!… Bendito seja Deus!…”


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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