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Revista espírita — Ano III — Setembro de 1860

(Édition Française)

História do maravilhoso e do sobrenatural

POR LOUIS FIGUIER n
(Sumário)

I


1 — Dá-se com a palavra maravilhoso o mesmo que se dá com a palavra alma; há um sentido elástico que se presta a interpretações diversas. Eis por que julgamos útil estabelecer alguns princípios gerais no artigo precedente, antes de abordar o exame da história dada pelo Sr. Figuier. Quando essa obra apareceu, os adversários do Espiritismo bateram palmas, dizendo que, sem dúvida, nos iríamos dar mal; em seu caridoso pensamento já nos viam mortos sem apelação. Triste efeito da cegueira apaixonada e irrefletida, porquanto se eles se dessem ao trabalho de observar o que querem demolir, veriam que o Espiritismo será um dia, mais cedo do que pensam, a salvaguarda da sociedade, e talvez eles próprios lhe devam a salvação, não dizemos no outro mundo, com o qual pouco se preocupam, mas neste mesmo! Não é levianamente que dizemos tais palavras; ainda não chegou o momento de as desenvolver, embora muitos já nos compreendam.

Voltando ao Sr. Figuier, nós mesmos tínhamos pensado ver nele um adversário realmente sério, trazendo argumentos peremptórios que valessem a pena ser refutados com seriedade. Sua obra compreende quatro volumes; os dois primeiros com uma exposição de princípios, um prefácio e uma introdução, depois uma relação de fatos perfeitamente conhecidos, e que devem ser lidos com interesse, tendo em vista as pesquisas eruditas que mereceram da parte do autor; acreditamos ser o relato mais completo já publicado sobre o assunto. Assim, o primeiro volume é quase inteiramente consagrado à história de Urbain Grandier W e das religiosas de Loudun; W vêm a seguir as convulsionários de Saint-Médard, a história dos profetas protestantes, a varinha mágica, o magnetismo animal. O quarto volume, que acaba de ser publicado, trata especialmente das mesas girantes e dos Espíritos batedores. Mais tarde voltaremos a este último volume, limitando-nos, agora, a uma apreciação sumária do conjunto.

A parte crítica das histórias que constituem os dois primeiros volumes consiste em provar, por testemunhos autênticos, que a intriga, as paixões humanas e o charlatanismo tiveram grande papel; que certos fatos trazem a marca evidente da astúcia, o que ninguém contesta. Ninguém jamais garantiu a integridade de todos esses fatos, menos do que quaisquer outros os espíritas, que devem ser gratos ao Sr. Figuier por ter reunido provas que evitarão numerosas compilações. Eles têm interesse em que a fraude seja desmascarada, e todos os que a descobrirem nos fatos erroneamente qualificados de fenômenos espíritas lhes prestarão serviço. Ora, para prestar semelhante serviço, nada melhor que os inimigos. Vê-se, pois, que tais inimigos servem para alguma coisa; apenas o desejo da crítica às vezes os arrasta muito longe e, no ardor de descobrir o mal, muitas vezes o veem onde ele não está, por não terem examinado com bastante atenção e imparcialidade, o que é ainda mais raro. O verdadeiro crítico deve lutar contra as ideias preconcebidas e despojar-se de qualquer preconceito, pois, do contrário, julgará do seu ponto de vista, que talvez nem sempre seja justo. Tomemos um exemplo: suponhamos a história política de acontecimentos contemporâneos escrita com a maior imparcialidade, isto é, com inteira verdade, e imaginemos esta história comentada por dois críticos de opiniões contrárias. Porque todos os fatos são exatos, forçosamente haverão de contrariar a opinião de um deles; daí os julgamentos contraditórios: um que levará a obra às nuvens, e o outro, defendendo que seja lançada ao fogo. No entanto, a obra só conterá a verdade. Se assim ocorre com os fatos patentes, como os da História, com mais forte razão quando se trata da apreciação de doutrinas filosóficas. Ora, o Espiritismo é uma doutrina filosófica, e os que só o veem no fato das mesas girantes, ou que o julgam pelos contos absurdos e pelos abusos que deles se podem fazer, que o confundem com os meios de adivinhação, provam que não o conhecem. Estaria o Sr. Figuier nas condições requeridas para o julgar com imparcialidade? É o que vamos examinar.


2 — Assim começa o Sr. Figuier o seu prefácio:

“Em 1854, quando as mesas girantes e falantes importadas da América, fizeram sua aparição na França, produziram uma impressão que ninguém esqueceu. Muitos espíritos sábios e prudentes ficaram alarmados com esse transbordamento imprevisto da paixão pelo maravilhoso. Não podiam compreender semelhante alucinação em pleno século XIX, com uma filosofia avançada e em meio a esse magnífico movimento científico que hoje dirige tudo para o positivo e o útil.”

Seu julgamento está decretado: a crença nas mesas girantes é uma alucinação. Como o Sr. Figuier é um homem positivo, deve-se pensar que antes de publicar seu livro, viu tudo, tudo estudou, aprofundou tudo; numa palavra, que fala com conhecimento de causa. Se assim não fosse, cairia no erro dos Srs. Schiff W e Jobert (de Lamballe) W com a sua teoria do músculo estalante. (ver a Revista do mês de junho de 1859). Entretanto, sabemos que há um mês apenas ele assistiu a uma sessão, onde provou que ignorava os mais elementares princípios do Espiritismo. Considerar-se-á suficientemente esclarecido porque assistiu a uma sessão? Por cerro não duvidamos da sua perspicácia, mas, por maior seja ela, não podemos admitir que ele possa conhecer e, sobretudo, compreender o Espiritismo numa sessão, como não aprendeu a Física numa única lição. Se o Sr. Figuier pudesse fazê-lo, tomaríamos o fato como um dos mais maravilhosos. Quando ele tiver estudado o Espiritismo com o mesmo cuidado que se dispensa ao estudo de uma ciência, quando lhe tiver consagrado um tempo moral necessário, quando tiver assistido a milhares de experiências, quando se tiver dado conta de todos os fatos, sem exceção, quando tiver comparado todas as teorias, só então poderá expender uma crítica judiciosa. Até lá o seu julgamento é uma opinião pessoal, cujo peso, pró ou contra, não terá nenhum valor.

Tomemos a coisa sob outro ponto de vista. Dissemos que o Espiritismo repousa inteiramente na existência, em nós, de um princípio imaterial ou, em outras palavras, na existência da alma. Quem não admite um Espírito em si não pode admiti-lo fora de si. Consequentemente, não admitindo a causa, não pode admitir o efeito. Gostaríamos, pois, de saber se o Sr. Figuier colocaria no frontispício de seu livro a seguinte profissão de fé: 1º Creio num Deus, autor de todas as coisas, todo-poderoso, soberanamente justo e bom e infinito em suas perfeições; 2º Creio na providência de Deus; 3º Creio na existência da alma sobrevivente ao corpo, e em sua individualidade após a morte, não como uma probabilidade, mas como uma coisa necessária e consequente dos atributos da Divindade; 4º Admitindo a alma e a sua sobrevivência, creio que não seria nem conforme à justiça, nem conforme a bondade de Deus, que o bem e o mal fossem tratados em pé de igualdade após a morte, considerando-se que, durante a vida, muito raramente recebem a recompensa ou o castigo que merecem; 5º Se a alma do mau e a do bom não são tratadas do mesmo modo, algumas são felizes, outras infelizes, isto é, são recompensadas ou punidas segundo suas obras.


3 — Se o Sr. Figuier fizesse tal profissão de fé, nós lhe diríamos: Esta profissão é a de todos os espíritas, porquanto sem isto o Espiritismo não teria nenhuma razão de ser; somente aquilo que credes teoricamente, o Espiritismo o demonstra pelos fatos, porque todos os fatos espíritas são consequência destes princípios. Não sendo os Espíritos que povoam o espaço mais do que as almas dos que viveram na Terra ou em outros mundos, desde que se admita a alma, sua sobrevivência e sua individualidade, por isso mesmo deve-se admitir os Espíritos. Sendo reconhecida a base, toda a questão se resume em saber se esses Espíritos ou essas almas podem comunicar-se com os vivos; se têm ação sobre a matéria; se influem no mundo físico e no mundo moral; ou, então, se são votados a uma perpétua inutilidade, ou a não se ocuparem senão de si mesmos, o que é pouco provável, desde que se admita a providência de Deus e se considere a admirável harmonia que impera no Universo, onde os menores seres desempenham o seu papel.

