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Revista espírita — Ano III — Outubro de 1860 ©

(Édition Française)

 

Banquete

oferecido pelos espíritas lioneses ao Sr. Allan Kardec, a 19 de setembro de 1860.

 

  • 1. Homenagem dos espíritas lioneses a Allan Kardec por ocasião de sua visita a Lyon, a 19 de setembro de 1860 — Discurso do Sr. Guillaume.
  • 2. RESPOSTA DO SR. ALLAN KARDEC

       Suas escusas em receber elogios pessoais.

       Impressões de sua visita a Lyon.

       As três categorias de adeptos do Espiritismo.

      Conselhos aos espíritas lioneses:

        Sobre a conveniência da formação de uma grande Sociedade Espírita ou vários pequenos Grupos Espíritas.

        Do critério para saber qual Centro ou qual Grupo está mais de acordo com os princípios espíritas.

        Do modo de aferição dos Espíritos que presidem às reuniões espíritas.

        Como apreciar a natureza das influências exercidas pelos Espíritos nos diferentes Grupos.

      O futuro do Espiritismo.

      O Codificador se despede dos confrades lioneses.

 


 

1. — Nesta reunião íntima e familiar, um dos membros, Sr. Guillaume, houve por bem expor os sentimentos dos espíritas lioneses na alocução que segue. Lendo-a, compreenderão que devemos ter hesitado em publicá-la na Revista, malgrado o desejo que nos foi expresso. Assim, não foi senão cedendo a instâncias que concordamos, temendo, por outro lado, que a recusa pudesse ser interpretada como falta de reconhecimento aos testemunhos de simpatia que recebemos. Rogamos, pois, aos leitores, que façam abstração da pessoa, vendo, nessas palavras, apenas uma homenagem prestada à doutrina.

“Ao Sr. Allan Kardec; ao zeloso propagador da Doutrina Espírita!

“É graças à sua coragem, às suas luzes e à sua dedicada perseverança que devemos a felicidade de estar hoje reunidos neste banquete simpático e fraterno.

“Que todos os espíritas lioneses jamais esqueçam que, se têm a felicidade de sentir-se melhorados, apesar de todas as influências perniciosas que muitas vezes desviam o homem da senda do bem, devem-no ao O Livro dos Espíritos.

“Se sua existência se suavizou, se seu coração está mais depurado e mais afetuoso; se dele expulsaram a cólera e a vingança, devem-no ao O Livro dos Espíritos.

“Se, na vida privada, suportam com coragem os revezes da fortuna; se repelem todos os meios baseados na astúcia e na mentira para adquirir os bens terrenos, devem-no ao O Livro dos Espíritos, que os fez compreender a prova e acendeu-lhes a luz que dissipa as trevas.

“Se um dia, que talvez não esteja longe, os homens se tornarem humanos, fraternos e dedicados a uma mesma fé; se, para eles, a caridade não mais for uma palavra vã, isso ainda deverão ao O Livro dos Espíritos, ditado pelos melhores dentre eles ao Sr. Allan Kardec, escolhido para espalhar a luz.

“À união sincera dos espíritas lioneses! À Sociedade Espírita Parisiense, cuja irradiação a todos esclareceu, verdadeira sentinela avançada, incumbida de desbravar a estrada difícil do progresso! Paris W é o cérebro do Espiritismo, como Lyon W merece, por sua união, seu trabalho, suas luzes e seu amor, ser o seu coração.

“Quando o coração e o espírito estiverem unidos na mesma fé, para alcançar o mesmo objetivo, logo só haverá na França irmãos amorosos e dedicados. Cresçamos, pois, pela união no amor, e em breve os nossos sentimentos, os nossos princípios cobrirão o mundo inteiro. O Espiritismo, senhoras e senhores, é o único meio para chegarmos prontamente ao Reino de Deus.

“Honra à Sociedade Espírita Parisiense! Honra ao Sr. Allan Kardec, o fundador e o primeiro elo da grande corrente espírita!”

