Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

O Livro dos Espíritos — Livro I — Doutrina Espírita.

(1ª edição)
(Édition Française)

Capítulo VIII.


Emancipação da alma durante a vida corpórea.

Sonhos. — Sonambulismo natural. — Segunda vista. — Alucinações; visões. — Crisíacos. — Êxtase. — Sonambulismo magnético. (Questões 153 a 171 a.)


153. O Espírito encarnado permanece de bom grado em seu invólucro corpóreo? [Questão 400.]
“O Espírito encarnado aspira incessantemente à libertação; quanto mais grosseiro é o envoltório, tanto mais deseja ver-se livre dele.”


A alma só reveste o invólucro corpóreo porque a isso é constrangida pela necessidade; eis por que aspira sem cessar a desembaraçar-se de suas faixas, até que os laços que a prendem à Terra sejam desfeitos de uma vez por todas.


154. Durante o sono, a alma repousa coma o corpo? [Questão 401.]
“Não, o Espírito jamais está inativo.”


154 a. Que faz o Espírito durante o sono do corpo?
“Afrouxando-se os laços que o prendem ao corpo e não precisando mais o corpo de sua presença, o Espírito se lança no espaço e entra em relação mais direta com outros Espíritos.” [Questão 401.]


Durante o estado de vigília, em que as forças vitais do corpo estão em plena atividade, a alma, por estar subordinada à influência da matéria a que está ligada, perde parte de suas faculdades; em outras palavras, essas faculdades, por não terem mais a plenitude de sua liberdade, tornam-se de alguma sorte latentes. Durante o sono os laços corpóreos se afrouxam e a alma recobra parcialmente a liberdade.


155. Como podemos julgar da liberdade do Espírito durante o sono? [Questão 402.]
“Pelos sonhos.”


155 a. Os sonhos têm, pois, algum fundo de verdade?
“Os sonhos são sempre verdadeiros, mas não como o entendem os ledores de sorte. Sabei que o Espírito jamais repousa e, quando o corpo repousa, o Espírito tem mais faculdades que no estado de vigília. Lembra-se do passado e algumas vezes prevê o futuro. Adquire mais poder e pode entrar em comunicação com outros Espíritos, seja deste mundo, seja do outro. Dizes frequentemente: Tive um sonho extravagante, um sonho horrível, mas absolutamente inverossímil. Enganas-te; quase sempre é a lembrança dos lugares e das coisas que viste ou que verás em outra existência ou em outra ocasião. Estando o corpo entorpecido, o Espírito trata de quebrar seus grilhões e de investigar no passado ou no futuro.” [Questão 402.]


A liberdade da alma, durante o sono, manifesta-se pelo fenômeno dos sonhos. Os sonhos são efeito a emancipação da alma, que se torna mais independente pela suspensão da vida ativa e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida, que se estende aos lugares mais distantes ou que jamais se viu, e algumas vezes até a outros mundos. Daí também a lembrança que traz à memória acontecimentos verificados na presente existência ou em existências anteriores; daí, finalmente, em alguns casos, o pressentimento das coisas futuras.
A lembrança incompleta que nos resta ao despertar, daquilo que nos apareceu em sonho, a extravagância das imagens do que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeados de coisas do mundo atual, formam esses conjuntos bizarros e confusos, que parecem não ter sentido ou ligação.


156. O sonambulismo natural tem alguma relação com os sonhos? Como explicá-lo? [Questão 425.]
“É um estado de independência da alma, mais completo que no sonho, estado em que suas faculdades ficam mais desenvolvidas. A alma tem percepções de que não dispõe no sonho.”


Quando a independência da alma é mais completa e suas faculdades se manifestam com maior energia do que no sonho, produz o fenômeno designado pelo nome de sonambulismo natural, do qual o sonho não é senão um diminutivo ou uma variedade. (Nota 6).


157. O fenômeno designado pelo nome de segunda vista tem alguma relação com o sonho e o sonambulismo? [Questão 447.]
“Tudo isso é uma coisa só. No que chamais segunda vista, o Espírito ainda está mais livre, embora o corpo não esteja adormecido.”


