Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

O Livro dos Espíritos — Livro I — Doutrina Espírita.

(1ª edição)
(Édition Française)

Capítulo V.


Encarnação dos Espíritos.

Objetivo da encarnação. — A alma. — Há três coisas no homem: o corpo, a alma e o perispírito. — Dupla natureza do homem. — Origem das paixões. — União da inteligência e da perversidade. — Instante da união entre a alma e o corpo. — Relações congênitas entre filhos e pais. — Semelhanças físicas e morais. — Indivisibilidade da alma. — Sede da alma. — A alma é interna ou externa? — Influência da matéria e dos órgãos sobre as manifestações da alma. Loucura. Idiotismo. — Ideias intuitivas trazidas ao homem pelo Espírito nele encarnado. (Questões 80 a 100 b.)


80. Os Espíritos podem tornar-se melhores durante sua existência espiritual?
“Eles têm a vontade e o desejo de melhorar-se; contudo, para realizarem esse desejo, devem passar por todas as tribulações da existência corpórea.”


80 a. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? [Questão 132.]
“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão.”


A passagem pela vida material é necessária à purificação dos Espíritos. Para se melhorarem e se instruírem, eles têm que passar por todas as tribulações da existência corpórea. A encarnação lhes é imposta, seja como expiação para uns, seja como missão para outros.
Tudo se encadeia na Natureza; ao mesmo tempo que o Espírito se depura pela encarnação, concorre, simultaneamente, para o cumprimento dos desígnios da Providência.


81. Que é a alma? [Questão 134.]
“Um Espírito encarnado.”


81 a. As almas e os Espíritos são, portanto, idênticos, a mesma coisa? [Questão 134 b.]
“Sim, as almas não são senão os Espíritos.”


81 b. Que pensar da opinião dos que consideram a alma o princípio da vida material? [Questão 138.]
“É uma questão de palavras, com a qual nada temos. Começai por vos entenderdes mutuamente.”


A alma é um Espírito encarnado. Antes de unir-se ao corpo, a alma é um Espírito errante ainda impuro; é um dos seres que povoam o mundo espiritual e que revestem temporariamente um envoltório carnal, a fim de se purificar e se instruir.
Ao encarnar no corpo de um homem, o Espírito lhe traz o princípio intelectual e moral que o torna superior aos animais (Ver na Introdução; a explicação da palavra alma).


82. Há quantas partes essenciais no homem?
“Três: a alma, que é a primeira de todas; o corpo e, depois, o laço que une a alma ao corpo.”


82 a. O laço que une a alma ao corpo é de natureza material ou espiritual? [Questão 135 a.]
“De uma e de outra. É preciso que seja assim para que eles possam comunicar-se um com o outro. Por meio desse laço é que o Espírito atua sobre a matéria e vice-versa.”


Há no homem três coisas:
1°) O corpo ou ser material, análogo ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital;
2°) A alma, Espírito encarnado que tem no corpo a sua habitação;
3°) O princípio intermediário ou perispírito, substância semimaterial que serve de primeiro envoltório ao Espírito e une a alma ao corpo. Tais são, num fruto, a semente, a polpa e a casca.


83. Qual a origem das qualidades morais, boas ou más, do homem? [Questão 361.]
“São as do Espírito nele encarnado. Quanto mais puro é o Espírito, mais o homem é propenso ao bem.”


83 a. Parece resultar daí que o homem de bem é a encarnação de um Espírito bom, e o homem vicioso a de um Espírito mau? [Questão 361 a.]
“Sim, mas não digais Espírito mau; dizei antes que o homem vicioso é a encarnação de um Espírito imperfeito, pois, do contrário, poder-se-ia crer na existência de Espíritos sempre maus, a que chamais demônios.”


Sendo os Espíritos de diferentes ordens, uns já depurados e possuídos do amor do bem, e outros ainda impuros, dominados pelas más paixões, resulta que eles trazem ao homem, ao encarnarem, as qualidades boas ou más inerentes à categoria a que pertencem, e que, assim, o homem de bem é a encarnação de um Espírito já purificado, e o homem perverso a de um Espírito ainda imperfeito.
O homem vicioso que se arrepende e se melhora é a encarnação de um Espírito que compreende seus erros e tende a um destino melhor.


