Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Almas em desfile — Hilário Silva — 2ª Parte


8

A joia

I


1 No grande transatlântico em que cento e oitenta pessoas seguiam da América do Sul para a América do Norte, dentre as quais cento e dez brasileiros, o Sr. Zenóbio de Carvalho era cavalheiro dos mais simpáticos. Prestativo. Cordial. Sempre um sorriso bom, distribuindo coragem.

2 Acompanhava uma filhinha de quatro anos para tratamento de saúde em New York, com o rosto já coberto de rugas, dava a ideia de sessenta anos de idade, quando ultrapassara apenas as faixas dos quarenta.

Exteriorizava, porém, tamanho encanto na convivência, que se tornara por todos estimado.

3 Entretanto, Carvalho, conhecido como distinto comerciante no sul brasileiro, estava preso a um hábito forte.

Toda manhã e toda tarde era visto no tombadilho compulsando livros espíritas.

4 Ninguém dava a isso maior interesse, menos o velho professor Marques Botelho, que não ia com semelhante atitude.

E todas as vezes que o negociante saía da cabina para ler diante do mar, o educador tomava uma das obras de Hemingway, que andava recordando para familiarizar-se com o inglês, e postava-se em outra poltrona, ao lado dele, como em desafio, a baforar fumaça espessa, pelo cachimbo encastoado de prata.


II


1 Às vésperas do desembarque, reuniram-se todos os viajantes no salão de festas, para o lanche em comum.

2 Carvalho chegou, como sempre, conduzindo um livro espírita e, porque as circunstâncias o colocassem renteando com o cordial adversário, o professor, em meio à festa, apontou o volume, com antipatia evidente, e falou, em voz alta:

— Sinto ojeriza especial por tudo quanto se relacione com Espiritismo…

— Ora, ora, mas por quê? — indagou Zenóbio, humilde.

3 — Há precisamente vinte e dois anos — comentou o educador —, estive em Buenos Aires, estudando a instrução na Argentina, e hospedei-me com um amigo na rua de Córdova, onde me roubaram precioso anel de brilhantes, lembrança de minha mãe. Meu amigo viu o vulto do ladrão que desapareceu numa construção próxima, onde se praticavam sessões espíritas. Providenciamos a inquirição policial. O bando espírita esteve detido, mas tudo em vão… Desde essa época, não vou com essa droga…

4 O negociante ruborizou-se e respondeu:

— Sinto-me realmente numa hora de testemunho. Devo confessar que, em minha mocidade, fui ladrão, mas, há vinte anos, após um roubo por mim praticado, alguém se compadeceu de minha juventude viciada e colocou-me nas mãos uma obra de Allan Kardec. Reformei-me. Compreendi que a vontade cria o destino e sou hoje outro homem…

— Oh! Oh!…

5 Exclamações explodiam de todas as bocas.

— Sr. Carvalho — aparteou o catedrático —, não tive a intenção de ofendê-lo… Não tenho simpatia pelo Espiritismo, mas não creio que o senhor tenha errado alguma vez. Perdoe-me.

6 Mas Zenóbio, agora sorrindo sereno, enfiou a mão no bolso interno do paletó e arrancou de lá um anel e entregou-o ao educador, exclamando:

— Fui eu que lhe furtei a joia, em Buenos Aires. Há vinte anos eu a trago no bolso, para devolvê-la ao legítimo dono.

7 Num rasgo de imenso valor moral, fitou os circunstantes e acentuou:

— Creiam que hoje é um dos mais belos dias de minha vida…

8 E terminou, ante o emocionado silêncio de todos:

— Graças a Deus!


.Hilário Silva


(Psicografia de Francisco C. Xavier)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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