157 a. Aquele que é dotado de segunda vista vê com os olhos do corpo?
“Não; assim como o sonâmbulo, ele vê pela alma.”


A emancipação da alma se manifesta às vezes no estado de vigília e produz o fenômeno conhecido pelo nome de segunda vista, que dá aos que a possuem a faculdade de ver, ouvir e sentir além dos limites de nossos sentidos. Percebem as coisas ausentes por toda parte onde a alma possa estender sua ação; veem, por assim dizer, através da vista ordinária e como por uma espécie de miragem.


158. A segunda vista é permanente? [Questão 448.]
“A faculdade, sim; o exercício, não.”


158 a. A segunda vista se desenvolve espontaneamente ou pela vontade de quem apossui? [Questão 449.]
“Na maioria das vezes é espontânea, mas não raro a vontade também desempenha importante papel. Se tomares como exemplo certas pessoas a quem se dá o nome de ledores de sorte, algumas das quais dotadas dessa faculdade, verás que é com o auxílio da própria vontade que entram no estado de segunda vista, ou naquilo que chamas visão.”


A segunda vista nunca é permanente; produz-se instantaneamente em dados momentos, muita vez sem ser superexcitada, embora possa ser provocada pela vontade. No instante em que se verifica o fenômeno da segunda vista, o estado físico do indivíduo é sensivelmente modificado; o olhar tem algo de vago; ele fita sem ver; toda sua fisionomia reflete uma espécie de exaltação. Entre as pessoas que se atribuem o dom da presciência, algumas devem a essa faculdade o conhecimento acidental que têm de certas coisas.


159. As pessoas dotadas de segunda vista têm sempre consciência de sua faculdade? [Questão 453.]
“Não. Consideram isso perfeitamente natural e muitos creem que, se toda gente se observasse melhor, cada um veria que possui essa faculdade.”


A maior parte dos indivíduos dotados de segunda vista não se dão conta de que possuem essa faculdade, que lhes parece tão natural como a de ver; consideram-na um atributo de seu ser, sem nada ter de excepcional.
Muitas vezes o esquecimento se segue a essa lucidez passageira, cuja lembrança se torna cada vez mais vaga e acaba por desaparecer, como a de um sonho.


160. Há diversidade de graus na faculdade da segunda vista?
“Sim, e o mesmo indivíduo pode ter todos os graus.”


160 a. Poder-se-ia atribuir a uma espécie de segunda vista a perspicácia de certas pessoas que, sem nada terem de extraordinário, julgam as coisas com mais precisão do que outras? [Questão 454.]
“Sim; é sempre a alma a irradiar mais livremente.”


160 b. Essa faculdade pode dar, em alguns casos, a presciência das coisas? [Questão 454 a.]
“Sim; ela dá os pressentimentos.”


Há graus infinitos no poder da segunda vista, desde a sensação confusa até a percepção clara e nítida das coisas presentes ou ausentes. Esses diferentes graus podem encontrar-se reunidos no mesmo indivíduo.
No estado rudimentar, ela confere a certas pessoas o tato, a perspicácia, uma espécie de segurança em seus atos, a que se pode chamar de precisão de golpe de vista moral. Mais desenvolvida, desperta pressentimentos; mais desenvolvida ainda, mostra os acontecimentos que se deram ou estão para dar-se.


161. É verdade que certas circunstâncias desenvolvem a segunda vista? [Questão 452.]
“Sim.”


161 a. Quais são essas circunstâncias?
“A moléstia, a proximidade do perigo, uma grande comoção.” [Questão 452.]


161 b. Conforme isso, as visões não seriam coisas puramente fantásticas?
“Não; o corpo fica algumas vezes num estado particular que permite ao Espírito ver o que não podeis enxergar com os olhos carnais.”


O fenômeno da segunda vista parece produzir-se mais frequentemente sob o império de certas circunstâncias. As épocas de crises, calamidades, grandes comoções, todas as causas, enfim, que superexcitam o moral, provocam seu desencadeamento. Parece que a Providência, em presença do perigo, nos dá os meios de o conjurar. Todas as seitas e todos os partidos perseguidos dão numerosos exemplos disso.


162. É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito? [Questão 407.]
“Não; o Espírito recobra sua liberdade quando os sentidos se entorpecem.”


162 a. Algumas vezes temos a impressão de ouvir em nós mesmos palavras pronunciadas distintamente e que não guardam nenhuma relação com o que nos preocupa. Qual a razão disto? [Questão 408.]
“Sim, e mesmo frases inteiras, sobretudo quando os sentidos começam a entorpecer-se. Repito sem cessar: é, algumas vezes, o fraco eco de um Espírito que deseja comunicar-se contigo.”


162 b. Que será preciso fazer, então?
“Escutar.”


O Espírito aproveita, para se emancipar, todos os instantes de descanso que lhe faculta o corpo; para isso, porém, não há necessidade de repouso absoluto. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende e, quanto mais fraco estiver o corpo, tanto mais livre se achará o Espírito. É dessa forma que o cochilo ou um simples entorpecimento dos sentidos nos apresenta as mesmas imagens do sonho. Muitas vezes ouvimos dentro de nós mesmos palavras ou frases inteiras, pronunciadas distintamente; são Espíritos que desejam comunicar-se conosco. Quase sempre essas palavras não têm nenhum sentido aparente; mas, algumas vezes, são advertências.


163. Por que a mesma ideia, a de uma descoberta, por exemplo, surge ao mesmo tempo em vários pontos? [Questão 419.]
“Já dissemos que durante o sono os Espíritos se comunicam entre si. Pois bem! Quando o corpo desperta, o Espírito se lembra do que aprendeu e o homem julga ter inventado. Assim, muitos podem descobrir a mesma coisa ao mesmo tempo. Quando dizeis que uma ideia está no ar, fazeis uso de uma figura de linguagem mais exata do que supondes. Cada um contribui, sem o suspeitar, para propagá-la.”


Durante o sono, nosso Espírito se comunica com outros Espíritos, quer errantes, quer encarnados em outros mundos; comunica-se, também, com outros Espíritos encarnados na Terra e que, como ele, estão em liberdade. Ao despertarem dos corpos, esses Espíritos trazem consigo os conhecimentos que adquiriram. É esta a causa das ideias que parecem surgir simultaneamente em vários pontos. Muitas vezes o nosso Espírito revela a outros Espíritos, e isto à nossa revelia, o que constituía o objeto de nossas preocupações.


164. Os Espíritos podem comunicar-se, se o corpo estiver completamente acordado? [Questão 420.]
“Sim. Como já dissemos, o Espírito não se acha encerrado no corpo como numa caixa; irradia por todos os lados.” [Questão 141.]


164 a. Como se explica que duas pessoas, perfeitamente acordadas, tenham instantaneamente a mesma ideia? [Questão 421.]
“São dois Espíritos simpáticos que se comunicam e veem reciprocamente seus pensamentos, mesmo quando o corpo não está dormindo.”


164 b. Estará aí a causa de nossas simpatias e antipatias pelas pessoas que vemos pela primeira vez?
“Sim.”


O Espírito encarnado não se acha encerrado no corpo, mas, ao contrário, irradia-se por todos os lados. Daí a mútua comunhão de pensamentos entre dois Espíritos que se encontram, que faz com que duas pessoas se vejam e se compreendam sem necessidade dos sinais exteriores da linguagem.
Dois Espíritos podem assim comunicar-se, mesmo quando o corpo se encontra em estado de vigília, sobretudo se são simpáticos; daí, algumas vezes, a simultaneidade do mesmo pensamento entre duas pessoas diferentes. Daí, igualmente, a atração ou a repulsão instintiva que sentimos às vezes por certas pessoas logo à primeira vista.


165. Qual a diferença entre o extático e o sonâmbulo? [Questão 439.]
“É um sonambulismo mais apurado. A alma é mais independente.” 103


165 a. O Espírito do extático penetra realmente nos mundos superiores? [Questão 440.]
“Sim, ele os vê e compreende a felicidade dos que os habitam, razão por que gostaria de neles permanecer.”


165 b. Poderia penetrar em todos os mundos, sem exceção?
“Não, pois alguns mundos são inacessíveis aos Espíritos que ainda não se acham suficientemente depurados.”