.Guillaume

 

2. RESPOSTA DO SR. ALLAN KARDEC

 

Senhoras, senhores, e todos vós, meus caros e bons irmãos em Espiritismo.

A acolhida tão amiga e benévola que recebo entre vós, desde a minha chegada, seria bastante para me encher de orgulho, se eu não compreendesse que tais testemunhos se dirigem menos à pessoa do que à doutrina, da qual não passo de um dos mais humildes operários; é a consagração de um princípio e me sinto duplamente feliz, porque esse princípio deve um dia assegurar a felicidade do homem e o repouso da sociedade, quando for bem compreendido e, melhor ainda, bem praticado. Seus adversários só o combatem porque não o compreendem. Cabe a nós, aos verdadeiros espíritas, aos que veem no Espiritismo algo além de experiências mais ou menos curiosas, fazê-lo compreendido e espalhado, tanto pregado pelo exemplo quanto pela palavra. O Livro dos Espíritos teve como resultado fazer ver o seu alcance filosófico. Se esse livro tem algum mérito, seria presunção minha orgulhar-me disso, porquanto a doutrina que encerra não é criação minha. Toda honra do bem que ele fez pertence aos sábios Espíritos que o ditaram e quiseram servir-se de mim. Posso, pois, ouvir o elogio, sem que seja ferida a minha modéstia, e sem que o meu amor-próprio por isso fique exaltado. Se eu quisesse prevalecer-me disto, por certo teria reivindicado a sua concepção, em vez de atribuí-la aos Espíritos; e se pudesse duvidar da superioridade daqueles que cooperaram, bastaria considerar a influência que ele exerceu em tão pouco tempo, só pelo poder da lógica, sem contar com nenhum dos meios materiais próprios para superexcitar a curiosidade.

Seja como for, senhores, a cordialidade do vosso acolhimento para mim será um poderoso estímulo na tarefa laboriosa que empreendi e da qual fiz a razão de minha vida, pois me dá a certeza consoladora de que os homens de coração já não são tão raros neste século material, como se comprazem em afirmar. Os sentimentos que em mim fazem nascer esses testemunhos benevolentes são mais bem compreendidos do que expressos, e o que lhes dá, aos meus olhos, um valor inestimável, é que não têm por móvel nenhuma consideração pessoal. Agradeço-vos do fundo do coração, em nome do Espiritismo e, sobretudo, em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que ficará feliz com as demonstrações de simpatia com que vos dignais de lhe dar, e orgulhosa de contar em Lyon tão grande número de bons e leais confrades. Permiti-me descrever, nalgumas palavras, as impressões que levo de minha breve passagem entre vós.

A primeira coisa que me impressionou foi o número de adeptos. Eu bem sabia que Lyon os contava em grande número, mas estava longe de suspeitar que fosse tão considerável, pois são contados às centenas e logo, espero, não se poderá mais contá-los. Mas se Lyon se distingue pelo número, não o faz menos pela qualidade, o que é ainda melhor. Por toda parte só encontrei espíritas sinceros, que compreendem a doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista.

Há, senhores, três categorias de adeptos: os que se limitam a acreditar na realidade das manifestações e que, antes de mais, buscam os fenômenos. Para eles o Espiritismo é uma série de fatos mais ou menos interessantes.

Os segundos veem algo mais do que fatos; compreendem o seu alcance filosófico; admiram a moral que dele resulta, mas não a praticam. Para eles a caridade moral é uma bela máxima, e eis tudo.

Os terceiros, enfim, não se contentam em admirar a moral: praticam-na e aceitam todas as suas consequências. Bem convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar esses curtos instantes para marchar na senda do progresso que lhes traçam os Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e reprimir suas inclinações más. Suas relações são sempre seguras, porque suas convicções os afastam de todo pensamento do mal. Em tudo a caridade lhes é regra de conduta. São estes os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas-cristãos.

