Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano VII — Dezembro de 1864.

(Édition Française)

Sessão comemorativa na Sociedade de Paris.

Primeira Parte: Prece inicial. Convite. — Segunda Parte: Instruções dos Espíritos. I. João Evangelista. — II. Sanson. — III. Hobach. — IV. Lalouze. — V. Anônima. — VI. Costeau. — VII. Aimée Brédard. — VIII. Santo Agostinho. — IX. Um Espírito.


[Primeira Parte. — Prece inicial. Convite.]


No início da sessão uma prece especial para a circunstância substituiu a invocação geral, que serve de introdução às sessões ordinárias. Ela foi assim concebida:


Glória a Deus, soberano senhor de todas as coisas!

Senhor, pedimos que espalheis vossa santa bênção sobre esta Assembleia.

Nós vos glorificamos e vos agradecemos porque vos aprouve esclarecer nosso caminho pela divina luz do Espiritismo.

Graças a esta luz, a dúvida e a incredulidade desapareceram do nosso espírito e também desaparecerão deste mundo; a vida futura é uma realidade e marchamos sem incerteza para o porvir que nos está reservado.

Sabemos de onde viemos e para onde vamos, e por que estamos na Terra.

Conhecemos a causa de nossas misérias e compreendemos que tudo é sabedoria e justiça em vossas obras.

Sabemos que a morte do corpo não interrompe a vida do Espírito, mas que lhe abre a verdadeira vida; que não destrói nenhuma afeição sincera; que os que nos são caros não estão perdidos para nós e que os encontraremos no mundo dos Espíritos. Sabemos que enquanto esperamos, eles estão ao nosso lado; que nos veem e nos ouvem e podem continuar suas relações conosco.

Ajudai-nos, Senhor, a espalhar entre os nossos irmãos da Terra, que ainda estão na ignorância, os benefícios desta santa crença, porque ela acalma todas as dores, dá consolação aos aflitos, coragem, resignação e esperança nas maiores amarguras da vida.

Dignai-vos estender vossa misericórdia sobre nossos irmãos falecidos e sobre todos os Espíritos que se recomendam às nossas preces, seja qual for a crença que tenham tido na Terra.

Fazei que o nosso pensamento benevolente leve alívio, consolação e esperança aos que sofrem.

A seguir o Presidente dirige a seguinte alocução aos Espíritos:

Caros Espíritos de nossos antigos colegas: Jobard, Sanson, Costeau, Hobach e Poudra:

Convidando-vos a esta reunião comemorativa, nosso objetivo não é apenas vos dar uma prova de nossa lembrança, que, como sabeis, é sempre cara à nossa memória; viemos, sobretudo, felicitar-vos pela posição que ocupais no mundo dos Espíritos e agradecer as excelentes instruções que, de vez em quando, nos vindes dar desde a vossa partida.

A Sociedade se rejubila por vos saber felizes; ela se honra por vos haver contado entre os seus membros, e de vos contar agora entre os seus conselheiros do mundo invisível.

Apreciamos a sabedoria de vossas comunicações e seremos sempre felizes todas as vezes que julgardes por bem vir participar de nossos trabalhos.

A esse testemunho de gratidão associamos todos os bons Espíritos que, habitual ou eventualmente, vêm trazer-nos o tributo de suas luzes: João Evangelista, Erasto, Lamennais, Georges, François-Nicolas Madeleine, Santo Agostinho, Sonnet, Baluze, Vianney – o cura d’Ars, Jean Raynaud, Delphine de Girardin, Mesmer e os que apenas tomam a qualificação de Espírito.

Devemos um particular tributo de reconhecimento ao nosso guia e presidente espiritual, que na Terra foi São Luís. Nós lhe agradecemos por ter-se dignado a tomar a nossa sociedade sob o seu patrocínio e pelas marcas evidentes de proteção que nos tem dado. Nós lhe rogamos, igualmente, que nos assista nesta circunstância.

