Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano VI — Abril de 1863.

(Édition Française)

Os sermões continuam, mas não se assemelham.

Em 7 de março de 1863 nos escreveram de Chauny:  † 


“Senhor,

“Vou tentar vos dar a análise de um sermão que nos foi pregado ontem pelo abade X…, estranho à nossa paróquia. Esse padre, aliás, bom pregador, explicou, tanto quanto era possível fazê-lo, o que é Deus e o que são os Espíritos. Não deveria ignorar que havia grande número de espíritas no auditório, de modo que tivemos viva satisfação de ouvir falar dos Espíritos e de suas relações com os vivos.

“Não explico de outra maneira, disse ele, todos os fatos miraculosos, todas as visões, todos os pressentimentos, senão pelo contato dos que nos são caros e nos precederam no túmulo. E, se eu não temesse levantar um véu muito misterioso, ou vos falar de coisas que não seriam compreendidas por todos, eu me estenderia muito mais sobre este assunto. Sinto-me inspirado e, obedecendo à voz da consciência, nunca seria demais vos aconselhar que guardásseis boa lembrança de minhas palavras: Crer nesse Deus do qual todos os Espíritos emanam e no qual todos deveremos reunir-nos um dia.

“Esse sermão, senhor, pronunciado numa inflexão de doçura, de benevolência e de convicção, ia muito mais ao coração que os discursos furiosos, onde em vão procuramos a caridade pregada pelo Cristo; estava ao alcance de todas as inteligências, razão por que todos o compreenderam e saíram reconfortados, em vez de ficarem tristes e desanimados pelos quadros do inferno e das penas eternas e tantos outros temas em flagrante contradição com a sã razão.

“Aceitai, etc.

V…”


Graças a Deus este sermão não é o único do gênero; já nos chamaram a atenção sobre vários outros no mesmo sentido, mais ou menos acentuados, que foram pregados em Paris e nos Departamentos; e, coisa bizarra, num sentido diametralmente oposto, pregados no mesmo dia, na mesma cidade e quase à mesma hora. Isto nada tem de surpreendente, porque há muitos eclesiásticos esclarecidos, que compreendem que a religião só terá a perder em sua autoridade se se posicionar contra a irresistível marcha das coisas e que, como todas as instituições, deve acompanhar o progresso das ideias, sob pena de receber, mais tarde, o desmentido dos fatos realizados. Ora, quanto ao Espiritismo, é impossível que muitos desses senhores não se tenham convencido por si mesmos da realidade das coisas; pessoalmente conhecemos mais de um neste caso. Um deles nos dizia outro dia: “Podem proibir-me de falar em favor do Espiritismo; mas obrigar-me a falar contra minha convicção, a dizer que tudo isto é obra do demônio, quando tenho a prova material em contrário, é o que jamais farei.”

Dessa divergência de opinião ressalta um fato capital: o de que a doutrina exclusiva do diabo é uma opinião individual, que necessariamente terá de curvar-se diante da experiência e da opinião geral. É possível que alguns persistam em suas ideias até in extremis; mas passarão e, com eles, suas palavras.


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