Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Obras póstumas

(Édition Française)

Apêndice


UM CASO DE SEGUNDA VISTA

Página inédita de Allan Kardec n

NOTA DA REDAÇÃO — Empreendendo pesquisas em velhos documentos que pertenceram à Sociedade Espírita fundada por Allan Kardec encontramos esta página, alusiva a um caso de segunda vista, página essa escrita, de fio a pavio pelas mãos do mestre. Apressamo-nos, assim, em reproduzi-la.


IMITAÇÃO DO EVANGELHO


FENÔMENO DE CLARIVIDÊNCIA

Paris, 20 de outubro de 1863.

A senhorita V…, natural de Lyon, é dotada de uma notável segunda vista, conseguindo não só ver os Espíritos no estado normal, sem que esteja sonambulizada, como também observar, com grande precisão, os fatos que se desenrolam a distância.

Uma vez em Paris, onde veio passar alguns dias, deliberou visitar-me, na Rua Sainte-Anne, tendo encontrado minha esposa, vez que — desde meu retorno de Sainte-Adresse — me havia eu retirado para Ségur, a fim de, com mais tranquilidade, trabalhar em minha obra sobre o Evangelho. Nosso encontro foi impossível, em vista de ter a senhorita empreendido viagem de regresso ainda naquela tarde. Mas, durante a conversa com minha esposa diz-lhe esta:

— “Uma vez que não podereis avistar-vos com meu marido, o que ele muito lamentará, não poderíeis transportar-vos em Espírito até onde se encontra, e vê-lo?”

Por um instante, recolheu-se a senhorita, e disse:

— “Sim, vejo-o; acha-se num aposento muito iluminado, no pavimento térreo; há ali três janelas… Oh!… e como tudo é alegre! A casa é circundada por jardins… por toda parte árvores e flores… Tudo respira a calma e tranquilidade… Ele está sentado, próximo a uma janela, trabalhando… Está cercado por uma multidão de Espíritos que lhe conservam a boa saúde… alguns há que parecem muito elevados, e o inspiram; um deles especialmente parece ser superior a todos os demais, sendo-lhes objeto de deferências.

Pergunta. — Acaso percebeis a natureza do trabalho de que meu marido se ocupa?

Resposta. — Um momento… Vejo um Espírito que segura um livro de grandes proporções… abre-o e mostra-me o que se acha escrito… leio-o: Evangelho.


OBSERVAÇÃO — Com efeito, trabalhava eu em meu livro sobre os Evangelhos, e cujo título constitui-se ainda em segredo para todos. A senhorita V… não poderia conhece-lo. Quanto à minha esposa, ignorava ela se, naquele momento, me ocupava disso ou de outro qualquer assunto. Nada, consequentemente, podia influenciar o pensamento da clarividente. A descrição dos recantos é, além do mais, precisa, sendo de ressaltar que ela jamais viu esses lugares. A peça onde me instalara está provida de exatamente três janelas, o que não é comum, e, de todos os lados, confina com os jardins. Minha esposa ignorava estivesse eu nesse cômodo, que é o salão. Poderia, com muito maior probabilidade, supor-me no escritório. Todas as circunstâncias comungam na prova de que, em realidade, a senhorita V… a tudo presenciava, não sendo joguete da própria imaginação. Tal fato constitui-se, para mim, numa prova do interesse que os Espíritos tinham por esse trabalho, bem como da assistência que a mim dispensam e a minhas atividades.

Allan Kardec.


Em seguida à transcrição do documento em língua portuguesa, a Federação Espírita Brasileira entrega aos espíritas as páginas 661 e 662 da “Revue Spirite” de 1904, contendo, na íntegra, o texto original francês de UN FAIT DE SECONDE VUE (Page inédite d’Allan Kardec)



[1] Nota da Direção da FEB — No curso da pesquisa que vimos realizando a respeito de Allan Kardec, reunindo dados para uma série de artigos que começamos a publicar, em 1974, no “Reformador”, deparou-se-nos a página, ora transcrita, estampada na Revue Spirite de 1°-11-1904, 47° ano, até então inédita. Sugerimos aos nossos leitores o exame, a propósito do assunto de que se ocupava o Codificador em Ségur — Imitação do Evangelho (posteriormente, como o conhecemos hoje, “Evangelho segundo o Espiritismo”).


(Revista Reformador de 1975, páginas 219 e 220.)


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