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Revista espírita — Ano II — Dezembro de 1859 ©

(Édition Française)

 

Um antigo carreteiro

 

  • 1. Um médium assediado pelo Espírito que assombrava seus novos aposentos: “Desde que ocupa o cômodo em que atualmente reside, um Espírito inferior interfere em suas comunicações, intrometendo-se até mesmo em seus trabalhos pessoais”. Estando o médium em casa do Sr. Allan Kardec este mantém com o Espírito breve palestra.
  • 2. Um Espírito superior fala das condições desse Espírito obsessor que atormentava o médium psicógrafo e responde a algumas perguntas relativas ao caso:

       Quando vivo, qual era o caráter desse homem? Por que meio pode o Sr. V… desembaraçar-se dele?  (2-3)

      Então há realmente lugares assombrados por certos Espíritos? Os Espíritos que assombram certos lugares podem torná-los fatalmente funestos ou propícios para as pessoas que os habitam? Alguém que não fosse médium, que jamais tivesse ouvido falar de Espíritos ou que neles não acreditasse, poderia sofrer essa influência e ser alvo dos vexames de tais entidades?  (4-6)

      Há algum fundamento na crença de que os Espíritos frequentam de preferência as ruínas ou as casas abandonadas? R. Superstição.  (7)

      Então os Espíritos assombrarão tanto uma casa nova da Rua de Rivoli quanto um velho casebre? R. Certamente, porquanto podem ser atraídos para um lugar, em vez de o serem para outro, consoante a disposição de espírito dos seus moradores.  (8)

  • 3. Evocação do Espírito obsessor do médium psicógrafo.
  • 4. OBSERVAÇÕES DE ALLAN KARDEC relativamente à influência que os homens podem exercer sobre os Espíritos, e por meio da qual podem contribuir para a sua melhoria.

       Recomendações a respeito da evocação de Espíritos inferiores.

 


 

1. — O excelente médium Sr. V… é um rapaz que geralmente se distingue pela pureza de suas relações com o mundo espírita. Todavia, desde que ocupa o cômodo em que atualmente reside, um Espírito inferior interfere em suas comunicações, intrometendo-se até mesmo em seus trabalhos pessoais. Achando-se uma noite — 6 de setembro de 1859 — em casa do Sr. Allan Kardec, com quem devia trabalhar, foi importunado por aquele Espírito, que lhe fazia traçar coisas incoerentes ou o impedia de escrever. Dirigindo-se ao Espírito, o Sr. Allan Kardec manteve com ele a seguinte conversa:

 

1. Por que vens aqui se ninguém te chamou?

Resp. – Quero atormentá-lo.

 

2. Quem és tu? Dize o teu nome.

Resp. – Não o direi.

 

3. Qual o teu objetivo, intrometendo-se naquilo que não te diz respeito? Isto não te traz nenhum proveito.

Resp. – Não; mas o impeço de ter boas comunicações e sei que isto o magoa bastante.

 

4. És um mau Espírito, pois te alegras em fazer o mal. Em nome de Deus, eu te intimo a que te retires e nos deixes trabalhar em paz.

Resp. – Pensas amedrontar-me com esse vozeirão?

 

5. Se não é de mim que tens medo, por certo o terás de Deus, em nome do qual te falo e que bem poderá fazer que te arrependas de tua maldade.

Resp. – Não nos zanguemos, burguês.

 

6. Repito que és um mau Espírito e mais uma vez te peço que não nos impeças de trabalhar.

Resp. – Sou o que sou; é a minha natureza.

 

2. — Tendo sido chamado um Espírito superior, ao qual foi pedido que afastasse o intruso, a fim de não ser interrompido o trabalho, o mau Espírito provavelmente se foi, porque durante todo o resto da noite não houve mais nenhuma interrupção.

 

1. Tendo sido chamado um Espírito superior, a quem foi pedido que afastasse o intruso, a fim de não ser interrompido o trabalho, o mau Espírito provavelmente foi embora, porque durante o resto da noite não houve mais nenhuma interrupção. Interrogado sobre a natureza desse Espírito, respondeu o que fora chamado:

Esse Espírito, da mais baixa classe, é um antigo carreteiro, falecido perto da casa onde mora o médium V… Escolheu para domicílio o próprio quarto do médium e há muito tempo é ele que o obsidia e o atormenta continuamente. Agora, que sabe que o médium deve deixar o alojamento, por ordem dos Espíritos superiores, atormenta-o mais que nunca. É ainda uma prova de que o médium não escreve o seu próprio pensamento. Vês, assim, que há boas coisas, mesmo nas mais desagradáveis aventuras da vida. Deus revela seu poder por todos os meios possíveis.

 

2. Quando vivo, qual era o caráter desse homem?

Resp. – Tudo o que mais se aproxima do animal. Creio que seus cavalos tinham mais inteligência e sentimento do que ele.

 

3. Por que meio pode o Sr. V… desembaraçar-se dele?

Resp. – Há dois: o meio espiritual, pedindo a Deus; o meio material, deixando a casa onde está.