84.  Visto que há no homem um corpo e uma alma, e que pelo corpo ele se assemelha aos animais, haverá nele uma dupla natureza? 83
“Sim, a natureza animal e a natureza espiritual.” [Questão 605.]


84 a. As paixões do homem lhe vêm dos Espíritos ou são inerentes ao seu organismo?
“De ambos. Já dissemos que uma parte delas se deve à influência dos Espíritos.”


Há no homem duas naturezas: por seu corpo participa da natureza dos animais e de seus instintos; por sua alma, participa da natureza dos Espíritos.
Estas duas naturezas dão às paixões do homem duas fontes distintas: uma provém dos instintos da natureza animal, e a outra resulta das impurezas do Espírito nele encarnado, e que simpatiza com a baixeza dos apetites animais. [Questão 605.]


85. O mesmo Espírito dá ao homem as qualidades morais e as da inteligência? [Questão 364.]
“Sim.”


85 a. Por que alguns homens muito inteligentes, o que é indício de superioridade, são ao mesmo tempo profundamente viciosos? [Questão 365.]
“É que os Espíritos encarnados nesses homens não são ainda bastante puros, sendo por isso, dominados por outros Espíritos mais maldosos que eles mesmos.”


O mesmo Espírito dá ao homem as qualidades morais e as da inteligência; mas se o Espírito não estiver bastante purificado, o homem se entrega às paixões animais ou cede à influência de outro Espírito igualmente imperfeito, que se aproveita de sua fraqueza para dominá-lo. Daí, no mesmo indivíduo, a união frequente da perversidade e da inteligência.


86.  Em que época a alma se une ao corpo? [Questão 344.]
“No nascimento.” 84


86 a. Antes do nascimento a criança tem alma?
“Não.” [Vide importante Nota do Tradutor]


86 b. Como vive, então?
“Como as plantas.”


A alma ou Espírito se une ao corpo no momento em que a criança vê a luz e respira.
Antes do nascimento, a criança só tem vida orgânica sem alma. Vive como as plantas, tendo apenas o instinto cego de conservação, comum a todos os seres vivos. [Vide nota 84.]


87. Os pais transmitem aos filhos uma parcela de suas almas ou se limitam a lhes dar a vida animal, à qual uma nova alma vem, mais tarde, adicionar a vida moral? [Questão 203.]
“Somente a vida animal, pois a alma é indivisível. Um pai estúpido pode ter filhos inteligentes e vice-versa.”


A geração se opera no homem como nos animais. Os pais só transmitem aos filhos a vida orgânica, à qual mais tarde uma nova alma, estranha à do pai e da mãe, vem acrescentar a vida moral e intelectual.


88. Frequentemente os pais transmitem aos filhos uma semelhança física. Transmitirão também alguma semelhança moral? [Questão 207.]
“Não, pois têm almas ou Espíritos diferentes.”


88 a. De onde vêm as semelhanças morais que algumas vezes se notam entre pais e filhos? [Questão 207 a.]
“São Espíritos simpáticos, atraídos pela similitude de suas inclinações.”


Os pais podem transmitir aos filhos semelhança física, porque o corpo procede do corpo; mas não podem transmitir semelhança moral, visto que a alma do filho é estranha à dos pais. Entretanto, a alma deles pode atrair para o corpo da criança um Espírito da mesma categoria e tendo com ela similitude de gostos e inclinações.


89. Os Espíritos dos pais exercem alguma influência sobre os dos filhos, após o nascimento destes? [Questão 208.]
“Muito grande. Conforme já dissemos, os Espíritos devem contribuir para o progresso uns dos outros. Pois bem! Os Espíritos dos pais têm por missão desenvolver os de seus filhos pela educação. Isto constitui para eles uma prova: se falharem, serão culpados.”


Os Espíritos exercem influência uns sobre os outros; os bons, com vistas a fazer avançar os que ainda são inferiores; os impuros, no intuito de retardar o progresso dos bons. É assim que o Espírito encarnado nos pais transmite ao dos filhos, pela educação, os princípios bons ou maus de que estiver animado, segundo a categoria que ocupe, procurando igualá-lo a si.


90. Pode o Espírito encarnar ao mesmo tempo em dois corpos diferentes? [Questão 137.]
“Não; ele é indivisível.”


90 a. De onde vem a semelhança de caráter que muitas vezes existe entre dois irmãos, principalmente entre gêmeos? [Questão 211.]
“Espíritos simpáticos que se aproximam por analogia de sentimentos e que se sentem felizes por estar juntos.”