Se a resposta do Sr. Figuier fosse negativa, ou, por polidez, fosse ambígua nós lhe diríamos — para nos servir da expressão de certos pessoas e a fim de não chocar muito bruscamente respeitáveis preconceitos — o seguinte: não sois juiz mais competente em matéria de Espiritismo do que um muçulmano em assuntos da religião católica; vosso julgamento não seria imparcial e em vão negaríeis albergar ideias preconcebidas, porquanto tais ideias, em vossa própria opinião, dizem respeito ao princípio fundamental, que rejeitais a priori, antes de conhecer o assunto.

Se algum dia uma equipe de cientistas nomeasse um relator para examinar a questão do Espiritismo e esse relator não fosse francamente Espiritualista, seria o mesmo que um concílio escolher Voltaire para tratar de uma questão dogmática. Admiramo-nos de que os cientistas não tenham dado sua opinião; mas nos esquecemos de que sua missão — é bom frisar — é o estudo das leis da matéria e não dos atributos da alma e, menos ainda, o de decidir se a alma existe. Sobre tais assuntos eles podem ter opiniões individuais, como podem ter sobre a religião; mas, como entidade científica, jamais terão que se pronunciar.


4 — Não sabemos o que o Sr. Figuier responderia às perguntas formuladas na profissão de fé acima, mas o seu livro deixa pressenti-lo. Com efeito, o segundo parágrafo de seu prefácio é assim concebido:

“Um conhecimento exato da História do passado teria prevenido ou, pelo menos, diminuído muito tal espanto. De fato, seria grande erro imaginar-se que as ideias que, em nossos dias, deram origem à crença nas mesas falantes e nos Espíritos batedores, são de origem moderna. Esse amor do maravilhoso não é particular à nossa época; está em todos os tempos e países, por se ligar à própria natureza do espírito humano. Por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças, o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível. Esta disposição inata existiu em todos os períodos da História da Humanidade, revestindo aspectos diferentes conforme o tempo, os lugares e os costumes, originando manifestações variáveis na forma, porém tendo, no fundo, um princípio idêntico.”


5 — Dizer que é por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças que o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível, é reconhecer que o homem é tudo, que pode tudo, e que acima dele nada há. Salvo engano, isso não é apenas materialismo, mas ateísmo. Aliás, essas ideias ressaltam de uma porção de outras passagens de seu prefácio e de sua introdução, para as quais chamamos toda a atenção de nossos leitores e estamos convencidos de que estes as julgarão como nós. Dir-se-á que tais palavras não se aplicam à Divindade, mas aos Espíritos? Então responderemos que ele não conhece a primeira palavra do Espiritismo, pois negar os Espíritos é negar a alma, desde que Espíritos e almas são a única e mesma coisa; que os Espíritos não exercem sua força numa esfera inacessível, visto estarem de nosso lado, a nos tocar e a agir sobre a matéria inerte, à semelhança de todos os fluidos imponderáveis e invisíveis que, não obstante, são os mais poderosos motores e os mais ativos agentes da Natureza. Só Deus exerce o seu poder numa esfera inacessível aos homens; negar este poder é, pois, negar a Deus. Dir-se-á, enfim, que esses efeitos, que atribuímos aos Espíritos, talvez sejam devidos a alguns desses fluidos? É possível. Mas, então lhe perguntaremos: como fluidos ininteligentes podem produzir efeitos inteligentes?

O Sr. Figuier constata um fato capital ao dizer que esse amor do maravilhoso não é particular à nossa época; está em todos os tempos e países, por se ligar à própria natureza do Espírito humano. Aquilo a que chama amor do maravilhoso é, muito simplesmente, a crença instintiva, inata, como o diz, na existência da alma e sua sobrevivência ao corpo, crença que revestiu formas diversas, segundo os tempos e os lugares, mas tendo no fundo um princípio idêntico. Esse sentimento inato, universal no homem, Deus lho teria inspirado para se divertir à sua custa? para lhe dar aspirações impossíveis de realizar? Crer que assim possa ser é negar a bondade de Deus; mais ainda: é negar o próprio Deus.


6 — Querem outras provas do que antecipamos? Vejamos ainda algumas passagens do seu prefácio:

“Na Idade Média, quando uma religião nova transforma a Europa, o maravilhoso se instala nessa mesma religião. Acredita-se nas possessões diabólicas, nos feiticeiros e nos magos. Durante vários séculos essa crença é sancionada por uma guerra sem quartel e sem misericórdia, feita aos infelizes, acusados de comércio secreto com os demônios, ou com os magos, seus prepostos.

“Pelo fim do século dezessete, na aurora de uma filosofia tolerante e esclarecida, o diabo envelheceu e a acusação de magia começa a ser um argumento gasto, mas nem por Isto o maravilhoso perde os seus direitos. Os milagres florescem a vontade nas igrejas das diversas comunhões cristãs; acredita-se, ao mesmo tempo, na varinha mágica ou se decifram os movimentos de uma forquilha para pesquisar os objetos do mundo físico e obter esclarecimentos sobre as coisas do mundo moral. Nas diversas ciências continua-se a admitir a intervenção de influências sobrenaturais, precedentemente introduzidas por Paracelso.

“No século dezoito, século de Voltaire e da Enciclopédia, enquanto sobre as matérias filosóficas todos os olhos se abriam às luzes do bom-senso e da razão — não obstante a voga da filosofia cartesiana — só o maravilhoso resistia à queda de tantas crenças até então veneradas. Os milagres ainda se multiplicavam.”


7 — Se a filosofia de Voltaire, que abriu os olhos à luz do bom-senso e da razão e minou tantas superstições, não pôde extirpar a ideia inata de um poder oculto, não seria porque tal ideia é inatacável? A filosofia do século dezoito flagelou os abusos, mas se deteve contra a base. Se essa ideia triunfou sobre os golpes desferidos pelo apóstolo da incredulidade, o Sr. Figuier espera ser mais feliz? Permitimo-nos duvidar.

O Sr. Figuier faz uma confusão singular das crenças religiosas, dos milagres e da varinha mágica. Para ele, tudo isto sai da mesma fonte: a superstição, a crença no maravilhoso. Não tentaremos aqui defender essa pequena forquilha, que teria a singular propriedade de servir à pesquisa do mundo físico, em virtude de não nos havermos aprofundado na questão; por uma questão de princípios, só elogiamos ou criticamos o que conhecemos. Mas, se quiséssemos argumentar por analogia, perguntaríamos se a pequena agulha de aço, com a qual o navegante acha sua rota, não tem uma virtude muito mais admirável do que a pequena forquilha? Não, direis vós, porquanto conhecemos a causa que a faz agir e esta causa é inteiramente física. De acordo. Mas quem diz que a causa que age sobre a forquilha não seja inteiramente física? Antes que se conhecesse a teoria da bússola, que teríeis pensado se tivésseis vivido naquela época, quando os marinheiros não tinham como guia senão as estrelas, que muitas vezes lhes faltavam? Que teríeis pensado, dizemos nós, de um homem que tivesse vindo dizer: Tenho aqui numa caixinha, não maior que a de bombons, uma agulha pequenina, com a qual os maiores navios podem navegar com segurança; que indica a rota com qualquer tempo, com a precisão de um relógio? Ainda uma vez, não combatemos a varinha mágica, e menos ainda o charlatanismo, que dela se apoderou; apenas perguntamos o que haveria de mais sobrenatural se um pequeno pedaço de madeira, em dadas circunstâncias, fosse agitado por um eflúvio terrestre invisível, como a agulha imantada o é pela corrente magnética que também não se vê? Será que essa agulha também não serve para pesquisar as coisas do mundo físico? Não será ela influenciada pela presença de uma mina de ferro subterrânea? O maravilhoso é a ideia fixa do Sr. Figuier; é o seu pesadelo; ele o vê por toda parte onde haja algo que não compreende. Mas apenas ele, sábio, poderá dizer como germina e se reproduz o menor grão? Qual a força que faz a flor voltar-se para a luz? Quem, na terra, atrai as raízes para um terreno propício, mesmo através dos mais rudes obstáculos? Estranha aberração do espírito humano, que pensa tudo saber e nada sabe; que despreza maravilhas incontáveis e nega um poder sobre-humano!

Estando baseada na existência de Deus, esse poder sobre-humano que se exerce numa esfera inacessível; sobre a alma, que sobrevive ao corpo, conservando a sua individualidade e, consequentemente sua ação, a religião tem por princípio aquilo que o Sr. Figuier chama de maravilhoso. Se ele se tivesse limitado a dizer que entre os fatos qualificados de maravilhoso uns são ridículos e absurdos, aos quais a razão faz justiça, nós o aplaudiríamos com todas a nossas forças; mas não poderíamos concordar com a sua opinião, quando confunde na mesma reprovação o princípio e o abuso do princípio; quando nega a existência de qualquer poder acima da Humanidade. Aliás, essa conclusão é formulada de maneira inequívoca na passagem seguinte:


8 — “Dessas discussões, cremos que resultará para o leitor a perfeita convicção da não-existência de agentes sobrenaturais e a certeza de que todos os prodígios, que em diversas épocas têm excitado a surpresa ou a admiração dos homens, se explicam apenas pelo conhecimento de nossa organização fisiológica. A negação do maravilhoso, eis a conclusão a tirar deste livro, que poderia chamar-se o maravilhoso explicado. E se alcançarmos o objetivo a que nos propusemos atingir, teremos a convicção de ter prestado um verdadeiro serviço ao bem de todos.”