Muito bem, senhores! Eu vos digo com satisfação que aqui não encontrei nenhum adepto da primeira categoria. Em parte alguma vi se ocuparem do Espiritismo por mera curiosidade, ou se servirem das comunicações para assuntos fúteis. Em toda parte o objetivo é nobre, as intenções honestas e, a crer no que vejo e no que me dizem, há muitos da terceira categoria. Honra, pois, aos espíritas lioneses, por haverem tão generosamente penetrado essa via progressiva, sem a qual o Espiritismo não teria objetivo! Tal exemplo não será perdido; terá suas consequências e não foi sem razão, bem o vejo, que outro dia os Espíritos me responderam, por um dos vossos médiuns mais dedicados, conquanto um dos mais obscuros, quando eu lhes exprimia a minha surpresa: “Por que te admirar? Lyon foi a cidade dos mártires. A fé aqui é viva; ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é o cérebro, Lyon será o coração.” A coincidência desta resposta, com a que vos foi dada precedentemente, e que o Sr. Guillaume acaba de recordar em sua alocução, tem algo de muito significativo.

A rapidez com que a doutrina propagou-se nos últimos tempos, apesar da oposição que ainda encontra, ou, talvez, por isso mesmo, pode fazer prever-lhe o futuro. Por uma questão de prudência, evitemos tudo quanto possa produzir uma impressão desagradável e — não digo perder uma causa já assegurada — retardar-lhe o desenvolvimento. Sigamos nisto os conselhos dos sábios Espíritos e não esqueçamos que, neste mundo, muitos sucessos foram comprometidos por excessiva precipitação. Também não nos esqueçamos de que nossos inimigos do outro mundo, assim como os deste, podem procurar arrastar-nos por um caminho perigoso.

Houvestes por bem me pedir alguns conselhos e para mim é um prazer vos dar aqueles que a experiência poderá sugerir-me. Não será mais que uma opinião pessoal, que vos convido a ponderar com a vossa sabedoria e da qual fareis o uso que vos parecer conveniente, pois não tenho a pretensão de me impor como árbitro absoluto.

Tínheis a intenção de formar uma grande sociedade. A respeito já vos disse a minha maneira de pensar, de sorte que me limito a resumi-la aqui.

Sabe-se que as melhores comunicações são obtidas em reuniões pouco numerosas,  n  sobretudo naquelas em que reinam harmonia e comunhão de sentimentos. Ora, quanto maior for o número, mais difícil será a obtenção dessa homogeneidade. Como é impossível que no começo de uma ciência, ainda tão nova, não surjam algumas divergências na maneira de apreciar certas coisas, dessa divergência infalivelmente nasceria um mal-estar, que poderá levar à desunião. Ao contrário, os pequenos grupos serão sempre mais homogêneos; as pessoas se conhecem melhor, estão mais em família e podem ser mais bem admitidos as que desejamos. E, como em última análise, todos tendem para um mesmo objetivo, podem entender-se perfeitamente e haverão de entender-se tanto melhor quanto não haja aquele melindre incessante, que é incompatível com o recolhimento e a concentração de espírito. Os maus Espíritos, que buscam incessantemente semear a discórdia, ferindo suscetibilidades, terão sempre menos domínio num pequeno grupo do que num meio numeroso e heterogêneo. Numa palavra, a unidade de vistas e de sentimento nele será mais fácil de estabelecer.

A multiplicidade dos grupos tem outra vantagem: a de obter uma variedade muito maior de comunicações, pela diversidade de aptidão dos médiuns. Que essas reuniões parciais comuniquem reciprocamente o que elas obtêm, cada uma por seu lado, de modo que todas aproveitem os seus mútuos trabalhos. Aliás, chegará o momento em que o número de aderentes não permitiria mais uma reunião única, que deveria fracionar-se pela força das coisas. Eis por que preferível é fazer imediatamente aquilo que serão obrigados a fazer mais tarde.

Incontestavelmente, do ponto de vista da propaganda, não é nas grandes reuniões que os neófitos podem colher elementos de convicção, mas na intimidade. Há, pois, um duplo motivo para preferir os pequenos grupos, que podem multiplicar-se ao infinito. Ora, vinte grupos de dez pessoas, por exemplo, indiscutivelmente obterão mais e farão mais prosélitos que uma reunião única de duzentas pessoas.

