Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano III — Fevereiro de 1860.

(Édition Française)


A Condessa Mathilde de Canossa. n

(Sumário)

1. — Tal é o título de um romance legendário, publicado em 1858, em Roma, pelo R. P. Bresciani, da Companhia de Jesus, n autor do Judeu de Verona. [Le Juif de Vérone ou Les sociétés secrètes en Italie — Google Books.] O assunto da obra é a História, no gênero de Walter Scott, da antiga família de Canossa. Foi por isso que o autor a dedicou ao atual descendente dessa ilustre família, o Marquês Otávio de Canossa, podestade de Verona e camareiro de S. M. o Imperador da Áustria. A ação se passa na Idade Média; os feiticeiros e os magos nela representam um grande papel, e as cenas demoníacas são descritas com uma precisão que faria inveja ao romancista escocês. O autor nos parece menos feliz em sua apreciação dos fenômenos espíritas modernos, das mesas falantes, do magnetismo, do sonambulismo. Ora, eis o que a respeito lemos no capítulo X, página 170:


2. — “Vários de meus leitores — e talvez não sejam em menor número — poderiam admirar-se de ver expostos, nos capítulos precedentes, todo esse aparato de diabruras, de exorcismos, de sortilégios, de alucinações, de irrupções fantásticas, que não ficaria mal nas histórias de serão e nos contos das amas-de-leite. Em nossos dias, quem acredita ainda em necromantes, em feiticeiros, em encantamentos, em fascínio, em filtros, no comércio com o diabo? Desejaríeis reconduzir-nos aos contos azuis de Martin Del Rio, n

às ingênuas superstições do povo e das comadres de esquina, por lendas que eriçam a pele das camponesas bochechudas, que têm medo de lobisomem e impedem de dormir os garotos medrosos, em nome do bicho-papão? Realmente, amigo, este é o momento azado para nos livrarmos dessas frivolidades! — Tal é, mais ou menos, a linguagem que creio ouvir.

“Responderei que, antes de desdenhar as antigas crenças, é preciso que cada um ponha a mão na consciência e se pergunte, com muita franqueza, se ao menos não é tão crédulo quanto algum dos seus antepassados. Vejamos um pouco: Que significa essa voga de magnetizadores e de médiuns, de mesas girantes, falantes e proféticas; de sonâmbulos que veem através de paredes, que leem pelo cotovelo, que têm à sua frente aquilo que se diz e se faz a vinte, trinta, quarenta milhas de distância; que leem e escrevem sem conhecer o á-bê-cê; que, sem saberem uma palavra de Medicina, assinalam, determinam todos os casos patológicos, indicando-lhes as causas e prescrevendo-lhes o remédio nas doses habituais, em todos os termos greco-árabes do vocabulário científico? Que são esses interrogatórios de Espíritos, essas respostas de pessoas mortas e enterradas, essas profecias de acontecimentos futuros? Quem evoca essas sombras? Quem as leva a falar? Quem as faz ver um futuro que não existe? Quem as faz proferir essas blasfêmias contra Deus, contra os santos do céu, contra os sacramentos da Igreja?

“Vejamos, brava gente, falai! Por que essas contorções e esses olhares sombrios? — Ah! quem sabe acabareis me dizendo! Mistérios da Natureza, leis desconhecidas, força da lucidez, sentido oculto no organismo humano! Sutileza do fluido magnético, do influxo nervoso, das ondulações ópticas e acústicas; virtudes secretas que a eletricidade ou o magnetismo excitam no cérebro, no sangue, nas fibras, em todas as partes vitais; potências e forças supremas da vontade e da imaginação.

“Meus amigos, isto são ninharias, palavras vazias de sentido, frases ocas, desvios ambíguos, enigmas que nem compreendeis. Toda a diferença que há entre nós e nossos antepassados é que, para negar um mistério, forjamos cem outros, ao passo que para aquela boa gente um gato era um gato e o diabo, o diabo. Temos a pretensão de dotar a Natureza de forças que ela não tem, nem pode ter; nossos velhos, mais sábios e mais francos diziam, sem muitos rodeios, que havia operações sobrenaturais, tratando-as, muito ingenuamente, de feitiçaria.