Dar a conhecer os abusos, desmascarar a fraude e a hipocrisia onde quer que se encontrem, é, sem dúvida, prestar um grande serviço. Mas julgamos que é fazer grande mal à sociedade, assim como aos indivíduos, atacar o princípio em virtude de terem dele abusado; é querer cortar a boa árvore, porque deu um fruto estragado. Bem compreendido, o Espiritismo, dando a conhecer a causa de certos fenômenos, mostra o que é possível e o que não o é. Por isto mesmo, tende a destruir as ideias realmente supersticiosas; mas, ao mesmo tempo, demonstrando o princípio, dá um objetivo ao bem; fortalece as crenças fundamentais que a incredulidade ataca com violência a pretexto do abuso; combate a chaga do materialismo, que é a negação do dever, da moral e de toda esperança, e é por isto que dizemos que um dia ele será a salvaguarda da sociedade.

Aliás, estamos longe de nos lamentar pela obra do Sr. Figuier. Sobre os adeptos da doutrina ela não poderá ter nenhuma influência, pois eles reconhecerão imediatamente os pontos vulneráveis. Sobre os outros, terá o efeito de todas as críticas: o de provocar a curiosidade. Depois da aparição, ou melhor, da reaparição do Espiritismo, muito se tem escrito contra ele. Não lhe pouparam sarcasmos, nem injúrias. Apenas de uma coisa ele não teve a honra, graças aos costumes do tempo: a fogueira. Isto o impediu de progredir? Absolutamente, pois hoje conta seus aderentes por milhões em todas as partes do mundo e estes todos os dias aumentam. Para isto, e sem o querer, muito contribuiu a crítica, porque, como dissemos, seu efeito é o de provocar o exame. Querem ver o pró e o contra e ficam admirados por encontrarem uma doutrina racional, lógica, consoladora, que acalma as angústias da dúvida, resolvendo o que nenhuma filosofia pôde resolver, quando pensavam apenas encontrar uma crença ridícula. Quanto mais conhecido o nome do contraditor, mais repercussão tem a sua crítica e mais bem ela pode fazer, chamando a atenção dos indiferentes. A esse respeito, a obra do Sr. Figuier está nas melhores condições: além de escrita de maneira muito séria, não se arrasta na lama das injúrias grosseiras e do personalismo, únicos argumentos dos críticos de baixo nível. Desde que pretende tratar o assunto do ponto de vista científico, e sua posição lho permite, ver-se-á nisso a última palavra da Ciência contra esta doutrina e então o público saberá a quantas se anda. Se a douta obra do Sr. Figuier não tiver o poder de lhe dar o golpe de misericórdia, duvidamos que outros sejam mais felizes. Para combatê-la com eficácia, ele só tem um meio, que lhe indicamos com prazer. Não se destrói uma árvore cortando-lhe os galhos, mas a raiz. É necessário, pois, atacar o Espiritismo pela raiz, e não nos ramos, que renascem à medida que são cortados. Ora, as raízes do Espiritismo, desta alucinação do século dezenove, para nos servirmos de sua expressão, são a alma e os seus atributos. Que, pois, ele prove que a alma não existe e não pode existir, porquanto sem almas não há mais Espíritos. Quando tiver provado isto, o Espiritismo não terá mais razão de ser e nós nos confessaremos vencidos.


9 — Se o seu cepticismo não chega até esse ponto, que prove, não por uma simples negação, mas por uma demonstração matemática, física, química, mecânica, fisiológica ou qualquer outra: 1º Que o ser que pensa em vida é incapaz de pensar após a morte; 2º Que, se pensa, não deve mais querer comunicar-se com aqueles a quem amou; 3º Que, se pode estar em toda parte, não pode estar ao nosso lado; 4º Que, se está ao nosso lado, não pode comunicar-se conosco; 5º Que, por seu envoltório fluídico, não pode agir sobre a matéria inerte; 6º Que, se pode agir sobre a matéria inerte, não pode agir sobre um ser animado; 7º Que, se pode agir sobre um ser animado, não pode dirigir-lhe a mão para fazê-lo escrever; 8º Que, podendo fazê-lo escrever, não pode responder às suas perguntas e lhe transmitir o pensamento.

Quando os adversários do Espiritismo nos tiverem demonstrado que isso é impossível, através de razões tão patentes quanto aquelas pelas quais Galileu demonstrou que não é o Sol que gira em torno da Terra, então poderemos dizer que suas dúvidas são fundadas. Infelizmente, até este dia, toda a sua argumentação se reduz nestas palavras: Não creio; logo é impossível. Sem dúvida dirão que a nós cabe provar a realidade das manifestações; nós as provamos pelos fatos e pelo raciocínio; se não admitem nem uns, nem o outro, se negam o que veem, a eles cabe provar que nosso raciocínio é falso e que os fatos são impossíveis.

Em outro artigo examinaremos a teoria do Sr. Figuier. Fazemos votos para que seja de melhor qualidade que a teoria do músculo estalante de Jobert (de Lamballe).


[Revista de dezembro de 1860]

HISTÓRIA DO MARAVILHOSO

PELO SR. LOUIS FIGUIER
(Segundo artigo; vide a Revista de setembro de 1860)

II


10 — Falando do Sr. Louis Figuier em nosso primeiro artigo, procuramos descobrir, antes de tudo, qual era o seu ponto de partida, e demonstramos, citando textualmente suas palavras, que ele se apoia na negação de qualquer força que esteja fora da humanidade corpórea; suas premissas devem fazer pressentir sua conclusão. Seu quarto volume, em que deveria tratar especialmente da questão das mesas girantes e dos médiuns, ainda não tinha aparecido, e nós o esperávamos para ver se ele daria destes fenômenos uma explicação mais satisfatória que a do Sr. Jobert (de Lamballe). Lemo-lo com cuidado e o que ressaltou para nós com mais clareza foi o fato de o autor haver tratado de um assunto que absolutamente não conhece. Não necessitamos de outra prova disto, além das duas primeiras linhas, assim concebidas: Antes de abordar a história das mesas girantes e dos médiuns, cujas manifestações são inteiramente modernas, etc. Como ignora o Sr. Figuier que Tertuliano fala em termos explícitos das mesas girantes e falantes? Que os chineses conheciam esse fenômeno desde tempos imemoriais? Que é praticado pelos tártaros e siberianos? Que há médiuns entre os tibetanos? Que os havia entre os assírios, os gregos e os egípcios? Que todos os princípios fundamentais do Espiritismo se acham na filosofia sânscrita? Assim sendo, é falso avançar que tais manifestações são inteiramente modernas. Os modernos nada inventaram a respeito e os espíritas se apoiam na ancianidade e na universalidade de sua doutrina, o que deveria ter sabido o Sr. Figuier, antes de pretender fazer sobre ele um tratado ex-professo. Nem por isso sua obra deixou de receber as honras da imprensa, que se apressou em homenagear esse campeão das ideias materialistas.


11 — Aqui se apresenta uma reflexão cujo alcance não escapará a ninguém. Diz-se que nada é tão brutal quanto um fato. Ora, eis um que tem bem o seu valor: é o extraordinário progresso das ideias espíritas, às quais nenhuma imprensa, nem pequena nem grande, prestou o seu concurso. Quando ela se dignou falar desses pobres imbecis que pensam ter uma alma, e que essa alma, após a morte, ainda se ocupa dos vivos, não foi senão para gritar socorro! contra eles, e os enviar aos manicômios, perspectiva pouco encorajadora para o público ignorante do assunto. O Espiritismo não entoou a trombeta da publicidade; não encheu os jornais de anúncios pomposos. Como é, então, que, sem barulho, sem estardalhaço, sem apoio dos que se arvoram em árbitros da opinião, ele se infiltra nas massas e, segundo a graciosa expressão de um crítico, cujo nome não lembramos, depois de ter infestado as classes esclarecidas, agora penetra nas classes laboriosas? Que rios digam de que maneira, sem a utilização dos meios ordinários de propaganda, pôde a segunda edição de O Livro dos Espíritos esgotar-se em quatro meses? Diz-se que o povo se entusiasma com as coisas mais ridículas. Seja; mas a gente se entusiasma com o que diverte, uma história, um romance. Ora, O Livro dos Espíritos não tem, absolutamente, a pretensão de ser divertido. Não será porque a opinião geral encontra, nessas crenças, algo que desafia à crítica?


