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Revista espírita — Ano XI — Novembro de 1868

(Édition Française)

O ESPIRITISMO EM TODA PARTE


A amizade após a morte

(Pela Sra. Rowe) n
(Sumário)

Nada é mais instrutivo e, ao mesmo tempo, mais concludente em favor do Espiritismo, do que ver as ideias sobre as quais ele se apoia, professadas por pessoas estranhas à Doutrina, e antes mesmo do seu aparecimento. Um dos nossos correspondentes de Antuérpia, que já nos transmitiu preciosos documentos a tal respeito, manda-nos o seguinte extrato de uma obra inglesa, cuja tradução, feita da 5ª edição, foi publicada em Amsterdã, em 1753. Talvez jamais os princípios do Espiritismo foram formulados com tanta precisão. É intitulado: A amizade a pós a morte, contendo as cartas dos mortos aos vivos. Pela senhora Rowe.


Página 7 — Os Espíritos bem-aventurados ainda se interessam pela felicidade dos mortais, e fazem frequentes visitas aos seus amigos. Poderiam até aparecer aos seus olhos, se as leis do mundo material não lhos impedissem. O esplendor de seus veículos n e o domínio que exercem sobre as forças que governam as coisas materiais e sobre os órgãos da visão poderiam facilmente lhes servir para se tornarem visíveis. Muitas vezes olhamos como uma espécie de milagre que não percebeis, porque não estamos afastados de vós em relação ao lugar que ocupamos, mas somente pela diferença de estado em que nos encontramos.


Página 12, carta IIIDe um filho único, morto aos dois anos, à sua mãe. — Desde o momento em que minha alma foi libertada de sua incômoda prisão, achei-me um ser ativo e racional. Admirado por vos ver chorar por uma pequena massa, apenas capaz de respirar, que eu acabava de deixar, e estava muito satisfeito por dela me ter desembaraçado, pareceu-me que estivésseis desgostosa pela minha feliz libertação. Encontrei uma tão justa proporção, tanta agilidade e uma luz tão brilhante no novo veículo que acompanhava o meu Espírito, que não podia admirar-me bastante que vos afligísseis com a feliz troca que eu fizera. Então eu conhecia tão pouco a diferença dos corpos materiais e imateriais, que me imaginava ser tão visível para vós quanto éreis para mim.


Página 37, carta VIII — Os gênios celestes que cuidam de vós nada negligenciam durante o vosso sono, para extirpar do vosso coração esse ímpio desígnio. Algumas vezes vos conduziram a lugares cobertos por uma sombra lúgubre; ali ouvistes as imprecações amargas dos Espíritos infortunados. Outras vezes, as recompensas da constância e da resignação descortinaram aos vossos olhos a glória que vos espera, se, fiel ao vosso dever, vos ligardes pacientemente à virtude.


Página 50, carta X — Como, minha cara Leonora, pudestes ter medo de mim? Quando eu era mortal, isto é, capaz de loucura e de erro, jamais vos fiz mal; muito menos vo-lo farei no estado de perfeição e de felicidade em que estou. Não resta a menor mancha de vício ou de malícia nos Espíritos virtuosos; quando estes rompem a sua prisão terrestre, tudo neles é amável e benfazejo; o interesse que tomam pela felicidade dos mortais é infinitamente mais terno e mais puro que antes.

O pavor que no mundo geralmente sentem por nós parece incrível, se não nos lembrássemos de nossas loucuras e de nossos preconceitos; mas não fazemos senão gracejar de vossos ridículos temores. Não teríeis mais razão de vos assustar e de fugir uns dos outros, do que nos temer, logo a nós que nem temos o poder nem a vontade de vos inquietar? Enquanto desconheceis os vossos benfeitores, nós trabalhamos para desviar mil perigos que vos ameaçam e em adiantar os vossos interesses com o mais generoso ardor. Se os vossos órgãos fossem aperfeiçoados e se vossas percepções tivessem adquirido o alto grau de delicadeza a que chegarão um dia, então saberíeis que os Espíritos etéreos, ornados com uma flor de divina beleza e uma vida imortal, não são feitos para produzir em vós o terror, mas o amor e os prazeres. Quisera vos curar de vossas injustas prevenções, reconciliando-vos com a sociedade dos Espíritos, a fim de estar em melhores condições de vos advertir dos perigos e dos riscos que ameaçam a vossa juventude.


Página 54, carta XI — Vosso restabelecimento surpreende os próprios anjos que, se ignoram os diversos limites que o soberano dispensador impôs à vida humana, muitas vezes não deixam de fazer justas conjecturas sobre o curso das causas secundárias e sobre o período da vida dos humanos.


Página 68, carta XIV — Desde que deixei o mundo, muitas vezes tive a felicidade de tomar o lugar do vosso anjo-da-guarda. Testemunha invisível das lágrimas que a minha morte vos fez derramar, enfim me foi permitido abrandar as vossas dores, informando-vos que sou feliz.


Página 73, carta XVI — Como os seres imateriais, sem ser percebidos, podem misturar-se em vossa companhia, na noite passada tive a curiosidade de descobrir vossos pensamentos sobre o que vos tinha acontecido na noite anterior. Para tanto, achei-me em meio àquela assembleia em que estáveis. Ali, ouvi que brincáveis com alguns de vossos amigos familiares sobre o poder da prevenção e a força de vossa imaginação. Entretanto, milorde, não sois tão visionário e tão extravagante quanto vos dizeis. Nada de mais real do que o que vistes e ouvistes, e deveis acreditar nos vossos sentidos, do contrário fareis degenerar em vício a vossa desconfiança e a vossa modéstia. Não tendes mais, meu caro irmão, senão algumas semanas de vida; vossos dias estão contados. Tive a permissão, o que acontece raramente, de vos dar algum aviso sobre o vosso destino, que se aproxima. Sei que vossa vida não foi manchada por nenhuma ação baixa ou injusta; entretanto, aparecem nos vossos costumes certas leviandades que reclamam de vossa parte uma pronta e sincera reforma. Faltas que a princípio parecem uma bagatela, degeneram em crimes enormes.