Nosso pensamento se estende a todos os adeptos e apóstolos da nova doutrina, que deixaram a Terra, em especial aos que nos são pessoalmente conhecidos, a saber: N. N…

A todos aqueles a quem Deus permite nos venham ouvir, dizemos:

Caros irmãos em crença, que nos precedestes no mundo dos Espíritos: unimo-nos em pensamento para vos dar um testemunho de simpatia e atrair sobre vós as bênçãos do Todo-Poderoso.

Nós lhe agradecemos a graça que ele vos fez de serdes esclarecidos pela luz da verdade antes de deixardes a Terra, porque esta luz vos guiou à entrada na vida espiritual. A fé e a confiança em Deus, que ela vos deu, vos preservaram da perturbação e das angústias que acompanham a separação daqueles a quem afligem a dúvida e a incredulidade.

Ela vos deu a coragem e a resignação nas provas da vida terrestre; mostrou o objetivo e a necessidade do bem, as consequências inevitáveis do mal, e agora colheis os seus frutos.

Deixastes a Terra sem pesar, sabendo que íeis encontrar bens infinitamente mais preciosos que aqueles que aqui deixastes; vós a deixastes com a firme certeza de reencontrar os objetos de vossas afeições e de poder voltar, em Espírito, para sustentar e consolar os que ficavam na retaguarda. Enfim, estais no mundo dos Espíritos, como num país que vos era conhecido antecipadamente.

Estamos muito felizes por ter visto nossas crenças confirmadas por todos aqueles dentre vós que vieram comunicar-se; nenhum veio dizer que tinha sido iludido em suas esperanças e que estávamos equivocados sobre o futuro. Ao contrário, todos disseram que o mundo invisível tinha esplendores indescritíveis, e que suas expectativas tinham sido ultrapassadas.

A vós, que gozais agora da felicidade de ter tido fé, e que recebeis a recompensa de vossa submissão à lei de Deus, vinde em auxílio dos nossos irmãos da Terra que ainda se encontram nas trevas. Sede os missionários do Espírito de Verdade, para o progresso da Humanidade e para o cumprimento dos desígnios do Altíssimo.

Nosso pensamento não se limita aos nossos irmãos em Espiritismo; todos os homens são irmãos, seja qual for a sua crença.

Se fôssemos exclusivos, nem seríamos espíritas, nem cristãos. É por isto que incluímos em nossas preces, em nossas exortações e em nossas felicitações, conforme o estado em que se achem, todos os Espíritos aos quais nossa assistência pode ser útil, tenham ou não partilhado de nossas crenças quando encarnados.

O conhecimento do Espiritismo não é indispensável à felicidade futura, porque não tem o privilégio de fazer eleitos. É um meio de chegar mais facilmente e com mais segurança ao objetivo, pela fé raciocinada que dá e pela caridade que inspira; ilumina o caminho, e o homem, não seguindo mais às cegas, marcha com mais segurança; por ele se compreende melhor o bem e o mal, pois dá mais força para praticar um e evitar o outro. Para ser agradável a Deus, basta observar suas leis, isto é, praticar a caridade, que as resume todas. Ora, a caridade pode ser praticada por todo o mundo. Despojar-se de todos os vícios e de todas as inclinações contrárias à caridade é, pois, a condição essencial da salvação.


Após esta alocução, preces especiais, em parte tiradas da Imitação do Evangelho (números 355 e seguintes), foram ditas para cada categoria de Espíritos, com a designação dos nomes daqueles a quem eram dedicadas. A série terminou pela Oração Dominical desenvolvida. (Ver a Revista de agosto de 1864.)

Em seguida os médiuns se puseram à disposição dos Espíritos que quiseram manifestar-se. Não foi feita nenhuma evocação particular.

Damos, a seguir, as principais comunicações recebidas.


[Segunda Parte. — Instruções dos Espíritos.]


I.


Meus filhos, uma estreita comunhão liga os vivos aos falecidos. A morte continua a obra esboçada e não rompe os laços do coração. Esta certeza enriquece o tesouro de amor derramado na criação.