“Entretanto, menos versados do que nós no conhecimento dos fenômenos naturais, sem dúvida chegaram algumas vezes a tomar por um efeito prodigioso coisas que não saem da ordem natural, ao passo que os modernos, muito mais esclarecidos, não deixam de olhar bom número de charlatanices dos magnetizadores como efeito misterioso das leis secretas da Natureza, e as operações realmente diabólicas como passes de magia mais ou menos sutis. Mas os homens mais cristãos do velho tempo bem sabiam que os maus Espíritos, evocados por meio de certos sinais, de certas conjurações, de certos pactos, apareciam, respondiam, alucinavam a imaginação, impressionando de mil maneiras e, sobretudo, fazendo o maior mal que podiam aos que com eles conversavam. Confessai, pois, de boa-fé que, mesmo em nossos dias, em maior número que antigamente, temos os nossos necromantes, encantadores e feiticeiros, com a diferença de que os nossos pobres pais tinham horror a esses malefícios, por eles praticados em segredo, nas trevas, nas cavernas, nas florestas, e que muitos se arrependiam, confessavam-se e faziam penitência; hoje, porém, são exercidos nos salões resplandecentes de ouro e luz, na presença de curiosos, de moças, crianças e mães, sem o menor escrúpulo e muitas vezes se deleitando com as superstições da Idade Média.

“Crede-me: em todas as épocas os homens quiseram manter negócios com o demônio, e esse espírito astucioso, embora os homens não o devolvam aos abismos e com ele mantenham comércio, presta-se a todas as transformações. Nos séculos idólatras ele vivia com os oráculos e as pitonisas; mostrava-se sob a forma de pomba, de pega, de galo, de serpente e cantava versos fatídicos. Na Idade Média apresentava-se pedante aos povos bárbaros e lhes aparecia sob formas terríveis, em monstruosas conjurações. Se, por vezes, ele se encolhia e se sutilizava a ponto de se alojar nos cabelos, em garrafinhas, em filtros, que os feiticeiros faziam os amantes beber, não era sem inspirar um grande terror. Hoje, ao contrário, ele se presta à civilização do século; alegra-se no mundo elegante, nos saraus brilhantes; alternadamente, dormindo com os sonâmbulos, dançando com as mesas, escrevendo com as cestas  n Na verdade não é muito gentil? Tem cuidado de não amedrontar ninguém! Veste-se à americana, à inglesa, à parisiense, à alemã. É realmente amável, sob a barba e o bigode fino dos italianos. É a coqueluche dos salões e seria muito desajeitado se não se revestisse de uma distinção irreprochável. Vede, tornou-se tão bom apóstolo que conversa de modo muito cortês com aquela senhora que ainda vai à missa e que, se lhe disserdes: — Cuidado! Há coisas que não são naturais e não o poderiam ser; há nisso algo de nebuloso; os bons cristãos não tratam destas coisas — vos riria na cara e responderia com um arzinho biruta: — Que diacho! tudo isto é muito natural; também sou cristã; mas não sou imbecil.

“Enquanto isso, caso se apresente uma ocasião, ela magnetizará sua filha de vinte anos, a fim de fazer com que leia, na sua intuição magnética, fatos distantes e segredos do futuro.

“Deixo-vos a pensar se esse belo diabo de luvas amarelas deve rir no rosto da boa cristã!”


3. — Deixamos aos nossos leitores o cuidado de apreciar o julgamento do P. Bresciani: em vão aí procurarão, como nós,  argumentos peremptórios contra as ideias espíritas, uma demonstração qualquer da falsidade dessas ideias. Sem dúvida pensa ele que não vale a pena fazer-lhes uma refutação séria e que basta um sopro para dissipá-las. Todavia, parece-nos que, a exemplo da maioria dos adversários, chega ele a uma consequência inteiramente diferente à esperada, desde que não prova, por A mais B, que isto não é, nem pode ser. Como o P. Bresciani é um homem de talento incontestável e de instrução superior, pensamos que, desde que seu objetivo era combater os Espíritos, teve de reunir contra estes as suas armas mais terríveis; donde concluímos que, se não diz muito, é que nada mais tem a dizer; que se não dá outras provas é porque não as tem melhores para opor, sem o que não teria tido o cuidado de deixá-las no fundo do saco. Os mais ridicularizados, em toda essa argumentação, não são os Espíritos, mas o próprio diabo, que é tratado um pouco cavalheirescamente, e não como algo levado a sério. Seríamos induzidos a pensar, diante desse espírito chistoso, que o autor não acredita mais no diabo que nos Espíritos. Se, portanto, como se pretende, o diabo é o agente único de todas as manifestações, forçoso é convir que representa um papel mais divertido que terrível e muito mais capaz de excitar a curiosidade do que amedrontar. Tal é, aliás, até o presente, o resultado de tudo quanto se tem dito e escrito contra o Espiritismo, de modo que mais o têm servido que prejudicado.

