Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano IX — Novembro de 1866.

(Édition Française)

Sonambulismo mediúnico espontâneo.

(Sumário)

1. – A última sessão da Sociedade Espírita de Paris,  †  antes das férias, foi uma das mais notáveis do ano, quer pelo número e pelo alcance das comunicações aí obtidas, quer pela produção de um fenômeno espontâneo de sonambulismo mediúnico. Por volta da metade da sessão, o Sr. Morin, membro da Sociedade e um dos médiuns habituais, adormeceu espontaneamente sob a influência dos Espíritos, o que jamais lhe acontecera. Então falou com ardor, com eloquência, sobre um assunto de alta gravidade e do maior interesse, do qual nos ocuparemos posteriormente.

A sessão de reabertura de sexta-feira, 5 de outubro, apresentou um fenômeno análogo, mas em mais largas proporções. Havia à mesa treze médiuns. Durante a primeira parte, dois deles, a Sra. C… e o Sr. Vavasseur, adormeceram sob a influência dos Espíritos, como havia ocorrido com o Sr. Morin, sem qualquer provocação e sem que ninguém nisto tivesse pensado. O Sr. Vavasseur é o médium poeta, que com a maior facilidade obtém poesias notáveis, das quais publicamos algumas amostras. O Sr. Morin estava a ponto de adormecer também. Ora, eis o que se passou durante o seu sono, que durou quase uma hora.

O Sr. Vavasseur, com voz grave e solene, disse: “Toda vontade, toda ação magnética é e deve ficar estranha a este fenômeno. Ninguém deve falar à minha irmã, nem a mim.” Falando de sua irmã, designava a Sra. C…, isto é, irmã espiritual, já que não são parentes. Depois, dirigindo-se ao Sr. Morin, colocado no outro extremo da mesa, e estendendo a mão para ele com um gesto imperativo: “Proíbo-te de dormir.” O Sr. Morin, com efeito, já quase adormecido, despertou por si mesmo. Além disso, foi recomendado expressamente que ninguém tocasse nos dois médiuns.

O Sr. V .., continuando: “Ah! sinto aqui uma corrente fluídica má, que me fatiga… Irmã, sofres também? – Sra. C…: Sim.

– Sr. V…: Olha! a sociedade é numerosa esta noite. Vês? – Sra. C…: Ainda não muito claramente; – Sr. V…: Quero que vejas. – Sra. C…: Oh! sim; os Espíritos são numerosos! – Sr. V…: Sim, muito numerosos; não se os contam mais!… Mas, olha à tua frente; vês um Espírito mais luminoso, de auréola mais brilhante… Parece nos sorrir com benevolência!… Dizem que é meu patrono (São Luís)… Vamos, marchemos; vamos para ele… Oh! tenho muitos erros a reparar… (dirigindo-se ao Espírito): Caro Espírito! nascendo para a vida, minha mãe me deu vosso nome. Depois, lembro-me, essa pobre mãe me dizia todos os dias: “Oh! meu filho, ora a Deus; ora a teu anjo-da-guarda; ora, sobretudo, a teu patrono.” Mais tarde, esqueci tudo… tudo! A dúvida, a incredulidade me perseguiram; em meu desvario eu vos desconheci, desconheci a vontade de Deus… Hoje, caro Espírito, venho pedir-vos o esquecimento do passado e o perdão no presente!… Ó São Luís, vede minha dor e meu arrependimento, esquecei e perdoai.” (Estas últimas palavras foram ditas com uma inflexão pungente de desespero).

A Sra. C…: “Não deves chorar, irmão… São Luís te perdoa e te abençoa… Os bons Espíritos não têm ressentimento contra os que voltam atrás em seus erros. Digo-te que ele te perdoa!… Oh! este Espírito é bom!… Olha, ele nos sorri. (Levando a mão ao peito) Oh! como dói sofrer assim!”

