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Revista espírita — Ano IV — Julho de 1861

(Édition Française)

 

Ensaio sobre a teoria da alucinação

(Sumário)

 

1. — Os que não admitem o mundo incorpóreo e invisível julgam tudo explicar pela palavra alucinaçãoW Sua definição é conhecida: é um erro, uma ilusão da pessoa que acredita ter percepções que realmente não possui (Academia. Do latim hallucinari, errar; derivado de ad lucem), mas os sábios, ao que sabemos, ainda não deram a razão fisiológica. Parece que a óptica e a fisiologia para eles já não têm segredos. Como é que ainda não explicaram a fonte das imagens que se oferecem ao espírito em certas circunstâncias? Real ou não, o alucinado vê alguma coisa; dir-se-ia que ele crê estar vendo, mas que nada vê? Isto não é provável. Dizei, se quiserdes, que é uma imagem fantástica; seja; mas qual a origem dessa imagem, como se forma e como se reflete em seu cérebro? Eis o que não dizeis. Certamente, quando ele crê estar vendo o diabo com seus chifres e garras, as chamas do inferno, animais fabulosos que não existem, a Lua e o Sol que se batem, é evidente que não há nisto nenhuma realidade. Mas se é um produto de sua imaginação, como é que descreve tais coisas como se estivessem presentes? Há, pois, diante dele um quadro, uma fantasmagoria qualquer; então qual o espelho sobre o qual se reflete essa imagem? Qual a causa que dá a essa imagem a forma, a cor e o movimento? É o que inutilmente temos procurado a solução na Ciência. Desde que os sábios querem tudo explicar pelas leis da matéria, então que deem, por essas leis, uma teoria da alucinação; boa ou má, será sempre uma explicação.

Provam os fatos que há verdadeiras aparições, perfeitamente explicáveis pela teoria espírita, e que só podem ser negadas pelos que nada admitem fora do mundo visível. Mas, ao lado das visões reais, haverá alucinações no sentido ligado a esta palavra? Isto não é duvidoso; o essencial é determinar-se os caracteres que as podem distinguir das aparições reais. Qual a sua fonte? São os Espíritos que nos vão colocar nesse caminho, pois a explicação nos parece completa na resposta dada à seguinte pergunta:

 

2. — Podem ser consideradas como aparições as figuras e outras imagens que muitas vezes se apresentam no primeiro sono ou simplesmente quando se fecham os olhos?

“Tão logo os sentidos se entorpecem, o Espírito se desprende e pode ver, longe ou perto, o que não poderia ver com os olhos. Por vezes essas imagens são visões, mas também podem ser um efeito das impressões deixadas pela vista de certos objetos no cérebro, que lhes conserva traços, como conserva sons. Então, desprendido, o Espírito vê no próprio cérebro essas impressões, que se lhe fixaram como se o fizessem sobre uma chapa de daguerreótipo.  n Sua variedade e sua mistura formam conjuntos bizarros e fugidios, que se apagam quase que imediatamente, apesar dos esforços feitos para os reter. É a uma causa semelhante que se devem atribuir certas aparições fantásticas, que nada têm de real, e que muitas vezes se produzem no estado de doença.”

Reconhece-se que a memória é o resultado das impressões conservadas pelo cérebro. Por que singular fenômeno essas impressões, tão variadas, tão multiplicadas, não se confundem? Eis um mistério impenetrável, mas não menos estranho que o das ondulações sonoras que se cruzam no ar e nem por isso ficam menos distintas. Num cérebro sadio e bem organizado, essas impressões são claras e precisas; em condições menos favoráveis, elas se apagam ou se confundem, como fazem as marcas de um sinete sobre uma substância muito sólida, ou muito fluída. Daí a perda da memória ou a confusão das ideias. Isto parecerá menos extraordinário se se admitir, como em frenologia, W uma destinação especial a cada parte, e mesmo a cada fibra do cérebro.

Assim, as imagens que chegam ao cérebro pelos olhos nele deixam uma impressão que faz nos lembremos de um quadro, como se o tivéssemos à nossa frente. O mesmo acontece com as impressões dos sons, os odores, os sabores, as palavras, os números, etc. Conforme as fibras e órgãos destinados à recepção e transmissão dessas impressões estejam aptos a conservá-las, tem-se a memória das formas, das cores, da música, dos números, das línguas, etc. Quando se representa uma cena que se viu, não é senão uma questão de memória, porque na realidade não se vê; mas, em certo estado de emancipação, a alma vê no cérebro e nele encontra essas imagens, sobretudo as que mais impressionaram, segundo a natureza das preocupações ou disposições do espírito; aí encontra a impressão de cenas religiosas, diabólicas, dramáticas e outras, que viu em outra época em pintura, em ação, em leitura ou em relatos, porquanto os relatos também deixam impressões. Assim, a alma realmente vê alguma coisa: de alguma sorte é a imagem daguerreotipada no cérebro. No estado normal estas imagens são fugidias e efêmeras, porque todas as partes cerebrais funcionam livremente; mas no estado de doença, o cérebro está sempre mais ou menos debilitado; não existe mais equilíbrio entre todos os órgãos; somente alguns conservam sua atividade, enquanto outros estão de certo modo paralisados. Daí a permanência de certas imagens, que se não mais apagam, como no estado normal, pelas preocupações da vida exterior; eis a verdadeira alucinação, a fonte primeira das ideias fixas. A ideia fixa é a lembrança exclusiva de uma impressão; a alucinação é a visão retrospectiva, pela alma, de uma imagem impressa no cérebro.