 

4. Então há realmente lugares assombrados por certos Espíritos?

Resp. – Sim, Espíritos que ainda estão sob a influência da matéria ligam-se a certos locais.

 

5. Os Espíritos que assombram certos lugares podem torná-los fatalmente funestos ou propícios para as pessoas que os habitam?

Resp. – Quem os poderia impedir? Mortos, exercem sua influência como Espíritos; vivos, exercem-na como homens.

 

6. Alguém que não fosse médium, que jamais tivesse ouvido falar de Espíritos ou que neles não acreditasse, poderia sofrer essa influência e ser alvo dos vexames de tais entidades?

Resp. – Indubitavelmente; isso acontece mais frequentemente do que pensais, e explica muitas coisas.

 

7. Há algum fundamento na crença de que os Espíritos frequentam de preferência as ruínas ou as casas abandonadas?

Resp. – Superstição.

 

8. Então os Espíritos assombrarão tanto uma casa nova da Rua de Rivoli W quanto um velho casebre?

Resp. – Certamente, porquanto podem ser atraídos para um lugar, em vez de o serem para outro, consoante a disposição de espírito dos seus moradores.

 

3. — Tendo sido evocado na Sociedade através do Sr. R…, o Espírito do carreteiro manifestou-se por sinais de violência, quebrando o lápis, que forçava contra o papel, e com uma escrita grosseira, trêmula, irregular e pouco legível.

 

1. Evocação

Resp. – Eis-me aqui.

 

2. Reconheceis o poder de Deus sobre vós?

Resp. – Sim; e daí?

 

3. Por que escolhestes o quarto do Sr. V… e não um outro?

Resp. – Isso me agrada.

 

4. Permanecereis ali muito tempo?

Resp. – Enquanto me sentir bem.

 

5. Então não tendes intenção de melhorar?

Resp. – Veremos isso depois; tenho tempo.

 

6. Estais contrariado por vos termos chamado?

Resp. – Sim.

 

7. Que fazíeis quando vos chamamos?

Resp. – Estava na taverna.

 

8. Estáveis bebendo?

Resp. – Que tolice! Como poderia beber?

 

9. O que queríeis dizer falando de taverna?

Resp. – Quis dizer o que disse.

 

10. Quando vivo, maltratáveis os vossos cavalos?

Resp. – Sois agente de polícia?

 

11. Desejais que oremos por vós?

Resp. – Faríeis isso?

 

12. Certamente. Oramos por todos os que sofrem, porque temos piedade dos infelizes e porque sabemos que grande é a misericórdia divina.

Resp. – Oh! Mesmo assim sois bons camaradas. Gostaria de vos poder apertar a mão. Procurarei merecê-lo. Obrigado!

 

4.Observação: Confirma esta conversa o que a experiência já provou muitas vezes, relativamente à influência que os homens podem exercer sobre os Espíritos, e por meio da qual podem contribuir para a sua melhoria. Mostra a influência da prece. Assim, essa natureza bruta, arredia e quase selvagem encontra-se como que subjugada pelo pensamento do interesse que se pode ter por ele. Temos numerosos exemplos de criminosos que vieram comunicar-se espontaneamente através de médiuns que haviam orado por eles, a fim de testemunharem o seu arrependimento.

Às observações acima, aditaremos as considerações que se seguem, a propósito da evocação de Espíritos inferiores.

Porque ciosos de conservar suas boas relações de além-túmulo, temos visto médiuns que se recusam a servir de intérprete aos Espíritos inferiores que podemos evocar. E de sua parte uma susceptibilidade mal entendida. Pelo fato de evocarmos um Espírito vulgar, e mesmo mau, não significa que iremos ficar sob a sua dependência. Longe disso; ao contrário, nós é que o dominaremos. Não é ele que vem impor-se, mau grado nosso, como na obsessão; nós é que nos impomos; ele não ordena, obedece; somos o seu juiz e não a sua presa. Além disso, podemos ser-lhes úteis por nossos conselhos e nossas preces, e eles nos serão reconhecidos pelo interesse que lhes demonstramos. Estender a mão em socorro é fazer uma boa ação; recusá-la, é faltar com a caridade; ainda mais: é egoísmo e orgulho. Esses seres inferiores, aliás, são para nós um grande ensinamento. Foi por seu intermédio que aprendemos a conhecer as camadas inferiores do mundo espírita, bem como a sorte que aguarda aqueles que aqui fazem mau uso de sua vida. Notemos, ademais, que é quase sempre tremendo que eles comparecem às reuniões sérias, onde dominam os bons Espíritos; ficam envergonhados e se mantêm afastados, ouvindo para se instruírem. Muitas vezes vêm com esse objetivo, mesmo sem terem sido chamados. Por que, então, recusaríamos ouvi-los, quando muitas vezes seu arrependimento e seus sofrimentos são um motivo de edificação ou, pelo menos, de instrução? Não há nada a temer dessas comunicações, desde que ocorram com vistas ao bem. Que seria dos pobres feridos se os médicos se recusassem a tocar em suas chagas?

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.