O Sr. V…: “Ele me fala… Escuta!… Coragem, diz ele, trabalha com teus irmãos. O ano que começa será fértil em grandes acontecimentos. Em torno de vós surgirão grandes gênios, poetas, pintores, literatos. A era das artes sucede a da filosofia. Se a primeira fez prodígios, a segunda fará milagres.” (O Sr. V.. exprime-se com extraordinária veemência; está no supremo grau do êxtase).

A Sra. C…: “Acalma-te, irmão; nisto pões muito ardor, e isto te faz mal; acalma-te.”

O Sr. V.. (continuando): “Mas aí começa a missão de vossa Sociedade, missão muito grande e muito bela para os que a compreendem… Foco da Doutrina Espírita, deve defendê-la e propagar os seus princípios por todos os meios disponíveis. Aliás, o seu presidente saberá o que deve fazer.

“Agora irmã, ele se afasta; ainda nos sorri; diz-nos com a mão: até logo… Vamos, subamos, irmã; deves assistir a um espetáculo esplêndido, a um espetáculo que o olhar terreno jamais viu… jamais, jamais!… Sobe… sobe… eu o quero!… (Silêncio). Que vês?… Olha este exército de Espíritos!… Os poetas estão aqui e nos cercam… Oh! cantai também, cantai!… Vossos cantos são os cânticos do céu, o hino da criação!… Cantai!… E seus murmúrios acariciam meus ouvidos… e seus acordes adormecem o meu espírito… Não ouves?…”

A Sra. C…: “Sim, ouço… Parecem dizer que com o ano espírita que se inicia, começa uma nova fase para o Espiritismo… fase brilhante, de triunfo e de alegria para os corações sinceros, de vergonha e de confusão para os orgulhosos e os hipócritas! Para estes, as decepções, o abandono, o esquecimento, a miséria; para os outros, a glorificação.”

O Sr. V…: “Eles já o disseram, e isto se confirma.”

A Sra. C…: “Oh! que festa! que magnificência! que esplendor deslumbrante! Mal pode meu olhar sustentar o seu brilho. Que suave harmonia se faz ouvir e penetra a alma!… Vê todos esses bons Espíritos que preparam o triunfo da Doutrina sob a condução dos Espíritos superiores e do grande Espírito de Verdade!… Como são resplandecentes, e quanto lhes deve custar descer para habitar um globo como o nosso! Isto é doloroso, mas faz progredir.”

O Sr. V…: “Escuta!… escuta, digo-te!”


2. – O Sr. V… começa o improviso seguinte em versos. Era a primeira vez que fazia poesia mediúnica verbalmente. Até então as poesias deste gênero sempre tinham sido dadas por escrito, espontaneamente.


Noite de tempestade,

Mortos rolava o mar,

Na praia sem piedade

Em lúgubre cantar!…

Uma criança pequena,

De pé sobre um rochedo

Esperava, serena,

Da aurora o brilho ledo

Para ir pela praia

Procurar sua irmã

Que do naufrágio saía,

Ou… dê-lha esta manhã.

Poderia de um alto,

Vê-la, pois, como outrora,

Sorridente e de um salto

Ouvir-lhe a voz sonora?

Mas nesta noite horrível,

Sobre as vagas inquietas,

Essa mão invisível

Que os separou tem metas

De voltar as unir?

Foi esperança vã!

Surge a aurora a sorrir,

Mas… nada, só manhã;

Nada… a triste certeza

De um barco destruído!

Nada… da onda a frieza

Levando o que é perdido.

A vaga, com mistério,

Tocava deslizando,

Em seu ágil critério,

Só abismo expressando

Que a vítima escondia,

Seu soluço a abafar,

De seu crime estaria

As ondas a exculpar

A brisa lamentosa!


A criança a procurar,

Pela praia, ansiosa,

Não mais podia andar…

Sem respirar poder,

Coxeante… fraca… aflita…

E mal a se suster,

Se fizera sem dita

E sobre a pedra quente

De um rochedo polido,

Faz uma prece ardente,

Ante um desconhecido.

E surpreso ele o vê

Em tocante oração.