Como se vê, descrevemos esta anomalia aparente por uma lei inteiramente fisiológica, bem conhecida, a das impressões cerebrais; mas sempre nos foi preciso admitir a intervenção da alma, com suas faculdades distintas da matéria. Ora, se os materialistas ainda não podem dar uma solução racional desse fenômeno, é que não querem admitir a alma e que, com o materialismo puro, ele é inexplicável. Assim dirão que nossa explicação é inadequada, porque fazemos intervir um agente contestado. Mas contestado por quem? Por eles, mas admitido pela imensa maioria, desde que há homens na Terra; e a negação de alguns não pode fazer lei.

Nossa explicação é boa? Nós a damos pelo que ela pode valer, à falta de outras e, se quiserem, a título de hipótese, esperando outra melhor; pelo menos ela tem a vantagem de dar à alucinação uma base, um corpo, uma razão de ser, ao passo que, quando os fisiologistas pronunciaram suas palavras sacramentais de superexcitação, de exaltação, de efeitos da imaginação, nada disseram, ou não disseram tudo, por não terem observado todas as fases do fenômeno.

A imaginação também desempenha um papel que é preciso distinguir da alucinação propriamente dita, conquanto essas duas causas muitas vezes estejam reunidas. Ela empresta a certos objetos formas que estes não têm, como faz ver uma figura na Lua ou animais nas nuvens. Sabe-se que, na obscuridade, os objetos assumem formas bizarras, por não se distinguirem todas as suas partes e porque os contornos não são claramente definidos. Quantas vezes, à noite, num quarto, um vestido pendurado, um vago reflexo luminoso, não parecem ter uma forma humana aos olhos das pessoas de maior sangue-frio? Se se juntar o medo ou uma credulidade exagerada, a imaginação fará o resto. Compreende-se, assim, que a imaginação possa alterar a realidade das imagens percebidas durante a alucinação e emprestar-lhes formas fantásticas.

As verdadeiras aparições têm um caráter que, para o observador experimentado, não permite confundi-las com os efeitos que acabamos de citar. Como podem ocorrer em pleno dia, deve-se desconfiar das que se julga ver à noite, pelo temor de sermos vítima de uma ilusão de óptica. Aliás, nas aparições, como em todos os outros fenômenos espíritas, há o caráter inteligente, que é a melhor prova de sua realidade. Toda aparição que não dá qualquer sinal inteligente pode, com toda certeza, ser posta na categoria das ilusões. Os senhores materialistas devem ver que lhes concedemos a parte mais larga.

Tal como é, nossa explicação dá a razão de todos os casos de visão? Certamente, não, e desafiamos todos os fisiologistas a que deem uma só, de seu ponto de vista exclusivo, que resolva a todos. Se, então, todas as teorias da alucinação são insuficientes para explicar todos os fatos, é que existe outra coisa além da alucinação propriamente dita, e esse algo não encontra sua solução senão na teoria espírita, que a todos abrange. Com efeito, se se examina com cuidado certos casos de visões muito frequentes, ver-se-á que é impossível atribuir-lhes a mesma origem que a alucinação. Procurando dar a esta uma explicação plausível, quisemos mostrar em que ela difere da aparição. Num e noutro caso, é sempre a alma que vê, e não os olhos. No primeiro, ela vê uma imagem interior e no segundo uma coisa externa, se assim nos podemos exprimir. Quando uma pessoa ausente, na qual absolutamente não pensamos, e que julgamos com saúde se apresenta espontaneamente quando estamos perfeitamente despertos e vem revelar particularidades de sua morte, ocorrida naquele mesmo instante e da qual, consequentemente, não se podia ter conhecimento, tal fato não poderá ser atribuído a uma lembrança, nem à preocupação do espírito. Supondo se tenham tido apreensões sobre a vida dessa pessoa, restaria ainda por explicar a coincidência do momento da morte com a aparição e, sobretudo, as circunstâncias da morte, coisa que não se pode conhecer, nem prever. Pode-se, pois, classificar entre as alucinações as visões fantásticas, que nada têm de real, mas o mesmo não se dá com as que revelam atualidades positivas, confirmadas pelos acontecimentos. Explicá-las pelas mesmas causas seria absurdo e mais absurdo ainda atribuí-las ao acaso, esta suprema razão dos que nada têm a dizer. Só o Espiritismo lhes pode dar a razão, pela dupla teoria do perispírito e da emancipação da alma. Mas como crê na ação da alma, quando não se admite a sua existência?

