Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

O Livro dos Espíritos — Livro III — Esperanças e consolações.

(1ª edição)
(Édition Française)

Capítulo II.


Felicidade e infelicidade na Terra.

(Questões 459 a 473)


459. O homem pode gozar de completa felicidade na Terra? [Questão 920.]

“Não, pois a vida lhe foi dada como prova ou expiação. Mas depende dele amenizar seus males e ser tão feliz quanto possível na Terra.”


460. Concebe-se que o homem será feliz na Terra quando a Humanidade estiver transformada. Mas, enquanto isso não acontece, poderá conseguir uma felicidade relativa? [Questão 921.]

“O homem é quase sempre o artífice de sua própria infelicidade. Pela prática da Lei de Deus, pode furtar-se a muitos males e alcançar felicidade tão grande quanto o comporte sua existência grosseira.”


O homem que se acha bem compenetrado de seu destino futuro não vê na vida corpórea mais que uma estação temporária, como que uma parada momentânea numa hospedaria de má qualidade. Facilmente se consola de alguns aborrecimentos de uma viagem que o levará a uma posição tanto melhor, quanto melhor tenha cuidado dos preparativos para realizá-la.
Somos punidos já nesta vida pelas infrações que cometemos às leis que regem a existência corpórea, por meio dos males decorrentes dessas mesmas infrações e de nossos próprios excessos. Se remontarmos pouco a pouco à origem do que chamamos nossas desgraças terrenas, veremos que, na maioria dos casos, são a consequência de um primeiro afastamento do caminho reto. Em virtude desse desvio, enveredamos por outro, mau, e, de consequência em consequência, caímos na desgraça.


461. A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, algum critério de felicidade comum para todos os homens? [Questão 922.]
“Para a vida material, é a posse do necessário; com relação à vida moral, é a consciência tranquila e a fé no futuro.”


461 a. Contudo, aquilo que para um é supérfluo não representará, para outro, o necessário, e vice-versa, conforme as respectivas posições? [Questão 923.]
“Sim, de acordo com vossas ideias materiais, vosso preconceito, vossa ambição e todos os vossos caprichos ridículos, para os quais o futuro fará justiça, quando compreenderdes a verdade. Sem dúvida, aquele que tinha cinquenta mil libras de renda e a vê reduzida a dez mil, se considera muito infeliz, por não mais poder fazer a mesma figura, conservar o que chama sua posição, ter cavalos, lacaios, fazer suas orgias, etc. Julga que lhe falta o necessário. Mas, francamente, achas que seja digno de lástima, quando, ao seu lado, há muitas pessoas que morrem de fome e de frio, sem um abrigo onde repousem a cabeça? O homem sensato, para ser feliz, olha para baixo, e jamais para cima, a não ser para elevar sua alma ao infinito.”


462. Há males que independem da maneira de agir e que atingem o homem mais justo. Haverá algum meio de se preservar deles? [Questão 924.]
“Não; o homem deve resignar-se e sofrê-los sem murmurar, se quer progredir. Entretanto, sempre encontra consolação na própria consciência, que lhe dá a esperança de um futuro melhor, desde que faça o que é preciso para obtê-lo.”


463. As vicissitudes da vida são sempre a punição das faltas atuais? [Questão 984.]
“Não; como já dissemos, são provas impostas por Deus ou que vós mesmos escolhestes como Espíritos, antes de encarnardes, para expiação das faltas cometidas em outra existência, porque jamais fica impune a infração das leis de Deus e, sobretudo, da lei de justiça. Se não for nesta existência, será necessariamente em outra. Eis por que, aquele que vos parece justo, muitas vezes sofre. É o passado que o pune.”


464. Criando novas necessidades, a civilização não constitui uma fonte de novas aflições? [Questão 926.]
“Sim, os males deste mundo guardam relação com as necessidades artificiais que criais para vós mesmos. Aquele que sabe limitar seus desejos e olha sem inveja o que esteja acima de si, poupa-se a muitos desenganos nesta vida.”