Os progressos humanos obtidos a preço de sacrifícios dolorosos e de hecatombes sangrentas aproximam o homem do Verbo Divino e o fazem soletrar a palavra sagrada que, saída dos lábios de Jesus, reanimou a Humanidade desfalecida. O amor é a lei do Espiritismo; ele dilata o coração e faz amar ativamente aqueles que desaparecem na vaga penumbra do túmulo.

O Espiritismo não é um som vão, saído dos lábios mortais e que um sopro pode levar; é a fé forte e severa, proclamada por Moisés no Sinai, lei afirmada pelos mártires, ébrios de esperança, lei discutida pelos filósofos inquietos e que, finalmente, os Espíritos vêm proclamar.

Espíritas! o grande nome de Jesus deve flutuar como uma bandeira acima de vossos ensinos. Antes que existísseis, o Salvador levava a revelação em seu seio, e sua palavra, medida prudentemente, indicava cada uma das etapas que hoje percorreis. Os mistérios ruirão ao sopro profético que faz vibrar as vossas inteligências, como outrora as muralhas de Jericó.

Uni-vos pela intenção, como o fazeis nesta reunião abençoada. A ardente eletricidade desprendida do coração preenche a distância que nos separa e dissipa os vapores da dúvida, do personalismo e da indiferença, que muitas vezes obscurecem a faculdade espiritual.

Amai e orai por vossas obras.

João Evangelista. n

(Médium: Sra. Costel.)       


II.


Meus bons amigos, vossas preces e vosso recolhimento atraíram para junto de vós numerosos Espíritos, aos quais fizestes muito bem. Uma reunião como a vossa tem uma força de atração de tal modo eficaz que as vibrações de vosso pensamento comoveram todos os pontos do espaço. Uma multidão de irmãos vossos, pouco adiantados ou em sofrimento, seguiu os Espíritos superiores; antes de vos ter ouvido, estavam sem fé; agora esperam e creem. Unidas às minhas, suas vozes saberão, doravante, vos abençoar; eles vos sabem fortes diante das provações; como vós, quererão merecer a vida eterna, a vida de Deus.

Não esquecestes ninguém, caro presidente. No que me toca pessoalmente, estou orgulhoso pelo bom acolhimento que meu nome recebeu entre os antigos condiscípulos. Sempre ouvi dizer que um curioso, escutando à porta, jamais ouviu alguém elogiá-lo; e, contudo, somos testemunhas invisíveis; nosso número é infinito; o que ouvimos, contrariamente à moda terrena, é o perdão, a prece, a benevolência; é a prática da caridade, a mais nobre das divisas.

Possa o vosso exemplo espalhar-se como um eco amado, a fim de que todos os Espíritos em sofrimento, em qualquer parte, possam ouvir palavras que poderão guiá-los para as verdades eternas!

Diz-se que Paris é uma cidade de ruído e de esquecimento; os místicos pretendem que seja uma Babilônia moderna. Protesto bem alto, porquanto Paris é a cidade dos pensamentos laboriosos, das ideias fecundas e dos nobres sentimentos. É a cidade que irradia sobre o Universo; haverá de ensinar sempre os grandes princípios, as grandes abnegações e as sólidas virtudes.

Antes de tudo, vede nela a grande cidade, principalmente neste dia, em que cada um tem uma lágrima para seus caros ausentes; ela pôs de lado sua vida múltipla para ir recolher-se nas necrópoles, e esse rio humano, silencioso, refletido, vai orar sobre os restos dos que lhe foram caros; e ante esse piedoso cortejo, o próprio incrédulo é tomado de respeito.

Diz-se que Paris não é espírita. Procurai uma cidade no Universo, onde o mais modesto túmulo seja mais venerado, mais florido. É que a cidade das grandes realizações sente melhor as perdas dolorosas; suas lágrimas são sinceras e nada concede à aparência. Por certo Paris é uma cidade de prazeres para certa gente, mas é, também, a cidade do trabalho e das ideias para o maior número. Não é materialista por natureza. É ela que dá a luz espírita ao Universo, e esta luz lhe voltará aumentada, depurada. Todos os povos virão buscar entre vós as verdades do Espiritismo, preferíveis aos fúteis e vãos prazeres e às exibições, que nada deixam ao espírito.