Segundo a maioria dos críticos, o fato das manifestações não tem alcance. É um entusiasmo passageiro, um brinquedo de salão e o autor não nos parece tê-lo encarado por um lado mais sério. Se assim é, por que se atormentar? Deixai à moda o cuidado de trazer amanhã outro passatempo, e o Espiritismo viverá o que viveu a mania dos vasos chineses: o espaço de duas estações. Atirando-lhe pedras, dão a impressão de o temer, porquanto não se procura abater senão o que se teme. Se é uma quimera, uma utopia, por que se bater contra moinhos de vento? É verdade, dizem, que o diabo algumas vezes nele se intromete, mas não haveria necessidade de tantos autores, como este, de pintar o diabo com cores róseas, para despertar em todas as mulheres a vontade de o conhecer.

Terá o P. Bresciani examinado bem a questão? Terá pesado o alcance de todas as suas palavras? Que nos permita a dúvida. Quando ele diz: Que são essas respostas de pessoas mortas e enterradas? Quem lhes faz ver um futuro que não existe?, nós nos perguntamos se foi um cristão ou um materialista que escreveu semelhantes coisas, embora o materialista falasse dos mortos com mais respeito. — Quem os faz proferir essas blasfêmias contra Deus? Mas onde estão essas blasfêmias? O autor, que atribui tudo ao diabo, as supôs; saberia, ao contrário, que a confiança mais ilimitada na bondade infinita de Deus é a base do Espiritismo; que tudo nele se faz em nome de Deus; que os Espíritos mais perversos não falam dele senão com temor e respeito, e os bons com amor. Que há nisso de blasfematório? — Mas o que pensar dessas palavras: Temos a pretensão de dotar a Natureza de forças que ela não tem, nem pode ter; nossos velhos, mais sábios, as tratavam, muito ingenuamente, de feitiçaria. Assim, é mais sábio atribuir os fenômenos da Natureza ao diabo do que a Deus. Enquanto proclamamos o poder infinito do Criador, o P. Bresciani lhe impõe limites; a Natureza, que resume a obra divina, não tem, e não pode ter, outras forças além das que conhecemos. Quanto às que poderiam ser descobertas, é mais sábio atribuí-las ao diabo que, assim, seria mais poderoso do que Deus. Há necessidade de indagar de que lado está a blasfêmia ou o maior respeito ao Ser Supremo? — Enfim, o diabo toma todas as aparências: Na verdade, não é muito gentil? Veste-se à americana, à inglesa, à parisiense; é realmente amável, sob a barba e o bigode fino dos italianos e seria muito desajeitado se não se revestisse de uma distinção irreprochável. Não sabemos se os senhores italianos sentir-se-ão envaidecidos por serem tomados como diabos de luvas amarelas. Quem são essas belas senhoras, que fazem coqueluche desses gentis demônios e que, ante o caridoso aviso de que há nisso algo de nebuloso, vos riem no rosto, exclamando: Que diacho! Não sou uma imbecil! Se é uma figura tomada pela realidade, perguntaremos em que mundo elas se servem de tão belas expressões. Lamentamos que o autor não tenha haurido seus conhecimentos de Espiritismo numa fonte mais séria, com o que não falaria tão levianamente. Enquanto não lhe opuserem argumentos mais peremptórios, seus partidários poderão dormir bem tranquilos.



[1] [O Espírito da condessa Matilde de Canossa é um dos personagens do livro Libertação.]


[2] Um vol. in-8, traduzido do italiano. J.-B. Pélagaud et Cie, rue des Saints-Pères, 57, Paris. Preço 3 fr. 50.


[3] Martin Del Rio, sábio jesuíta, nascido em Anvers (Antuérpia) em 1551 e morto em 1608. O autor faz alusão à sua obra intitulada: Disquisitiones Magicœ.


[4] N. do T.: Grifos nossos. No original, guéridons, mesinhas de centro, mesas de pé-de-galo. Preferimos traduzir por cestas, numa alusão às cestas de bico utilizadas na psicografia rudimentar do Espiritismo nascente, e que melhor se aplica ao presente caso.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir