Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano XII — Dezembro de 1869.

(Édition Française)

DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS.


A solidariedade universal.

(Sociedade Espírita de Paris,  †  29 de outubro de 1869.)

As questões da origem do homem e do futuro da Humanidade têm uma importância capital, pois de sua solução depende uma das fases principais da moral e das leis que determinam as relações dos homens entre si, e as da Humanidade com a animalidade.

Quando todas as criações eram referidas à Humanidade, quando o Universo e todos os seus esplendores eram feitos apenas para deleitar seus olhos, o homem, esta criação superior, esse rei absoluto da natureza animada e inanimada, existia sobretudo para o orgulho e para o egoísmo; era o conjunto de todas as perfeições criadas! Deus reunira nele todas as faculdades e nada havia feito senão para ele.

Mas o progresso marcha; a Ciência aplica sua lupa de aumento sobre todas as leis; faz aparecerem uma a uma todas as nossas torpezas e mina todas as nossas ilusões. Não foi para o prazer dos nossos olhos que esses orbes de ouro foram criados; leis imutáveis e universais os regem como nos regem; têm uma vida à parte, uma existência própria e seres tão ou mais adiantados que a Humanidade aí prosseguem sua marcha incessante através do infinito, para a conquista do progresso! O orgulho e o egoísmo universais do homem se acham reduzidos às proporções terrenas; o homem não é mais o senhor do Universo, tendo apenas Deus como superior; é uma parte da criação superior, mas não é toda essa criação e deve reconhecer que se ele tem inferiores, é bastante imperfeito por ter superiores que o distanciam na rota da perfeição!…

Ah! seria ele obrigado a restringir ainda mais o seu império?… Em vez de ser um dominador terreno com direitos assegurados, não seria mais que um novo-rico? Nasceria nesse caos obscuro que se agita a seus pés? As inteligências que o cercam e que se elevam a uma altura notável nos seres submetidos à sua dominação, poderiam um dia igualar a sua? Não é mais que um animal humano, e o animal seria um homem futuro? Que perspectiva penosa para os desdenhosos e seus espíritos limitados! mas que novas fontes de gozos intelectuais! que clarão imenso, permitindo entrever mais o incriado, pelos Espíritos progressistas por excelência!…

Essas criaturas inferiores, até aqui consideradas como produtos informes da divindade ensaiando-se para a criação, não seriam mais que modos sucessivos de um mesmo ser?… Nenhum seria privado do benefício de seus atos?… Este animal que sofre, que sente, que ama, que percebe e se manifesta, poderia, como o próprio homem, fazer o seu futuro pelos próprios atos? ser instrumento de sua felicidade futura? Que há de revoltante em tal concepção? E não insultaríeis a Deus, vós que considerais uma abjeção que a Humanidade tire sua origem da animalidade? Em que a animalidade, criada pela mesma potência, seria menos nobre que a Humanidade?

Desde que a terra gira a moral perdeu a aparência de um anão para tomar o corpo de um gigante.

Continuai vossas pesquisas; estudai, meditai incessantemente e descobrireis que a Humanidade é apenas um elo da imensa cadeira que, do infinitamente pequeno (o átomo) conduz ao infinitamente grande (Deus), e a moral não terá limites, como aquele que a decretou.


Channing. n



[1] [v. William Ellery Channing.]


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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