Há no ar uma ideia racional, aprovada por todas as pessoas progressistas: a de que todos deviam saber ler. Por mais bela que seja, nossa doutrina encontra um obstáculo na ignorância. Assim o nosso dever, de todos nós espíritas, é diminuir o número de nossos irmãos ignorantes, a fim de que O Livro dos Espíritos não se torne letra morta para tantos párias. Trabalhar em espalhar a instrução nas massas é, ao mesmo tempo, abrir caminho ao Espiritismo e destruir o elemento do fanatismo; é diminuir outro tanto o arrastamento da ignorância; é criar homens que viverão e morrerão bem.

Realizado este grande ato de caridade, não terei mais a dor de ver voltarem, neste dia dos mortos, tantos Espíritos atrasados, que pedem reencarnação para saber e para realizar a missão prometida às suas novas faculdades. E tais Espíritos, tornados inteligentes, poderão, por sua vez, ir a outros mundos ensinar e dar o pão da vida, o saber que os torna dignos de Deus.

Legiões de ignorantes vos imploram: são os vossos mortos; não esqueçais o que eles pedem. Vossas preces lhes serão úteis, mas vossas ações são chamadas a lhes prestar um serviço mais essencial.

Adeus, irmãos. Vosso devotado condiscípulo,

Sanson.

(Médium: Sr. Leymarie.)


III.


Dia de felicidade para os Espíritos do Senhor, que se reúnem para dirigir a Deus preces pelos Espíritos, porque esta santa comunhão de pensamentos se reproduz, também, nas regiões superiores! Oh! sim, felizes os pobres deserdados que compreenderem o objetivo de nossas preces, proferidas para lhes apressar o progresso! Graças ao Espiritismo, muitos já entraram na via do arrependimento e puderam melhorar. É esta graça descida sobre a Terra que lhes abriu o coração aos pesares e lhes deu a esperança de vir um dia para junto de nós. Obrigado a vós todos, espíritas cristãos, por haverdes pedido a Deus e conseguido que pudéssemos vir dizer-vos: Coragem! Os Espíritos que vêm agradecer-vos este bom pensamento o aproveitaram e hoje se sentem muito felizes.

Direi, em particular, a meu bom amigo Canu: Alegrai-vos ao saber que o vosso amigo Hobach se encontra aqui, rodeado de Espíritos amigos e protetores que, atraídos pela simpatia, vêm elevar suas almas ao Criador, porquanto tudo vem d’Ele e a Ele deve voltar. Procuremos, pois, as reuniões sinceras, a fim de aproveitar os ensinamentos que aí são dados, e que os invisíveis e os encarnados possam progredir para o infinito, isto é, para o Ser Supremo, que nos criou para o bem e a marcha progressiva de suas obras. Sim, mil vezes obrigado, pois leio em todos os corações os sentimentos dos que nos amaram particularmente; mas, também, que os que choram enxuguem suas lágrimas, porque virão encontrar-nos num mundo melhor, onde a lei de justiça reina soberana, já que ali ela emana de Deus.

Hobach.

(Médium: Sra. Patet.)


IV.


Amigos e irmãos em Espiritismo, estais reunidos neste dia para endereçar ao Senhor votos e preces pelos Espíritos que vos são caros e que aqui cumpriram a sua missão. Dentre eles, meus amigos, muitos realizaram essa tarefa dignamente e receberam a recompensa de seu trabalho nessa vida de expiação e de miséria. Oh! meus caros espíritas, esses velam por vós; eles vos protegem e hoje participam dos vossos votos e súplicas que dirigis ao nosso Pai comum. Na maioria estão entre vós, felizes por verem o recolhimento em que estais neste momento solene.

