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Obras póstumas — 2ª Parte ©

(Édition Française)

 

Capítulo 26

 

INSTRUÇÃO RELATIVA À SAÚDE DO SR. ALLAN KARDEC

 

Paris, 23 de abril de 1866 — (Comunicação particular; médium. Sr. D…)

 

Enfraquecendo-se diariamente a saúde do Sr. Allan Kardec, em consequência de trabalhos excessivos, superiores às suas forças, vejo-me na necessidade de repetir novamente, o que já lhe dissera tantas vezes: Precisas de repouso; as forças humanas têm limites que o desejo de que o ensino progrida te leva muitas vezes a ultrapassar. Estás errado, porquanto, procedendo assim, não apressarás a marcha da Doutrina mas arruinarás a tua saúde e te colocarás na impossibilidade material de acabar a tarefa que vieste desempenhar neste mundo. A tua enfermidade atual não é mais do que resultado de um dispêndio incessante de forças vitais, sem dar tempo a que se efetue a reparação necessária, e a um aquecimento do sangue produzido pela falta absoluta de repouso. Sem dúvida, nós te sustentamos, porém sob a condição de que não desfaças o que fizermos. De que serve correr? Não te dissemos já muitas vezes que cada coisa virá a seu tempo e que os Espíritos prepostos ao movimento das ideias sabem fazer que surjam circunstâncias favoráveis, em soando o momento de agir?

Quando se faz preciso que todo espírita concentre suas forças para a luta, pensas que seja do teu dever esgotar as tuas? Não. Em tudo tens que dar o exemplo e teu lugar é na estacada, no momento do perigo. Que farias lá, se, por enfraquecimento, o teu corpo não mais permitisse que teu espírito se utilizasse das armas que a experiência e a revelação te puseram nas mãos? — Ouve-me: deixa para mais tarde as grandes obras destinadas a completar a que está esboçada nas tuas primeiras publicações; teus trabalhos ordinários e algumas pequenas brochuras de urgência bastam para te absorver o tempo e devem constituir os únicos objetos das tuas preocupações atuais.

Não te falo apenas em meu nome; sou aqui o delegado de todos os Espíritos que tão poderosamente têm contribuído para a propagação do ensino, mediante suas sábias instruções. Eles te dizem, por meu intermédio, que esse atraso, que consideras prejudicial ao futuro da doutrina, é uma medida necessária, de mais de um ponto de vista, quer porque certas questões ainda não se acham completamente elucidadas, quer para preparar os Espíritos a melhor assimilá-las. É necessário que outros tenham limpado o terreno, que se ache provada a insustentabilidade de certas teorias e que maior vácuo se haja produzido. Numa palavra: o momento não é oportuno; poupa-te, portanto; quando for tempo, indispensável te será todo o vigor de corpo e de espírito. Até aqui, o Espiritismo foi alvo de muitas diatribes, levantou muitas tempestades. Julgas, porém, que toda essa agitação esteja abrandada, que todos os ódios se tenham acalmado e tornado impotentes? Desilude-te, o cadinho depurador ainda não expeliu todas as impurezas; o porvir lhe reserva outras provas e as últimas crises não serão as menos penosas e difíceis de suportar.

Sei que a tua situação particular te impõe uma imensidade de trabalhos secundários que te consomem a maior parte do tempo. Os pedidos de toda espécie chovem sobre ti e tu te julgas no dever de atendê-los quanto possível. Farei aqui o que não ousarias fazer por ti próprio: dirigindo-me à generalidade dos espíritas, pedir-lhes-ei, no interesse mesmo do Espiritismo, que te evitem toda sobrecarga de trabalho, capaz de consumir instantes que deves consagrar quase exclusivamente à terminação da obra. Se a tua correspondência algo sofrer com isso, em compensação o ensino ganhará.

Às vezes, necessário se torna sacrificar as satisfações individuais ao interesse geral. É uma medida urgente que todos os adeptos sinceros saberão compreender e aprovar.

A volumosa correspondência que recebes é para ti um precioso acervo de documentos e informações; ela te esclarece sobre a verdadeira marcha e os progressos reais da Doutrina; é um termômetro imparcial; proporciona-te, além disso, satisfações morais que por mais de uma vez te têm sustentado a coragem, mostrando-te a adesão que encontram tuas ideias, em todos os pontos do globo. Sob esse aspecto, a superabundância é um bem e não um inconveniente, mas com a condição de te auxiliar os trabalhos e não de os embaraçar, criando-te um acréscimo de ocupações.

Dr. Demeure.

 

Bom Dr. Demeure, agradeço os seus ponderados conselhos. Graças à resolução que tomei de enviar, salvo casos excepcionais, a correspondência habitual a um substituto, ela agora sofre menos e no futuro nada sofrerá; mas, que hei de fazer da que se acha acumulada, mais de quinhentas cartas, a qual, a despeito de toda a minha boa-vontade, não posso chegar a pôr em dia?

Resposta. — É preciso, como se diz em linguagem comercial, lançá-las em bloco à conta de lucros e perdas. Noticiando esta providência pela Revista, os teus correspondentes saberão o que fazer; compreender-lhe-ão a necessidade e a considerarão justificada pelos conselhos que acabamos de dar. Repito, seria impossível que as coisas continuassem como têm ido. Tudo com isso sofreria: a tua saúde e a Doutrina. Convém, quando necessário, saber fazer os sacrifícios indispensáveis. Tranquilizado, doravante, sobre este ponto, poderás entregar-te mais livremente aos teus trabalhos ordinários. Eis o que te aconselha aquele que será sempre teu amigo dedicado.

Demeure.

 

Cedendo a tão sábio conselho, pedimos àqueles dos nossos correspondentes com os quais estávamos desde longo tempo em atraso, que aceitassem as nossas escusas e a manifestação do nosso pesar, por não termos podido responder pormenorizadamente, como desejáramos, às suas atenciosas cartas e que se dignassem de receber, coletivamente, a expressão dos nossos sentimentos fraternais.