Muitas vezes o homem só é infeliz pela importância que atribui às coisas deste mundo. A vaidade, a ambição e a cupidez, quando frustradas, fazem-no infeliz. Se ele se colocar acima do círculo acanhado da vida material, se elevar os pensamentos para o infinito, que é seu destino, as vicissitudes da Humanidade lhe parecerão mesquinhas e pueris, como a tristeza da criança que se aflige pela perda de um brinquedo que faria sua felicidade suprema. Aquele que só vê felicidade na satisfação do orgulho, da vaidade e dos apetites grosseiros é infeliz, quando não pode satisfazê-los, ao passo que aquele que nada pede ao supérfluo é feliz com aquilo que outros consideram calamidades.


465. Sem dúvida o supérfluo não é indispensável à felicidade, porém o mesmo não se dá com o necessário. Ora, não será real a infelicidade daqueles a quem falta o necessário? [Questão 927.]
“Sim; o homem só é verdadeiramente infeliz quando sofre a falta do necessário à vida e à saúde do corpo. Essa privação talvez se deva à sua própria culpa, caso em que só tem de queixar-se de si mesmo. Se a culpa for de outrem, a responsabilidade recairá sobre quem lhe houver dado causa.”


Com uma organização social criteriosa e previdente, só por culpa do homem pode faltar-lhe o necessário. Muitas vezes, no entanto, suas próprias faltas resultam do meio onde se acha colocado. Quando o homem praticar a Lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, e ele próprio também será melhor. A Terra será o paraíso terrestre quando os homens forem bons. [Questão 930.]


466. Evidentemente, pelas características de nossas aptidões naturais, Deus indica nossa vocação neste mundo. Muitos males não provêm do fato de não seguirmos essa vocação? [Questão 928.]
“Sim, e muitas vezes são os pais que, por orgulho ou avareza, desviam seus filhos do caminho que a Natureza lhes traçou, comprometendo-lhes, desse modo, a felicidade. Serão responsabilizados por isto.”


466 a. Então considerais justo que o filho de um homem altamente colocado no mundo fabrique tamancos, por exemplo, desde que tenha aptidão para tanto? [Questão 928 a.]
“Não se precisa cair no absurdo, nem exagerar coisa alguma: a civilização tem suas necessidades. Por que o filho de um homem altamente colocado, como dizes, haveria de fabricar tamancos, se não tem necessidade disso para viver? Isto, porém, não o impede de tornar-se útil na medida de suas faculdades, desde que não as aplique às avessas. Assim, por exemplo, em vez de mau advogado, talvez pudesse ser excelente mecânico, etc.”


O afastamento dos homens de sua esfera intelectual é, seguramente, uma das causas mais frequentes de decepção. A falta de aptidão para a carreira abraçada é uma fonte inesgotável de reveses. Depois, o amor-próprio, aliando-se a tudo isso, impede que o homem que fracassou procure recursos numa profissão mais humilde, mostrando-lhe o suicídio como remédio extremo para escapar ao que ele julga ser humilhação. Se uma educação moral o tivesse colocado acima dos tolos preconceitos do orgulha, jamais teria sido apanhado desprevenido.


467. De onde vem o desgosto da vida que se apodera de certos indivíduos, sem motivos plausíveis? [Questão 943.]
“Efeito da ociosidade, da falta de fé e, muitas vezes, da saciedade.”


Para aquele que exerce suas faculdades com fim útil e de acordo com suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa com mais rapidez. Suporta suas vicissitudes com tanto mais paciência e resignação, quanto mais age tendo em vista a felicidade mais sólida e mais durável que o espera.