Mas é, sobretudo, para os Espíritos que não compreenderam sua missão neste mundo de passagem que deveis elevar os vossos pensamentos e as vossas preces. Oh! esses necessitam que corações amigos e almas compassivas lhes deem uma lembrança, uma prece, mas uma prece sincera, que suba até o trono do Eterno! Ah! quantos desses Espíritos são desamparados, esquecidos, mesmo pelos que deveriam neles mais pensar; até por parentes muito próximos! É que estes, meus amigos, não são espíritas; não conhecem o efeito que sobre o Espírito pode produzir a ação da prece. Não: eles não conhecem a caridade, não acreditam noutra existência após esta, creem que a morte nada deixa depois de si.

Quantos se dirigem, nestes dias de luto, com o coração frio e seco, aos túmulos dos que conheceram! Vão até lá, mas por hábito, por conveniência; sua alma não sente nenhuma esperança; nem mesmo pensam que essas almas, às quais vêm cumprir um dever, lá estejam, perto deles, aguardando uma prece vinda do coração.

Oh! meus amigos, supri com vossas preces o que não fazem os vossos irmãos. Eles não veem na morte senão os despojos – o corpo – e esquecem que a alma vive sempre. Orai, porque vossas preces serão ouvidas pelo Altíssimo.

Um Espírito que também pede parte de vossas preces.

Lalouze.

(Médium: Sra. Lampérière.)


V.


Caros amigos, quantas ações de graças não vos devemos em troca de vossas boas e generosas preces!

Oh! sim, somos reconhecidos por tanto devotamento, tanta caridade. Em tempo algum preces tão calorosas, tão fervorosas foram escutadas e levadas nas brancas asas dos Espíritos puros ao trono divino. Em tempo algum os homens compreenderam melhor a utilidade da prece em comum, cuja força moral pesa sobre os Espíritos imperfeitos que vêm, cada vez que vos reunis, haurir em vosso foco generoso e fraternal. Porque aí não há distinção; os pequenos, os deserdados da Terra são recebidos por vós como os grandes, como os príncipes; orai pelo pobre, como pelo rico. Oh! fraternidade divina, crescei sempre, até atingirdes o sublime regenerador, enviado para conduzir os homens no caminho reto, do qual se haviam afastado há tantos séculos!

Batei e abrir-se-vos-á, dizia Jesus; pedi e dar-se-vos-á. Sim, fustigai as vossas paixões e o raio da caridade divina inundará a vossa alma. Pedi a fé e ela vos virá. Pedi paciência e ela vos será concedida. Em suma, pedi todas as virtudes necessárias para vos despojardes do velho homem, que deve desaparecer para sempre para dar lugar ao homem de bem.

Sou um Espírito desconhecido para vós e apropriei-me desta mão graças à caridade de São José.

[Sem nome.]

(Médium: Sr. Lampérière.)


VI.


Minha caríssima esposa, tenho visto teus suspiros, tuas lágrimas. Sempre a chorar! Também tenho visto tuas preces; permite que as agradeça. Vamos, querida amiga, consola-te. Como vês, perturbas a minha felicidade. Consola-te, pois, porque és mais feliz que muitas outras: tens irmãos que te amam, felizes por te verem vir entre eles. Vê, minha filha, o quanto és abençoada entre todas.

Não tenho senão que vos louvar, meus irmãos, pela boa acolhida que em toda parte é dispensada à minha esposa. Agradeço-vos por tudo o que fazeis por ela… e também por mim, por me terdes chamado hoje!… Fui dos primeiros a sustentar e propagar com todas as minhas forças esta santa doutrina. Ah! se eu tivesse sabido o que sei e vejo agora! Crede, crede, é tudo o que vos posso dizer. Fazei tudo para ensiná-la e para atrair a vós os corações. Nada é mais belo, nada é tão verdadeiro quanto o que ensinam os vossos livros.

Costeau.

(Médium: Srta. Béguet.)


VII.


