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Revista espírita — Ano I — Dezembro de 1858 ©

(Édition Française)

 

Conversas familiares de além-túmulo

 

A bela cordoeira

 

  • 1. Notícia de Luisa Charly, cognominada A Bela Cordoeira.

      O retrato falado de Luisa Charly feito pelo médium vidente Sr. Adrien.

  • 2. Evocação de Luisa Charly.

      Solicitada a dizer qual a classe que pertencia entre os Espíritos faz silêncio. Ao que São Luís responde: “Ela aí está; não posso dizer aquilo que ela não quer dizer. Não vedes que, entre os Espíritos que evocais ordinariamente, ela é um dos mais elevados?”  (15)

      Obs. de Allan Kardec quanto a solicitação de provas de identidade aos Espíritos evocados.

  • 3. Dissertação moral de Luisa Charly sobre a verdadeira felicidade.

 


 

1.Notícia. — Louise Charly, chamada Labé, cognominada “A Bela Cordoeira”, nasceu em Lyon W durante o reinado de Francisco I. Era de uma beleza perfeita e recebeu uma educação muito cuidadosa. Sabia grego e latim, falava espanhol e italiano com perfeição e, nessas línguas, fazia poesias que não seriam desaprovadas pelos escritores nacionais. Treinada em todos os exercícios corporais, conhecia a equitação, a ginástica e o manejo de armas. Dotada de um caráter muito enérgico, ela se distinguiu, ao lado de seu pai, entre os mais valentes combatentes do cerco de Perpignan, W em 1542, travestida como capitão Loys. Havendo o cerco fracassado, renunciou à carreira das armas e retornou a Lyon com seu pai. Casou-se com um rico fabricante de cordas, chamado Ennemond Perrin, e logo só seria conhecida como a “Bela Cordoeira”, nome que permaneceu na rua em que morava e no local em que ficavam as oficinas do marido. Instituiu em sua casa reuniões literárias a que eram convidados os espíritos mais esclarecidos da província. Tem-se dela uma coletânea de poesias. Sua reputação de beleza e de mulher de espírito, atraindo à sua casa os homens mais qualificados, excitou o ciúme das senhoras lionesas, que procuravam vingar-se pela calúnia; sua conduta, porém, foi sempre irrepreensível.

Evocada na sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 26 de outubro de 1858, foi-nos dito que ela ainda não podia vir, por motivos que não nos foram explicados. No dia 9 de novembro atendeu ao nosso apelo, e eis a descrição que dela fez o Sr. Adrien, nosso médium vidente:

Cabeça oval; tez pálido-mate; olhos negros, belos e notáveis; sobrancelhas arqueadas; fronte desenvolvida e inteligente; nariz grego, fino; boca média, lábios refletindo a bondade de espírito; dentes muito belos, pequenos, bem-dispostos; cabelos negros de azeviche, ligeiramente crespos; belo porte da cabeça; talhe grande e elegante. Roupas confeccionadas em tecidos brancos.

 

Observação – Sem dúvida nada prova que essa descrição, tanto quanto a precedente [Uma viúva de Malabar], não passem de produto da imaginação do médium, considerando-se que não temos controle; mas quando ele o faz assim com detalhes tão precisos, de pessoas contemporâneas que jamais viu e que são reconhecidas por parentes ou amigos, não podemos duvidar de sua realidade. Daí podemos concluir: desde que vê a uns com uma verdade incontestável, poderá ver os outros. Outra circunstância que deve ser levada em consideração é que sempre vê o mesmo Espírito sob a mesma forma e, ainda que se passassem diversos meses de intervalo, a descrição não sofreria qualquer alteração. Seria preciso nele supor uma memória fenomenal para imaginarmos que se lembrasse dos mínimos detalhes de todos os Espíritos cuja descrição tenha feito, e que se contam às centenas.

 

2. 1. Evocação.

Resp. – Estou aqui.

 

2. Poderíeis ter a bondade de responder a algumas perguntas que gostaríamos de fazer?

Resp. – Com prazer.

 

3. Lembrai-vos da época em que éreis conhecida como “A Bela Cordoeira”?

Resp. – Sim.

 

4. De onde poderiam provir as qualidades viris que vos fizeram abraçar a profissão das armas que, de preferência, segundo as leis da Natureza, é atribuição dos homens?

Resp. – Isso alegrava meu Espírito, ávido de grandes coisas; mais tarde voltou-se para outra ordem de ideias mais sérias. As ideias com as quais nascemos por certo provêm de existências anteriores, de que são os reflexos; entretanto, elas se modificam bastante, seja por novas resoluções, seja pela vontade de Deus.

 

5. Por que esses gostos militares não persistiram, e como puderam, com tanta rapidez, dar lugar aos gostos femininos?

Resp. – Vi coisas que não desejo que vejais.

 

6. Éreis contemporânea de Francisco I e de Carlos V. Poderíeis dar vossa opinião sobre esses dois homens, fazendo um paralelo entre eles?

Resp. – Não quero julgar. Eles tiveram defeitos, vós o sabeis; suas virtudes são pouco numerosas: alguns traços de generosidade é eis tudo. Deixai esse assunto de lado; seus corações poderiam sangrar ainda: eles sofrem bastante!