12 — O Sr. Figuier encontrou a solução do problema: é, diz ele, o amor do maravilhoso; e tem razão. Tomemos a palavra maravilhoso na acepção que ele lhe empresta e estaremos de acordo. Em sua opinião, estando a Natureza contida inteiramente na matéria, todo fenômeno extramaterial se deve ao maravilhoso: fora da matéria não há salvação. Consequentemente a alma e tudo quanto lhe atribuem, seu estado após a morte, tudo isso pertence ao maravilhoso. Como ele, chamemo-lo maravilhoso. A questão é saber se esse maravilhoso existe ou não. O Sr. Figuier, que não gosta do maravilhoso e só o admite nos contos da carochinha, diz que não. Mas se o Sr. Figuier não faz questão de sobreviver ao seu corpo; se despreza sua alma e a vida futura, nem todos partilham seus gostos e não é preciso, por isto, que ele desgoste os outros. Há muitas pessoas para as quais a perspectiva do nada encanta muito pouco e que esperam encontrar lá em cima, ou acolá, pai, mãe, filhos ou amigos. O Sr. Figuier não dá importância para isto. Gostos não se discutem.


13 — Por instinto o homem tem horror à morte. Convenhamos que o desejo de não morrer completamente é muito natural. Pode-se mesmo dizer que essa fraqueza é geral. Ora, como sobreviver ao corpo, se não possuímos esse maravilhoso que se chama alma? Se temos uma alma, ela há de ter algumas propriedades, porquanto sem propriedades não seria coisa alguma. Infelizmente, para certas pessoas, não são propriedades químicas; a alma não pode ser introduzida num vidro para ser conservada nos museus de anatomia, como se conserva um crânio; nisto, o Grande Obreiro certamente errou, por não havê-la feito mais palpável; provavelmente Ele não pensou no Sr. Figuier…

Seja como for, de duas uma: essa alma, se existir, vive ou não vive após a morte do corpo; é alguma coisa ou é o nada: não há meio-termo. Vive sempre ou por algum tempo? Se deve desaparecer em dado momento, pouco importaria se fosse imediatamente; um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, nem por isso o homem seria mais avançado. Se vive, faz algo ou nada faz. Mas como admitir um ser inteligente que nada faz, e isto por toda a eternidade? Sem ocupação, a existência futura seria muito monótona. Não admitindo que uma coisa inacessível aos sentidos possa produzir quaisquer efeitos, o Sr. Figuier é conduzido, em razão de seu ponto de partida, à conclusão de que todo efeito deve ter uma causa material. Eis por que coloca no domínio do maravilhoso, isto é, da imaginação, todos os efeitos atribuídos à alma e, em consequência, a própria alma, suas propriedades, seus feitos e gestos de além-túmulo. Os simples, que creem na tolice de querer viver após a morte, naturalmente gostam de tudo quanto satisfaz os seus desejos e vem confirmar as suas esperanças. Daí por que amam o maravilhoso. Até agora se contentavam em dizer-lhes: “Nem tudo morre com o corpo; ficai tranquilos; nós vos damos nossa palavra de honra.” Sem dúvida era muito tranquilizador, mas uma pequena prova não estragaria o negócio. Ora, eis que o Espiritismo, com seus fenômenos, vem lhes dar esta prova, e eles a aceitam com alegria. Eis todo o segredo de sua rápida propagação; torna real uma esperança: a de viver e, melhor que isto, de viver mais feliz. Ao passo que vós, Sr. Figuier, vos esforçais para lhes provar que tudo isto não passa de uma quimera, de uma ilusão. Ele levanta a coragem, vós a abateis. Acreditais que entre os dois a escolha seja duvidosa?

O desejo de reviver após a morte é, pois, no homem a fonte de seu amor pelo maravilhoso, isto é, por tudo quanto se liga à vida de além-túmulo. Se alguns homens, seduzidos por sofismas, puderam duvidar do futuro, não creiais que tenha sido voluntariamente. Não; porque essa ideia lhes inspira pavor, e é com terror que sondam as profundezas do nada. O Espiritismo acalma suas inquietudes, dissipa suas dúvidas; aquilo que é vago, indeciso, incerto, toma uma forma, torna-se uma realidade consoladora. Eis por que, em alguns anos, deu a volta ao mundo, pois todos querem viver é o homem sempre dará preferência às doutrinas que o tranquilizam àquelas que o apavoram.


14 — Voltemos à obra do Sr. Figuier e digamos, de começo, que seu quarto volume, consagrado às mesas girantes e aos médiuns, em três quartas partes está cheio de histórias que não lhes guardam nenhuma relação, de maneira que o principal ali se torna o acessório. Cagliostro, o caso do colar, que ali figuram, não se sabe por quê, a moça elétrica, os caracóis simpáticos, ocupam treze capítulos em dezoito. É verdade que essas histórias são tratadas com verdadeiro luxo de detalhes e de erudição, que as fará lidas com interesse, pondo-se de lado qualquer opinião espírita. Sendo seu objetivo provar o amor do homem pelo maravilhoso, busca ele todos os contos que o bom-senso, em todos os tempos, já havia dado o seu justo valor, e se esforça por provar que são absurdos, o que ninguém contesta. E exclama: “Eis o Espiritismo fulminado!” A dar-lhe ouvidos, poder-se-ia crer que as proezas de Cagliostro e os contos de Hoffmann são artigos de fé para todos os espíritas, e que os caracóis simpáticos têm toda a sua simpatia.

O Sr. Figuier não rejeita todos os fatos; longe disso. Em sentido oposto a outros críticos que, pura e simplesmente negam tudo, o que é mais cômodo, pois dispensa qualquer explicação, ele admite perfeitamente as mesas girantes e os médiuns, mas os atribuindo em larga escala à trapaça. As Srtas. Fox, por exemplo, são insignes prestidigitadoras, porque foram ridicularizadas pelos jornais americanos pouco elegantes. Chega mesmo a admitir o magnetismo — como agente material, bem entendido — o poder fascinante da vontade e do olhar, o sonambulismo, a catalepsia, o hipnotismo, todos os fenômenos de biologia. Que se tenha cuidado! Ele vai passar por um iluminado aos olhos de seus confrades. Mas, consequente consigo mesmo, quer tudo reduzir às leis da física e da fisiologia. É verdade que cita algumas testemunhas autênticas e das mais honradas em apoio dos fenômenos espíritas, mas se estende com indulgência sobre todas as opiniões contrárias, sobretudo as dos sábios que, como o Sr. Chevreul e outros, buscaram provas na matéria. Tem em grande estima a teoria do músculo estalante dos Srs. Jobert e comparsas. Sua teoria, como a lanterna mágica da fábula, peca num ponto capital: perde-se num labirinto de explicações que demandariam outras explicações para serem compreendidas. Um outro defeito é que a cada passo é contraditada por fatos que não pode explicar e que o autor silencia por uma razão muito simples: é que não os conhece. Ele nada viu ou pouco viu por si mesmo; numa palavra, nada aprofundou de visu, com a sagacidade, a paciência e a independência das ideias do observador consciencioso; contentou-se com relatos mais ou menos fantásticos, encontrados em certas obras que não primam pela imparcialidade. Não leva em consideração os progressos que a ciência fez desde alguns anos; ele a toma em seu começo, quando marchava tateante e cada um trazia uma opinião incerta e prematura, estando longe de conhecer todos os fatos; absolutamente como se quisesses julgar a química de hoje pelo que era ao tempo de Nicolas Flamel. Em nossa opinião, e por mais sábio seja o Sr. Figuier falta-lhe a primeira qualidade que se exige de um crítico: a de conhecer a fundo aquilo de que fala, condição ainda mais necessária quando se quer explicá-lo.

Não o acompanharemos em todos os seus raciocínios. Preferimos indicar a sua obra, que todo espírita pode ler sem o menor perigo para as suas convicções; só citaremos a passagem na qual ele explica sua teoria das mesas girantes, que resume mais ou menos a de todos os outros fenômenos.


15 — “Vem a seguir a teoria que explica os movimentos das mesas pelos Espíritos. Se a mesa girar após um quarto de hora de recolhimento e de atenção por parte dos experimentadores, é, dizem, que os Espíritos, bons ou maus, anjos ou demônios, entraram na mesa e a fizeram oscilar. Espera o leitor que discutamos tal hipótese? Não pensamos fazê-lo. Se empreendêssemos provar, com grandes reforços de argumentos lógicos, que o diabo não entra nos móveis para os fazer dançar, precisaríamos também demonstrar que não são os Espíritos que, introduzidos em nosso corpo, nos fazem agir, falar, sentir, etc. n Todos esses fatos são da mesma ordem, e aquele que admite a intervenção do demônio para girar uma mesa deve recorrer à mesma influência sobrenatural para explicar os atos, que só ocorrem em virtude de nossa vontade e com auxílio de nossos órgãos. Ninguém jamais quis atribuir seriamente os efeitos da vontade sobre os nossos órgãos, por mais misteriosa que seja a essência desse fenômeno, a ação de um anjo ou de um demônio. É, entretanto, a essa consequência que são levados os que querem vincular a rotação das mesas a uma causa sobre-humana.