Não levando em nenhuma conta o elemento espiritual, a Ciência se acha impotente para resolver uma multidão de fenômenos e cai no absurdo ao querer tudo referir ao elemento material. É principalmente em Medicina que o elemento espiritual desempenha um papel importante; quando os médicos o levarem em consideração, enganar-se-ão com menos frequência do que agora. Aí extrairão uma luz que os guiará mais seguramente no diagnóstico e no tratamento das doenças. É o que já se pode constatar desde o presente na prática dos médicos espíritas, cujo número aumenta dia a dia. Tendo a alucinação uma causa fisiológica, estamos certos de que encontrarão o meio de a combater. Conhecemos um que, graças ao Espiritismo, está a caminho de descobertas do mais alto alcance, porque lhe deu a conhecer a verdadeira causa de certas afecções rebeldes à Medicina materialista.

 

3. — O fenômeno da aparição pode produzir-se de duas maneiras: ou é o Espírito que vem encontrar a pessoa que vê, ou é o Espírito desta que se transporta e vai encontrar a outra. Os dois exemplos seguintes nos parecem caracterizar perfeitamente ambos os casos.

 

Um de nossos colegas nos contava, recentemente, que um oficial seu amigo, estando na África, de repente viu à sua frente o quadro de um cortejo fúnebre: era o de um de seus tios, que residia na França, e que ele não via há muito tempo. Viu distintamente toda a cerimônia, desde a saída da casa mortuária até a igreja e o transporte ao cemitério. Chegou a notar diversas particularidades, das quais não podia ter ideia. Nesse momento estava desperto e, entretanto, num certo estado de absorção, do qual só saiu quando tudo desapareceu. Chocado com a circunstância, escreveu para a França, a fim de obter notícias do tio e soube que este, tendo morrido subitamente, havia sido enterrado no dia e hora em que ocorrera a aparição e com as particularidades que tinha visto. É evidente que, neste caso, não foi o cortejo que veio encontrá-lo; ele é que foi encontrar o cortejo, do qual teve percepção por efeito da segunda vista.

Um médico do nosso conhecimento, o Sr. Félix Mallo, tinha tratado de uma jovem senhora; mas, julgando que o ar de Paris lhe era prejudicial, aconselhou-a a ir passar algum tempo com a família, na província, o que ela fez. Havia seis meses não tinha mais notícias dela, nem pensava mais no caso quando, uma noite, por volta das dez horas, estando em seu quarto, ouviu bater à porta do consultório. Julgando viessem chamá-lo para um doente, disse que entrasse; mas ficou bastante surpreendido ao ver, à sua frente, a jovem senhora em questão, pálida, vestida como a tinha conhecido e que lhe disse com grande sangue-frio: “Sr. Mallo, venho dizer-vos que morri.” E logo desapareceu. Assegurando-se de que estava bem desperto e de que ninguém havia entrado, o médico tomou informações e soube que a mulher havia morrido na mesma noite em que lhe aparecera. Aqui, foi bem o Espírito da senhora que veio encontrá-lo. Os incrédulos não deixarão de dizer que o médico podia estar preocupado com a saúde de sua antiga doente, e que nada há de surpreendente em que previsse a sua morte; seja. Mas que expliquem a coincidência de sua aparição com o momento da morte, já que há muitos meses o médico não mais ouvira falar dela. Supondo mesmo que tivesse acreditado na impossibilidade de sua cura, poderia prever que ela morresse em tal dia e a tal hora? Devemos acrescentar que ele não é um homem que se deixe abalar pela imaginação.

Eis um outro fato não menos característico, e que não poderia ser atribuído a nenhuma previsão. Um dos nossos associados, oficial da marinha, estava no mar, quando viu seu pai e seu irmão atirados debaixo de uma carruagem: o pai morto e o irmão sem haver sofrido nenhum mal. Quinze dias depois, tendo desembarcado na França, seus amigos tentaram prepará-lo para receber a triste notícia. — “Não tomai tantas precauções — disse ele — sei o que ides dizer: Meu pai morreu; há quinze dias que o sei.” Realmente, seu pai e seu irmão, estando em Paris, desciam de carruagem os Campos Elíseos; o cavalo assustou-se, o carro quebrou-se, o pai morreu e o irmão apenas sofreu algumas contusões. Esses fatos são positivos, atuais, e não se dirá que sejam lendas da Idade Média. Se cada um recolhesse suas lembranças, ver-se-ia que tais fatos são mais frequentes do que se imagina. Perguntamos se alguns deles têm os caracteres da alucinação. Pedimos aos materialistas que deem uma explicação do fato relatado no artigo seguinte.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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