Por ser indivisível, o Espírito não pode encarnar ao mesmo tempo em dois corpos diferentes. A analogia de caráter que existe muitas vezes entre várias pessoas, sobretudo entre irmãos, provém da similitude dos Espíritos que se aproximam por simpatia e se sentem felizes por estar juntos.


91. De onde provém o caráter distintivo que se nota em cada povo? [Questão 215.]
“Os Espíritos também possuem famílias, formando-as pela semelhança de suas inclinações mais ou menos depuradas, conforme a elevação que tenham alcançado. Pois bem! Um povo é uma grande família onde se reúnem Espíritos simpáticos.”


Os Espíritos formam entre si grupos ou famílias, fundados sobre a semelhança de suas inclinações, gostos e desejos. A tendência que têm os membros dessas famílias para se unirem, é a origem da semelhança que existe no caráter distintivo de cada povo.


92. Que pensar da teoria da alma subdividida em tantas partes quantos são os músculos e presidindo assim a cada uma das funções do corpo? [Questão 140.]
“Isso depende do sentido que se atribui à palavra alma. Se por alma se entende o fluido vital, a teoria está certa; se o que se entende é o Espírito encarnado, a teoria está errada. Já dissemos que o Espírito é indivisível; ele transmite o movimento aos órgãos através do fluido intermediário, sem por isso se dividir.”


A alma, como o Espírito, é indivisível; ela age por meio dos órgãos e estes são animados pelo fluido vital que se reparte entre eles e, mais abundantemente, nos que formam os centros ou focos do movimento.
Os que chamam a alma de fluido vital têm razão de dividi-la em tantas partes quantas são as funções existentes no corpo; mas esta explicação não pode convir à alma, se for considerada como sendo o Espírito que habita o corpo durante a vida e o abandona por ocasião da morte.


93. Qual a sede da alma no corpo? A cabeça ou o coração? [Questão 146.]
“Isso varia segundo as pessoas.”


93 a. Quais as pessoas que a possuem no coração? [Questão 146.]
“Aquelas cujas ações, todas, têm por objeto a Humanidade.”


93 b. Quais os que a têm na cabeça? [Questão 146.]
“Os grandes gênios, os literatos, os políticos, etc.”


93 c. Que pensar da opinião dos que situam a alma num ponto determinado e circunscrito: num centro vital? [Questão 146 a.]
“Significa dizer que o Espírito habita de preferência essa parte de vosso organismo, pois para ali convergem todas as sensações: a vista, o gosto, o olfato, a audição e mesmo o tato. Isto, porém, não quer dizer que o Espírito aí esteja confinado e, sim, que o organismo concentra todos esses sentidos num só local, a fim de te provar que é unicamente pela união e harmonia da matéria que o Espírito pode agir livremente e assim adquirir os conhecimentos que lhe são necessários.”


A alma, propriamente falando, não possui uma sede absoluta no corpo, porque o Espírito encarnado não fica confinado num órgão qualquer. Os que a colocam no centro que consideram como sendo o da vitalidade, a confundem com o fluido ou princípio vital. Entretanto, pode-se dizer que a sede da alma se encontra especialmente nos órgãos que servem às manifestações intelectuais e morais, isto é, no cérebro e no coração.
Localiza-se mais particularmente num ou noutro, segundo as pessoas, podendo, todavia, residir simultaneamente nesses dois locais.
Está no coração daqueles cujas ações têm, todas, por objeto a Humanidade e no cérebro dos grandes gênios e dos intelectuais.
Pode-se ser homem de bem sem ter inteligência superior, e intelectual sem ser homem de coração.


94. Há algum fundo de verdade na opinião dos que pensam que a alma é externa e envolve o corpo? [Questão 141.]
“A alma não está encerrada no corpo como o pássaro numa gaiola. Irradia-se e se manifesta exteriormente como a luz através de um globo de vidro. É nesse sentido que se pode dizer que ela é externa. A alma tem dois envoltórios. Um, sutil e leve: é o primeiro, ao qual chamas perispírito; outro, grosseiro, material e pesado: o corpo. A alma é o centro de todos esses envoltórios, como o gérmen em um núcleo, já o dissemos.”