Obrigado a todos, bem-amados irmãos, por vossa boa lembrança e por vossas preces. Obrigado a vós, caro presidente, pela feliz iniciativa que tomastes, fazendo orar por todos, numa mesma comunhão de ideias e pensamentos. [Vide: Da comunhão do pensamento. A propósito da comemoração dos mortos.] Sim, estamos todos aqui; ouvimos, felizes, vossas preces sinceras, dirigidas ao Pai de misericórdia, em favor de cada um de nós. Sim, estamos felizes porque a prece feita com sinceridade sobe a Deus e d’Ele recebemos a força necessária para combater as más influências que os Espíritos levianos procuram fazer sentir aos que trabalham com energia para a obra santa. Essas preces foram para nós como um apelo solene, e nós nos achamos todos reunidos ao vosso lado. De longe, como de perto, acorremos a esse feliz apelo. É desejável que vosso exemplo seja seguido por todos os centros sérios, porque essas preces, feitas com tanta sinceridade e desinteresse, sobem a Deus como santos eflúvios e jorram sobre cada um de nós. Obrigado mais uma vez, meus amigos; embora o meu nome não tenha sido pronunciado, vedes que aqui estou. Isto vos deve provar que somos felizes e numerosos.

A mãe de um membro honorário de vossa Sociedade,


Aimée Brédard, de Bordeaux.

(Médium: Sra. Delanne.)


VIII.


Meus bons amigos, após as preces que acabais de ouvir, e às quais vos associastes com todas as veras, eu teria preferido ver cada um de vós se retirar no piedoso silêncio que a prece vos deixa no coração. Elevastes vossas almas a Deus, por todos os que partiram da Terra; estabelecestes suaves lembranças com o passado e, neste presente, não vos sentis mais fortes? Há pouco não sentistes, enquanto vossas almas subiam ao céu num ímpeto comum, o hálito quente de outras almas, misturando suas preces às vossas? Não vos impregnastes delas? Por que não vos recolher nesse perfume silencioso de além-túmulo, em vez de pedir as nossas vozes? Viver com esses doces pensamentos decorrentes dos eflúvios sagrados da prece não é felicidade bastante?

Mas compreendo que não vos basta essa linguagem muda. Os zéfiros  †  tépidos não são suficientes para o coração amoroso que pede aos ecos uma voz que responde à sua voz. Eu vos perdoo esse desejo, aliás muito justo. Por que não podia cada um de vós gozar um segundo de benefício que lhe concede sua nova fé, de se comunicar com os que lhes são caros, através dos médiuns?

Mas, quão numerosa é vossa assembleia, para a pequena quantidade de mãos que podem escrever! Dentre os vossos amigos, quais os felizardos que podem dizer que escutarão suas vozes? Vejo aqui um número de Espíritos muito mais considerável do que o de encarnados; eles se comprimem em volta de cada um dos nossos intermediários: Georges, Sanson, Costeau, Jobard, Dauban, Paul, Émile, e cem outros, cujos nomes não posso dizer, aqui se encontram e gostariam de falar convosco. Reprimo seus impulsos e digo a todos que serei o intermediário entre eles e vós; eles o querem e vós, caros amigos, não o desejais também? Tratarei de ser pai para uns e mãe para outros; ainda para outros um filho, uma filha, um esposo, uma esposa, e para todos um amigo, um irmão que vos ama e que gostaria que vossos corações, reunidos num só, formassem um só pensamento, uma só alma, respondendo a esta comunhão de espírito, concentrada em meu pensamento e em minha alma.

Ah! vossos caros mortos não esperaram este dia para vir a cada um de vós; a todo instante não o sentis se espremendo ao vosso lado, a vos dar, por essa voz que chamais de consciência, os segredos castos e divinos do dever? Não os sentis se aproximarem mais de vós nas vossas horas de tristeza e de desfalecimento? Eles vos dizem: Coragem! e sobretudo a vós, espíritas, eles vos mostram o céu e as inumeráveis estrelas que rolam no firmamento, em sinal de aliança entre o Senhor e vós.

Não, meus caros amigos, eles não vos deixam pelo pensamento. A ti, mãe, tua filha vem dizer: Eu parti primeiro, como se desprende do tronco vigoroso o galho que a tempestade quebra, mas vivo ainda de tua seiva e de teu amor na imensidade; e neste rosário de pérolas que minha alma carrega, não há algumas esmeraldas que me vieram de ti?