Há pouco falei das divergências que podem surgir, e disse que elas não deviam criar obstáculos ao perfeito entendimento entre os diferentes centros. Com efeito, essas divergências só podem dar-se nos detalhes e não sobre o fundo. O objetivo é o mesmo: o melhoramento moral; o meio é o mesmo: o ensino dado pelos Espíritos. Se tal ensino fosse contraditório; se, evidentemente, um devesse ser falso e o outro verdadeiro, notai bem que isto não poderia alterar o objetivo, que é conduzir o homem ao bem, para sua maior felicidade presente e futura. Ora, o bem não poderia ter dois pesos e duas medidas. Do ponto de vista científico ou dogmático é, contudo, útil ou, pelo menos, interessante, saber quem está certo e quem está errado. Pois bem! Tendes um critério infalível para o apreciar, quer se trate de simples detalhes, quer de sistemas radicalmente divergentes; e isto se aplica não somente aos sistemas espíritas, mas a todos os sistemas filosóficos.

Examinai, antes, o que é mais lógico, o que melhor corresponde às vossas aspirações, que melhor pode alcançar o objetivo. O mais verdadeiro será, evidentemente, aquele que explica melhor, que melhor dá a razão de tudo. Se se puder opor a um sistema um único fato em contradição com a sua teoria, é que a teoria é falsa ou incompleta. A seguir, examinai os resultados práticos de cada sistema; a verdade deve estar do lado de quem produz maior soma de bem, exerce uma influência mais salutar, produz mais homens bons e virtuosos e impele ao bem pelos motivos mais puros e mais racionais. A felicidade é o objetivo constante a que aspira o homem. A verdade estará do lado do sistema que proporciona maior soma de satisfação moral; numa palavra, que torna o homem mais feliz.

Como o ensino vem dos Espíritos, os diversos grupos, assim como os indivíduos, acham-se sob a influência de certos Espíritos que presidem aos seus trabalhos, ou os dirigem moralmente. Se esses Espíritos não estiverem de acordo, a questão será saber qual o que merece mais confiança. Evidentemente, será aquele cuja teoria não pode suscitar nenhuma objeção séria; em suma, aquele que, em todos os pontos, dá mais provas de sua superioridade. Se tudo for bom, racional nesse ensino, pouco importa o nome que toma o Espírito; e, neste sentido, a questão da identidade é absolutamente secundária. Se, sob um nome respeitável, o ensino peca pelas qualidades essenciais, podeis, sem qualquer vacilação, concluir que é um nome apócrifo e que é um Espírito impostor, ou que se diverte. Regra geral: jamais o nome é uma garantia; a única, a verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira por que este é expresso. Os Espíritos enganadores são capazes de imitar tudo, tudo mesmo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento.

Não tenho intenção, senhores, de vos dar aqui um curso de Espiritismo, e talvez esteja abusando de vossa paciência com todos esses detalhes. Entretanto, não me posso furtar a acrescentar mais algumas palavras.

Acontece muitas vezes que os Espíritos, para fazer adotar certas utopias, afetam um falso saber e tentam impô-las retirando do arsenal de palavras técnicas tudo quanto possa fascinar aquele que acredita muito facilmente. Dispõem, ainda, de um meio mais fácil, que é o de aparentar virtudes. Arrimados nas grandes palavras: caridade, fraternidade e humildade, esperam fazer passar os mais grosseiros absurdos. É isso que acontece com frequência, quando não se está prevenido; é preciso, pois, não se deixar levar pelas aparências, tanto da parte dos Espíritos quanto dos homens. Confesso: eis aí uma das maiores dificuldades. Contudo, jamais se disse que o Espiritismo fosse uma ciência fácil. Ele tem os seus escolhos, que só podem ser evitados pela experiência. Para não cair na cilada é necessário, primeiro, guardar-se contra o entusiasmo que cega, do orgulho que leva certos médiuns a se julgarem os únicos intérpretes da verdade. É preciso tudo examinar friamente, pesar tudo maduramente, tudo controlar; e, se se desconfia do próprio julgamento, o que muitas vezes é mais prudente, é preciso reportar a outros, conforme o provérbio de que quatro olhos veem mais do que dois. Um falso amor-próprio ou uma obsessão podem, por si só, fazer persistir uma ideia notoriamente falsa e que é repelida pelo bom-senso de cada um.