A alma, ou o Espírito, habita o corpo, mas não fica aí aprisionada. Irradia-se toda ao seu redor por suas manifestações, como o som em torno de um centro sonoro, ou como a luz ao redor de um foco luminoso. Sob este ponto de vista, ela é interna e externa ao mesmo tempo, mas nem por isso é o envoltório do corpo.
Para os que chamam alma o envoltório semimaterial do Espírito, ou perispírito, ela seria externa em relação ao Espírito. Para nós, a alma é o próprio Espírito, isto é, o centro ou foco intelectual e moral, não podendo, portanto, ser um envoltório qualquer.


95. Ao unir-se ao corpo, o Espírito identifica-se com a matéria? [Questão 367.]
“Não; a matéria é apenas o envoltório do Espírito, como a roupa é o envoltório do corpo.”


O Espírito, em sua encarnação, não se identifica com a matéria. A matéria é apenas um envoltório, e sempre distinta dele, como o próprio corpo é distinto da roupa que o recobre.


96. Ao unir-se ao corpo, o Espírito conserva os atributos da natureza espiritual?
“Sim.” [Questão 367.]


96 a. As faculdades do Espírito são exercidas com total liberdade após sua união com o corpo? [Questão 368.]
“Não; elas dependem dos órgãos que lhe servem de instrumento. A grosseria da matéria as enfraquece.”


96 b. De acordo com isso, o envoltório material seria um obstáculo à livre manifestação das faculdades do Espírito, como um vidro opaco se opõe à livre emissão da luz? [Questão 368 a.]
“Sim, e muito opaco.”


Ao unir-se ao corpo, o Espírito conserva os atributos de sua natureza espiritual; mas suas faculdades ficam limitadas pelos órgãos que lhe servem para manifestar-se.
Sendo os órgãos os instrumentos de manifestação das faculdades da alma, tal manifestação se acha subordinada ao desenvolvimento e ao grau de perfeição desses mesmos órgãos.
A densidade da matéria que envolve o Espírito também lhe tira uma parte de suas faculdades, tal como a água lodosa, que tira a liberdade dos movimentos do corpo que nela se ache mergulhado, ou como um globo de vidro opaco que embaça a claridade da luz.


97. O Espírito que anima o corpo de uma criança é tão desenvolvido quanto o de um adulto? [Questão 379.]
“Sim; apenas a imperfeição dos órgãos o impede de manifestar-se.”


Como as manifestações das faculdades do Espírito estão subordinadas ao desenvolvimento dos órgãos do corpo, o Espírito que anima a criança é tão maduro quanto o de um adulto; mas age em função do instrumento, de cujo auxílio precisa para manifestar-se.


98.  Qual a causa da nulidade moral e intelectual de certos seres, tais como os que se designam pelos nomes de idiotas ou cretinos? 85
“Imperfeição dos órgãos.”


98 a. Se a nulidade moral e intelectual é provocada apenas pela imperfeição dos órgãos, deve-se concluir que a alma do cretino e do idiota seja tão desenvolvida quanto a de um homem no pleno gozo de suas faculdades? 86
“Sim, e muitas vezes mais.”


98 b. Qual o objetivo da Providência ao criar seres assim tão infelizes? 87 [Questão 372.]
“São Espíritos em punição que habitam corpos de idiotas. Dá-se a mesma coisa nos casos de loucura. Esses Espíritos sofrem pelo constrangimento que experimentam e pela impossibilidade em que estão de se manifestarem por meio de órgãos não desenvolvidos ou defeituosos. É por isso que, muitas vezes, buscam na morte um meio de quebrar esses grilhões.”


A nulidade moral e intelectual de certos seres é devida à imperfeição dos órgãos, que não permite à alma manifestar-se plenamente. Frequentemente é uma expiação para o Espírito que habita tal corpo. Ora, como a superioridade moral nem sempre guarda relação com a superioridade intelectual, os maiores gênios podem ainda ter muito que expiar; daí, não raro para eles, uma existência inferior à que já tiveram e uma causa de sofrimentos.
Tais são os idiotas, os cretinos e os loucos, embora a causa fisiológica de tais moléstias seja diferente. O Espírito deles é tão desenvolvido quanto o do homem de gênio; os entraves que encontra nas manifestações são para ele, Espírito, como os grilhões que comprimem os movimentos de um homem vigoroso, razão por que, tantas vezes, busca quebrá-los pelo suicídio.