– Oh, filho! Deus te dê

Amor; ergue-te então!…

Foi Deus que, por teu pranto,

Me pôs em teu caminho

Para acalmar-te quanto

Eu possa com carinho!

Na dor não te retenhas;

Meu lar será teu lar,

Minha família tenhas,

Faço meu teu penar.

Vem; fala-me, criança;

Tem em meu peito amor,

Bem depressa a esperança

Lenirá tua dor.


(Dirigindo-se à Sra. C…) – “Tu o vês, ele para!… mas deve falar ainda!… Sim, aproxima-se!… os sons tornam-se mais distintos… Ouço… ah!…”


Eu sou… o pobre perdido…

És (dirigindo-se a Allan Kardec) o desconhecido,

Mestre, quero-te honrar!

Pois me viestes mostrar

Que existe: … Eternidade

E… imortalidade!

Dois nomes: Deus, que é Luz!

O outro, alma que reluz!

E vós, meu caro amigo,

Me ofereceis abrigo,

Minha família sois

Onde tranquilo, pois,

Vou terminar meus dias!

Amai-me! Sois meus guias!…


“Ele foge… Casimir Delavigne!… Oh! caro Espírito… ainda!… Ele foge!… Vamos, não sou bastante forte para assistir a este concerto divino… Sim, é belo demais… é belissimo!…

A Sra. C…: “Ele falaria ainda se tivesses querido, mas tua exaltação o impediu. Eis-te alquebrado, aflito, ofegante; não podes mais falar.”

O Sr. V…: “Sim, eu o sinto; é ainda uma fraqueza (com um vivo sentimento de pesar), e devo despertar-te!… muito cedo… Por que não ficar sempre neste lugar? Por que voltar à Terra? Vamos, já que é preciso, irmã, devemos obedecer sem murmurar… Desperta, eu o quero. (A Sra. C… abre os olhos). Para mim podes despertar-me agitando teu lenço. Sufoco!… ar!… ar!”

Estas palavras, e sobretudo os versos, foram ditos com uma inflexão, uma efusão de sentimento e um calor de expressão, cujas cenas mais dramáticas e mais patéticas apenas podem dar uma ideia. A emoção da assembleia era geral, porque se sentia que não era declamação, mas a própria alma desprendida da matéria que falava…

Esgotado de fadiga, o Sr. V… foi obrigado a deixar a sala e por muito tempo ficou arrasado, dominado por um sono de onde só saiu pouco a pouco, por si mesmo, sem querer que ninguém o ajudasse.


3. – Esses fatos vêm confirmar as previsões dos Espíritos no tocante às novas formas que não tardaria a tomar a mediunidade. O estado de sonambulismo espontâneo, no qual se desenvolve, ao mesmo tempo, a mediunidade falante e vidente, é, com efeito, uma faculdade nova, no sentido em que parece generalizar-se; é um modo particular de comunicação que tem, mais que nunca, sua razão de ser neste momento.

Aliás, este fenômeno serve muito mais de complemento à instrução dos Espíritos do que para a convicção dos incrédulos, que nele veriam apenas uma comédia. Só os espíritas esclarecidos o podem compreender e nele descobrir as provas da sinceridade ou da hipocrisia, como em todos os outros gêneros da mediunidade; só eles podem destacar o que é útil, deduzindo suas consequências para o progresso da ciência, na qual os faz penetrar mais cedo. É por isso que esses fenômenos geralmente só se produzem na intimidade, onde os médiuns não teriam nenhum interesse em simular uma faculdade inexistente e onde o embuste logo seria desmascarado.

