Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano III — Dezembro de 1860

(Édition Française)

DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS

Dissertações Espíritas recebidas ou lidas na Sociedade por diversos médiuns

Entrada de um culpado no mundo dos Espíritos

[Novel]
(Médium – Sra. Costel)

Vou contar-te o que sofri quando morri. Retido no corpo por laços materiais, meu Espírito teve grande dificuldade para se desprender, o que foi uma primeira e grande angústia. A vida que havia deixado aos vinte e quatro anos era ainda tão forte em mim, que não acreditava na sua perda. Procurava meu corpo e estava admirado e apavorado de me ver perdido em meio a essa multidão de sombras. Por fim, a consciência de meu estado e a revelação das faltas que havia cometido em todas as minhas encarnações, me feriram de repente. Uma luz implacável iluminou os mais secretos recônditos de minha alma, que se sentiu nua e tomada de acabrunhante vergonha. Eu buscava escapar, interessando-me por objetos novos, no entanto conhecidos, que me cercavam; os Espíritos radiosos, flutuando no éter, davam-me a ideia de uma felicidade à qual eu não podia aspirar; formas sombrias e desoladas, umas mergulhadas em triste desespero, outras irônicas ou furiosas, deslizavam à minha volta e sobre a terra à qual eu estava preso. Via os humanos se movimentando e lhes invejava a ignorância. Toda uma ordem de sensações desconhecidas ou reencontradas invadia-me ao mesmo tempo. Como que arrastado por uma força irresistível, buscando fugir a essa dor apunhalante, eu transpunha as distâncias, os elementos, os obstáculos materiais, sem que as belezas da Natureza nem os esplendores celestes pudessem acalmar um instante o dilaceramento de minha consciência, nem o pavor que me causava a revelação da eternidade. Um mortal pode pressentir as torturas materiais pelos arrepios da carne, mas as vossas frágeis dores, suavizadas pela esperança, temperadas pelas distrações, mortas pelo esquecimento, jamais vos poderão dar a compreender as angústias de uma alma que sofre sem tréguas, sem esperança, sem arrependimento. Passei um tempo, cuja duração não posso apreciar, invejando os eleitos, dos quais entrevia o esplendor, detestando os maus Espíritos que me perseguiam com as suas zombarias, desprezando os humanos, cujas torpezas eu via, passando de um profundo abatimento a uma revolta insensata.

Por fim, me acalmaste. Escutei os ensinos que te davam teus guias. A verdade me penetrou e eu orei: Deus me ouviu. Revelou-se a mim por sua clemência, como se havia revelado pela sua justiça.

.Novel


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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