Não ignoro, senhores, ter aqui muitos adversários. Isto vos espanta, e, no entanto, nada é mais verdadeiro. Sim, aqui há os que me ouvem com indignação; não digo entre vós — graças a Deus! — onde só espero ter amigos. Quero falar dos Espíritos enganadores, que não querem que vos dê os meios de os desmascarar, porque descubro as suas astúcias e porque, pondo-vos em guarda, eu lhes tiro o domínio que poderiam ter sobre vós. A tal respeito, senhores, vos direi que seria um erro imaginar que eles não exerçam esse domínio senão sobre os médiuns. Estai certos de que, estando em toda parte, os Espíritos agem incessantemente sobre nós, sem o sabermos, quer se seja, ou não, espírita ou médium. A mediunidade não os atrai; ao contrário, fornece-lhes o meio de conhecer o inimigo, que se trai sempre. Sempre, ouvi bem, e que só abusa dos que se deixam abusar.

Isto, senhores, leva-me a completar meu pensamento sobre o que acabo de dizer, a respeito das dissidências que poderiam surgir entre os diversos grupos, em consequência da diversidade de ensino. Eu disse que, não obstante algumas divergências, eles poderiam entender-se e devem entender-se, desde que sejam verdadeiros espíritas. Dei-vos o meio de controlar o valor das comunicações; agora vos darei o de apreciar a natureza das influências exercidas sobre cada um. Considerando-se que toda influência salutar emana de um bom Espírito, que tudo quanto é mau vem de fonte má, que os maus Espíritos são os inimigos da união e da concórdia, o grupo que for assistido pelo Espírito do mal será aquele que lançar a pedra sobre o outro e não lhe estender a mão. Quanto a mim, senhores, eu vos considero a todos como irmãos, quer estejais com a verdade, quer com o erro. Mas vos declaro, alto e bom som, que estarei de corpo e alma com os que mostrarem mais caridade, mais abnegação. Se houvesse alguns  — que Deus não permita!  — que alimentassem sentimentos de ódio, inveja, ciúme, eu os lamentaria, porque estariam sob má influência, preferindo acreditar que esses maus pensamentos lhes vêm de um Espírito estranho do que de seu próprio coração. Mas isto só me tornaria suspeita a veracidade das comunicações que pudessem receber, em virtude do princípio de que um Espírito verdadeiramente bom não poderá sugerir senão bons sentimentos.

Terminarei, senhores, esta alocução, por certo já bem longa, com algumas considerações sobre as causas que devem assegurar o futuro do Espiritismo.

Compreendeis todos, pelo que tendes sob os olhos é pelo que sentis em vós mesmos, que dia virá em que o Espiritismo deverá exercer uma imensa influência sobre a estrutura social. Mas o dia em que essa influência será generalizada ainda está longe, sem dúvida. São necessárias gerações para que o homem se despoje do homem velho. Contudo, desde agora, se o bem não pode ser geral, já é individual, e porque esse bem é efetivo, a doutrina que o proporciona é aceita com tanta facilidade, direi mesmo com tanto entusiasmo, por muitos. Com efeito, pondo de lado a sua racionalidade, que filosofia é mais capaz de libertar o pensamento do homem dos laços terrenos, de elevar sua alma para o infinito? Qual a que lhe dá uma ideia mais justa, mais lógica e apoiada sobre as provas mais patentes, de sua natureza e de seu destino? Que seus adversários a substituam por algo de melhor, uma doutrina mais consoladora, que melhor se ponha de acordo com a razão, que substitua a alegria inefável de saber que os seres que nos foram caros na Terra estão junto a nós, que nos veem, nos ouvem, nos falam e nos aconselham; que dê um motivo mais legítimo à resignação; que faça temer menos a morte; que proporcione mais calma nas provas da vida; que, enfim, substitua essa doce quietude experimentada quando se pode dizer: sinto-me melhor. Ante uma doutrina que faça melhor que tudo isto, o Espiritismo deporá as armas.