“Digamos, para terminar esta breve discussão, que a razão proíbe recorrer a uma causa sobrenatural em todas as situações em que uma causa natural pode bastar. Poderíamos invocar uma causa natural, normal, fisiológica, para explicar o movimento das mesas? Esta é a questão.

“Eis, pois, chegado o momento de expor o que nos parece dar conta do fenômeno estudado nesta última parte de nosso livro.

“A explicação do fato das mesas girantes, considerada na sua maior simplicidade, parece-nos ser fornecida por esses fenômenos cujo nome até aqui variou muito, mas cuja natureza, no fundo, é idêntica, haja vista que, seguidamente, foi chamada hipnotismo com o Dr. Braid, biologismo com o Sr. Philips, sugestão com o Sr. Carpenter. Lembramos que, em consequência da forte tensão cerebral resultante da contemplação de um objeto imóvel, mantido por muito tempo, o cérebro cai num estado particular que recebeu, sucessivamente, os nomes de estado magnético, sono nervoso e estado biológico, nomes diferentes que designam certas variantes particulares de um estado geralmente idêntico.

“Uma vez chegado a esse estado, quer pelos passes de um magnetizador, como se faz desde Mesmer, quer pela contemplação de um corpo brilhante, como operava Braid, imitado depois pelo Sr. Philips, e como operam ainda os feiticeiros árabes e egípcios, quer simplesmente, enfim, por uma forte contenção moral, de que já citamos mais de um exemplo, o indivíduo cai nessa passividade automática que constitui o sono nervoso. Perdeu a força de dirigir e controlar a própria vontade e está sob o império de uma vontade estranha. Apresentem-lhe um copo de água, afirmando, com autoridade, que é deliciosa bebida, e ele bebe julgando tomar vinho, licor ou leite, conforme a vontade daquele que se apoderou fortemente de seu ser. Privado assim do auxílio de seu próprio juízo, o indivíduo fica quase estranho às ações que executa e, uma vez voltando ao seu estado natural, perdeu a lembrança dos atos que realizou durante essa estranha e momentânea abdicação do seu eu. Está sob a influência de sugestões, isto é, aceita sem poder repeli-la, uma ideia fixa que lhe é imposta por uma vontade exterior, age e é forçado a agir sem ideia e sem vontade própria, conseguintemente, sem consciência. Este sistema levanta uma grave questão de psicologia, porquanto, assim influenciado, o homem perdeu o livre-arbítrio e não tem mais responsabilidade pelas ações que executa. Age determinado por imagens intrusas que lhe obsidiam o cérebro, análogas a essas visões que Cuvier supõe fixadas no sensorium da abelha, e que lhe representam a forma e as proporções da célula que o instinto a leva a construir. O princípio das sugestões explica perfeitamente os fenômenos, tão variados e por vezes tão terríveis, das alucinações, mostrando, ao mesmo tempo, o pequeno intervalo que separa o alucinado do monômano. W Não é de admirar que, num grande número de giradores de mesas, a alucinação sobreviva à experiência e se transforme em loucura definitiva.

“Esse princípio das sugestões, sob a influência do sono nervoso, parece-nos fornecer a explicação do fenômeno da rotação das mesas, tomado na sua maior simplicidade. Consideremos o que se passa numa corrente de pessoas que se entregam a uma experiência desse gênero. Tais pessoas estão atentas, preocupadas, fortemente emocionadas com a espera do fenômeno que se deve produzir. Uma grande atenção, um recolhimento completo de espírito lhes é recomendado. À medida que a espera se prolonga e a contenção moral fica muito tempo entretida pelos experimentadores, seu cérebro se fatiga cada vez mais e as ideias sofrem uma ligeira perturbação. Quando assistimos, durante o inverno do ano de 1860, às experiências realizadas em Paris W pelo Sr. Philips; quando vimos as dez ou doze pessoas às quais ele confiava um disco metálico, com a injunção de olhar fixamente e unicamente esse disco, colocado na palma da mão durante cerca de meia hora, não pudemos deixar de ver nessas condições reconhecidas indispensáveis para a manifestação do estado hipnótico, a imagem fiel do estado em que se encontram as pessoas que, em silêncio, formam a corrente, com vistas a obter a rotação da mesa. Num e noutro caso, há uma forte contenção de espírito, uma ideia perseguida exclusivamente durante um tempo considerável. O cérebro humano não pode resistir por muito tempo a essa tensão excessiva, a esse acúmulo anormal do influxo nervoso. Das dez ou doze pessoas que se entregaram a essa operação, a maioria abandona a experiência, forçadas a renunciar pela fadiga nervosa que experimentam. Somente algumas, uma ou duas, que perseveram, são presas do estado hipnótico ou biológico, dando lugar, então, aos diversos fenômenos que examinamos no curso desta obra, ao falarmos do hipnotismo e do estado biológico.

“Nessa reunião de pessoas fixamente ligadas, durante vinte minutos ou meia hora, a formar a corrente, com as mãos espalmadas sobre a mesa, sem liberdade de distrair, nem sequer por um instante, a atenção da operação em que tomam parte, a maioria não experimenta nenhum efeito particular. Mas é muito difícil que uma delas, uma só que seja, não venha a cair, ainda que por um momento, no estado hipnótico ou biológico. Talvez esse estado não precise durar mais que um segundo para que se realize o fenômeno esperado. Caindo nessa espécie de sono nervoso, não tendo mais consciência de seus atos e sem outro pensamento que não seja a ideia fixa da rotação da mesa, o membro da corrente imprime inconscientemente o movimento ao móvel. Ele pode, nesse momento, exibir uma força muscular relativamente considerável e a mesa se move. Dado esse impulso, realizado esse ato inconsciente, nada mais é preciso. Assim passageiramente biologizado, o indivíduo pode a seguir voltar ao seu estado ordinário; porque, apenas manifestado esse movimento de deslocamento mecânico na mesa, logo todas as pessoas que compõem a corrente se levantam e seguem seus movimentos; em outras palavras, fazem a mesa marchar, pensando que apenas a acompanham. Quanto ao indivíduo, causa involuntária, inconsciente do fenômeno, posto não guardar nenhuma lembrança dos atos executados nesse estado de sono nervoso, ignora o que fez e, de boa-fé, fica indignado se o acusam de haver empurrado a mesa. Até suspeita que outros membros da corrente tenham feito uma brincadeira de mau gosto, de que o acusam. Daí essas frequentes discussões e mesmo essas disputas graves, que tantas vezes deram origem ao divertimento das mesas girantes.

“Tal a explicação que julgamos poder dar, no que diz respeito ao fato da rotação das mesas, tomado na sua maior simplicidade. Quanto ao movimento das mesas respondendo a perguntas: os pés que se levantam às ordens e que, pelo número de batidas, respondem às perguntas feitas, o mesmo sistema o explica se admitirmos que, entre os membros da corrente, haja algum no qual o estado de sono nervoso conserve uma certa duração. Tal indivíduo, hipnotizado à sua revelia, responde às perguntas e às ordens que lhe são dadas, inclinando a mesa ou fazendo-a dar pancadas, conforme o pedido. Voltando depois ao estado normal, esqueceu todos os atos assim realizados, como qualquer indivíduo magnetizado ou hipnotizado perde a lembrança dos atos executados nesse estado. O indivíduo que representa o papel mau grado seu, é, pois, uma espécie de dorminhoco acordado; não é absolutamente sui compos; está num estado mental que participa do sonambulismo e da fascinação. Não dorme; está encantado ou fascinado em virtude da forte concentração moral a que se impôs: é um médium. Como este último exercício é de ordem superior ao primeiro, não pode ser obtido em todos os grupos. Para que a mesa responda às perguntas feitas, levantando um de seus pés e dando pancadas, é necessário que os indivíduos que operam tenham praticado seguidamente o fenômeno da mesa girante, e que entre eles se encontre um sensitivo particularmente apto a cair naquele estado, o que se dá mais depressa pelo hábito e pela perseverança por mais tempo: numa palavra, é preciso um médium experimentado.