As nuanças de observação aqui são tão delicadas e sutis que requerem uma atenção contínua. Nesse estado de emancipação, a sensibilidade e a impressionabilidade são tão grandes, que a faculdade não pode desenvolver-se em todo o seu esplendor senão sob uma influência fluídica inteiramente simpática; basta uma corrente contrária para a alterar, como o sopro que embacia o gelo. A sensação penosa que, por isso, sente o médium, o faz dobrar-se sobre si mesmo, como a sensitiva à aproximação da mão. Sua atenção se volta, então, na direção dessa corrente desagradável; penetra o pensamento que é a sua fonte, a vê e a lê e, quanto mais a sente antipática, tanto mais ela o paralisa. Por aí se julgue do efeito que deve produzir um concurso de pensamentos hostis! Essas espécies de fenômenos também não se prestam absolutamente a exibições públicas, nas quais a curiosidade é o sentimento dominante, quando não o da malevolência. Além disso, requerem das testemunhas uma excessiva prudência, porque não se deve perder de vista que, nesses momentos, a alma só se prende ao corpo por um frágil laço, e que um abalo pode causar, no mínimo, graves desordens na economia [no organismo]. Uma curiosidade indiscreta e brutal pode acarretar as mais funestas consequências. Eis por que nunca se agiria com excessiva precaução.

Quando, ao começar, o Sr. V… diz que “toda vontade toda ação magnética é e deve ficar estranha a esse fenômeno”, dá a compreender que só a ação dos Espíritos é a sua causa e que ninguém poderia provocá-la. A recomendação de não falar nem a um, nem a outro, tinha por objetivo deixá-los inteiramente no êxtase. As perguntas teriam tido por efeito deter o impulso de seus Espíritos, trazendo-os ao terra-a-terra e lhes desviando o pensamento do objetivo principal. A exaltação da sensibilidade tornava igualmente necessária a recomendação de não os tocar. O contato teria produzido uma comoção penosa e prejudicial ao desenvolvimento da faculdade.


4. – De acordo com isto, compreende-se por que a maior parte dos homens de ciência, chamados a constatar fenômenos desse gênero, ficam decepcionados. Não é por causa de sua falta de fé, como o pretendem, que o efeito é recusado pelos Espíritos: são eles mesmos que, por suas disposições morais, produzem uma reação contrária; em vez de se colocarem nas condições do fenômeno, querem colocar o fenômeno em sua própria condição. Gostariam de aí encontrar a confirmação de suas teorias antiespiritualistas, porquanto, para eles, somente aí está a verdade, e se sentem vexados e humilhados por receberem um desmentido pelos fatos. Então nada obtêm, ou só obtêm coisas que contradizem sua maneira de ver; em vez de rever suas opiniões, preferem negar, ou dizer que é uma ilusão. E como poderia ser de outro modo entre pessoas que não admitem a espiritualidade? O princípio espiritual é a causa de fenômenos de uma ordem particular; buscar a sua causa fora desse princípio é buscar a causa do raio fora da eletricidade. Não compreendendo as condições especiais do fenômeno, fazem experiências sobre o paciente como se este fosse um tubo de ensaio, cheio de produtos químicos; torturam-no como se se tratasse de uma intervenção cirúrgica, com risco de comprometer sua vida ou sua saúde.


5. – O êxtase, que é o mais alto grau de emancipação, exige tanto mais precauções quanto, nesse estado, inebriado pelo sublime espetáculo que tem sob os olhos, o Espírito geralmente não pede senão para ficar onde está e deixar a Terra completamente; muitas vezes, até, faz esforços para romper o último laço que o prende ao corpo e, se sua razão não fosse bastante forte para resistir à tentação, deixar-se-ia ir de boa vontade. É então que se faz necessário vir em seu auxílio por uma vontade forte, tirando-o desse estado. Compreende-se que aqui não há uma regra absoluta e que é preciso conduzir-se conforme as circunstâncias.


6. – A propósito, um de nossos amigos nos oferece interessante tema de estudo.