O Espiritismo torna, pois, soberanamente feliz; com ele, não mais isolamento, nem desespero; ele já poupou muitas faltas, impediu vários crimes, levou a paz a inúmeras famílias, corrigiu muitas imperfeições. Que será, então, quando os homens forem alimentados por tais ideias! Porque, então, vindo o raciocínio, eles se fortificarão e não mais renegarão a alma. Sim, o Espiritismo torna feliz e é isto que lhe dá um poder irresistível e assegura o seu triunfo futuro. Os homens querem a felicidade; como o Espiritismo a oferece, eles se lançarão em seus braços. Desejam aniquilá-lo? Então deem ao homem uma fonte maior de felicidade e de esperança. Isto quanto aos indivíduos.

Duas outras forças parecem ter receado o seu aparecimento: a autoridade civil e a autoridade religiosa. Por quê? Porque não o conhecem. Hoje a Igreja começa a ver que nele encontrará uma arma poderosa para combater a incredulidade, a solução lógica de vários dogmas embaraçosos e, finalmente, que ele já conduz aos seus deveres de cristãos um bom número de ovelhas desgarradas. Por seu lado, o poder civil começa a ter provas de sua benéfica influência sobre a moralidade das classes laboriosas, às quais essa doutrina, pela convicção, inculca ideias de ordem e de respeito à propriedade, fazendo compreender o nada das utopias. Testemunha metamorfoses morais quase miraculosas e em breve entreverá, na difusão dessas ideias, um alimento mais útil ao pensamento que as alegrias dos cabarés ou o tumulto da praça pública e, consequentemente, uma salvaguarda para a sociedade. Assim, povo, Igreja e poder, um dia vendo nele um dique contra a brutalidade das paixões, uma garantia da ordem e da tranquilidade, um retorno às ideias religiosas que se extinguem, ninguém terá interesse em obstaculizar a sua marcha. Ao contrário, cada um buscará no Espiritismo um apoio. Aliás, quem poderia deter o curso dessa torrente de ideias, que já movimenta suas águas benfazejas nas cinco partes do mundo?

Tais são, meus caros confrades, as considerações que desejava vos submeter. Termino agradecendo novamente vossa bondosa acolhida, cuja lembrança estará sempre presente em minha memória. Agradeço igualmente aos bons Espíritos por toda a satisfação que me proporcionaram durante minha viagem, porquanto, por toda parte onde me detive, também encontrei bons e sinceros espíritas e pude constatar, por meus próprios olhos, o imenso desenvolvimento dessas ideias e com que facilidade elas se enraízam. Por toda parte encontrei pessoas felizes, aflitos consolados, mágoas acalmadas, ódios apaziguados; por toda parte a confiança e a esperança sucedendo às angústias da dúvida e da incerteza. Ainda uma vez, o Espiritismo é a chave da verdadeira felicidade e aí está o segredo de seu poder irresistível. Então é utopia uma doutrina que faz tais prodígios? Que Deus, na sua bondade, meus amigos, se digne vos enviar bons Espíritos para vos assistir nas vossas comunicações, a fim de que sejais esclarecidos sobre as verdades de que estais encarregados de espalhar. Um dia colhereis centuplicados os frutos do bom grão que houverdes semeado.

Que este banquete de amigos, meus mui amados confrades, como os ágapes de outrora, seja o penhor da união entre todos os verdadeiros espíritas!

Levanto um brinde aos espíritas lioneses, tanto no meu quanto no nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

 

Allan Kardec

 


[1] N. do T.: Vide o Livro dos Médiuns, segunda parte, capítulo XXIX, especialmente o item 332.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.