“Mas, dirão, vinte minutos ou meia hora nem sempre são necessários para obter o fenômeno da rotação de uma mesinha de pé-de-galo ou de uma mesa convencional. Muitas vezes, ao cabo de quatro ou cinco minutos, a mesa se põe em movimento. A tal observação responderemos que um magnetizador, quando trata com um sensitivo habitual ou com um sonâmbulo profissional, faz este cair em sonambulismo em um ou dois minutos, sem passes, sem aparatos, e apenas pela imposição fixa do olhar. Aqui, é o hábito que torna o fenômeno fácil e rápido. Do mesmo modo, os médiuns exercitados podem em pouco tempo chegar a esse estado de semisono nervoso, que deve tornar inevitável o fenômeno da rotação da mesa ou o movimento imprimido por ele ao móvel, conforme o pedido feito.”

Não sabemos como o Sr. Figuier explicaria sua teoria aos movimentos que ocorrem, aos ruídos que se ouvem, ao deslocamento dos objetos, sem o contato do médium, sem a participação de sua vontade, até mesmo contra a sua vontade. Mas há muitas outras coisas que ele não explica. Aliás, aceitando-se mesmo sua teoria, ela revelaria um fenômeno fisiológico dos mais extraordinários, e bem digno da atenção dos sábios. Por que, então, o desdenharam?

O Sr. Figuier termina o seu Tratado do Maravilhoso por uma breve notícia sobre O Livro dos Espíritos. Naturalmente ele o julga do seu ponto de vista: “A filosofia — diz ele — é antiquada e a moral enfadonha.” Certamente ele teria preferido uma moral galhofeira e excitante. Mas que fazer? É uma moral para uso da alma; aliás, ela teria sempre uma vantagem: a de fazer dormir. É, para ele, uma receita em caso de insônia…


[Revista de abril de 1861]

APRECIAÇÃO DA HISTÓRIA DO MARAVILHOSO

DO SR. LOUIS FIGUIER, PELO SR. ESCANDE, REDATOR DA MODE NOUVELLE.

16 — Nos artigos que publicamos sobre esta obra procuramos nos ater principalmente ao ponto de partida do autor, o que não nos foi difícil, pois citando as suas próprias palavras provamos que ele se baseia em ideias materialistas. Sendo falsa a base, pelo menos do ponto de vista da imensa maioria dos homens, as consequências que dela tirou contra os fatos que qualifica de maravilhosos, são, por isso mesmo, eivadas de erro. Isto não impediu que alguns de seus colegas da imprensa exaltassem o mérito, a profundidade e a sagacidade da obra. Contudo, nem todos são dessa opinião. A respeito, encontramos na Mode Nouvellen jornal mais sério que o seu título, um artigo tão notável pelo estilo quanto pela justeza das apreciações. Sua extensão não nos permite citá-lo por inteiro; aliás, o autor promete outros, porque neste não se ocupa muito senão do primeiro volume. Nossos leitores nos serão gratos por lhes darmos alguns fragmentos.


I


17 — “Este livro tem grandes pretensões, embora não justifique nenhuma. Queria passar por erudito: afeta ciência e ostenta um aparente luxo de pesquisas, mas sua erudição é superficial, sua ciência incompleta e suas pesquisas prematuras e mal digeridas. O Sr. Louis Figuier deu-se à especialidade de recolher, um a um, os mil pequenos fatos que brotam, dia a dia, em torno das academias, como essas longas carreiras de cogumelos que nascem da noite para o dia sobre as camadas criptogamíferas, organizando livros que fazem concorrência à Cozinha Burguesa e aos tratados do Bom Homem Ricardo. Habituado a esse trabalho de composições fáceis — inferior ao trabalho de compilação desse bom Abade Trublet, do qual Voltaire zombou espirituosamente — e que forçosamente lhe deixa lazeres, disse a si mesmo que não seria mais difícil explorar a paixão do sobrenatural que, mais do que nunca excita as imaginações, do que utilizar os palavrórios quase sempre ociosos da segunda classe do Instituto. Habituado a redigir revistas científicas, repisando o que é dos outros, com os resumos de relatórios que por sua vez resume, com as teses e memórias que analisa; hábil em transformar mais tarde em volumes esses resumos de resumos, põe-se à obra. E, fiel ao seu passado, compulsou às pressas todos os tratados sobre a matéria, que lhe caíram à mão, esmigalhou-os, depois tornou a amassar essas migalhas à sua maneira, com elas compondo um livro, depois do que — não duvidamos — tenha exclamado com Horácio: Exegi monumentum; “eu também erigi um monumento, que será mais durável que o bronze!”

“E ele teria razão para sentir-se orgulhoso de sua obra, se a qualidade fosse medida pela quantidade. Com efeito, essa história do maravilhoso não forma menos que quatro grossos volumes e só contém a história do maravilhoso nos tempos modernos, a partir de 1630 até os nossos dias; apenas dois séculos, o que suporia ao menos um pouco mais do dobro que as mais volumosas enciclopédias, caso encerasse a história do maravilhoso em todos os tempos e em todos os povos! Assim, quando se pensa que esse fragmento de monografia, de tão vasta extensão, não lhe custou senão alguns meses de trabalho, somos levados a crer que uma produção, ao mesmo tempo tão grande e tão apressada, é mais extraordinária que as maravilhas que contém. Mas essa fecundidade deixa de ser um prodígio quando se estuda de perto o processo de composição por ele utilizado, que, na verdade, lhe é tão familiar que não poderíamos esperar fosse empregado outro. Em vez de condensar os fatos, de os expor sumariamente, de negligenciar detalhes inúteis, de destacar principalmente as circunstâncias características, e em seguida discuti-los, aplicou-se apenas em escrever um folhetim mais longo que os que semanalmente escreve na Presse. Armado de uma tesoura pinçou das obras anteriores à sua o que poderia favorecer as ideias preconcebidas que desejava fazer triunfar, afastando o que pudesse contrariar a opinião que a priori havia formado sobre essa importante questão, sobretudo o que obviasse a explicação natural que se propunha dar das manifestações qualificadas como sobrenaturais, pelo que os livres-pensadores são unânimes em chamar de credulidade pública. Porque é ainda uma das pretensões de seu livro — e essa pretensão não é mais bem justificada que as outras — dar uma solução física ou médica nova, achada por ele, solução triunfante, inatacável, doravante ao abrigo das objeções dos homens bastante simples para crer que Deus é mais poderoso que os nossos sábios. Ele o repete em cem diferentes passagens de sua obra, a fim de que ninguém o ignore e com a esperança de que acabarão por crê-lo, não obstante se limite a repetir o que a respeito disseram, antes dele, os físicos e os médicos, os filósofos e os químicos, que têm mais horror ao sobrenatural do que Pascal tinha ao vácuo.

“Daí resulta que essa história do maravilhoso carece, ao mesmo tempo, de autoridade e de proporções. Do ponto de vista dogmático, não ultrapassa as negações dos negadores anteriores; não acrescenta nenhum argumento aos raciocínios já desenvolvidos, e nesta questão, como em todas as outras, não compreendemos a utilidade dos ecos. Há mais: atormentado pelo desejo de parecer fazer melhor que Calmeil, Esquiros, Montègre n, Hecquet n e tantos outros que o precederam e serão sempre seus mestres, o Sr. Louis Figuier muitas vezes se perde no labirinto confuso das demonstrações que lhes toma de empréstimo, querendo delas apropriar-se, acabando por rivalizar na lógica com o Sr. Babinet. Quanto aos fatos, ele os acumulou em grande quantidade, embora um pouco ao acaso, truncando uns, desprezando outros, limitando-se a reproduzir de preferência os que pudessem oferecer um certo atrativo à leitura, prova de que visou, principalmente, um sucesso fácil, a ter de lutar com os romancistas do dia. Ficamos mesmo a nos perguntar como ele não induziu o editor a incluir sua obra na divertida Biblioteca das Estradas de Ferro, a fim de que alcançasse mais diretamente essa multidão que lê para se distrair e jamais para instruir-se.

“Não contestamos que seu livro seja divertido, se bastar a um livro, para ter esse mérito, que se assemelhe a uma coleção de anedotas, compostas de historietas amontoadas, tendo em vista o pitoresco, sem muita preocupação com a verdade. Isto não o impede de gabar-se a cada instante e sem propósito algum de sua imparcialidade, de sua veracidade: uma pretensão a mais, a acrescentar a todas as que destacamos e na qual se pavoneia com tanto mais afetação quanto não dissimula se ela lhe faz falta. Tal qual é, não poderíamos compará-lo melhor do que a esses restaurantes improvisados, pródigos de comestíveis, que não têm de sedutores senão a aparência, e que servem aos consumidores sem muita preocupação com a etiqueta. Mais superficial que profundo, ali o importante é sacrificado ao fútil, o principal ao acessório, o lado dogmático ao lado episódico; aliás, as lacunas são tão abundantes quanto as coisas inúteis e, para que nada falte, está cheio de contradições, afirmando aqui o que nega adiante, de modo que seríamos tentado a crer que, diferentemente do célebre Pico della Mirandola — capaz de dissertar de omni re simili [sobre todas as coisas conhecidas] — o Sr. Louis Figuier aventurou-se a ensinar aos outros o que ele próprio não sabia.