Outrora tinham procurado magnetizá-lo, mas inutilmente. Desde algum tempo ele cai espontaneamente em sono magnético sob a influência da mais leve causa; basta que escreva algumas linhas mediunicamente e, por vezes, uma simples conversação. Em seu sono, tem percepções e ordem mais elevada; fala com eloquência e aprofunda com lógica notável as mais sérias questões. Vê os Espíritos perfeitamente, mas sua lucidez apresenta graus diversos, pelos quais passa sucessivamente; o mais ordinário é o de um semiêxtase. Em certos momentos exalta-se e, se experimentar uma viva emoção, o que é frequente, exclama com uma espécie de terror, e isto muitas vezes em meio à mais interessante conversa: Despertai-me imediatamente, o que seria imprudente não o fazer. Felizmente, indicou-nos o meio de o despertar instantaneamente, e que consiste em soprar fortemente em sua fronte, pois os passes magnéticos produzem um efeito muito lento, ou nulo.

Eis a explicação que nos foi dada sobre sua faculdade por um de nossos guias, com o concurso de outro médium:

“O Espírito do Sr. T… é entravado em seu impulso pela prova material que escolheu. O instrumento que ele faz mover, o seu corpo, no estado atual em que se encontra, não é bastante maleável para lhe permitir assimilar os conhecimentos necessários, ou utilizar os que possui, de moto próprio, e no estado de vigília. Quando está adormecido o corpo, deixando de ser um entrave, apenas se torna o porta-voz de seu próprio Espírito, ou daqueles com os quais está em relação. A fadiga material, inerente às suas ocupações, a relativa ignorância em que sofre esta encarnação, uma vez que não sabe, em questões de ciência, senão o que a si próprio se revelou, tudo isto desaparece para dar lugar a uma lucidez de pensamento, a um alargamento do raciocínio e a uma eloquência excepcional, que são o fato do desenvolvimento anterior do Espírito. A frequência de seus êxtases tem por objetivo tão só habituar seu corpo a um estado que, durante certo período e para uma meta especial ulterior, poder tornar-se, de certo modo, normal. Quando ele pede para ser despertado prontamente, é que deseja realizar sua missão sem falhar. Sob o encanto dos quadros sublimes que se lhe apresentam, e do meio em que se encontra, gostaria de libertar-se dos laços terrenos e ficar definitivamente entre os Espíritos. Sua razão e seu dever, que o retêm na Terra, combatem este desejo; e de medo de se deixar dominar e de sucumbir à tentação, ele vos grita para que o desperteis.”


7. – Devendo multiplicar-se estes fenômenos de sonambulismo mediúnico espontâneo, as instruções que precedem têm por objetivo guiar os grupos onde eles poderiam produzir-se, na observação dos fatos e de os fazer compreender a necessidade de usar da mais extrema prudência em semelhante caso. É preciso abster-se de maneira absoluta de os transformar em objeto de experimentação e de curiosidade. Os espíritas poderão aí colher grandes ensinamentos, próprios a esclarecer e a fortificar a sua fé, mas, repetimos, seriam sem proveito para os incrédulos. Os fenômenos destinados a convencer estes últimos e que se podem produzir em plena luz, são de outra ordem e, no número, alguns terão lugar, e já se produzem, pelo menos em aparência, fora do Espiritismo; a palavra Espiritismo os horroriza. Não sendo pronunciada, será uma razão a mais para dele se ocuparem. Os Espíritos são, pois, prudentes, quando, por vezes, trocam a etiqueta.

Quanto à utilidade especial desta mediunidade, ela está na prova, de certo modo palpável, que fornece da independência do Espírito por seu isolamento da matéria. Como dissemos, as manifestações deste gênero esclarecem e fortificam a fé; põe-nos em contato mais direto com a vida espiritual. Qual é o espírita apático ou indeciso que ficaria indiferente em presença de fatos que lhe fazem, por assim dizer, tocar com o dedo a vida futura? Qual o que poderia ainda duvidar da presença e da intervenção dos Espíritos? Qual o coração bastante endurecido para não ficar comovido com o aspecto do futuro que se desdobra à sua frente, e que Deus, em sua bondade, lhe permite entrever?