468. Além das penas materiais da vida, o homem fica exposto às penas morais, que não são menos intensas. A perda dos entes que nos são caros não nos causa dar tanto mais legítima porque é irreparável e independente de nossa vontade? [Questão 934.]
“Sim, e atinge tanto o rico quanto o pobre: é uma prova ou uma expiação, e constitui lei para todos. Mas já é um consolo poderdes comunicar-vos com vossos amigos pelos meios que vos estão ao alcance e que se propagam cada vez mais, enquanto não dispondes de outros mais diretos e mais acessíveis aos vossos sentidos.”


468 a. Que se deve pensar da opinião dos que consideram profanação essas espécies de evocação? [Questão 935.]
“Não pode haver profanação quando há recolhimento e quando a evocação é praticada com respeito e conveniência. O que o prova é que os Espíritos que vos consagram afeição atendem com prazer ao vosso chamado. Sentem-se felizes por vos lembrardes deles e por se comunicarem convosco.”


A possibilidade de nos pormos em comunicação com os Espíritos é uma dulcíssima consolação, pois nos proporciona meio de conversarmos com nossos parentes e amigos que deixaram a Terra antes de nós. Pela evocação, eles se aproximam de nós; vêm colocar-se ao nosso lado, nos ouvem e respondem. Desse modo, cessa, por assim dizer, toda separação entre eles e nós. Auxiliam-nos com seus conselhos e nos dão provas do afeto que nos guardam e da alegria que experimentam por nos lembrarmos deles. Para nós é uma satisfação sabê-los felizes e tomar conhecimento, através deles mesmos, dos detalhes de sua nova existência, adquirindo a certeza de que um dia, quando chegar nossa vez, a eles nos iremos juntar.


469. As decepções oriundas da ingratidão e da fragilidade dos laços da amizade não constituem também, para o homem de coração, uma fonte de amarguras? [Questão 937.]
“Sim, mas já vos ensinamos também a lastimar os ingratos e os amigos infiéis: serão mais infelizes do que vós. A ingratidão é filha do egoísmo e o egoísta encontrará mais tarde corações insensíveis, como ele mesmo o foi.”


469 a. Tais decepções não contribuem para endurecer o coração e fechá-lo à sensibilidade? [Questão 938.]
“Seria um erro, pois, como dizes, o homem de coração se sente sempre feliz pelo bem que faz. Sabe que se esse bem não for lembrado nesta vida sê-lo-á em outra, e que o ingrato se envergonhará e terá remorsos de sua ingratidão.”


469 b. Porém, tal raciocínio não impede que seu coração se ulcere. Ora, daí não poderá surgir-lhe a ideia de que seria mais feliz se fosse menos sensível? [Questão 938 a.]
“Sim, se preferir a felicidade do egoísta. Triste felicidade, essa! Saiba ele, pois, que os amigos ingratos que o abandonam não são dignos de sua amizade, e que se enganou a respeito deles; por isso, não deve lamentá-los. Mais tarde encontrará outros amigos que saberão compreendê-lo melhor.”


A Natureza deu ao homem a necessidade de amar e de ser amado. Um dos maiores prazeres que lhe são concedidos na Terra é o de encontrar corações que simpatizem com o seu; dá-lhe ela, assim, as primícias da felicidade que lhe está reservada no mundo dos Espíritos perfeitos, onde tudo é amor e benevolência. Tal ventura é desconhecida do egoísta.


470. Uma vez que os Espíritos simpáticos são levados a unir-se, como é que, entre os encarnados, muitas vezes a afeição existe apenas de um dos lados e o amor mais sincero seja acolhido com indiferença e até com repulsa? Como é, além disso, que a mais viva afeição entre dois seres pode transformar-se em antipatia e, algumas vezes, mesmo em ódio? [Questão 939.]
“Então não compreendes que se trata de punição, embora passageira? Depois, quantos não são os que acreditam amar perdidamente, porque apenas julgam pelas aparências, mas que, quando obrigados a viver com as pessoas, não tardam a reconhecer que não passava de um entusiasmo material! Não basta uma pessoa estar enamorada de outra que lhe agrada e em quem supõe belas qualidades; é vivendo realmente com ela que poderá apreciá-la. Por outro lado, quantas uniões, que a princípio parecem destinadas à antipatia, acabam se transformando em amor terno e duradouro, porque baseado na estima, quando o casal passa a conhecer-se melhor e a analisar-se mais de perto! Cumpre não esquecer que é o Espírito quem ama, e não o corpo, de modo que, dissipada a ilusão material, o Espírito vê a realidade.”