99. Por que o Espírito encarnado perde a lembrança de seu passado e o conhecimento do futuro? [Questão 392.]
“O homem não pode nem deve saber tudo. Deus assim o quer.”


99 a. O passado e o futuro ficam ocultos ao homem de maneira absoluta?
“Sim, para certas coisas; não, para todas. Isso depende da vontade de Deus.”


O invólucro corpóreo tira ao Espírito a memória do passado anterior à sua existência atual; esconde-lhe também o futuro e os mistérios que a Providência houve por bem ocultar ao homem. Sem o véu que lhe encobre certas coisas, o homem ficaria ofuscado, como quem passa sem transição da obscuridade à luz.


100. O Espírito encarnado conserva algum vestígio das percepções que tinha antes de se unir ao corpo? [Questão 218.]
“Sim; guarda vaga lembrança, que lhe dá o que se chama ideias inatas.”


100 a. É a essa vaga lembrança que o homem deve, mesmo no estado de selvageria, o sentimento instintivo da existência de Deus e o pressentimento da vida futura? [Questão 221.]
“Sim; mas o orgulho sufoca, muitas vezes, esse sentimento.”


100 b. É a essa mesma lembrança que se devem certas crenças relativas à Doutrina Espírita, e que se encontram em todos os povos? [Questão 221 a.]
“Sim; essa doutrina é tão antiga quanto o mundo.”


Embora o Espírito perca, sob a ação de seu invólucro corpóreo, a percepção do mundo espiritual, nem por isso deixa de trazer consigo a intuição do que conhecia antes de encarnar e que permanece em seu foro íntimo como vaga lembrança. Tal é a origem do sentimento inato que leva o homem a reconhecer a existência de um Ser Supremo, que lhe dá a consciência do bem e do mal e lhe faz pressentir o futuro. Tal ainda a fonte de inúmeras crenças relacionadas com a Doutrina Espírita e que se encontram desenvolvidas no seio de todos os povos e em todas as épocas, se bem que interpretadas sob formas mais ou menos grosseiras por ignorância, fanatismo e ambição.



[83], [85], [86], [87] N. E.: Ver “Nota explictiva”, p. 551.


[84] N. T.: Mais tarde esta resposta recebeu a seguinte redação: “A união começa na concepção, mas só se completa no momento do nascimento. Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até o instante em que a criança vê a luz. O grito, que então escapa de seus lábios, anuncia que ela se conta no número dos vivos e dos servos de Deus.” (O Livro dos Espíritos, 2ª edição, questão 344). A não ser assim, estariam justificados todos os abortos, praticados em qualquer período da gestação, inclusive os realizados na véspera da data provável do parto, o que não admitem nem mesmo os defensores mais ferrenhos dessa prática criminosa.
Menos de um ano após a publicação da 1ª edição de O Livro dos Espíritos na (Revista Espírita de março de 1858 — Conversas Familiares de Além-túmulo — “O doutor Xavier”, questão 26, página 141 da edição da FEB), Allan Kardec, no claro intuito de esclarecer melhor a questão, indaga daquele Espírito se há crime em privar da vida uma criança, antes de seu nascimento, recebendo dele a seguinte resposta: “Há crime toda vez que transgredis a Lei de Deus. Uma mãe, ou qualquer outra pessoa, cometerá crime sempre que tirar a vida de uma criança antes do nascimento, pois está impedindo uma alma de suportar as provas de que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.” Como se vê, a resposta dada pelo doutor Xavier em 1858 passou a integrar a questão 358, da edição definitiva de O Livro dos Espíritos, publicada em 1860.
Em 1861, quando da reimpressão da Revista Espírita de 1858, Allan Kardec houve por bem aditar a seguinte observação, inserida depois da resposta à questão 34 do mesmo artigo — “O doutor Xavier” — assim concebida: “A união [entre a alma e o corpo] começa desde a concepção, isto é, a partir do momento em que o Espírito, sem estar encarnado, liga-se ao corpo por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até o instante em que a criança vê a luz. A encarnação só se completa quando a criança respira” (ver O Livro dos Espíritos, questão 344 e seguintes).


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