Mas estas manifestações têm uma utilidade mais prática, mais atual, porque, mais que outras, serão capazes de erguer a coragem nos momentos duros que devemos atravessar. É no momento da tormenta que se será feliz por sentir junto de si protetores invisíveis; é então que se conhecerá o valor desses conhecimentos, que nos elevam acima da Humanidade e das misérias da Terra, que acalmam nossos pesares e nossas apreensões, fazendo-nos ver só o que é grande, imperecível e digno de nossas aspirações. É um socorro que Deus envia em tempo oportuno a seus fiéis servidores e aí está ainda um sinal de que os tempos marcados são chegados. Saibamos aproveitá-lo para o nosso adiantamento. Agradeçamos a Deus por ter permitido que fôssemos esclarecidos a tempo e lamentemos os incrédulos por se privarem desta imensa e suprema consolação, pois a luz foi espalhada para todos. Pela voz dos Espíritos, que falam por toda a Terra, ele faz um último apelo aos endurecidos. Imploremos sua indulgência e sua misericórdia para os cegos.


8. – Como dissemos, o êxtase é um estado superior de desprendimento, do qual o estado sonambúlico é um dos primeiros graus, mas que não implica, de modo algum, na superioridade do Espírito. O mais completo desprendimento é, seguramente, o que se segue à morte. Ora, nós vemos neste momento o Espírito conservar suas imperfeições, seus preconceitos, cometer erros, iludir-se, manifestar as mesmas tendências. É que as boas e as más qualidades são inerentes ao Espírito e não dependem das causas exteriores. As causas exteriores podem paralisar as faculdades do Espírito, que as recobra no estado de liberdade, mas são impotentes para lhe dar as que não tem. O sabor de um fruto está nele; façam o que fizerem, coloquem-no onde quiserem, se for insípido por natureza, não se tornará saboroso. Dá-se o mesmo com o Espírito. Se o desprendimento completo, depois da morte, não o torna um ser perfeito, menos ainda um desprendimento parcial.

O desprendimento extático é um estado fisiológico, indício evidente de um certo grau de adiantamento do Espírito, mas não de superioridade absoluta. As imperfeições morais, que são devidas à influência da matéria, desaparecem com essa influência, razão por que se nota, em geral, nos sonâmbulos e nos extáticos, ideias mais elevadas do que no estado de vigília; mas as que se devem à qualidade mesma do Espírito continuam a manifestar-se, algumas vezes até com menos intensidade que no estado normal. O Espírito, liberto de todo constrangimento, por vezes dá livre curso a sentimentos que, como homem, procura dissimular aos olhos do mundo.

De todas as tendências más, as mais persistentes e as que menos se confessa a si mesmo, são os vícios radicais da Humanidade: o orgulho e o egoísmo, que geram os ciúmes, as mesquinhas susceptibilidades do amor-próprio, a exaltação da personalidade, que muitas vezes se revelam no estado de sonambulismo. Não é o desprendimento que as produz, pois ele apenas as põe a descoberto; de latentes tornam-se sensíveis em consequência da liberdade do Espírito.

Assim, não se deve esperar encontrar nenhuma espécie de infalibilidade, nem moral, nem intelectual, nos sonâmbulos e extáticos. A faculdade de que desfrutam pode ser alterada pelas imperfeições de seu Espírito. Suas palavras podem ser o reflexo de seus pensamentos e de seus sentimentos. Além disso, podem sofrer os efeitos da obsessão, tanto quanto no estado ordinário e ser, da parte dos Espíritos levianos ou mal-intencionados, joguete das mais estranhas ilusões, como o demonstra a experiência.

Seria, pois, um erro acreditar que as visões e revelações do êxtase só possam ser a expressão da verdade. Como todas as outras manifestações, é preciso submetê-las ao cadinho do bom-senso e da razão, levar em conta o bem e o mal, o que é racional do que é ilógico. Se essas espécies de manifestações se multiplicam, é menos com o objetivo de nos dar revelações extraordinárias do que para nos fornecer novos assuntos de estudo e de observação sobre as faculdades e as propriedades da alma, e nos dar uma nova prova de sua existência e de sua independência da matéria.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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