471. A falta de simpatia entre seres destinados a viver juntos não constitui igualmente fonte de dissabores, tanto mais amargos porque envenenam toda a existência? [Questão 940.]
“Muito amargos, realmente. Trata-se, porém, de uma dessas infelicidades de que sois, na maioria das vezes, a causa principal. Em primeiro lugar, são vossas leis que estão erradas; acreditais, porventura, que Deus vos obrigue a permanecer junto dos que vos desagradam? Depois, nessas uniões, geralmente buscais a satisfação do orgulho e da ambição, mais do que a felicidade de uma afeição mútua. Então sofreis as consequências de vossos preconceitos.”


471 a. Mas, nesse caso, não há quase sempre uma vítima inocente? [Questão 940 a.]
“Sim, e para ela constitui dura expiação. Mas a responsabilidade de sua desgraça recairá sobre aqueles que a causaram. Se a luz da verdade já houver penetrado sua alma, a vítima buscará consolação em sua fé no futuro. Ademais, à medida que os preconceitos diminuírem, as causas dessas desgraças íntimas também desaparecerão.”


472. Para muitas pessoas o temor da morte é uma causa de perplexidade. De onde lhes vêm esse temor, já que têm o futuro diante de si? [Questão 941.]
“Sim, é um erro nutrirem semelhante temor. Mas, que queres! Desde a infância procuram convencê-las de que há um inferno e um paraíso, e que mais certo é irem para o inferno, visto como também lhes disseram que o que está na Natureza constitui pecado mortal para a alma. Assim, quando essas pessoas se tornam adultas, se tiverem um pouco de discernimento não poderão admitir tais coisas e se tornam ateias e materialistas. É dessa maneira que são levadas a crer que nada mais existe além da vida presente. Quanto aos que persistiram em suas crenças da infância, esses temem o fogo eterno que os queimará sem os consumir.
“A morte não inspira ao justo nenhum temor, porque, com a fé, ele tem a certeza do futuro; a esperança o faz esperar por uma vida melhor; e a caridade, a cuja lei obedeceu, lhe dá a segurança de que não encontrará, no mundo para onde terá de ir, nenhum ser cujo olhar lhe seja de temer.”


O homem carnal, mais preso à vida corpórea do que à vida espiritual, tem, na Terra, penas e gozos materiais. Sua felicidade consiste na satisfação fugaz de todos os seus desejos. Sua alma, constantemente preocupada e angustiada pelas vicissitudes da vida, mantém-se num estado de ansiedade e tortura perpétuas. A morte o assusta, porque duvida do futuro e tem de deixar no mundo todas as suas afeições e esperanças. O homem moral que se colocou acima das necessidades artificiais criadas pelas paixões, experimenta, já neste mundo, prazeres que o homem material desconhece. A moderação dos desejos dá calma e serenidade ao seu Espírito. Feliz pelo bem que faz, não há decepções para ele, e as contrariedades lhe deslizam por sobre a alma sem deixarem nenhuma impressão dolorosa.


473. Algumas pessoas não acharão um tanto banais esses conselhos para serem felizes na Terra? Que neles vejam o que consideram lugares-comuns, antigas verdades? E que digam, afinal, que o segredo da felicidade consiste em saber cada um suportar sua desgraça? [Questão 942.]
“Sim, há as que dizem isso, e em grande número. Mas, que queres! Muitas procedem como certos doentes a quem o médico prescreve a dieta: gostariam de ser curadas sem remédios e continuando sujeitas a apanhar indigestões.”


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