 

7. Qual era a fonte dessa alta inteligência que vos tornou apta a receber educação tão superior à das mulheres de vosso tempo?

Resp. – Penosas existências e a vontade de Deus.

 

8. Havia, pois, em vós, um progresso anterior?

Resp. – Não poderia ser de outra maneira.

 

9. Essa instrução vos fez progredir como Espírito?

Resp. – Sim.

 

10. Parece que fostes feliz na Terra: sois mais ainda agora?

Resp. – Que pergunta! Por mais feliz que se seja na Terra, a felicidade do Céu é bem diferente! Quantos tesouros, e quantas riquezas, que um dia conhecereis, e dos quais não suspeitais ou ignorais completamente!

 

11. Que entendeis por Céu?

Resp. – Entendo por Céu os outros mundos.

 

12. No momento, que mundo habitais?

Resp. – Habito um mundo que não conheceis; mas a ele estou pouco vinculada: a matéria prende-nos pouco.

 

13. É Júpiter? W

Resp. – Júpiter é um mundo feliz; mas pensais que, dentre todos somente ele seja favorecido por Deus? São tão numerosos quanto os grãos de areia do oceano.

 

14. Conservastes a verve poética que possuíeis aqui?

Resp. – Responderei com prazer, mas receio chocar outros Espíritos ou me colocar abaixo do que realmente sou. Isso faria com que minha resposta vos parecesse inútil, induzindo-vos em erro.

 

15. Poderíeis dizer-nos em que posição poderíamos colocar-vos entre os Espíritos?

Resp. – Não há resposta.

 

(A São Luís): Poderia São Luís responder a isso?

Resp. – Ela aí está; não posso dizer aquilo que ela não quer dizer. Não vedes que, entre os Espíritos que evocais ordinariamente, ela é um dos mais elevados? Aliás, nossos Espíritos não podem apreciar exatamente as distâncias que os separam; para vós elas são incompreensíveis e, todavia, são imensas!

 

16. (A Louise-Charly): Sob que aparência vos achais entre os Espíritos?

Resp. – Adrien acaba de me descrever.

 

17. Por que essa forma, em vez de outra? Por que, enfim, no mundo em que vos encontrais não sois tal qual éreis na Terra?

Resp. – Fui evocada como poetisa; assim vim.

 

18. Poderíeis ditar-nos algumas poesias ou um trecho literário qualquer? Ficaríamos felizes em ter algo vosso.

Resp. – Procurai os meus escritos antigos. Não gostamos dessas provas, principalmente em público: fá-lo-ei, contudo, de outra vez.

 

Observação – Sabe-se que os Espíritos não gostam de ser testados, e as perguntas dessa natureza têm sempre, mais ou menos, esse caráter. É sem dúvida por isso que quase nunca aquiescem. Espontaneamente, e quando menos esperamos, dão-nos por vezes as coisas mais surpreendentes, aquelas provas que em vão lhes teríamos solicitado; mas, quase sempre, basta que se lhes peça uma coisa para que se não a obtenha, sobretudo se percebe um sentimento de curiosidade. Os Espíritos, principalmente os elevados, querem, assim, provar-nos que não estão às nossas ordens.

 

3. — No dia seguinte, “A Bela Cordoeira” ditou espontaneamente, através do médium escrevente que lhe servia de intérprete:

 

“Vou ditar o que te prometi; não são versos, pois não os quero fazer; aliás, não mais recordo os que fiz e não os apreciaríeis: será a prosa mais modesta.

“Na Terra exaltei o amor, a doçura e os bons sentimentos: falava um pouco do que não sabia. Aqui, não é do amor que me ocupo, é de uma caridade ampla, austera, esclarecida; de uma caridade constante, que não tem senão um exemplo na Terra.

“Homens! Pensai que depende de vós ser felizes e fazer do vosso mundo um dos mais avançados do céu: tereis de fazer calar os ódios e as inimizades, esquecer os rancores e as cóleras, perder o orgulho e a vaidade. Deixai tudo isso de lado, semelhante a um fardo que, cedo ou tarde, precisais abandonar. Esse fardo, bem o sei, para vós é um tesouro na Terra; por isso tendes mérito em o abandonar e em perdê-lo; mas no céu ele se torna um obstáculo à vossa felicidade. Crede, pois, em mim: apressai vosso progresso; a verdadeira felicidade é aquela que vem de Deus. Onde encontraríeis prazeres que valham as alegrias que ele dá a seus eleitos, a seus anjos?

“Deus ama os homens que procuram avançar em seu caminho; contai, pois, com seu apoio. Não tendes confiança nele? Julgais que seja perjuro, que não vos deveis entregar a ele completamente, sem restrição? Infelizmente, não quereis entender ou poucos dentre vós entendem; preferis o hoje ao amanhã; vossa visão restrita limita vossos sentimentos, vosso coração e vossa alma, fazendo com que sofrais para progredir, em vez de avançar, natural e facilmente, pelo caminho do bem, por vossa própria vontade, porquanto o sofrimento é o meio que Deus emprega para vos moralizar. Não eviteis, pois, essa via segura, embora terrível para o viajante. Terminarei por vos exortar a não mais encarardes a morte como um flagelo, mas como o portal da verdadeira vida e da verdadeira felicidade.”

.Louise Charly   n 

 


[1] [v. Louise Charly]

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.