II


18 — “Poderíamos limitar aqui o exame dessa história do maravilhoso, se não tivéssemos de justificar estas severas, mas justas apreciações. Para começar, precisaremos acrescentar que aquele que a escreveu não acredita na possibilidade do sobrenatural? Não o cremos. Em sua qualidade de acadêmico supranumerário — um supranumerário que provavelmente só terminará com a sua vida; — em virtude dos poderes que lhe confere seu título de folhetinista científico, ele não podia sustentar outra tese sem se expor a ser colocado no índex pelo exército dos incrédulos, dos quais se julga suscetível de fazer parte. Ele também não crê e, a respeito, sua incredulidade está acima de suspeitas. Ele é do número “desses espíritos sábios que, testemunhas da expansão imprevista do maravilhoso contemporâneo, não podem compreender uma tal alucinação em pleno século XIX, com uma filosofia avançada e em meio a esse magnífico movimento científico que dirige tudo hoje para o positivo e o útil.” — Reconhecemos que deve ser penoso para “esses espíritos sábios” ver que o espírito público assim se recusa a despojar-se de seus velhos preconceitos e persiste em ter outras crenças, diversas do positivismo filosófico, que, entretanto, são as de todos os animais. Além disso, esse dissabor não data apenas dos nossos dias. O Sr. Louis Figuier o confessa, não sem despeito, quando pergunta, em termos que denotam estupefação, como é possível que o maravilhoso tenha resistido ao século XVIII, “o século de Voltaire e da Enciclopédia, enquanto os olhos se abrem às luzes do bom-senso e da razão.” Que fazer, então? Tão vivaz é essa crença no maravilhoso, consagrada por todas as religiões, que foi a de todos os tempos, de todos os povos, sob todas as latitudes e em todos os continentes, que os livres-pensadores, satisfeitos por tê-la agitado por si e para si mesmos, agiriam com sabedoria em abster-se, doravante, de um proselitismo cujo insucesso sabem inevitável.

“Mas o Sr. Figuier não é desses corações pusilânimes que se apavoram por antecipação em face da inutilidade de seus esforços. Cheio de confiança e de bazófia em sua força, vangloria-se de realizar o que Voltaire, Diderot, Lamétrie, Dupuis, Volney, Dulaure, Pigault-Lebrun; o que Dulaurens com o seu Compère Mathieu, o que os químicos com os seus alambiques, os físicos com as suas pilhas elétricas, os astrônomos com seus compassos, os panteístas com seus sofismas, o trocista malévolo com seu cepticismo desprezível, foram impotentes para realizar. Ele se propôs demonstrar de novo e triunfalmente desta vez, que “o sobrenatural não existe e jamais existiu” e, em consequência, que “os prodígios antigos e contemporâneos podem todos ser atribuídos a uma causa natural.” A tarefa é árdua: até aqui os mais intrépidos sucumbiram. Mas “semelhante conclusão, que necessariamente afastaria todo agente sobrenatural, seria uma vitória da Ciência sobre o espírito de superstição, em favor da razão e da dignidade humanas”, e essa vitória lisonjeou a sua ambição; — vitória fácil, afinal de contas, mais fácil do que pensamos, se o Sr. Figuier não se tiver enganado quando diz, em sua introdução, que “nosso século se inquieta muito pouco com as matérias teológicas e as disputas religiosas.” Então, para que se armar em guerra contra uma crença que não existe? Para que atacar opiniões de teologia, com as quais ninguém se inquieta? Para que se prender a superstições religiosas que não mais nos preocupam? “Vitória sem perigo é triunfo sem glória”, diz o poeta, e não convém tocar muito alto a trombeta guerreira, se não tem a combater senão moinhos de vento. Que quereis? O Sr. Louis Figuier tinha esquecido, ao escrever isto, o que havia escrito acima, quando confessava, com a vergonha no rosto, que o nosso século, surdo às lições da Enciclopédia e aos ensinos da imprensa leiga, se tinha subitamente inflamado pelo maravilhoso e, mais que seus antepassados, acreditava no sobrenatural, aberração incompreensível, da qual ambicionava curá-lo. Mas esta contradição é tão insignificante que talvez não valesse a pena ser assinalada; veremos muitas outras e ainda seremos obrigados a negligenciar muitas!

Assim, o Sr. Figuier nega que se produzam em nossos dias, ou que se tenham produzido em qualquer tempo, manifestações sobrenaturais. No caso de milagres, só a Ciência os pode fazer: o poder de Deus foi até aí. Ainda quando digamos que Deus não tem tal poder, temos uma espécie de escrúpulo de traduzir incompletamente o seu pensamento. Reconhece ele um outro deus, além do deus natureza, tão admirável na sua inteligência cega, e que realiza maravilhas sem o suspeitar, deus querido dos sábios, porque é bastante complacente para lhes deixar crer que usurpam diariamente uma fatia de sua soberania? É uma questão que não nos permitimos aprofundar.

“Mediocremente maravilhosa, essa história do maravilhoso começa por uma introdução que o Sr. Louis Figuier chama um golpe de vista rápido lançado ao sobrenatural na Antiguidade e na Idade Média, da qual nada diremos, porque não teríamos muito a dizer. As mais importantes manifestações aí são desfiguradas sob pretexto de resumo, e compreende-se que seria preciso muito tempo e espaço para restituir a verdadeira fisionomia aos milhares de fatos que nela só figuram de maneira excessivamente abreviada.

“O edifício é digno do peristilo. Essa história do maravilhoso durante os dois últimos séculos abre-se para o relato do caso de Urbain Grandier e das religiosas de Loudun;W vem a seguir a varinha mágica, os Tremedores das Cévennes, os Convulsionários Jansenistas, W Cagliostro, o magnetismo e as mesas girantes. Quanto à possessão de Louviers nem uma palavra, e também nem uma nota sobre os iluminados, os martinistas, o swedenborgismo, os estigmatizados do Tirol e a notável manifestação das crianças na Suécia, há menos de cinquenta anos; disse apenas uma palavra sobre os exorcismos do padre Gassner [v. O cura Gassner], e menos de uma página insignificante é consagrada à vidente de Prevorst. O Sr. Louis Figuier teria feito melhor se intitulasse seu livro: Episódios da história do maravilhoso nos tempos modernos, ainda que os episódios que escolheu possam dar origem a sérias objeções. Ninguém jamais atribuiu às prestidigitações de Cagliostro uma significação sobrenatural. Era um hábil intrigante, que detinha alguns segredos curiosos, de que sabia servir-se habilmente para seduzir aqueles que queria explorar e, sobretudo, um intrigante que possuía numerosos comparsas. Cagliostro merecia antes um lugar na galeria dos precursores revolucionários do que no pandemônio dos feiticeiros. Igualmente não vemos o que o magnetismo tem a fazer nessa história do maravilhoso, principalmente do ponto de vista em que o Sr. Louis Figuier se colocou. O magnetismo ressalta da Academia de Medicina e da Academia das Ciências, que o desdenharam muito; mas não pode interessar o supranaturalismo senão por ocasião de algumas de suas manifestações, aliás negligenciadas pelo Sr. Louis Figuier, a fim de reservar o espaço que consagrou ao relato da vida de Mesmer, das experiências do Marquês de Puységur e do incidente relativo ao famoso relatório do Sr. Husson. Há dois anos tratamos dessa importante questão e a ela não voltaremos, pois apenas nos repetiríamos. Também deixaremos de lado a das mesas girantes, que examinamos na mesma época. Entretanto, muito haveria a dizer sobre a explicação natural e física que o Sr. Louis Figuier pretende dar dessa dança das mesas e das manifestações que se lhe seguem; mas é preciso saber limitar-se. Deixemo-lo, pois, debater-se com a Revista Espiritualista e com a Revista Espírita, duas revistas publicadas em Paris pelos adeptos da crença na manifestação dos Espíritos, que o acusam de ter escrito o seu requisitório sem haver previamente ouvido as testemunhas e consultado as peças do processo. Uma e outra afirmam que ele jamais assistiu a uma única sessão espiritualista e que, à sua chegada, teve o cuidado de declarar que sua opinião estava formada e nada o faria mudá-la.