Epístola dedicatória, página 27 — A Terra que habitais seria uma morada deliciosa se todos os homens, cheios de estima pela virtude, praticassem fielmente as suas santas máximas. Julgai, pois, o excesso de nossa felicidade, pois que, ao mesmo tempo que aproveitamos todas as vantagens de uma virtude generosa e perfeita, sentimos prazeres tanto mais acima dos de que gozais, quanto o Céu o é da Terra, o tempo da eternidade e o finito do infinito. Os mundanos são incapazes de fruir dessas delícias. Que gosto encontraria, em nossas augustas assembleias, um voluptuoso? O vinho e a carne daí são banidos, o invejoso aí seria consumido pela dor ao contemplar a nossa felicidade; o avarento aí não encontraria riquezas; o jogador ocioso se aborreceria mortalmente por não mais encontrar o meio de matar o tempo. Como uma alma interessada poderia achar prazer na amizade terna e sincera, que se pode encarar como uma das principais vantagens que possuímos no Céu? é a verdadeira morada da amizade.


O tradutor diz, em seu prefácio, à pagina 7:

“Espero que a leitura de seu livro possa reconduzir à religião cristã uma certa ordem de criaturas, cujo número é muito grande neste reino, que, sem consideração aos princípios da religião natural e revelada, tratam a imortalidade da alma como pura quimera. É para estabelecer a certeza desta imortalidade que nosso autor se empenha principalmente.”


Página 9 — “Não era propriamente para os filósofos incrédulos que ela escrevia; era, como dissemos, para uma certa classe de criaturas, muito numerosas na alta sociedade, que, ocupadas inteiramente com os divertimentos frívolos do século, acharam a arte funesta de esquecer a imortalidade da alma, de se atordoar com as verdades da fé, e afastar de seu espírito ideias tão consoladoras. Bastava-lhe, pois, para realizar esse desígnio, inventar espécies de fábulas e de apólogos cheios de traços vivos, etc.”


Observação — Parece que o tradutor não acredita na comunicação dos Espíritos, já que pensa que os relatos da senhora Rowe são fábulas ou apólogos inventados pela autora, em apoio à sua tese. Entretanto, ele achou o livro tão útil que o julga capaz de reconduzir os incrédulos à fé na imortalidade da alma. Mas há aí uma singular contradição, porquanto, para provar que uma coisa existe, é preciso mostrar a sua realidade, e não a sua ficção. Ora, é precisamente o abuso das ficções que destruiu a fé nos incrédulos. Diz o simples bom-senso que não é com um romance da imortalidade, por mais engenhoso que seja, que se provará a imortalidade. Se, em nossos dias, as manifestações dos Espíritos combatem a incredulidade com tanto sucesso, é porque elas são uma realidade.

Segundo a perfeita concordância de forma e de fundo, que existe entre as ideias desenvolvidas no livro da senhora Rowe e o atual ensino dos Espíritos, não se pode duvidar que o que ela escreveu seja produto de comunicações reais.

Como é que um livro tão singular, susceptível de excitar a curiosidade no mais alto grau, bastante difundido, pois chegara à sua quinta edição e foi traduzido, tenha produzido tão pouca sensação, e que uma ideia tão consoladora, tão racional e tão fecunda em resultados tenha ficado no estado de letra morta, ao passo que, em nossos dias, bastaram alguns anos para que ela desse a volta ao mundo? Poder-se-ia dizer outro tanto de uma porção de invenções e de descobertas preciosas, que caem no esquecimento à sua aparição, e florescem alguns séculos mais tarde, quando a sua necessidade se faz sentir. É a confirmação deste princípio: as melhores ideias abortam, quando vêm prematuramente, antes que os espíritos estejam maduros para as aceitar.

Temos dito muitas vezes que se o Espiritismo tivesse vindo um século mais cedo, não teria tido nenhum sucesso; eis a prova evidente disto, porque esse livro é, seguramente, do mais puro e do mais profundo Espiritismo. Para que se pudesse compreendê-lo e apreciá-lo, seriam necessárias as crises morais, pelas quais passou o espírito humano neste último século e que lhe ensinaram a discutir suas crenças; mas era preciso, também, que o niilismo, sob suas diferentes formas, como transição entre a fé cega e a fé raciocinada, provasse a sua impotência em satisfazer as necessidades sociais e as legítimas aspirações da Humanidade. A rápida propagação do Espiritismo em nossa época prova que ele veio em seu tempo.

Se ainda hoje se veem pessoas que têm sob os olhos todas as provas, materiais e morais, da realidade dos fatos espíritas, e que, a despeito disto, se recusam à evidência e ao raciocínio, com mais forte razão deviam ser muito mais encontradas há um século. É que seu espírito ainda é impróprio para assimilar esta ordem de ideias; elas veem, ouvem e não compreendem, o que não denota falta de inteligência, mas falta de aptidão especial; são como as pessoas a quem, embora muito inteligentes, falta o senso musical para compreender e sentir as belezas da música. É o que se deve entender quando se diz que sua hora ainda não chegou.



[1] [L’amitié après la mort, contenant les lettres des morts aux vivans, et les … Por Elizabeth Rowe - Google Books]


[2] Ver-se-á mais na frente que o autor entende por veículo o corpo fluídico.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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