Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

O Livro dos Espíritos — Livro II — Leis morais.

(1ª edição)
(Édition Française)

Capítulo II.


I. Lei de adoração.

Objetivo e forma da adoração. — Vida contemplativa. — Efeitos da prece. (Questões 306 a 319.)


306. Em que consiste a adoração? [Questão 649.]
“Na elevação do pensamento a Deus.”


307. A adoração resulta de um sentimento inato ou é fruto de um ensino? [Questão 650.]
“Sentimento inato, como o da Divindade. A consciência de sua fraqueza leva o homem a se curvar diante daquele que o pode proteger.”


307 a. Terá havido povos destituídos de todo sentimento de adoração? [Questão 651.]
“Não, porque jamais houve povos ateus. Todos compreendem que acima deles há um Ser supremo.”


307 b. Qual o objetivo da adoração?
“Agradar a Deus, aproximando dele nossa alma.”


A adoração da Divindade é um ato espontâneo do homem e o resultado de sua crença intuitiva na existência do Ser supremo. Encontra-se, sob diversas formas, em todas as épocas e entre todos os povos, porque é um sentimento natural ou, melhor dito, uma lei da Natureza.


308. A adoração necessita de manifestações exteriores? [Questão 653.]
“Não; a verdadeira adoração é a do coração. Em todas as vossas ações, lembrai-vos sempre de que o Senhor vos observa.”


308 a. A adoração exterior é útil? [Questão 653 a.]
“Sim, se não consistir em um vão simulacro. É sempre útil dar um bom exemplo. Porém, os que somente o fazem por afetação e amor-próprio, mas cuja conduta desmente sua aparente piedade, dão mau exemplo e fazem mais mal do que supõem.”


308 b. Deus tem preferência pelos que o adoram desta ou daquela maneira? [Questão 654.]
“Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimônias que não os tornam melhores para com seus semelhantes.”


308 c. Pergunto se existe uma forma exterior mais conveniente do que outra.
“É como se perguntasses se é mais agradável a Deus ser adorado numa língua do que em outra. Todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Ele chama a si todos os que seguem suas leis.” [Questão 654.]


A adoração independe da forma; é sempre agradável a Deus quando procede de um coração sincero e fiel observador da justiça. A adoração que consiste somente na forma é um ato de hipocrisia pelo qual se pode abusar dos homens, mas que não poderia enganar a Deus, que vê o fundo dos corações. Quanta gente finge humilhar-se a Deus para atrair a aprovação dos homens!


309. A adoração em comum é preferível à adoração individual? [Questão 656.]
“Como já dissemos, os homens, reunidos pela comunhão de pensamentos e sentimentos, têm mais força para atrair a si os Espíritos bons. Pois bem! O mesmo se dá quando se reúnem para adorar a Deus. Mas, não penseis que, em razão disso, a adoração particular seja menos valiosa, já que cada um pode adorar a Deus pensando nele.”


310. Qual o objetivo da prece?
“Atrair a si graças particulares.”


310 a. Não poderíamos merecer essas graças a não ser pela prece?
“Não; Deus sabe o que vos é preciso. Entretanto, pela prece atraís mais particularmente sua atenção, porque orar é pensar em Deus e adorá-lo.”


311. Pode-se orar aos Espíritos? [Questão 666.]
“Sim, aos bons. Orar a eles é como os evocar; e quando a prece for sincera não deixarão de vir até vós e vos assistir tanto quanto lhes seja permitido: essa é a missão deles. São vossos intérpretes perante Deus.”


312. A prece é agradável a Deus? [Questão 668.]
“Sim, quando parte de um coração sincero, pois, para Ele, a intenção é tudo e a prece do coração é preferível à que podes ler, por mais bela que seja.”


A prece, na qual a inteligência e o pensamento não tomam parte, não é uma prece: são palavras que não têm mérito algum aos olhos de Deus.


313. A prece torna melhor o homem? [Questão 660.]
“Sim, a do coração; mas a dos lábios gera hipócritas.”


313 a. De que maneira a prece pode tornar melhor o homem?
“Deus lhe envia Espíritos bondosos, a fim de lhe sugerirem bons pensamentos. O homem se torna assim mais forte para suportar sem queixume os sofrimentos da vida.”


314. Poderemos utilmente pedir a Deus que perdoe nossas faltas? [Questão 661.]
“Deus sabe discernir o bem do mal; a prece não esconde as faltas. Aquele que pede a Deus o perdão de suas faltas só o obtém se mudar de conduta. As boas ações são a melhor prece, porque os atos valem mais do que as palavras.”


315. Os homens que se consagram à vida contemplativa têm algum mérito perante Deus, já que só pensam nele e não fazem mal a ninguém? [Questão 657.]
“Não, porque se não fazem o mal, também não fazem o bem e são inúteis. Ademais, não fazer o bem já é um mal.”


Deus quer que se pense Nele, mas não quer que se pense apenas Nele, pois deu ao homem deveres a cumprir na Terra. Aquele que se consome na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque sua vida é inútil à Humanidade, e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.


316. É possível orar utilmente pelos outros? [Questão 662.]
“O Espírito de quem ora atua pela vontade de fazer o bem. Pela prece, atrai a si os Espíritos bons e estes se associam ao bem que deseje fazer.”


Possuímos em nós mesmos, pelo pensamento e pela vontade, um poder de ação que se estende muito além dos limites de nossa esfera corpórea. A prece pelos outros é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar os Espíritos bons em auxílio daquele por quem oramos, a fim de lhe sugerirem bons pensamentos e lhe darem a força de que precisam seu corpo e sua alma. Mas, ainda aqui, a prece do coração é tudo, a dos lábios nada vale.


317. As preces alheias, feitas em nossa intenção, poderiam resultar no perdão de nossas faltas?
“Disse Jesus: a cada um segundo suas obras. Ninguém, senão vós, pode reparar o mal que houverdes feito. A prece de outrem pode fortalecer-vos; não, porém, fazer que consigais obter um perdão que não tenhais merecido por algum esforço.”


318. Haverá algum mérito da parte de certas pessoas em consagrar a vida à prece?
“Perguntai antes o sacrifício que elas se impõem em favor do próximo; depois, julgareis seu mérito.”


Consagrar a vida à prece em benefício próprio é puro egoísmo; fazer isso pelos outros é ociosidade disfarçada. É mais meritório, para socorrer o próximo, nos impormos privações efetivas e sacrifícios voluntários do que assisti-los com preces que não custam senão o esforço de proferi-las.


319. Podemos rogar a Deus que desvie os males que nos afligem?
“Dissemos que a prece nunca é inútil, quando bem feita, porque fortalece aquele que ora, o que já constitui grande resultado. Ajuda-te a ti mesmo e o céu te ajudará, bem o sabes. Ademais, Deus não pode mudar a ordem da Natureza ao sabor de cada um e, depois, de quantos males o homem não é o próprio autor, por sua imprevidência e por suas faltas! Ele é punido naquilo em que pecou.” [Questão 663.]


Esses males muitas vezes estão nos decretos da Providência e para um bem que não podemos compreender. Frequentemente, também, Deus nos sugere, por intermédio dos Espíritos, pensamentos pelos quais podemos, nós mesmos, afastá-los de nós ou minorar-lhes os efeitos.


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