165 c. Entretanto, há coisas que o extático pensa ver, mas que, evidentemente, resultam de uma imaginação abalada pelas crenças e preconceitos terrenos. Assim, nem tudo o que ele vê é real? [Questão 443.]
“Tudo o que ele vê é real; mas, como seu Espírito está sempre sob a influência das ideias terrenas, pode ver à sua maneira ou, melhor dizendo, exprimir o que viu numa linguagem condizente com os preconceitos e ideias de que se acha imbuído; ou com vossos preconceitos, a fim de ser mais bem compreendido.”


165 d. Quando o extático exprime o desejo de deixar a Terra, fala sinceramente? E não o retém o instinto de conservação? [Questão 441.]
“Isso depende do grau de purificação do Espírito. Se vê sua posição futura melhor que a da vida presente, esforça-se por desfazer os laços que o prendem à Terra.”


165 e. Se abandonássemos o extático a si mesmo, sua alma poderia deixar definitivamente o corpo? [Questão 442.]
“Sim, ele poderia morrer. Por isso é preciso chamá-lo por meio de tudo que o possa prender a este mundo, sobretudo fazendo-lhe compreender que a maneira mais certa de não ficar lá, onde vê que seria feliz, consiste em partir a cadeia que o retém ao planeta terreno.”


O êxtase é o estado no qual a independência da alma em relação ao corpo se manifesta de modo mais sensível, tornando-se, de certa forma, palpável.
No sonho e no sonambulismo, a alma vaga pelas regiões terrestres. No êxtase, penetra em um mundo desconhecido, o dos Espíritos etéreos, com os quais entra em comunicação, sem, todavia, ultrapassar certos limites, que não poderia transpor sem desfazer totalmente os laços que a prendem ao corpo. Um fulgor resplandecente e inteiramente novo a envolve, harmonias desconhecidas na Terra a extasiam, um bem-estar indefinível a invade: goza antecipadamente da beatitude celeste e pode-se dizer que põe um pé no limiar da eternidade.
No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo; este só mantém, por assim dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma está ligada a ele apenas por um fio, que um esforço a mais poderia romper para sempre.
Nesse estado, desaparecem todos os pensamentos terrestres, cedendo lugar ao sentimento apurado que é a própria essência de nosso ser imaterial. Inteiramente entregue a tão sublime contemplação, o extático encara a vida apenas como uma parada momentânea; para ele, os bens e os males, as alegrias grosseiras e as misérias da Terra não passam de incidentes fúteis de uma viagem, da qual se sente feliz por ver o termo.
Nem sempre o êxtase é isento de perigo para a vida. Em sua aspiração por um mundo melhor, a alma poderia desfazer os laços que a unem ao corpo, se não fosse retida pela ideia de que, ao desatá-los ela mesma, ficará afastada desse mundo que entrevê. [Questão 455.]


166. O chamado sonambulismo magnético tem alguma relação com o sonambulismo natural? [Questão 426.]
“É a mesma coisa.”


166 a. Qual a natureza do agente chamado fluido magnético? [Questão 427.]
“Fluido universal, fluido vital.”


166 b. O fluido magnético tem alguma relação com a eletricidade?
“Um pouco; poder-se-ia dizer que é a eletricidade animalizada.” [Questão 427.]


Os fenômenos do êxtase e do sonambulismo naturais se produzem espontaneamente e independem de qualquer causa exterior conhecida. Mas, em certas pessoas dotadas de organização especial, podem ser provocados artificialmente, pela ação do agente magnético.
O estado designado pelo nome de sonambulismo magnético só difere do sonambulismo natural pelo fato de ser provocado, enquanto o outro é espontâneo.


167. Qual é a causa da clarividência sonambúlica? [Questão 428.]
“A mesma que a da segunda vista; é a alma quem vê.”


167 a. Como o sonâmbulo pode ver através de corpos opacos? [Questão 429.]
“Não há corpos opacos senão para vossos órgãos grosseiros. Já não dissemos que, para o Espírito, a matéria não oferece obstáculo, pois que ele a atravessa livremente? Com frequência ele vos diz que vê pela fronte, pelo joelho, etc., porque vós, inteiramente mergulhados na matéria, não compreendeis que ele possa ver sem o auxílio dos órgãos. Ele mesmo, pelo desejo que manifestais, julga precisar de tais órgãos; mas, se o deixásseis livre, compreenderia que vê por todas as partes de seu corpo, ou, melhor dizendo, que vê de fora de seu corpo.”