Pai, ouço teu filho dizer-te: Parti para voltar e te ajudar, em tua prece, a amar melhor a Deus. Parti para que tua fronte não se inclinasse diante do grande dispensador de todas as coisas. Ele quis lembrar-se a ti, fazendo-te ouvir as modulações de além-túmulo da voz de teu filho.

Irmão, ouço o teu irmão contar-te os folguedos de outrora, as lutas, as alegrias, os sofrimentos. Estou no além, diz ele, mas não estou morto. Eu te preparei o caminho: nele há mais glória que na Terra. Lança fora teu manto de púrpura e veste o manto de burel para fazer a viagem. O Senhor ama mais a pobreza do que a riqueza.

Ouço doces suspiros responderem aos vossos sussurros: os do amante respondendo à amante; os do esposo à esposa. Bela harmonia!

Rejubilai-vos, pois! Quantas lágrimas felizes! Quantos impulsos tocantes! Esposa, senti vossas mãos apertadas pelas mãos invisíveis de vossos esposos; a esta hora eles vêm renovar o juramento de vos amarem sempre; vêm dizer-vos o que eu mesmo disse: que a morte não rompe os laços do coração e que as uniões se continuam no além-túmulo.

Como eu gostaria de nomear cada um desses mortos queridos; mas não o posso! Escutai vós mesmos as suas vozes. Cada um de vós as reconhecerá no concerto sagrado que sobe ao Céu. Juntas, cantam um hino de ação de graças ao Senhor.


Santo Agostinho. n

(Médium: Sr. E. Vézy.)      


IX.


Não podendo o meu médium prestar o seu concurso a todos os Espíritos, venho em lugar de um Espírito que talvez tivesse desejado comunicar-se. Nesta reunião especialmente dedicada aos ausentes, quero vos dar alguns conselhos sobre a maneira de proceder para obter respostas realmente emanadas dos Espíritos chamados.

Há aqui muitos médiuns e muitos Espíritos desejosos de se comunicarem. Contudo, poucos poderão fazê-lo, porque não terão tido tempo de estabelecer a comunicação fluídica com eles. A identidade das comunicações é coisa difícil de estabelecer, e raramente podeis estar perfeitamente seguros dessa identidade. Entretanto, se quisésseis prestar um pouco de ajuda aos Espíritos, preparando-vos previamente para as evocações, haveria mais amiúde identidade real. Os fluidos devem ser sempre similares; sem essa similitude não há comunicação possível. Mas vós, médiuns, possuís muitos fluídos diversos; dentre estes, alguns poderiam ser utilizados pelos Espíritos, se lhes fosse dado tempo para os influenciar.

Geralmente chama-se este ou aquele à queima-roupa, sem o ter chamado pelo pensamento, sem lhe haver oferecido o seu aparelho fluídico, sem lhe ter deixado tempo de o dispor para repercutir em uníssono os seus próprios pensamentos. Credes fazer o bem agindo assim? Não, porque eles são obrigados a servir-se dos vossos Espíritos familiares como intermediários e, naturalmente, não podeis reconhecê-los de maneira tão positiva; assim, reduzi-vos apenas a constatar pensamentos por vezes muito diversos dos que tinham em vida, sem nenhuma particularidade que vos revele uma identidade. Crede-me, quando quiserdes evocar, pensai algum tempo antes naqueles que desejais chamar, a fim de lhes oferecerdes melhores meios de se comunicarem pessoalmente.

Falo em nome de todos os que são da família e amigos do meu médium, e venho agradecer ao Presidente as palavras cheias de sinceridade que pronunciou para todos. Por certo há felicidade em unir-se a tantos desejos e vontades benevolentes; e nós todos, Espíritos inclinados ao bem e Espíritos instrutores, consideramos um dever cumprir as missões que nos são confiadas por ele e por todos os corações espíritas. (Vide mais adiante.)


Um Espírito.

(Médium: Srta. A. C.)



[1] [v. João Evangelista.]


[2] [v. Santo Agostinho.]


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