“É verdade? Não sabemos. Tudo quanto podemos afirmar é que, depois de ter repelido, com justa razão, a solução do Sr. Babinet, pelos movimentos nascentes e inconscientes, acabou adotando-a por conta própria, tanto é ele inconsciente do que pensa e escreve. Eis a prova: “Nessas reuniões de pessoas fixamente ligadas durante vinte minutos ou meia hora, a formar a corrente, mãos abertas sobre a mesa, sem ter a liberdade de distrair, mesmo por um instante, a atenção da operação em que tomam parte, a maioria não experimenta nenhum efeito particular. Mas é muito difícil que uma delas, uma só que se queira, por um momento não caia no estado hipnótico ou biológico. (O hipnotismo lhe dá resposta a tudo, como veremos mais tarde.) Não é necessário que esse estado dure mais que um segundo para que o fenômeno esperado se realize. O membro da corrente, caído nesse meio-sono nervoso, não mais tendo consciência de seus atos, nem outro pensamento senão a ideia fixa da rotação da mesa, imprime, sem o saber, o movimento ao móvel.” Por que, então, não começaria a troçar de si mesmo, uma vez que gostava de troçar do Sr. Babinet? Teria sido lógico, sobretudo depois de ter anunciado que vinha esclarecer o mistério, desde que só colocava em sua lanterna uma luzinha tão ridícula quanto a que antes havia iluminado o sábio acadêmico. Mas a lógica e o Sr. Louis Figuier divorciaram-se nessa história do maravilhoso. Ah! por mais pretendam os ecos que eles vão falar, seus esforços só conseguem repetir o que ouvem.

“Quanto aos longos capítulos consagrados à varinha mágica e, em particular, a Jacques Aymar, inicialmente nos permitimos observar-lhe que ele se ilude se pensa que o problema foi estudado suficientemente pelo Sr. Chevreul. É uma fantasia que pode deixar, se bem lhe parecer, àquele sábio; mas, fora da Academia das Ciências, não encontrará ninguém que admita que a teoria do pêndulo explorador responda a todas as objeções. A frase atribuída a Galileu “E, contudo, ela gira!”poderia muito bem ser aplicada à varinha mágica. Ela girou e gira, a despeito dos cépticos que negam o movimento, porque se recusam a ver; os milhares de exemplos que poderíamos citar — e que cita o próprio Sr. Louis Figuier — atestam a realidade do fenômeno. Gira por um impulso diabólico ou espírita, como se diria hoje, ou sob a impressão que recebe de alguns eflúvios desconhecidos? Repelimos com muito gosto qualquer influência sobrenatural, embora ela possa ser admitida em certos casos. O que não nos parece provado é a inexistência de fluidos desconhecidos. Entre outros, conta o fluido magnético numerosos partidários, cujas afirmações merecem tanta autoridade quanto as negações de seus adversários. Seja como for, a varinha mágica realizou maravilhas que podem nada ter de sobrenatural, mas que a Ciência é incapaz de explicar, ela que, aliás, muito pouco explica de todas as que vemos produzir-se diariamente à nossa volta, na vida do menor pé de erva. A modéstia é uma virtude que lhe faz falta, e que ele faria bem em adquirir.

“Entre outras maravilhas, as que realizava Jacques Aymar, do qual falamos há pouco, mereciam ser relatadas minuciosamente. Certa vez, entre outras, ele foi chamado a Lyon, no dia seguinte a um grande crime cometido naquela cidade. Armado de sua varinha, explorou a adega que tinha sido o teatro do crime, declarando que os assassinos eram três; depois, começou a seguir suas pegadas, que o conduziram a um jardineiro, cuja casa estava situada à margem do Ródano, o qual afirmou que eles ali haviam entrado e bebido uma garrafa de vinho. O jardineiro protestou, negando; mas, interrogados, seus filhos pequenos confessaram que três indivíduos tinham vindo, na ausência do pai, e que lhes haviam vendido vinho. Então Aymar, retomando o caminho e sempre conduzido pela varinha, descobriu o local onde tinham embarcado no Ródano, W entrou numa canoa, desceu em todos os lugares onde eles desceram, foi ao campo de Sablon, entre Vienne W e Saint-Vallier, achou que ali demoraram alguns dias, continuou a sua perseguição e, de etapa em etapa, chegou até Beaucaire, em plena feira, percorrendo as suas ruas apinhadas de gente e se detendo diante da porta da prisão, onde entrou e apontou um pequeno corcunda como um dos assassinos. A seguir suas investigações lhe apontaram que os outros dois tinham se dirigido para os lados de Nimes, W mas as autoridades policiais não quiseram levar suas pesquisas mais longe. Conduzido a Lyon, o corcunda confessou o crime e foi esquartejado vivo.

“Eis a proeza de Jacques Aymar e proezas tão surpreendentes quanto esta são numerosas em sua vida. O Sr. Louis Figuier o admite em todas as circunstâncias. Aliás, não podia fazer de outro modo, desde que é atestado por centenas de testemunhas, cuja veracidade não se pode suspeitar “por três relatos e várias cartas concordantes, escritas pelas testemunhas e pelos magistrados, homens igualmente honrados e desinteressados e que ninguém, no público contemporâneo, suspeitou de um acordo verdadeiramente impossível entre eles.”Mas como aqui uma explicação física não podia ser aventada, ele se viu obrigado a renunciar ao seu processo ordinário e se atirou num labirinto de suposições mais engenhosas que verossímeis. Transforma Jacques Aymar num agente de polícia de uma perspicácia que suplanta a do Sr. de Sartines, por mais célebre que seja. Junto a ele, nossos mais inteligentes chefes de polícia de segurança não passariam de escolares. Ele supõe, assim, que esse agitador de varinha, durante as três ou quatro horas passadas em Lyon, antes de começar suas experiências teve tempo de colher informações e descobrir o que as próprias autoridades judiciárias ignoravam. Foi à casa do jardineiro porque era de presumir que os assassinos tivessem embarcado no Ródano, a fim de se afastarem mais depressa; adivinhou que tinham bebido vinho porque tinham sede; abordou a margem do rio em toda parte onde se soube que eles tinham realmente atracado, porque esses lugares habituais de acostagem lhe eram conhecidos; deteve-se no campo de Sablon porque era evidente que queriam ver o espetáculo da reunião de tropas; dirigiu-se a Beaucaire W porque era certo que o desejo de dar um bom golpe ali os teria conduzido; parou, finalmente, à porta da prisão porque era provável que um deles tivesse tido o azar de ser preso. “Eis por que vossa filha é muda!” diz Sganarelle; e o Sr. Louis Figuier não diz melhor, nem diferente. Sobretudo crê triunfar, porque Jacques Aymar, tendo sido mais tarde chamado a Paris, pelos rumores de sua fama, aí viu sua perspicácia sofrer reais fracassos, ao lado de alguns triunfos reais também. Mas por esses eclipses, que lhe valeram certo desfavor, menos que qualquer outro, o Sr. Louis Figuier lhe devia censurar; menos que qualquer outro ele poderia se sentir autorizado para o declarar um impostor, ele que sabe melhor que ninguém, ele que reconhece, a propósito do magnetismo, que esses gêneros de experiências são caprichosos, bem-sucedidos num dia e malogrados no outro. A essa inconsequência ele junta, por fim, uma segunda, menos desculpável. Não contente de acusar Jacques Aymar de charlatanismo, pronuncia a mesma condenação contra quase todos os giradores de varinha, cujos gestos e feitos relata, e na discussão diz: “Entre os numerosos adeptos práticos, só um pequeno número era de má-fé; ainda não o eram sempre; o maior número operava com inteira sinceridade. Realmente a varinha girava em suas mãos, independente de qualquer artifício, e o fenômeno, enquanto fato, era bem real.” Bem, muito bem, não pode ser melhor: aí está a verdade. Mas como e por que girava? Impossível escapar a essa interrogação indiscreta. Ora, o Sr. Louis Figuier responde assim: “Esse movimento da varinha era operado em virtude de um ato de seu pensamento e sem que eles tivessem a menor consciência dessa ação secreta de sua vontade.” Sempre essa inconsciência, mais maravilhosa que o maravilhoso que repelem! Acredite quem quiser.” [v. A bibliografia católica contra o Espiritismo]

.Escande



[1] [Histoire du merveilleux dans les temps modernes - Google Books, par Louis Figuier]


[2] Não são os Espíritos que nos fazem agir e pensar, mas um Espírito que é a nossa alma. Negar esse Espírito é negar a alma; negar a alma é proclamar o materialismo puro. O Sr. Figuier parece pensar que, como ele, ninguém crê possuir uma alma imortal, ou que ele crê ser todo o mundo.


[3] Escritório, Rua Sainte-Anne, 63; nº de 22 de fevereiro de 1861. Preço por nº, 1 fr.


[4] [v. A. J. de Montègre]


[5] [v. Hecquet]


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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