A causa da clarividência do sonâmbulo magnético e do sonâmbulo natural é exatamente a mesma: é um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que existe em nós, e que tem como limites apenas aqueles assinalados à própria alma. O sonâmbulo vê em todos os lugares aonde sua alma possa transportar-se, seja qual for a distância.
Na visão a distância, o sonâmbulo não vê as coisas a partir do local onde se acha seu corpo, como se fosse por meio de um telescópio. Ele as vê presentes, como se estivesse no lugar onde elas existem, porque, na verdade, sua alma lá se encontra. É por isso que seu corpo fica como que aniquilado e privado de sensações, até que a alma venha apossar-se dele novamente. [Questão 455.]


168. Já que a clarividência do sonâmbulo é a de sua alma ou de seu Espírito, por que ele não vê tudo e tantas vezes se engana? [Questão 430.]
“Primeiro, não é permitido aos Espíritos imperfeitos verem tudo e tudo conhecerem. Sabes perfeitamente que eles ainda partilham de vossos erros e preconceitos. E, depois, quando estão presos à matéria, não gozam de todas as suas faculdades de Espírito. Deus deu ao homem a faculdade sonambúlica com um fim útil e sério, e não para lhe ensinar o que não deve saber. Eis por que os sonâmbulos nem tudo podem dizer.”


O poder da lucidez sonambúlica não é indefinido. O Espírito, mesmo quando completamente livre, é limitado em suas faculdades e conhecimentos, segundo o grau de perfeição que haja alcançado; e é mais limitado ainda quando ligado à matéria, da qual sofre a influência.
Essa é a causa pela qual a clarividência sonambúlica não é universal nem infalível. E tanto menos se pode contar com sua infalibilidade quanto mais a desviem do fim proposto pela Natureza ao dotar o homem dessa faculdade, transformando-a em objeto de curiosidade e experimentação. [Questão 455.]


169. A exaltação da clarividência sonambúlica depende da organização física ou da natureza do Espírito encarnado? [Questão 433.]
“De ambas.”


169 a. Qual a origem das ideias inatas do sonâmbulo e como pode falar com exatidão de coisas que ignora no estado de vigília, inclusive das que estão acima de sua capacidade intelectual? [Questão 431.]
“Acontece que o sonâmbulo possui mais conhecimentos do que supões. Apenas estão adormecidos, porque seu envoltório é imperfeito demais para que possa lembrar-se deles. Que é, afinal, um sonâmbulo? Espírito como nós, encarnado na matéria para cumprir sua missão, e o estado em que entra o desperta dessa letargia. Já te dissemos repetidamente que revivemos muitas vezes; é essa mudança que o faz perder materialmente o que conseguiu aprender na existência precedente. Entrando no estado a que chamas crise104 ele se lembra, mas nem sempre de maneira completa; sabe, mas não poderia dizer de onde lhe vem o que sabe, nem como possui esses conhecimentos. Passada a crise, toda lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.”


A exaltação da clarividência sonambúlica depende de uma disposição física especial que permite ao Espírito desprender-se mais ou menos facilmente da matéria. As faculdades que manifesta são tanto maiores quanto mais elevada for a ordem a que ele pertença.
Em cada uma de suas existências corpóreas, o Espírito adquire um acréscimo de conhecimentos e experiência. Esquece-os em parte, quando encarnado em matéria excessivamente grosseira, mas, como Espírito, recorda-se delas. É por isso que certos sonâmbulos revelam conhecimentos superiores ao seu grau de instrução, e mesmo superiores às suas capacidades intelectuais. No estado de vigília esses conhecimentos deixam, por vezes, uma vaga lembrança, uma espécie de intuição que constitui o que se chama ideias inatas.
A inferioridade intelectual e científica do sonâmbulo, quando desperto, não nos autoriza julgar previamente os conhecimentos que ele possa revelar no estado de lucidez. Conforme as circunstâncias e o objetivo que se tenha em vista, ele os pode haurir de sua própria experiência, ou da clarividência das coisas presentes; como, todavia, seu próprio Espírito pode ser mais ou menos adiantado, possível lhe é dizer coisas mais ou menos exatas.


