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Obras póstumas — 2ª Parte ©

(Édition Française)

 

Capítulo 36

 

PROJETO — 1868

 

Estabelecimento central (2) — Ensino espírita (3) —Publicidade (4) — Viagens (5)

 

1. — Um dos maiores obstáculos capazes de retardar a propagação da Doutrina seria a falta de unidade. O único meio de evitá-la, senão quanto ao presente, pelo menos quanto ao futuro, é formulá-la em todas as suas partes e até nos mais mínimos detalhes, com tanta precisão e clareza, que impossível se torne qualquer interpretação divergente.

Se a doutrina do Cristo deu lugar a tantas controvérsias, se ainda agora tão mal compreendida se acha e tão diversamente praticada, é isso devido a que o Cristo se limitou a um ensinamento oral e a que seus próprios apóstolos apenas transmitiram princípios gerais, que cada um interpretou de acordo com suas ideias ou interesses. Se ele houvesse formulado a organização da Igreja cristã com a precisão de uma lei ou de um regulamento, é incontestável que houvera evitado a maior parte dos cismas e das querelas religiosas, assim como a exploração que foi feita da religião, em proveito das ambições pessoais. Resultou que, se o Cristianismo constituiu, para alguns homens esclarecidos, uma causa de séria reforma moral, não foi e ainda não é para muitos senão objeto de uma crença cega e fanática, resultado que, em grande número de criaturas, gerou a dúvida e a incredulidade absoluta.

Somente o Espiritismo, bem entendido e bem compreendido, pode remediar esse estado de coisas e tornar-se, conforme disseram os Espíritos, a grande alavanca da transformação da Humanidade. A experiência deve esclarecer-nos sobre o caminho a seguir. Mostrando-nos os inconvenientes do passado, ela nos diz claramente que o único meio de serem evitados no futuro consiste em assentar o Espiritismo sobre as bases sólidas de uma doutrina positiva que nada deixe ao arbítrio das interpretações. As dissidências que possam surgir se fundirão por si mesmas na unidade principal que se estabeleceria sobre as bases mais racionais, desde que essas bases sejam clara e não vagamente definidas. Também ressalta destas considerações que essa marcha dirigida com prudência, representa o mais poderoso meio de luta contra os antagonistas da Doutrina Espírita. Todos os sofismas quebrar-se-ão de encontro a princípios aos quais a sã razão nada acharia para opor.

Dois elementos hão de concorrer para o progresso do Espiritismo: o estabelecimento teórico da Doutrina e os meios de a popularizar. O desenvolvimento cada dia maior, que ela toma, multiplica as nossas relações, que somente tendem a ampliar-se, pelo impulso que lhe darão a nova edição de O Livro dos Espíritos e a publicidade que se fará a esse propósito.

Para utilizarmos de maneira proveitosa essas relações, se, depois de constituída a teoria, eu tivesse de concorrer para sua instalação, necessário seria que, além da publicação de minhas obras, dispusesse de meios para exercer uma ação mais direta. Ora, creio fora conveniente que aquele que fundou a teoria pudesse ao mesmo tempo impulsioná-la, porque então haveria mais unidade. Sob esse aspecto, a Sociedade tem necessariamente que exercer grande influência, conforme o disseram os próprios Espíritos; sua ação, porém, não será, em realidade, eficiente, senão quando ela servir de centro e de ponto de ligação donde parta um ensinamento preponderante sobre a opinião pública. Para isso, faz-se mister uma organização mais forte e elementos que ela não possui. No século em que estamos e tendo-se em vista o estado dos nossos costumes, os recursos financeiros são o grande motor de todas as coisas, quando empregados com discernimento. Na hipótese de que esses recursos, de um modo ou doutro, me viessem às mãos, eis o plano que eu seguiria e cuja execução seria proporcional à importância dos meios e subordinada aos conselhos dos Espíritos.

 


 

Estabelecimento central

 

2. — O mais urgente seria prover a Sociedade de um local convenientemente situado e disposto para as reuniões e recepções. Sem lhe dar um luxo desnecessário e, ao demais, sem cabimento, precisaria que nada aí denotasse penúria, mas apresentasse um aspecto tal, que as pessoas de distinção pudessem estar lá sem se considerarem muito diminuídas. Além do alojamento particular onde eu habitasse, deveria possuir:

1° Uma grande sala para as sessões da Sociedade e para as grandes reuniões;

2° Um salão de recepção;

3° Um compartimento destinado às evocações íntimas, espécie de santuário, que não seria profanado por nenhuma ocupação estranha;

4° Um escritório para a Revista, os arquivos e os negócios da Sociedade.

 

Tudo isso disposto e preparado de maneira cômoda e condizente com a sua destinação.

Criar-se-ia uma biblioteca composta de todas as obras e escritos periódicos franceses e estrangeiros, antigos e modernos, relacionados com o Espiritismo.

O salão de recepção estaria aberto todos os dias e a certas horas, para os membros da Sociedade, que aí poderiam conferenciar livremente, ler os jornais e consultar os arquivos e a biblioteca. Os adeptos estrangeiros, de passagem por Paris, seriam aí recebidos, desde que fossem apresentados por um sócio.

Estabelecer-se-ia correspondência regular com os diferentes centros da França e do estrangeiro.

Haveria um empregado secretário e um auxiliar de escritório.

 


 

Ensino espírita

 

3. — Um curso regular de Espiritismo seria professado com o fim de desenvolver os princípios da Ciência e de difundir o gosto pelos estudos sérios. Esse curso teria a vantagem de fundar a unidade de princípios, de fazer adeptos esclarecidos, capazes de espalhar as ideias espíritas e de desenvolver grande número de médiuns. Considero esse curso como de natureza a exercer capital influência sobre o futuro do Espiritismo e sobre suas consequências.  n 

 


 

Publicidade

 

4. — Dar-se-ia maior desenvolvimento à Revista, quer aumentando-se-lhe o número de páginas, quer tornando-se-lhe mais frequente a publicação. Agregar-se-lhe-ia um redator remunerado.

Uma publicidade em larga escala, feita nos jornais de maior circulação, levaria ao mundo inteiro, até às localidades mais distantes, o conhecimento das ideias espíritas, despertaria o desejo de aprofundá-las e, multiplicando-lhes os adeptos, imporia silêncio aos detratores, que logo teriam de ceder, diante do ascendente da opinião geral.

 


 

Viagens

 

5. — Dois ou três meses do ano seriam consagrados a viagens, em visita aos diferentes Centros e a lhes imprimir boa direção.

Se os recursos o permitissem, instituir-se-ia uma caixa para custear as despesas de viagem de certo número de missionários, esclarecidos e talentosos, que seriam encarregados de espalhar a Doutrina.

Uma organização completa e a assistência de auxiliares remunerados, com os quais eu pudesse contar, libertando-me de uma imensidade de ocupações e preocupações, me dariam o lazer necessário para ativar os trabalhos que ainda me restam por fazer e aos quais o atual estado das coisas não permite que eu me consagre tão assiduamente como fora preciso, por me faltar materialmente o tempo e por não serem suficientes para tanto as minhas forças físicas.

Se porventura me estivesse reservado realizar este projeto, em cuja execução eu teria de me haver com a mesma prudência de que usei no passado, indubitavelmente alguns anos bastariam para fazer que a Doutrina avançasse de alguns séculos.

 


[1] [Inspirando-se nessa recomendação do Codificador do Espiritismo a FEB organizou os cursos Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita e Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita que estão disponíveis na subseção Estudos Espíritas]