170. As sibilas e os oráculos da Antiguidade eram dotados de segunda vista?
“Algumas vezes; eram então aquilo a que chamais crisíacos. Como vossos feiticeiros e adivinhos, eram explorados pela cupidez, quando eles mesmos não eram charlatães.”


170 a. Que se deve pensar das alucinações?
“São mais reais do que se crê. Quando não se sabe explicar uma coisa, diz-se que é uma alucinação.”


170 b. Entretanto, a alucinação nos faz ver coisas que nada têm de real. Por exemplo, dissestes que não há demônios. Pois bem! Quando em sonho ou desperto alguém vê o que se chama diaba, o fato não seria produto da imaginação?
“Sim, algumas vezes, quando o homem se deixa influenciar por certas leituras ou histórias de diabruras que impressionam; lembra-se, então, delas e julga ver o que não existe. Mas nós te havíamos dito também que o Espírito, sob seu envoltório semimaterial, pode revestir todas as formas para se manifestar. Um Espírito zombeteiro pode, pois, te aparecer com chifres e garras, se lhe aprouver, para abusar de tua credulidade, como um Espírito bom se pode mostrar com asas e semblante radioso. Como precisa tornar-se acessível a teus sentidos, toma tais formas ou outras quaisquer.”


A espécie de crise que provoca muitas vezes o desenvolvimento da segunda vista, do sonambulismo e do êxtase, tem feito dar, em certos casos, o nome de crisíacos aos que são dotados dessa faculdade.
Houve crisíacos em todos os tempos e em todas as nações, os quais têm sido considerados de modo diverso conforme as épocas, os costumes e o grau de civilização. Aos olhos dos céticos, que negam o que não compreendem, eles passam por cérebros avariados; as seitas religiosas os transformaram em profetas, sibilas e oráculos; nos séculos de superstição, ignorância e fanatismo, eram feiticeiros que se mandavam queimar. Para o homem sensato, que crê no poder infinito e na inesgotável bondade do Criador, é uma faculdade inerente à espécie humana, pela qual Deus nos revela a existência de nossa essência incorpórea.
A ciência humana, impossibilitada de explicar esses fenômenos pelas leis físicas da matéria, tão só porque não obedecem ao capricho e à vontade dos experimentadores, acha mais simples atribuí-los aos desarranjos do cérebro e os designa pelo nome de alucinações.


171. Que consequências se podem tirar dos fenômenos do sonambulismo e do êxtase? Não seriam uma espécie de iniciação à vida futura? [Questão 445.]
“É, melhor dizendo, a vida passada e a vida futura que o homem entrevê. Que ele estude esses fenômenos e neles encontrará a solução de mais de um mistério que sua razão procura inutilmente devassar.”


171 a. Os fenômenos do sonambulismo e do êxtase poderiam conciliar-se com o materialismo? [Questão 446.]
“Quem os estuda de boa-fé e sem prevenções não pode ser materialista, nem ateu.”


Pelos fenômenos do sonambulismo e do êxtase, quer natural, quer magnético, a Providência nos dá a prova irrecusável da existência e da independência da alma e nos faz assistir ao sublime espetáculo de sua emancipação. Por esse meio ela nos abre o livro de nosso destino.
Enquanto o homem se perde nas sutilezas de uma metafísica abstrata e ininteligível, em busca das causas de nossa existência moral, Deus põe diariamente sob nossos olhos e ao alcance da mão os meios mais simples e mais evidentes para o estudo da psicologia experimental. (Nota 7).



[103] N. T: Na 2ª edição francesa (1860) deste livro, esta questão recebeu o n° 439, e está assim concebida: Qual a diferença entre o êxtase e o sonambulismo? — “O êxtase é um sonambulismo mais apurado. A alma do extático é ainda mais independente”. Isto dá mais clareza e objetividade ao assunto tratado.


[104] N. T.: Grifo nosso.

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